Conversinha de mulher

Algumas mulheres, inegavelmente, ocupam espaços importantes. São influentes, tomadoras de decisões, dão passos agressivos e decisivos na gestão de negócios, demonstram boa performance como investidoras e doam-se à ações filantrópicas.

Em Taiwan, Jamaica, Croácia, Chile, Polônia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Brasil e muitos outros países há mulheres governando países. As mulheres estão na BM&F, em Wall Street e nas grandes empresas. Aqui na nossa terra, o Tribunal Regional Eleitoral, o do Trabalho, as duas universidades públicas, UFMT e UNEMAT e a Academia de Letras são presididas por mulheres.

No âmbito político, as mulheres não têm a mesma representação nos cargos mais altos; nenhuma senadora ou deputada federal; apenas uma deputada estadual, duas secretárias de Estado e uma vereadora no Legislativo da Capital de Mato Grosso.

A despeito de haver um monte de mulheres fortes, que são líderes, não há o suficiente no mundo dos negócios nem na política. O Brasil ocupa o vergonhoso 29º lugar nas Américas, que tem a Bolívia na dianteira, como o país que tem maior representação feminina no parlamento.

Conversinha de mulher hoje é falar sobre o êxodo do povo sírio, do financiamento americano de guerras perpétuas, da abertura diplomática entre os Estados e Cuba. Conversinha de mulher é opinar sobre as ações coercitivas da Polícia Federal, do poder de Deus transferido aos homens mortais do Ministério Público. Conversinha de mulher é tentar entender onde vamos parar com tantos desmandos. Acreditam alguns que estamos vivendo um processo de depuração. Depois virá a paz…a tão sonhada paz…Isso sim, é sonho de homem. Mulher não acredita nisso! Não agora!

Conversinha de mulher é por fim analisar os dados dos relatórios sobre a violência contra elas e numa perspectiva realista tentar entender porque o aumento das denúncias e da pena não reduzem as agressões. Conversinha de mulher é cobrar dos governos uma reforma política inclusiva, cobrar educação de qualidade para formar os bons cidadãos para a sociedade que queremos ter no futuro; cobrar resposta rápida e eficiente para controlar as “zicas” que tornam a saúde pública vulnerável.

Em certa medida há um amplo espectro de estratégias para tornar as mulheres mais participativas politicamente, para que elas se preocupem mais com a vida cívica e com os contextos culturais e políticos de suas comunidades e o processo de engajamento naturalmente desperta a cobrança para que se coloquem nas disputas eleitorais, principalmente onde há um eleitorado desgostoso com os políticos homens que estão no poder. Não creio que seja somente questão de gênero, mas também a intenção de promover um emparelhamento de condições para romper e definitivamente deixar para trás os séculos de submissão.

Janela para o diálogo

Ao exercer a cidadania, naturalmente assumimos ares de engajamento político e isso sinceramente não é algo que emerge como se fosse da nossa natureza. É sim, um exercício cultural de realização adotado por indivíduos que interagem significativamente e puxam o debate para si. Na política nada se move ou acontece que não seja por articulação, cobrança e mais cobrança.

Lutas de décadas para consolidar a democracia, para garantir lugar mais amplo para o envolvimento de sociedades plurais na elaboração de planos de governos e estes são sistematicamente abandonados e substituídos pelas velhas práticas do toma lá, dá cá. Tem que cobrar? Tem!

A participação dos cidadãos no desenvolvimento de políticas ou no acompanhamento da prestação de serviços são disposições que dão visibilidade para uma sociedade civil vigorosa e vibrante. Os governos brasileiros tradicionalmente convivem bem com críticas, cobranças, demonstrações públicas de apoio e repúdio e o povo tem conseguido dar o recado, ciente de estar vivendo simultaneamente as duas piores crises; política e financeira.

Não somos espectadores. Somos os protagonistas de nossas existências e responsáveis por manter a vida dentro do padrão que acreditamos ser ideal, somos responsáveis por expressar ideias e defende-las com argumentação séria e procedente.

Janelas precisam ser abertas para o diálogo e não apenas para permitir troca de partido. Não devemos assistir inertes os preços subindo a níveis descontrolados, a corrupção levando para o setor privado recursos que deveriam abastecer políticas públicas, das quais muitos se beneficiariam. Não há como não nos envolvermos nas tomadas de decisões, pressionando a classe política, que em tese nos representa nas esferas mais altas na corte estadual e federal.

Cidadãos e governantes são atores inseparáveis. É pior se você pretende ignorar a política, não tomar conhecimento das audiências públicas que são realizadas, dos movimentos sociais e sindicatos que lutam por determinadas categorias. Parece razoável sugerir que o exercício para desenvolver a cultura do engajamento político comece nos pequenos agrupamentos de amigos e familiares e nas reuniões de organizações sociais.

A participação dos cidadãos nas decisões políticas é a base da democracia. E a democracia, como um processo de liberdade em construção, deve ser recalibrada e reimaginada sempre que o caminho da política não nos ofertar serviços públicos decentes, educação de qualidade, acesso ao sistema de saúde, entre outros.

Num discurso inovador, o primeiro-ministro inglês David Cameron disse que em sua visão de grande sociedade (Big Society) é imprescindível o governo adote abordagem totalmente nova para governar; envolvendo a comunidade e os funcionários públicos nas tomadas de decisões. Em termos gerais, a medida evita pressões, cobranças dos cidadãos quanto aos serviços ofertados, além do interesse real de entregar melhores serviços a população.

A República não tem amantes

No mundo moderno escandalosos casos extraconjugais são frequentemente comentados e explorados pela mídia e opinião pública.

As pessoas e a mídia gostam de saber sobre a vida particular e os ilícitos affairs dos políticos e famosos, como os ocorridos na Casa Branca sobre Eisenhower, Roosevelt (tanto o presidente quanto a primeira dama, Eleanor tiveram casos extraconjugais) e Keneddy?, no Palácio do Planalto sobre Getulio, Juscelino, Collor, FHC e Lula e no Palácio do Eliseu sobre Mitterrand, que tinha duas famílias com filhos em duas casas, Sarkozy e Hollande, citando apenas os casos dos mandatários de 3 países, que deixaram escapar que suas vidas privadas foram, enquanto exerciam a presidência de seus países, recheadas de traições, escândalos e favores sexuais.

Muitos políticos nacionais e estrangeiros são até mais famosos devido à suas extravagantes vidas particulares do que pelo desempenho no exercício dos seus mandatos. Claro que há assédio, claro que o poder torna os políticos mais atraentes, claro que num certo momento as amantes vazam os segredos. Elementar caros amigos!

Não há nenhuma evidência de que a atividade política leve o indivíduo a colecionar casos extraconjugais. O que ocorre é que os deslizes tornam-se públicos, embora o direito a privacidade nas questões pessoais seja direito de todos. Deve sim existir vida privada para os entes públicos.

Lembrando que a dignidade e o respeito devem ser a base da relação entre o público e o privado e que, em certa medida, assumir o privado pode prejudicar uma pessoa pública. É bom deixar claro também que ninguém é amante da república ou de outra instituição qualquer, e que estas também não geram filhos.

No universo do público, o sexo está completamente dissociado de compromisso. Numa rápida visita ao passado, pude concluir que pouquíssimos políticos que conheci abandonaram suas famílias por causa das romances extraconjugais. Alguns não, muitos viveram vidas em jornadas duplas e assim passaram muito tempo com familiares fazendo vistas grossas ou minimizando estes relacionamentos paralelos.

Certa feita fui abordada por uma preocupada assessora que estava tendo um caso, nada secreto com um político amigo. Disse-me que estava arrasada com os comentários de que o tal político abandonaria a família para viver com ela, que negava-me o relacionamento.

Não me contive e disse-lhe malvadamente que isso jamais aconteceria porque o amigo político era uma homem apaixonado pela sua mulher e que se por ventura, ele estava tendo um caso com alguém, essa pessoa seria logo abandonada por ele.  Acho que o romance não evoluiu porque o casamento continua.

Um político casado sustentou uma bela amante por muitos anos. Separou-se e casou-se novamente. Engana-se quem pensa que a amante foi elevada ao posto de esposa. Aparentemente bem casado, dispensou a amante.

Claro que mulheres públicas também traem. Eleona Roosevelt e a princesa Daiana tiveram suas experiências amorosas censuradas e criticadas. Porém, num país machista como o Brasil esses fatos não chegam a manchar a biografia dos políticos. Nem mesmo quando as amantes oficiais são sustentadas com recurso público.

Isso sim, uma vergonha, considerando que os salários que recebem são altos e podem manter as suas expensas a oficial e a teúda e manteúda, o que não seria da nossa conta.

O arco-íris não espera

Estar presente nos momentos importantes da vida em família é um desafio que todos nós enfrentamos. Falta tempo, dinheiro e oportunidade. Mas mesmo que as  dificuldades pareçam perpetuamente intransponíveis, precisam ser vencidas.

Uma vida com significados profundos constrói-se vencendo obstáculos, juntando-se à família e amigos para compartilhar momentos que tarde, muito mais tarde, essas memórias serão a redenção de nossas vidas vazias.

A vida é um evento do qual participamos exercendo múltiplas tarefas. É natural então que nos sintamos exaustos, movendo de um lado para outro, envolvidos em emoções e estresse desde a hora que nos levantamos até o momento em que vamos para a cama. Isso lhe parece familiar, não? Saiba que sua presença é demandada em outras esferas da vida, saiba que sua experiência pode ajudar, acalmar, restituir a segurança. Guarde energia para gastar com o que vale a pena: com pessoas! O mais, tudo o mais pode esperar um pouquinho. O trabalho pode esperar enquanto você contempla o arco-íris, mas o arco-íris não espera você terminar o seu trabalho.

Ser presente de forma plena parece contraditório para aqueles que sacrificam a vida correndo atrás de garantir um futuro rico. Lembro-me então de uma frase atribuída a Henry D. Thoreau: “Você deve viver no presente, atirar-se em todas as ondas, encontrar sua eternidade em cada momento. Os tolos ficam em suas ilhas de prosperidades, vislumbrando outras terras. Mas não há outra terra, não há outra vida, senão esta”.

É profundo imaginar que quando nos colocamos presentes numa situação do cotidiano ou fato extremo, não é apenas a presença que estamos oferecendo, mas a estabilidade, a paz, a liberdade e a generosidade são percebidas na ação de desprendimento e presença. Não podemos nos relacionar e conviver com as pessoas baseados apenas nas condições ideais e na razão. O amor é compassivo, pacificador; traz a calma, afasta o medo e o drama. Estar presente é trazer afago. Para estar presente na própria vida e na vida de alguém, não devemos considerar o tamanho da ajuda que podemos oferecer. Doar-se é em si, um ato desmedido.

Estar presente vai além da presença física. Ser presente é uma oportunidade generosa de ser obediente à consciência desenvolver as habilidades da confiança, da segurança, da compreensão. Ingredientes vitais para o equilíbrio nos relacionamentos.

Estar presente é caminhar entre as histórias que se ouve e o silêncio, é deslocar-se das desproporcionalidades. Não é possível sofrer mais ou menos, não se vive mais ou menos, Ou seja, quando estiver envolvido numa situação, esteja lá com todo seu coração!

A vida no piloto automático

A intrincada dança da rotina é que nos impede de quebrar certos hábitos e promover as mudanças que realmente importam em nossas vidas. São os hábitos que determinam o que comemos, como ocupamos nossas horas, como gastamos nossas economias. Como robôs ou escravos, vamos nós agindo numa sequencia de movimentos programados, que limitam os ciclos do nosso comportamento.

A vida, como um par de sapatos velhos e bons deve ser amaciada, lustrada, receber remendos, meia sola, para que confortavelmente dure muito. Vasta vida não pode existir apenas dentro de preocupações pessoais. Não existimos dentro de um quarto decorado refletindo nossas próprias imagens do piso ao teto. Dentro desse conceito estreito, a vida se torna monótona e insana. Estranhamente muitas pessoas sentem-se seguras em suas prisões apesar da natureza humana ser potencialmente criativa e transformadora.

Então, como escapar dessa prisão que transforma pessoas interessantes e competentes em seres angustiados?

Teorias de como mudar a vida podem ser encontradas em manuais e livros que buscam esclarecer porque algumas pessoas lutam para mudar e não conseguem e outras, parecem renascer a cada dia. A princípio considere que mudar a vida implica mudar os hábitos e para mudar os hábitos inexoravelmente afetamos a rotina de outras pessoas, com as quais nos relacionamos.

É um processo de libertação das amarras que fazem mal, dos laços que apertam, dos horários exíguos, do tempo escasso. Mudar a vida não é alisar o cabelo, perder peso, aprender um idioma, fazer uma viagem.  E a menos que se reconheça o peso embutido nesta atitude, a vontade de mudar permanecerá apenas como uma voz dissonante num interior em declínio pela rotina.

Os hábitos que moldam a rotina são profundamente tóxicos, insidiosos e muitas vezes invisíveis como um vírus, que destrói a satisfação, a emoção rara de flertar com a vida; um sentimento que desponta apenas quando a vida não é levada tão a ferro e fogo. Em outras palavras diria que o apego aos hábitos determina falta de criatividade e controle sobre as situações que trazem riscos e que podem machucar.  A rotina que organiza a vida é necessária, entretanto os hábitos que mantém nossas vidas operando no piloto automático deixam a impressão de que a vida está apenas passando por nós…E a vida é uma jornada de acontecimentos extraordinariamente impermanentes.

Ironicamente a rotina exagerada é uma voz destoante numa terça-feira de carnaval, onde nada sobrevive a desordem da dança, da alegria, dos relógios parados, dos corpos suados. Bem feito! Quando parece que vamos iniciar a rotina, nos salva o carnaval!

Mundo perfeito?

No estado de Australia do Sul o investimento na saúde consome 31,5% do orçamento do Estado. Logo após o nascimento, o bebê é inscrito no MediCare, para ter o acesso e atendimento facilitados nos hospitais públicos. O nascimento do bebê deve constar numa central do governo que controla o pagamento da licença maternidade.

O estado, sem distinção de renda, deposita pouco mais de 1 mil dólares, por um período de 18 semanas à família. Isso ocorre porque, na maioria dos casos, as empresas não pagam salário integral às mães durante a licença de seis meses. Preserva-se o emprego por um ano, mas o salário cai ao nível de um salário mínimo por mês. Óbviamente essas condições podem ser negociadas, mas, em geral, é isso o que acontece.

Pouquíssimos hospitais são privados. O médico não pode cobrar se tiver qualquer vínculo de emprego com o governo, mesmo acompanhando paciente num hospital privado. Meu neto Leonardo nasceu num hospital privado, obstetra particular e pediatra do setor público. O plano de saúde foi acionado para cobrir as despesas do parto e o inesperado nascimento prematuro e duas semanas de UTI neonatal não tiveram custo adicional para os pais.

Uma semana após a alta, a casa é visitada por uma enfermeira, que aqui chamam de Midwives. São especialistas em atendimento pós-parto e trabalham tanto para os médicos quanto para hospitais. Ela supervisiona a cicatrização da cirurgia, pesa, mede o bebê, observa-o sendo amamentado e orienta sobre depressão pós-parto.

Na Austrália cerca de 7 em cada grupo de 10 mulheres sentem-se deprimidas quando retornam para casa com o bebê. Uma situação que preocupa o governo. Tanto que na segunda semana, uma agente de saúde, do governo faz acompanhamento da recuperação da mãe e do bebe. Percebe-se através das perguntas uma outra preocupação, a violência doméstica. Na oportunidade, em tom formal, a agente do governo instrui quanto os endereços das entidades as quais deve-se recorrer em caso de necessidade de auxílio. Ao sair, checa o quarto do bebe.

Grandes hospitais são inúmeros em Adelaide. Entretanto o governo está implantando um novo sistema de saúde, que está gerando críticas por parte dos sindicatos dos serviços da saúde e usuários. O projeto chama-se ¨Transformando a Saúde¨ e inicia com a construção de um imponente hospital central, com atendimento ambulatorial contemplando todas as especialidades, centro para atendimento e cirurgias de média e alta complexidade, centro de reabilitação, laboratórios e centro avançado de pesquisas.

Disseram-me que o povo na verdade, não está interessado nesse complexo, cuja intenção do governo trabalhista é tornar a Austrália do Sul numa referencia nacional em saúde pública. Alegam ainda que o suntuoso edifício pode não atender as necessidades dos médicos e enfermeiros e que fizeram a opção por uma obra de arquitetura estética, que será entregue a população até o meio do ano.

Os antigos hospitais serão transformados em centros de atendimentos especializados, de forma que, uma vez acometido de um mal, o paciente sabe exatamente para qual unidade deve se dirigir. Haverá um hospital público para ortopedia, outro para mulheres e crianças, hospital cardíaco, outro para tratar doenças crônicas e outros. Estes hospitais estão sendo redesenhados como ambiente para cuidar de pessoas em condições de saúde complexas e crônicas.

Explorando o contraditório, percebe-se que este país moderno ignora completamente os 3% da população de origem aborígene. São negligenciados pelos governos, possuem baixa escolaridade, vivem em precária condição de saúde e em estado de pobreza, longe desse mundo aparentemente perfeito.

De Adelaide, Austrália

Eu não menti para você

Ignorância não é apenas não saber. É também uma criação maledicente para que as pessoas não saibam a verdade sobre as coisas que importam. Vivemos num mundo de ignorâncias plantadas e, mesmo que os conhecimento seja acessível, nem sempre é acessado e as pessoas continuam subtraindo conhecimento da tradição, da religião e o que é pior, da propaganda.

Com isso, vamos perdendo nossa capacidade de decidir levando em consideração as informações que poderiam nos beneficiar mais. Estamos cedendo muito facilmente aos encantamentos do mundo de respostas instantâneas. Devemos consultar mais, ouvir mais e mesmo com toda a imperfeição que permeia nossos seres, podemos nos reinventar a cada dia, contando com a imprevisibilidade, juntando pedaços, buscando um novo formato para nossas vidas.

Podemos crescer misericordiosos, enfrentar os infortúnios, aprender a fazer escolhas corajosas, em vez de ficarmos navegando num mundo de felicidade imaginária ou de caos induzido. A ignorância cria a ilusão de facilidades ou a paranoia de enxergar demônios em toda parte.

A vida boa não é uma coisa nem outra. Não se trata de colecionar tampouco repartir infortúnios.

Planos, assim como mentes e circunstâncias mudam. Estou cada vez mais convencida de que devemos procurar, acima de tudo, a simplicidade e não pode haver muita distancia entre o que somos e o mundo em que vivemos. A mente deve ser capaz de dar saltos que não machuquem o coração. Muitas vezes é mais confortável crer no tangível, no que o olho captura.

Ir além disso, almejar o que não se pode ver, pode ser pista de leve delírio… mas que assim seja!

Eu não minto para você quando digo que bem-aventurados são os  sonhadores, os poetas e aqueles cujos corações podem dançar em meio as incertezas; aqueles que são capazes de iluminar a vida com seus sorrisos; os corajosos que cruzam as pontes, rompem fronteiras de um lado para outro, porque acreditam que somos apenas uma raça, e almas irmãs.

Bem-aventurados os que acreditam na realidade e no milagre que só amor promove.  Bem-aventurados os que ousam ser melhores filhos, melhores pais, melhores seres humanos. Esses podem negociar com Deus suas mortalidades.

Estes podem visitar mais lugares, esquecer de tirar fotos e, usar a mente para recordar o que tem vivido. Que a dor e seu significado nos aflijam cada vez menos e que saibamos fazer ajustes nas nossas vidas até chegar ao ponto onde todas as distâncias necessárias tenham sido percorridas e todo o aprendizado tenha sido colocado em prática.

Jornalistas na linha de frente

As mulheres tencionadas a participar da economia, do sustento da família, têm investido cada vez em suas profissões. 
 Ascendem profissionalmente e exigem respeito como profissionais e ainda aquela velha história do gênero.

Cheguei na Austrália há 10 dias e a mídia está absolutamente voltada para o repúdio aos ataques machistas, acontecidos recentemente no país, em cima das mulheres jornalistas.

O primeiro caso teve desdobramentos sérios e levou à renúncia do ministro das Cidades que, em viagem oficial a Hong Kong, na China, teceu galanteios e tentou beijar uma funcionária da Embaixada australiana.

Ela reportou o desconfortável assédio à ministra das Relações Exteriores, Julie Bishop, a qual a Embaixada está vinculada. A notícia ganhou notoriedade depois que uma jornalista australiana começou a investigar o caso.

Apurou os fatos e escreveu um editorial, condenando a atitude desrespeitosa do ministro. Enfurecido, ele queixou-se com o amigo, ministro de Imigração da Austrália, relatando o ocorrido, alegando estar sendo perseguido pela fúria da conceituada editora.

Para solidarizar-se com o amigo, o ministro de Imigração, escreveu-lhe que não se preocupasse e referiu-se a jornalista com palavras absolutamente rudes e vulgares. Ao enviar a mensagem atrapalhou-se e a enviou para a própria jornalista.

O incidente duplamente ofensivo, foi considerado um episódio imperdoável pelo primeiro ministro australiano e a pressão pela renúncia do ministro das Cidades foi impiedosa. Ele reconheceu publicamente o comportamento inadequado e deixou o governo.

O ministro de Imigração desculpou-se publicamente com a jornalista. Dias depois, um ídolo do críquete australiano, um dos mais bem pagos jogadores, o jamaicano Chris Gayle, ao ser entrevistado por uma bela jornalista, fez galanteios ao vivo, elogiando os olhos e quando perguntado o que esperava do jogo, prontamente respondeu que esperava vencer e mais tarde sair com ela para celebrar a vitória. Bastou!

A mídia imediatamente reagiu a deselegância do jogador. Gayle minimizou inicialmente o incidente, depois veio a público desculpar-se. Foi multado pelo seu time, o Melbourne Renegades, que em nota afirma que a política do time não aceita esse tipo de comportamento, de embaraço e assédio por parte de seus jogadores.

Gayle deve sofrer certo boicote da mídia esportiva, já que a atitude desagradou emissoras de TV, que manifestaram apoio e solidariedade à jornalista pelo constrangimento que fora exposta.

Tanto a diretoria do time, quanto o jogador demonstram preocupação em superar o incidente. Certamente não há espaço para cantadas cretinas num espaço onde deve-se apreciar o desempenho profissional em detrimento de atributo físico.

O terceiro episódio, num cenário similar e mais recente, envolve um apresentador de TV que, ao dar boas vindas a Miss Austrália, que iniciava trabalho no mesmo canal, como a moca do tempo, fez galanteios e rodeou-lhe o corpo num abraço desproporcionalmente demorado, ao vivo.

Foi empurrado gentilmente pela moça e esmagado sem piedade nas mídias sociais, pelo comportamento inadequado em um ambiente em que o relacionamento deveria ser meramente profissional e respeitoso. Teve que voltar ao vivo, sozinho, para um sonoro pedido de desculpas.

Dar publicidade a estes fatos é um mecanismo importante para conter a empolgação de ataques machistas, pois uma cena destas pode impactar tremendamente a reputação de quem se atreve.

Ladeira a baixo

Parece que é improvável abrir um caminho favorável ao Brasil no próximo ano. Entretanto, continuar indo para as ruas com cores de roupas combinadas pelas mídias sociais, tirando “selfies” e carregando cartazes em inglês realmente não altera o quadro desilusório que vivemos. Eu não vejo pessoas pressionando a classe política para promover as mudanças que almejam.

Mudar o estado das coisas é sempre possível, embora nem sempre num curto prazo se considerarmos que, com raras exceções, as pessoas se atiram na política não porque é um ideal ou um trabalho bom, eles vão para fazer conexões e alianças para depois, legislarem em causa própria. Isso é algo que certas pessoas vão continuar fazendo enquanto existir a humanidade. O interesse próprio é o que alimenta as pessoas, constrói estradas, hospitais, escolas, indústrias etc…Já viu estrada construída por igreja, ou por uma organização não governamental?

As ações políticas permeiam nossas vidas do amanhecer ao entardecer e queiramos ou não, somos protagonistas ou coadjuvantes desse sistema que aí está. Se você não vota, não pode reclamar, porque foi omisso. Se você vota, não pode reclamar porque você concordou em participar, optou por confiar na proposta de algum candidato. Fazer o que? Votar direito. Cobrar os direitos.

É contra a frouxidão no controle dos gastos públicos, contra o suborno que corre solto que devemos nos posicionar. É por conta dessas práticas de privilégios que a desigualdade social persiste e avança no Brasil e no mundo. Pensa bem: 1% da população mundial possui tanto dinheiro quanto os 99% restante da população do mundo. A estatística do Credit Suisse, apenas reforça o que é perceptível: os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, relativamente mais pobres. No Brasil a desproporcionalidade é gigante e a expectativa de mais um ano ruim, deixa para análise um cenário bem sombrio.

O governo anunciou cortes. Será garantida a execução apenas de obras já contratadas e em estágio avançado rumo a conclusão e os gastos importantes mas não obrigatórios foram remanejados ou serão cancelados. Mantidos os Programas  de inclusão social e transferência de renda, como Bolsa Família, que são importantes para fomentar o desenvolvimento humano. É improvável que estas medidas sejam suficientes para conter a crise econômica e política e  não é realista esperar que a classe política abra mão dos privilégios num ano que vão dedicar-se a salvar suas próprias peles.

Enfim, ladeira a baixo todo santo ajuda. Despencamos! Fico a cismar…negar Chico Buarque é um direito, mas um povo que exalta Wesley Safadão? Sinceramente? Nem todos os santos podem nos fazer subir a ladeira.

Pequenas intervenções

Nós estamos juntos nesse grande mistério que é viver. Nós caminhamos, corremos, dançamos e descobrimos que a vida é um presente maravilhoso para ser compartilhado entre os iguais e diferentes. Os desafios que enfrentamos são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos com facilidade ou num curto período de tempo. O que desejamos nem sempre é possível, por isso temos que saber esperar, renunciar, sem alardear.  A cooperação deve substituir o conflito na construção de relações políticas saudáveis, de modo que as pessoas possam desfrutar do direito a ter direitos em todas as esferas da vida. Ainda estamos a aprender a ser um todo, a ser uma coisa só.

Se queremos crescer, temos de estar dispostos a aceitar uns aos outros em um nível mais profundo do que temos feito até agora. Temos de estar dispostos a unir as faces das diferenças de crença e de perspectiva. Ainda que dotada de certa inquietação e insubordinação numa sociedade marcada por porteiras e fronteiras, discorro sobre os poderes extraordinários dos seres humanos, que mantém-se no limiar do que pode ser explicado, dentro da moralidade ortodoxa que nos vigia.

Nós temos condição de converter nossas histórias, que tem poder de sedução para encantar os jovens. Acho que não deveríamos perder este momento. Não estamos aqui para sermos um fardo pesado ao planeta, ao próximo; estamos aqui para criar um mundo novo; uma sociedade nova que opera baseada no amor e na aceitação do outro e nesse sentido, mesmo as perspectivas mais estranhas podem ter algo genuíno para nos oferecer. Acredito nas pequenas intervenções, no poder das pequenas histórias.

Se estamos seguros de nossas crenças, a filosofia de outros não terá influência sobre o que pensamos, todavia, merece ser ouvida e entendida com respeito. Devemos nos deixar conduzir pela magia sob o pretexto de que é necessário aceitar o diferente, com a riqueza de pontos de vistas alheios. Na vida, as peças vão se encaixando, os pedaços se juntam para formar o todo para que todos possam se sentir confortáveis colocando sua peça no quebra-cabeça. Vamos aprendendo que as nossas diferenças exteriores não devem nos manter divididos.

Apesar de nossos vários pontos de vistas, temos que estar dispostos a escolher um novo modo de vida sobre o velho e fazer um esforço para preencher a lacuna que começa a se formar entre os vários campos da nossa individualidade. Um dos aspectos mais difíceis da vida é crescer intelectualmente, abrir-se, deixar-se impregnar pelo conhecimento, ver o mundo considerando sua multiplicidade espetacular, encantar-se com a simplicidade das pessoas e então, promover pequenas intervenções no mundo interior, para não ficarmos divididos entre o fascínio e a desilusão no ano que vem.