Superação

A palavra superação foi muito utilizada nos últimos dias para falar sobre a vida dos muitos atletas que disputaram as Olimpíadas e que trouxeram consigo suas histórias de vidas marcadas por tragédias pessoais, como: guerra, abandono, pobreza extrema e tentativas de suicídio.

Os obstáculos são parte da vida e ninguém escapa deles. Porém, lendo a história de vida de alguns, percebe-se que o dom de acreditar no que parece improvável é uma das características dos vencedores. Afinal para que serve uma espada nas mãos de um covarde?

O caminho da superação passa por deixar para trás as condições históricas de privações, de ausência de oportunidades para lançar-se com destemida força para sair do ciclo de pobreza e de dor que aprisiona.

No caso dos atletas brasileiros, o governo deu um empurrãozinho com a implantação do programa Bolsa Pódio, lançado em 2012. Considerando a equipe de 14 judocas convocados para os Jogos Olímpicos, 13 são inscritos no programa e os atletas que disputaram esse modalidade contaram também com a instalação do maior e mais bem equipado centro de treinamento das Américas, construído no interior da Bahia.

Não reli para saber se houve alteração, mas no total, 34 atletas olímpicos estavam inscritos para receber o aporte financeiro do programa governamental.

Agora precisamos invocar o espírito de superação em outras áreas da vida. Quem sabe seja possível após votar o impeachment, após as eleições municipais, após a cassação do Eduardo Cunha, observarmos que continuam crônicos os problemas na saúde, na educação, na segurança e que estamos cansados de viver ressacas nacionais que dão em nada, ondas de ufanismo, exibição de grandeza deste Brasil que parecia destinado a dar certo como a maior economia da América do Sul e parte do grupo de países de economias emergentes, chamados BRICS, junto com Índia, China, África do Sul e Rússia.

Na próxima quinta (25) o Senado faz a votação do processo de impedimento definitivo da Presidente Dilma. Temer assume oficialmente a presidência e sobre ele penderá o peso da superação do ciclo da corrupção e da estabilização econômica e política do país. Como cidadãos brasileiros estamos observando para ver como o Brasil emerge desta grave crise e com que força buscará punir os congressistas arrolados em processos escandalosos se eram estes a base do pilar que sustentava o governo de Dilma, deixaram-na vulnerável e passaram a apoiar o governo do presidente Michel Temer.

Superação é um conceito imprescindível quando falamos em construir o futuro. Vale ressaltar que a corrupção no Brasil não pode ser eliminada examinando e punindo um escândalo de cada vez. Superar este flagelo exige mais do que a troca de presidente.

Exige votação da reforma política, de uma nova estrutura de Estado apoiado por valores como a transparência, responsabilidade e princípios éticos com a coisa pública. Qualquer coisa menos que isso é mera encenação política.

A breve vitória dos refugiados

Uma delegação entrou em campo vitoriosa desde a abertura dos Jogos Olímpicos, na última sexta: a dos refugiados. Aplaudida por longos minutos e aclamada nos jornais do mundo inteiro como o tiro certeiro do Comitê Olímpico Brasileiro. A pequena delegação de 10 atletas carrega estigmas, cicatrizes e dramas imensuráveis.

Dentre estes está o judoca PopoleMisenga, nascido na República Democrática do Congo, que vive no Brasil desde 2013, quando veio participar de campeonato mundial de judô e desertou para fugir de um estado de conflito armado que não tem fim.

Aos 9 anos de idade, Popole, já órfão de mãe, sobreviveu a um ataque que vitimou membros da sua família, fugiu e passou uma semana escondido na floresta até ser resgatado e levado para uma instituição na capital Kinshasa. Ao ser entrevistado, Popole chora e conta que tem dois irmãos, cujos rostos ele não se lembra mais.

É importante observar que a migração, quando se dá em virtude de fuga de guerra, de devastação por terremotos, envolve uma decisão tomada olhando para a terra destruída, para os perigos eminentes que a situação determina, para o sofrimento decorrente do rompimento com a família, com as tradições, de um momento para outro.

Além disso, trata-se de um tipo de migração que não favorece o retorno, no curto prazo, porque as condições para um país se refazer do caos se dão em um processo demorado, leva muitos anos e, nesse ínterim, se o refugiado pensa, sente ou é acometido por um sentimento de saudade insuportável, pelo desejo de voltar, ele entra num momento nostálgico de constatação.

Voltar para onde? O seu lugar foi destruído, sua casa não existe mais. Muitos de seus familiares estão mortos. Então, voltar para quem?

O estrangeiro ainda causa desconfiança, medo, o que leva os migrantes a conviverem com o drama dos deslocamentos clandestinos, que os expõem a sobreviverem em espaços precários e marginalizados. Apenas alguns conseguem acenderem-se socialmente. A maioria, dissolve-se na multidão, anônimos.

Dentre os haitianos destaco Joseph Handerson, um antropólogo que defendeu tese de doutorado em Antropologia Social, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o tema da diáspora haitiana e tem se tornado uma referência no tema migratório, sendo solicitado como palestrante em todos os fóruns que tem ocorrido no Brasil e no exterior.

Para o antropólogo Handerson, quando o haitiano parte, isso não é um ato solitário, pois, ele não parte sozinho, ele parte com a lembrança forte dos seus e com a idéia fixa de ajudar os que ficaram.Joseph Handerson mora em Macapá, onde é professor na Universidade Federal.

Há mais de 3 anos participo de reuniões, grupos de estudos, audiência pública e convivo com muitos amigos refugiados haitianos e nenhum deles fez a travessia pelo fascínio por novas experiências em terras brasileiras. O fluxo migratório haitiano foi empurrado pelo terremoto devastador ocorrido em 2010.

Os refugiados haitianos que moram em Cuiabá vivem uma relação em certo grau ainda indefinida com a cidade. Muito mais vivem entre si, carregando suas tradições e culturas, esperando que a qualquer momento os muros se rompam e eles possam efetivamente serem percebidos e incluídos na vida social e cultural as cidade. Por ora,estão estabelecendo apenas as relações necessárias para se organizarem e viverem aqui.

Estão vivendo um momento em que não falta outra coisa senão serem tratados como iguais.

Não existe base

As campanhas eleitorais devoram tempo, energia e muito recurso. Os momentos que antecedem as convenções são tensos, instáveis e criam uma divisão generalizada entre membros dos partidos e a própria população. Especula-se muito, vazam alguns nomes propositadamente como forma de avaliar a aceitação da pessoa como candidato, ou faz-se conjecturas de possíveis coligações.

Os ciclos eleitorais quase não se fecham. Termina uma eleição já estamos envolvidos em outro momento de ebulição das críticas, das discussões, das promessas. É preciso ouvir, refletir criticamente sobre os problemas que enfrentamos sem radicalismo e sem esconder-se atrás do escudo da neutralidade.

Momentos eleitorais demandam decisão. Porém, nem sempre pode-se declarar a preferência. Para preservar-se e preservar emprego sobretudo.

O período é conturbado. As pessoas atacam a partir de suas perspectivas ideológicas, o que dificulta compreender com precisão como o jogo esta sendo jogado. Nada se sabe ao certo. E essa é a tática. Usar termos abstratos, evasivos para não dar “nomes aos bois” e proteger o projeto.

Amigos se estranham. São colocados de lados opostos num jogo onde grupos entrincheirados ditam as regras nos bastidores. À luz, faz-se silêncio, prometem ouvir e respeitar “as bases”. Nas convenções e momentos pré-convenções, onde os acordos são firmados, não existe base. A maioria dos eleitores são incapazes de exercer qualquer influência apreciável nos debates e nas tomadas de decisões. Os partidos vem para as convenções com chapas fechadas, martelo batido!

Os nomes dos candidatos a vice-prefeitos são experimentados dependendo do grupo onde a conversa acontece. Cada nome que nada agrega! Minimamente deveriam ter votos, dinheiro, bom trânsito no meio político, serviço prestado à cidade. Vice é posição importante dada as vicissitudes da vida, dos projetos, das possibilidades futuras. Exemplo? Michel Temer.

Os nomes dos vereadores que já se lançaram somam o triplo das vagas que as Câmaras municipais oferecem. E todos postam-se vitoriosos. Como? Mentindo para você! Ninguém sai do nada, do mais puro anonimato sonhando ser vereador.

Tem que haver um certo nível de comprometimento, um passado dedicado a alguma causa social, um campo de conhecimento que permita pelo menos discernir o que é atribuição do legislativo municipal. Muitos candidatam-se mirando cargos no executivo municipal, outros simplesmente compram  votos.

Política,espaço de poder masculino

Se alguém te disser para ficar longe da política e mesmo que se enumere mil razões para que você o faça, não vire as costas para a realidade de que as mulheres são a maioria dos eleitores brasileiros, que existem no país mais de 6 milhões de mulheres a mais do que homens, que quase 40% destas mulheres são efetivamente as responsáveis pelo sustento de suas famílias.

Considere ainda que a expectativa de vida das mulheres elevou-se a um patamar de mais de 77 anos em média e, embora tenha se registrado aumento da participação das mulheres no processo eleitoral de 2014, os números ainda estão bem abaixo do que preceitua a própria lei eleitoral e poucas, muito poucas mulheres se elegeram. Estranho? Nem tanto, num país onde não se cumpre o estabelecido nos estatutos partidários nem na legislação.

A lei eleitoral brasileira está morta, inexiste. O Ministro do STF Marco Aurélio, embora pregue punição aos partidos pelo descumprimento da lei, laconicamente reconhece que, na prática, os partidos não investem e nem garantem condições mínimas de estruturas de campanhas para as mulheres candidatas, preferem registrar candidatas fictícias para burlar a lei que os obriga a preencher o mínimo de 30% das vagas com mulheres, a fazer o repasse de pelo menos 5% dos recursos do fundo partidário para criação de programas de promoção e difusão da participação política das mulheres. Parece pouco, mas nem isso acontece.

Não é bem verdade que o voto é nossa única arma e oportunidade para mudar, para indicar o rumo que queremos para nossa cidade e para nosso país. Certamente há mil outras formas de atuação que também fazem a diferença, que podem promover mudanças substanciais. O consenso é que as mudanças precisam acontecer nas bases onde mulheres valorosas são líderes comunitárias, presidentes de clubes de serviços, organizadoras de reuniões.

A participação feminina não pode continuar nesse desempenho pequeno, não atingindo sequer a marca dos 10% na Câmara Federal, mas alimentando a ilusão de uma participação legítima, quando no máximo, servimos para legitimar as candidaturas masculinas. Ciente dessa necessidade, a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados tem promovido encontros e incentivado a ampliação da participação feminina na política de modo geral.

Mas com o corporativismo masculino instalado no Congresso Nacional, qualquer mudança que realmente altere as regras do jogo para torná-lo igualitário, parece improvável. Este ano, tem eleições para as Câmaras Municipais e os números que o País apresenta são vergonhosos. De todos os vereadores eleitos no Brasil, apenas 12% são mulheres e na eleição de 2014 cinco estados não elegeram nenhuma mulher para a Câmara Federal e entre eles está nosso querido estado de Mato Grosso. (os outros são: Sergipe, Paraíba, Espírito Santo e Alagoas).

Pelo que se ouve e se vê, as mulheres continuarão no backstage, organizando comitês, reuniões, balançando bandeiras e pregando cartazes.

Senso de urgência

Anúncios sugerem que devemos sempre escolher o caminho da felicidade; que devemos nos amar antes de amar os outros; dar a volta por cima e recomeçar dos escombros; escolher um estilo de vida saudável, exemplificado pela imagem de uma bela mulher de branco, em pose de yoga numa praia. Como? Alguém em sã consciência optaria por um caminho oposto à felicidade?

A ideologia da urgência é o sintoma de uma vida vivida sem perder tempo com coisas de pouca importância. Significa redirecionar energia para gastar com o que dá sentido à vida; significa parar de sonhar, sonhar e sonhar com o que não se tem, com o que pode-se levar anos para conseguir e não viver para desfrutar. O que é importante deve ser também urgente para nós.

Estado de urgência não significa arroubos de precipitação. E talvez, por não compreender que a impermanência permeia todos os aspectos da vida, nos lançamos em atitudes cegas, numa luta de caráter implacável e o que se segue é a corrida para se ter qualquer chance no futuro. Mas se falamos em impermanência, pode nem haver futuro.

A urgência de se viver não deve nos empurrar para carreiras lucrativas, que não sejam igualmente fontes de prazer. Ao fecharmos os olhos, não podemos estar receosos de adentrar os períodos inevitáveis da rebeldia, da transformação, do comprometimento, do envelhecimento e da morte. Os ciclos se cumprem, quer você viva com assombroso pesar do passar das horas, engajando-se em várias direções ou não.

Os rigores do trabalho, da falta de tempo, a precariedade da vida cotidiana, consumida pela incerteza, levam-nos a um esforço solitário para sobreviver, respondendo às expectativas que nascem nos outros. Tudo é feito num desatino que justifica-se pela busca desesperada pela realização pessoal. Isto é absolutamente perturbador, até porque sabemos que não temos controle exato pelo desenrolar de nossas próprias vidas.

Avilta-nos a ideia de que temos sido coisa alguma em função da própria vontade e sim, em função das oportunidades que temos tido. Entretanto, a mera sobrevivência não pode ser o único norte a justificar a vida.

Devemos estar cientes e aceitar que nosso tempo não é para ser consumido ignorando os assuntos problemáticos, perdendo-nos em distrações artificiais.

É fina a linha que define o estado de urgência e os momentos frenéticos que passamos a andar em círculos, estressados, ansiosos, irritados e doentes. Viver com significativo senso de urgência é redimensionar a vida, mudar as prioridades, estar firme no presente e não tomar nada como garantido.

Bagagens desnecessárias

Tenho amigos indianos que ajudam-me a interpretar textos sobre Budismo. Estudamos em inglês através de um site que compartilhamos, aos sábados bem cedinho devido ao fuso horário. Mona é imprescindível para meus estudos e meu propósito de viver e morrer sem sofrimentos desnecessários.

Estávamos lendo um trecho do belo “Livro Tibetano de Viver e Morrer”, quando Mona falou sobre o sonho de “todos” os indianos: morrer em Varanasi, a cidade mais sagrada da índia, enorme e localizada as margens do mais sagrado ainda, Rio Ganges.

Kashi Labh Mukti Bhawan, fundada em 1908, é uma das três casas na cidade onde as pessoas se hospedam para esperar a morte. Fazendeiros ricos, despem-se de suas fortunas e hospedam-se lado a lado de pobres indigentes que também aguardam pacientemente a hora de partir.

É um lugar, segundo Mona, onde não entra-se com bagagens materiais e o propósito da casa é também livrar as pessoas das bagagens e dos sobrepesos emocionais ou espirituais que carregam. Há paz, silêncio e preces. Os amigos espirituais leem poemas de amor, executam musicas e ficam em volta repetindo mantras, inspirando um ambiente sem pavores.

Nos momentos finais, famílias são chamadas para resolver conflitos, para perdoar e serem perdoados e depois, velar o morto, que quase sempre parte antes de duas semanas na casa.

Certa vez, ao entrevistar o administrador da casa, Mona, ouviu que as pessoas deveriam deixar pelos caminhos as bagagens desnecessárias, pois a vida é um ato de escalar montanhas e as ilusões, os arrependimentos e amarguras que carregamos afeta a escalada e influência todo o ambiente por onde transitamos.

Porém, a maioria das pessoas vai acumulando bagagem material e espiritual e no final não sabem como livrar-se delas e vão carregando o peso concentrando-se apenas nos aspectos negativos da vida.

Ensina que devemos agir sobre o que realmente importa, que devemos vigiar nossas condutas e trabalhar no sentido de sermos justos, compassivos, verdadeiros e honestos cada vez que somos desafiados.

E se é de viver em paz que estamos falando, precisamos reduzir os conflitos, alguns criados pela própria mente. É fundamental compreender porque as pessoas maltratam umas as outras, por que muitos caminhos já foram tentados para trazer a paz ao mundo; criaram organizações, assinaram tratados em reuniões internacionais intermináveis, mas ainda há dificuldades e desacordos. Ainda assim, a ganância pelo poder pesa sobre os ombros dos homens e o ódio joga um contra o outro.

Há como mudar as leis, mas a verdadeira mudança tem que acontecer dentro das pessoas, como um compromisso de não se dobrar ao peso do desespero  e lutar com determinação contra a opressão causada pelas incompatibilidades das ideologias, das crenças e dos comportamentos inadequados.

Precarização da vida

No mundo globalizado, quando um estágio de relacionamento se precariza, quando atinge um nível que aciona nosso medo crônico de sermos deixados para trás, de sermos excluídos, a vida cotidiana e nossa frágil organização familiar passa a ser um exercício de sobrevivência.

Vive-se um dia de cada vez, sem planos, movendo de um episódio para outro de olhos fechados.

Falta investimento pessoal na busca pela felicidade, falta tempo para observar os filhos crescerem, para trocar receitas, para almoçar juntos. A pressa de viver o que sequer sabemos o que será, nos consome.

Vê meu caro? A precarização da vida deixa-nos vulneráveis.

Além dos cortes orçamentários, aprendemos a promover cortes no tempo: no tempo com um livro, com um amigo, com um conhecido. Cortamos o tempo a céu aberto. A varanda anda deserta. Temos sido ensinados a fazer economia. Economizamos gestos de bondade, abraços apertados, risos, palavras. Como temos economizado as palavras!

Aos poucos a precarização toma conta de todas as esferas da vida e a solução moderna resulta na contratação de organizações terceirizadas para substituir as peças que não funcionam bem, em vez de repará-las. É isso: não há mais interesse e tempo para se consertar engrenagens que saem do prumo.

Não há mais diálogo reparador, nem tentativas para se reorganizar a vida que desanda. Tem sido assim e eu não concordo que coisa outra qualquer, possa substituir nosso senso de preocupação para com nossas vidas e com a vida dos outros.

Como seria terceirizar a atividade meio de nossas vidas? Bem já estamos fazendo isso. O motorista de uma van contratada leva nossos filhos à escola; os empregados do condomínio são terceirizados de uma empresa que os gerencia e são substituídos ou remanejados sem que sejamos consultados.

Furtou-nos o relacionamento de décadas que tínhamos com Noel e com o Lourival. Entre a Geni, que cuidou dos meus filhos e a Leny, a precarização do relacionamento e do trabalho é claramente percebida. Geni era a expressão do comprometimento, do compartilhamento, do amor. Leny recebe por dia, não quer ter vínculos e quando precisa faltar, ela própria aciona sua rede familiar e terceiriza o trabalho dela.

Os cortes, a precarização atingem também os serviços públicos, dos quais grande parte da população depende para se locomover, estudar, permanecer vivos e além da realidade de ver que a precarização se materializa em todos os espaços da periferia, com ruas ainda sem asfalto, sem água tratada, esgoto a céu aberto, sem postos de saúde, além da leniência do Poder Público diante das misérias produzidas pelas crianças fora das salas de aulas, um equilíbrio fugaz é constituído neste novo mundo sem vínculos duradouros.

Mas enfim, o que a terceirização propõe é exatamente isso; dinamizar a rotina sem levar em conta relacionamentos pessoais e sem a preocupação mínima com a sintonia. Na maioria das vezes é um gatilho que rompe o equilíbrio e desarticula a harmonia das relações estabelecidas.

Por que haveria de ter mais?

Quando muito, no ápice da gula

Quero sempre tão pouco.

Aprendi a conter, a contar, a acalmar

a compartilhar, dividir e exibir

o que a mim cabe.

Parece pouco? Por que haveria de ter mais?

Imprevidente ou descuidada

Por todos os motivos que eu possa alegar

Mais do que isso seria desperdício

Seria alimentar o vício

De querer o que não cabe, não serve mais.

Vida enxuta, sem sobras

De mágoas, solidão, ansiedade.

Quando muito, no ápice da gula

Tempestade perfeita?

Não há nada que dure eternamente, nem a maldade. O extremismo é elaborado estrategicamente nas suas teorias e ações com objetivo de causar mortes e furor, para instigar reações ainda mais violentas.

Pode ser a questão da homofobia, da falta de controle da venda de armas, questão política, étnica religião, ou falta desta. Pode-se dar o rótulo que quiser, mas o que precede o ato de violência é ódio e terror. Ademais, a brutalidade tem sido concebida para ser espetacular.

Diante de tantas atitudes disfuncionais, fico a pensar quantos homens deverão morrer até que objetivamente o poder político tenha debelado as falsas bandeiras, os grupos ou lobos solitários que atacam nossos ideais de liberdade e confiança no ser humano.

Quando se lida com assassino ou história de assassinato, muitas pessoas, a maior parte do tempo, fala de um momento pavoroso, narra cenas cruéis, mas trata o fato como algo momentâneo. E não tem sido assim.

As tragédias têm se repetido, aqui, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em toda parte. O que significa é que vamos ter de viver com esses atos horríveis acontecendo o tempo todo, em todos os lugares.

Não podemos esquecer que ao longo da história humana o mundo tem sido dividido em culturas, etnias, religiões e política. Esse tempero variado que deveria tornar o mundo um lugar interessante, não foi absorvido além das fronteiras da ignorância, então, matam-se homens em nome de revoluções religiosas e guerras.

Assim, instala-se a política da divisão e do medo, o que remonta aos acontecimentos violentos que vimos noticiar nos últimos dias.

Proteção e segurança nunca há o bastante em lugar algum e isso faz o medo prosperar. Porém, a tempestade seria perfeita para nos mover em solidariedade contra o ódio pois, onde existe o ódio, encontramos divisão e ignorância e grupos de pessoas são demonizados pelo falso moralismo que cobre o rosto de homens dissimulados, cujos vícios a própria família desconhece.

Embora saibamos que a retórica tem consequências, não devemos nos manter insensíveis diante de acontecimentos brutais nem tampouco nos derreter com argumentos emocionais, ou ainda pior, banalizar os atos violentos cometidos em nome de preconceito de qualquer natureza.

O revés é que os melhores valores que podemos expressar são compaixão, solidariedade e colocar nossas convicções para trabalhar contra a violência e injustiça em todo lugar.

O espírito da cidade adoeceu

Com o olhar atento ao que acontece no mundo e, especificamente, encarando a realidade local, percebe-se no que está submerso, um mundo de tristeza, medo, loucura e violência. O espírito da nossa cidade adoeceu.

Precisamos de remédios mais poderosos do que os que têm sido utilizados para conter o destempero que nos roubou as virtudes essenciais: a bondade, misericórdia e amor. Ônibus são queimados nas ruas, a chama, porém, amedronta o justo, o bom, o misericordioso. Trancam-se todos. É justo?

A vida do espírito da cidade pede a intensificação das tentativas de salvamento desses momentos de dureza brutal e por comum que possa parecer aos olhos de alguns, a violência tem causa sabida e tratamento negligenciado por todos.

As vítimas, o sistema, o homem marginal são fregueses completamente distintos do mesmo mercado, que os empurra rumo a uma vida onde a corrupção, o poder e o dinheiro compensa tudo, nem que para isso tenham que viver no limite dos perigos típicos de uma cidade quase grande.

Dado as incertezas das coisas, percebo que os meios legítimos para uma vida de paz não estão disponíveis para todos os homens – muitos se desviarão e quando se descaminham, o infortúnio não é só deles, pois juntam-se a força de estruturas paralelas à oficial e ameaçam todos os outros homens.

Diante do fogo, da rajada de balas, dos arrastões não podemos viver em dissonância cognitiva, ignorar os riscos que corremos a todo instante. A atmosfera de loucura é real e talvez tenhamos que ter paciência com o caos instalado.

A urgência e a imensidão de um problema tão sério não se resolve numa ação imediata. Nem sempre o poder público tem resposta para tudo. Rezem!

Qualquer ser, todos os seres, por pequeno que seja é dotado de uma substância espiritual, que precisa ser acionada para se animar e conter os ímpetos da corrupção, dos vícios, das monstruosidades. Da mesma forma, todos os seres são capazes de se esforçar e promover a quebra dos rompantes de loucura.

Existem tantas armas das quais o cidadão deveria apossar-se para começar uma luta justa pela educação, pela saúde e segurança. Armas que não são letais, que não machucam e, além disso, preparam o caminho para uma vida melhor.

Lamentavelmente, armas genuínas não servem a homens obstinados e cegos, que carregam o jugo de seus vícios e suas almas carregam o risco da perdição eterna.