Homens toscos

Não entendo a política como algo engraçado. Não consigo rir dos milhões de piadas e memes que retratam o momento político que vive o Brasil. Quando muito deveríamos chorar por alguns casos e nos envergonhar da maioria deles.

Fazer humor requer sagacidade, inteligência e citações como “tchau querida / tchau querido” estampadas nos veículos de comunicação demonstram exatamente a que ponto chegou-se as brincadeiras com questões sérias.

Eu vejo que os próprios políticos constroem minuciosamente suas charges, e reproduzem com suas assessorias aquilo que pode soar contraditório, forte, tosco e que o diferenciará dos demais. É uma diferença medida de ponta cabeça: por aquilo se tem de pior, que pode causar repulsa, martelar a mente dos desavisados que creem nas bobagens que mandam divulgar.

A obsessão de ficar na mídia, de ocupar espaços conservadores, demagógicos e que patrocinam a promoção pessoal é moda eterna. Como crer que um indivíduo como o deputado federal Jair Bolsonaro diz a verdade quando afirma que prefere ter o filho morto a sabe-lo homossexual? Ou quando esbraveja dizendo que não estupra uma colega deputada porque esta não o merece? Quando diz que seus filhos jamais se casariam com mulheres negras porque são jovens educados e não vivem em ambientes promíscuos?

Como levar a sério um indivíduo que incentiva os fazendeiros do meu Estado a se armarem com fuzis para combater as invasões? Como levar a sério um deputado que sequer conhece as leis brasileiras e do púlpito do Congresso desembesta a fazer elogios a um militar torturador e assassino nos anos da ditadura, sobre a qual Bolsonaro dispara: “O grande erro da ditadura foi torturar e não matar”. Nos dias atuais, o deputado ainda prega a necessidade da tortura, do pau-de-arara e da porrada, para se conseguir confissões.

A América tem produzido tipos estranhos. Um Bolsonaro aqui, um Trump lá. Um homem que quer matar todos os mexicanos, construir muros para barrar a migração; que diz que as mulheres são objetos sexuais e que todos os americanos devem fazer de “tudo” para seguirem seu modelo de beleza: “a riqueza”. Diz-se contra casamento homossexual e favorável ao casamento tradicional.

Entretanto, casou-se três vezes. Faz elogios inadequados a beleza da própria filha e diz sem rodeios que se ela não fosse sua filha, sairia com ela; faz paródia sobre mulheres, minorias e aquecimento global. Quanto ao clima, Trump diz não crer na tese de aquecimento global porque ainda neva em Nova Iorque. Não, não é para rir!

Essa teatralidade, o acinte não é nada novo. Há um palhaço de profissão na Câmara Federal e ele faz troça de seus pares no episódio chocante da votação do impeachment. Mas isso vale. Essa é a profissão dele. Quanto a nós, retratarmos esses homens como figuras toscas não basta. São indivíduos dados à galhofa, à farra e ao deboche. São reacionários que trocam agressões verbais e plantam sandices com o intuito de “causar” e de intimidar.

Juizes das nossas próprias causas

O melhor de nós construiu-se às custas de muita luta, resignação, determinação, estudos, reuniões, esperas, tentativas, derrotas, persistência, vitória fragmentada, alegria e amor. O ritual de iniciação dá-se de forma variada, com bons exemplos ou maus exemplos, violência ou proteção.

A verdade é que ainda vê-se muito do estado de natureza no mundo pós-moderno; guerras por todos os lados, Justiça sendo feita pelas próprias mãos, povo sem governo.

Estado de natureza é o que o filósofo inglês Thomas Hobbes argumenta como sendo uma condição de vida sem governo, um estado permanente de guerra, desconfiança que não garante a realização de nenhum dos fins que consideramos importante para a nossa sobrevivência.

A condição de natureza é um estado sem julgamento, em que não há nenhuma autoridade reconhecida para arbitrar disputas e fazer cumprir as decisões. Assim como hoje, a falta de governo convida ao conflito, alimentado pelos desacordos, pela falta de diálogo e pela desconfiança defensiva, que leva ao ataque diante do medo de ser atacado.

Hobbes diz que: “onde falta autoridade política, nosso direito fundamental é salvar nossa própria pele, por qualquer meio que julgarmos adequado. Onde existe autoridade política, nosso dever é bem mais simples: obedecer quem está no poder”.

Tomadas em conjunto estes pressupostos assustam. O estado de natureza em Hobbes é pessimista, trata os homens como seres interesseiros e egoístas, mas não simplesmente isso. A própria vida seria uma busca egoísta da realização dos desejos e no caminho para concretiza-los, os homens subjugam, exploram e destroem todas as forças que se colocam como obstáculo.  Mas o que temos vivenciado senão um mundo assolado pelo ódio, pela crise econômica. tensão política, competição e ganância pelo uso dos recursos naturais e tentativas de dominação de um povo sobre outro?

Os homens se levantam uns contra os outros movidos pela concorrência, pela desconfiança, pela inveja, pelo desejo de prosperar a qualquer custo.  Porém, havemos de entender que nascemos todos iguais: frágeis e vulneráveis! E a este estado voltaremos na velhice.

Somos facilmente desviados das tentativas de melhorar o mundo que nos rodeia, porém a vida pode melhorar. O processo de estabelecimento da harmonia inicia-se de dentro para fora, com a desconstrução dos valores negativos do estado de natureza.

Se no estado de natureza cada pessoa é livre para decidir por si própria, nós podemos decidir sobre o que precisamos com parcimônia, o que é devido com senso de justiça, o que é respeitoso, prudente sem temer sermos subjugados, atacados ou invadidos. Desacordos de pontos de vistas acerca de religião, questões comportamentais, preferências, não precisam ser conflituosos. Respeito basta!

A vida caça jeito

Quando se conta uma piada interessante pela primeira vez para um determinado grupo de pessoas, todos riem muito. Ao contar a mesma piada para o mesmo grupo pela segunda vez, poucos riem. Ao contá-la novamente para o mesmo grupo, ninguém mais ri.

Assim estamos nós; reclamando das mesmas coisas, da política à vida amorosa, dia após dia. É preciso reagir aos acontecimentos, aprimorar os argumentos, ceder, mudar, avançar para um estado de coisa sem essa velha fragilidade de temer as turbulências ou mudanças.

Eu sou resmungona e ás vezes repetitiva como muitas pessoas. Eu reclamo por impaciência de ter discutir os mesmos problemas todos os dias, sem nenhum fato novo para dar combustível a novas leituras. Eu resmungo por sou incapaz de considerar normal essa bagunça que virou meu país.

Mas sinceramente? É hora de lembrar que nada muda da noite para o dia, nada muda se não mudarmos nós, se não sairmos do estado de paralisia e negatividade, se não aprendermos a colocarmo-nos numa posição de indivíduos merecedores de respeito. O que sempre foi assim, não tem que ser assim para sempre.

Não devemos ignorar a existência das crises pelas quais passamos, tampouco viver como se não houvesse amanhã, senão as coisas podem ficar muito pior antes de melhorar. Queixar-se não é necessariamente o primeiro passo para a mudança se a insatisfação não encontrar um meio de ecoar. Assim como o inverso, calar-se e aceitar a situação ruim e aprender a conviver com ela, ajuda a perpetuar a insatisfação. Devemos prestar atenção nas mensagens que transmitimos e ouvimos. Pessoas muito rápidas para criticar e julgar não se interessam e não são respeitosos com o ponto de vista dos outros.

Há pouco vimos o quanto os políticos são intolerantes e arrogantes uns para com os outros quando divergem ou tem seus interesses contrariados. São homens birrentos! E não tomemos nós essa divergência como sinal de liberdade. Nesse caso é birra mesmo! É a forma como se trata a política, as demandas do povo, os interesses do País. O contexto político atual segue frágil e despadronizado, embora gozemos de uma democracia que resiste bravamente ao processamento dos desmandos, da pessoalidade e da falta de ideias novas.

Os partidos permitem qualquer acordo, entendimento, coalizão imediatista para conquistarem a condição para governar. E repetindo sempre a mesma cantilena, dizemos que esse comportamento faz parte da dinâmica política e que o abraço entre amigos e inimigos é um gesto natural já arraigado no cenário político brasileiro. Consideramos porém, que alianças mal explicadas apenas agrega gente, porém enfraquece o cenário pela calibragem mal ajambrada.

Poucos políticos ainda buscam orientação substancialmente voltada para os interesses da sociedade, dentro de siglas que não tem identidade nem capacidade para controlar seus filiados comuns, imagina então, os que detém mandato.

Os multi réus

“O país está ficando para trás, se “descivilizando” pela violência generalizada, ineficiência sistêmica, incapacidade de gestão e de inovação, saúde degradada, educação atrasada e desigual; transporte urbano caótico, cidades monstrópoles, concentração de renda, política corrupta; povo dependente, tragédias ambientais e sanitárias. Todos os indicadores são de um país em decadência, com raras ilhas de excelência”. Senador Cristovam Buarque.

Como crer que o processo de impeachment tenha sido levado a cabo para expurgar a corrupção que tomou conta do Governo se 60% dos 594 membros do Congresso brasileiro enfrenta acusações graves e respondem no STF por um cardápio diversificado de crimes, como: suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, sequestro, homicídio, apropriação indébita previdenciária, corrupção ativa e passiva, crimes contra o sistema financeiro nacional, incentivo à invasão de terra indígena, incitação ao crime, formação de quadrilha, contratação de pastores da própria igreja paragabinetes, desvio de recursos do BNDES, venda de cartas sindicais, superfaturamento de obras para desviar recursos públicos, inclusão de eleitores em programas sociais em troca de votos. Os dados são do instituto de monitoramento da corrupção, Transparência Brasil.

O multi réu, o poderoso presidente da Câmara, Eduardo Cunha dono de contas secretas volumosas na Suíça, abastecidas com dinheiro da corrupção de empresas privadas denunciadas e da Petrobrás responde por crimes contra a Lei de Licitações, de lavagem de dinheiro e corrupção passiva, está encalacrado na mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal. Cunha, um comentarista de rádio evangélica e economista, posta regularmente mensagens no Twitter citando trechos da Bíblia.

Além de violar as leis, alguns dos legisladores são excepcionalmente réus confessos, debochados e reincidentes ‘ad aeternum’. Um nome? Paulo Salim Maluf, que sozinho responde a todos e muito mais dos crimes acima mencionados. Hoje diz-se preocupado com a corrupção e votou favorável ao impeachment.

Esse é o deboche! Esse senhor foi preso, liberado por conta da lei que permite pessoas com idade superior a 70 anos cumprir a pena em casa. Registrou-se candidato. A lei eleitoral tentou barrar sua candidatura, ele porém, astuto, articulou-se e elegeu-se o oitavo deputado mais votado por São Paulo para a Câmara Federal. Eleito com mais de 250 mil votos.

Votar nesses senhores corruptos tem sérias consequências. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), a produção legislativa do Congresso teve desempenho insatisfatório no conjunto de matérias aprovadas em plenário por deputados e senadores.

A produção legislativa, além de baixa em termos quantitativos, foi também de baixa qualidade. Foram aprovadas poucas matérias relevantes. Como crer que possam discutir e aprovar as reformas que precisamos com um Congresso Nacional desse nível?

Novamente o senador Cristovam Buarque explica: “Não se debate um pacto pelo emprego com equilíbrio das contas públicas e pela eficiência da gestão estatal; não se discute como fazer, quanto custa, em quanto tempo e que setores pagarão pelas reformas que o país precisa. As discussões despolitizadas, entre torcidas a favor ou contra, como em um jogo de futebol, não debatem, por exemplo, como fazer com que a escola do filho do mais pobre brasileiro tenha a mesma elevada qualidade que as boas escolas do filho dos brasileiros ricos”.

Nos extraviamos

Mesmo vivendo espremidos pelas convulsões e angústias estamos decididos a não permitir que dias e noites se igualem escuros e sem esperança.

A vida em si não é um problema e mesmo que culturalmente estejamos condicionados a uma vida difusa, sem concentração, fazendo muitas coisas ao mesmo tempo podemos expressar um forte senso de justiça nos preocupando com a qualidade da vida humana em todos os níveis da sociedade, com as mulheres, com as minorias, com a segurança e o bem-estar de crianças e idosos, o que seria uma oportunidade para repararmos as injustiças sociais.

O mundo pede tolerância e até mesmo apreciação para com as diferenças, para as necessidades dos menos favorecidos. Não podemos viver a ver nada além de nós mesmos; a julgar tudo e todos pela utilidade que os outros tem para nossas vidas.

A natureza amorosa do homem é a única resposta sã e satisfatória para os problemas da existência humana, então qualquer sociedade que exclui, relativamente, o desenvolvimento do amor e da bondade estará condenada a viver num sistema contraditório de urbanização descontrolada, violenta e caótica.

A violência cotidiana deve sempre assombrar, provocar repulsa e desdobramentos responsáveis, que possam estancar males maiores.

Quando uma criança leva socos de um adulto por um pedaço de bolo, precisamos abandonar nossa zona de conforto e nos perguntar: é esse o mundo que quero para meus filhos, netos e amigos? Que tipo de ser humano sou eu? Seria eu capaz disso um dia? Alguns traços nos distinguem dos animais, outros nos transforma em um deles.

Diante disso, devemos nos questionar se estamos exercendo a virtude necessária para validar nossa existência. Porém, o simples fato de prestarmos atenção no nosso comportamento já é um indício importante pois enganam-se as pessoas que compartilham a ideia de que atos amorosos são incompatíveis com a vida secular da nossa sociedade e com nossa sabedoria.

Pessoas capazes de amar em qualquer sistema, em qualquer padaria, em qualquer lar não deveriam ser exceções

“ Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos”. (Discurso final do filme “ O Grande Ditador”, com Charlie Chaplin, 1940).

Quem cala nem sempre consente

Calar-se nos dias de hoje, longe de significar consentimento é minha maneira de não permitir se rotulada “coxinha” nem“petralha”. Engraçado, mas ocorreu agora, que posso estar vivendo num limbo político.

Não concordo com a polarização de rótulos, não acredito que temos capital humano que possa nos tirar da crise com saída política honrosa, num curto tempo. E não concordo que tenha que ser o Judiciário a nos dizer: “Olha, os políticos não tem capacidade de governar com a virtude da honestidade, então, tratamos nós de regular-lhes os vícios e ditar-lhes as regras da governança”.

A ética na Justiça é um valor igualmente capenga.

Calar-se é um sinal de diferenciação quando todos gritam, quando todos tem uma receita milagrosa para a crise. Confesso que de xingamentos e milagres não entendo não. Porém a democracia sobreviverá mesmo estando nossas vidas sob ataque da paralisia governamental, com nosso presente comprometido pelas falhas de um governo inábil para lidar com os pilares da vida pública: economia e política. E raramente vamos corrigi-las no mesmo tempo verbal. Porém não podemos viver sem acreditar em alguma coisa, ainda que seja fora das nossas possibilidades imediatas.

Não há como negar que o momento é de certo desencanto, de perda da certeza, de um individualismo absurdo, onde cada um a seu modo, tenta ser protagonista de uma cena mais bizarra que a outra. Vi amigos liderando movimentos, dei-lhes crédito pelo espírito político altruísta, mas estavam apenas advogando em causa própria e já mostram que o altruísmo tem seu preço.Na onda, já se lançam candidatos a vereador. Num caminho paralelo, que talvez peque pela não transversalidade com os acontecimentos atuais, prefiro fazer escolhas autônomas, dentro do arcabouço da minha crença de viver com coragem e independência, sem preocupar-me em agradar ou constranger os que me cercam.

A pós modernidade é entendida como uma condição de fluxo constante. Onde avançar para um estado diferente é a única possibilidade. Se a política estáradical e agressiva é porqueos políticos aceitam todas as condições e se orientam por más intenções.

Porém, se nós pudéssemos nivelar as diferenças veríamos que quase todos lutamos pela mesma coisa; pelo ideal de romper com o desconforto de viver uma vida pequena, sem perspectiva no presente. Porque o presente é tudo que temos.E nossa racionalidade mostra que ele não está funcionando adequadamente e deve ser reformado.

O sociólogo polonês ZygmuntBauman, ao discorrer sobre momentos de crise diz que os otimistas acreditam que este mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os otimistas podem estar certos. E existe uma terceira categoria: pessoas com esperança. Eu me coloco nessa terceira categoria.

Vamos avançar

Vem eleição aí. Sem desviar a atenção do momento crítico que vive o país, precisamos nos ater ao que está para acontecer bem perto de nós; as eleições locais, para prefeitos e vereadores.

Eleições em todos os níveis não deveriam ser apenas disputas entre os políticos, mas uma agenda de interesse nacional e devemos sempre começar arrumando a casa que habitamos. Olha sua cidade, entenda como o prefeito e a Câmara tratam de temas relevantes como saúde, educação, moradia, se combate as desigualdades, facilita o acesso aos serviços básicos, se gera emprego e renda.

Numa escala progressiva é significante o número de políticos locais que mais tarde ascendem em cenários mais amplos, em âmbito estadual e federal. É bom que estejamos um pouco alterados, impacientes e indignados com as práticas políticas e de certo modo estamos mandando um duro recado de que não podem eles continuar a subtrair vantagens das instituições públicas.

Não somos ingênuos e sabemos que em ano eleitoral o discurso muda. A sustentabilidade dos programas assistenciais é garantida, promessa de construção de novas escolas, creches, novos ônibus. Vereadores prometem isenção, independência, mas lembremos que o governo exerce uma atração gravitacional estupenda e quem o apoia recebe afagos e muitos cargos.

O descrédito na política e nos políticos é algo que deve ser repensado. O que deve mudar são as práticas políticas, o agente público tem que aprender, ajustar-se. Preocupa-me que no desespero, tem-se transferido capital político para cidadãos com discursos messiânicos, que embora sejam natural onde a desigualdade impera, são perigosos. Salvador da pátria não existe. O Brasil não muda pela ação de um cidadão, ou pela multidão nas ruas. O Brasil vai avançar porque as instituições são fortes, apesar de parcela de parlamentares que deprecia o Congresso Nacional.

Em meio a esta duríssima crise política, faltam 6 meses para as eleições municipais. Agora quem deve tirar proveito da situação são os eleitores ao retomar o encantamento pela política, cobrar eleição limpa, transparente, discursos afinados com realidade local e comprometimento; isso sim, pode ser a revanche por todo o tempo que foram enganados. Porque alguns políticos parecem tangidos por uma capacidade telúrica de mudar o discurso, de mudar de lado, de transpor qualquer lógica para se elegerem.

Certamente surge um monte de pessoas que estão sendo conduzidos pelo ódio e difamação. A mídia omite, exagera, opina, toma partido.

Membros de instituições publicas, também. É difícil manter-se saudavelmente à margem do que pensam os outros. Porém, nossos valores e verdade são postos à prova exatamente quando as nossas vidas estão cheias de incerteza, medo e inquietação.

Situação e Oposição

Nada que acontece no mundo moderno é imprevisível. Todas as conjunturas políticas são decorrentes de falhas, incompetência e omissões. No mundo globalizado, os governos estão cada vez mais impotentes para gerenciar as crises e os indivíduos estão cada vez mais insatisfeitos com seus governantes.

Tem sido difícil distinguir um partido do outro; a situação da oposição, pois todos se movem dentro do mesmo sistema e estão sujeitos aos mesmos desvios perigosos. Por isso, acho que está em crise o sistema político tradicional como um todo. Nenhum partido representa realmente os anseios da população e, mesmo quem não participou de nenhuma das manifestações, não está satisfeito com o governo.

Aliás, a criação desenfreada e até mesmo a recriação de partidos tem servido apenas para atender interesses privados, para cacifar líderes políticos visando as eleições municipais. Entretanto, esse sistema eleitoral absurdo não é tema de preocupação no Congresso Nacional desde que aprovaram a PLC/75 em setembro do ano passado, após “exaustivos debates” (como pode um tema tão sério ser analisado, alterado e votado em apenas 2 dias)?

É preocupante que dos 65 deputados federais indicados dia 17 de março para integrar a comissão que vai analisar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, 40 receberam dinheiro de empresas investigadas durante a campanha de 2014. Cerca de 20 desses parlamentares já foram inclusive julgados e são réus.

O deputado que recebeu a maior fatia foi Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), recebeu R$ 732 mil e é favorável ao impeachment da presidente. O deputado Paulo Maluf (PP-SP), vice-campeão, com R$ 648 doados por empresas denunciadas é contrario ao impeachment.Na lista divulgada há sobrenomes famosos como Covas, Bolsonaro, Abi Ackel, Feliciano, entre outros.

Entre os partidos que indicaram nomes para a comissão, apenas PSOL, Rede, PV, PROS e PEN não receberam recursos dessas empresas.

A propósito, não estamos aqui falando da luta do bem contra o mal, do bate boca insuportável entre situação e oposição, mas propondo que conversemos sobre os projetos de poder a qualquer custo, sobre a corrupção e a justiça seletiva, que investiga uns e fecha os olhos a outros. Precisamos aprimorar o debate que está colocado nas ruas, para não perdermos o gancho. São os partidos, os congressistas que irão definir se o governo cai ou não. Cobra-lhes pois, posição. Manifestações de rua podem influenciar o voto dos parlamentares, não podemporém, ultrapassar o poder das instituições.

O processo legal tem seus ritos. É importante que o desfecho da crise que vive o Brasil seja institucionalizado, com decisão do Supremo ou seguindo os trâmites para o impeachment, de forma imparcial. O gigantismo das denúncias impressionam. O deboche dos congressistas é insustentável. E tal atitude se espalha pelos governistas e oposicionistas. Sejamos sérios e não céticos com relação a política!

Balaio de gatos

Não sou filiada ao PT nem ao PSDB e entendo que o momento que Brasil atravessa não pode ser discutido dentro dessa ótica estreita e polarizada. Não são os partidos, embora em todos haja corruptos, mas este sistema político brasileiro, contaminado e voltado para a prática de atos de corrupção, que tem transformado o país e a política numa máquina impiedosa de arrecadar dinheiro para sustentar a burocracia, os escandalosos gastos públicos e a corrupção endêmica, que obviamente não é restrita a classe política, mas que, segundo o cientista político Francisco Sampaio, da PUC de SP o esquema tem se mantido de governo para governo, desde Itamar Franco.

Apesar de termos recuperado o status de país democrático há pouco mais de 30 anos e termos sofrido as revezes de 2 décadas de ditadura militar, não aprendemos ainda a ser livres, a cultivar o pensamento crítico e exercer pressão sobre os parlamentares em quem votamos, para que legislem dentro do que pregaram na campanha política, para que se posicionem publicamente sobre os temas graves que estão balançando a República. É muito ruim este distanciamento entre os eleitores e seus representantes.

É possível destituir a presidente? Sim, apesar do sistema! O processo de impedimento já começou e não creio que configure golpe. Os políticos devem prosseguir com o processo. O impeachment é um instrumento democrático, previsto na Constituição, mas começou mal, porque começou sob o signo da barganha com o presidente da Câmara, um político investigado. E tiveram que barganhar por que?

Porque a base aliada da presidente Dilma é extremamente pulverizada entre os partidos, infiel e gulosa. Ao perceber que o governo do PT perde substância, dobra o preço do apoio. O cientista político Roberto Romano, da Unicamp, assegura que a população sabe que a simples saída da presidente pouco mudará no relacionamento do Estado, que continuará autoritário, pouco democrático e movido à base da corrupção. “Tal fato não se deve a um ou dois partidos, mas a todos.”

Apesar de marcar território e votar sistematicamente contra os projetos do governo na Câmara e no Senado, a oposição ainda não encontrou um discurso honesto e capaz de questionar o governo do PT. O que ocorreu foi que o governo enfraqueceu por si, tropeçou nas próprias pernas, mas a oposição não teve competência para se fortalecer, nem as custas disso.

Seria ingênuo pensar que o destino da nação depende do número de manifestantes que se colocam nas ruas, mas na dúvida a oposição transferiu a responsabilidade para o povo.

O movimento Vem Pra Rua, um dos organizadores dos protestos, contabilizou manifestações contra a presidente, com estrutura de carros de som, adesivos, camisetas, faixas e cartazes em mais de 400 municípios brasileiros e também em 23 cidades de 13 países, entre eles Estados Unidos, Portugal, Espanha, Reino Unido, Suécia e Alemanha.

Ouvi de um amigo um questionamento interessante para o qual ninguém do grupo teve resposta. E você…já se perguntou quem paga essa conta?

Claro que quem foi às ruas sabe. Se estavam manifestando contra a falta de transparência e corrupção, não participariam de algo que não fosse totalmente transparente e lícito, não é?