O estável, porém frágil governo brasileiro

O desencanto com a política convencional é um problema global, especialmente nos países desenvolvidos. Governos fragilizados e instáveis é algo recorrente e até uma característica da história da América Latina, desde quando as guerras de independência deixaram os Estados frágeis, incapazes de reprimir as investidas para a tomada do poder e então, muitos governantes tiveram momentos de redução significativa da expectativa do poder que exerciam.
A fragilidade política é ruim e é frequentemente utilizada como subterfúgio para propostas de golpe de estado, mudanças de regime, crises econômicas e muitos outros processos que desafiam a normalidade do estado.

Em termos simples, a democracia brasileira não corre risco, porém é inegável que estamos vivendo um momento de fragilidade política. O estado cumpre suas funções com certa fraqueza e instabilidade, com capacidade administrativa meio caótica, conflitos de interesses e corrupção no entorno dos órgãos governamentais, envolvendo além de servidores, políticos e empresários privados. Um estado de coisa mais do que suficiente para fragilizar o Estado mas não para corroer as bases da democracia.

O Estado brasileiro tem se mostrado abstinente em relação a vontade de fazer política e com isso os elementos que expõem a fragilidade ficam mais à mostra; o diálogo é substituído por pressões, revanchismos e ameaças. Talvez a longevidade concedida pelo instituto da reeleição seja um mal que vai se alastrando ao longo do tempo e acaba não melhorando as condições de desenvolvimento, além de recrudescer a prática da corrupção.
A sociedade demonstrou lá atrás, sinais de insatisfação e clamou por mudança, contudo o segundo mandato da Presidente mal começou e enfrenta sérias dificuldades; perde apoio político e delega completamente a política econômica ao Ministro e as negociações políticas, ao vice presidente. Aí esta o perigo!

Cientistas políticos sublinham que uma causa provável das turbulências é a incongruência entre a agenda escolhida pelos eleitores nas urnas e a implantada depois pelo candidato vitorioso. Ou seja, depois de eleito, o governante atropela a agenda proposta e define outra. As consequências desta prática são perversas para a democracia na medida em que as preferências dos cidadãos são violadas. e eles, eleitores, estão aprendendo a chiar.

A fragilidade política do governo existe em razão de sua própria natureza, falta de paciência para dialogar e também devido a magnitude dos desafios que tem de para superar a fim de obter um acordo concreto para garantir a estabilidade.
Parece certo que um gatilho dispara outro e assim sucessivamente. Os problemas parecem infindáveis. Há múltiplos fatores que afetam a instituição do Estado e muitos destes fatores reforçam e sobrepõem-se uns aos outros e atiça outras instituições a movimentarem seu potencial de impacto para promover mais drama. Vê-se que aqui e em toda parte é assim que a política está funcionando. Gestando um imbróglio atrás do outro.
Há um longo caminho pela frente. A presidente conta com apoio profundo entre os beneficiários dos programas de distribuição de renda. Porém, o escândalo da Petrobras não passa. nem cede espaço na mídia para questões positivas, como a educação, que vai bem.

Sem esforço para agradar

O ser humano é quem controla a máquina, todas. Com um olhar atento, percebo que há um certo comportamento manipulador nos relacionamentos reais e virtuais, um movimento estranho de nos colocar contra a parede para termos respostas prontas, posicionamentos de manada, esboçarmos atitudes recriminatórias, julgamentos.

Quando percebo que estou me esforçando demais para agradar, para ser compreendida, recuo. As conexões devem ser estabelecidas com base no respeito mútuo, no encantamento das trocas, senão, vira isso que acima citei; manipulação.

Não se exerce o poder sem consequencias. Pronunciamentos políticos, massacre de publicidade e muitos cidadãos parecem satisfeitos com o destino dos bombardeios das mensagens e tentam agradar, reproduzindo, compartilhando ideias que não representam seu pensamento verdadeiro.

É estranho, porém acontece de pessoas buscarem certeza e segurança intelectual no mundo de pessoas de conhecimento indiscutível, porquanto existe dificuldade em se manter fiel a própria identidade, devido à ausência de pontos de referência sólidos.

Ser indivíduo significa dispor de uma certa margem de liberdade para concordar e discordar, para criticar e para calar. A concordância intermitente nos torna irrelevantes e depois, não temos a necessidade dessa homogeneidade nacional, num momento em que propício seria, começar a pensar além da nossas próprias causas individuais, tanto na vida pública quanto privada.

Eu sei que você sabe, mas sejamos claros: é absolutamente vital que se estabeleça uma nova ordem de honestidade, de integridade e conversa reta sobre a política e políticos e sobre o futuro do nosso país e sobre isso não precisamos seguir outros, sentimos na pele as consequências da corrupção, da falta de investimentos em saúde, segurança e educação, pelo menos.

Anotações de um curso sobre política feito com Gaudêncio Torquato, anos atrás, relembra-me que a estratégia de bombardear as pessoas com anúncios políticos destinados a evocar insegurança é muito arcaica para servir a uma democracia estável, do século 21.

Vamos partir rumo a uma nova definição de integridade e criar grupos e redes de soluções, onde as pessoas se reúnem não apenas para apontar erros, mas para difundir ideias. Somos uma pequena parte numa solução maior e tenho vivenciado pessoas se reunindo em seminários, conferencias, incentivando redes que já estão se movimentando, promovendo bons debates.

Se por um lado não devemos ser como uma folha, deixando que cada vento mude sua posição; por outro lado, devemos estar abertos a novas provas.

Moralidade calibrada

Estamos fazendo política com raiva? Sinto que há neste momento uma ligação íntima e complexa entre a raiva e a política. A prática de fazer política com ódio não é só aceita, mas defendida por várias correntes filosóficas, que entendem que a amabilidade e não-violência não são instrumentos aplicáveis na política.

Argumentam que a raiva política tem um papel fundamental a desempenhar e é necessária para acentuar e promover mudanças profundas. Tenho dúvidas!
Porém, lendo o ensaio sobre a raiva, de Seneca, decido crer que a raiva política é um problema filosófico que podia ser tratado pela argumentação, com debates enriquecedores. A ira que ronda o congresso nacional, as faces de ódio que são exibidas, as palavras de efeito cortantes são frutos podres de uma árvore que detém ideias ora racionalizadas demais, ora radicais sobre o comportamento das pessoas e sobre o mundo.

E o problema delas segundo a avaliação negativa de Sêneca é que estas pessoas criam expectativas de dominação demais. O congresso nacional está sendo conduzido sob um ataque de ira, com a casa fechada a presença popular e seu o presidente passa o dia atacando todo mundo.
O que Sêneca diria é que, as confusões, injustiças e barbeiragens lá cometidas não são surpreendentes dado ao perfil dos que lá colocamos. Assim, seu primeiro conselho seria que fôssemos mais pessimistas ao ajustar nossa visão de mundo aos reveses da vida.

A onda de conservadorismo extrapolou no Congresso Nacional, com os discursos moralizadores, propondo restrições aos avanços que pareciam historicamente consolidados no Estatuto da Família, restringindo a constituição da família apenas com a união entre um homem e uma mulher; na questão da proteção jurídica aos embriões, na cura gay, entre outras medidas. Não nos surpreendamos se o Congresso pautar votação de medidas restritivas contra o rock, alegando que este tipo de música cria uma escada que desvia do caminho do céu.

É a cultura de demonizar o outro, vilipendiar as crenças que asseguram a compreensão e respeito as liberdades individuais. Há certo cinismo no ar quando falam de Estado laico e estão a derrubar os avanços conseguidos a duras penas, em nome de uma moralidade falsa e eleitoreira.

Sabemos que não podemos moldar o mundo de acordo com nossas convicções e retorno a Sêneca e a uma comparação que ele faz no ensaio citado. Disse que somos, como cães amarrados a uma carroça em movimento. A coleira é longa o bastante para termos alguma liberdade, mas não permite que cada um vá para onde quer. O cão logo se dá conta que ele precisa se contentar em seguir a carroça e que é bem melhor segui-la do que se debater contra algo que não se pode mudar e acabar se estrangulando.

Contudo, as noções de Seneca sobre raiva encontra amparo na maioria dos códigos morais e religiosos: a raiva é um dos sete pecados do catolicismo; é igualada com o desejo não correspondido no hinduísmo; é definida como um dos cinco obstáculos no budismo; no judaísmo, a raiva é considerado um traço negativo; e no Alcorão, a raiva é atribuída aos inimigos de Maomé.

Talidade

Os homens, indistintamente  desejam ter uma vida feliz e trabalham muito para conquistar liberdade, viver uma vida justa, o que  significa, no final das contas, viver feliz.

Os antigos gregos pensavam que o bem era a própria felicidade. Aristóteles dizia que o bem do homem, a felicidade, era uma atividade da alma.

A felicidade para Platão era ascender aos céus, igualar-se aos deuses. O homem deveria buscar a harmonia absoluta, ser governado somente pela razão e evitar as interferências das experiências sensíveis.

Na idade média e na era moderna, esse pensamento foi alterado para um significado mais material, onde a felicidade é prazer ou ausência de dor. Outros filósofos fazem distinção entre felicidade e prazer dizendo que felicidade é permanente e universal, enquanto que o prazer é transitório.  Spinoza diz que felicidade não é a recompensa da virtude, mas a virtude em si.

A felicidade de Bauman não é divina e nem diabólica, mas um meio termo quase impossível. Bauman propôs um plano que prevê conscientizar as pessoas de que o crescimento econômico tem limites; convencer os capitalistas a repartir os lucros em função dos benefícios sociais e ambientais e mudar a lógica social dos governos, para que os homens enriqueçam suas existências por outros meios, que não seja só material.

Materialmente, alguém é feliz porque é rico, goza de conforto. Já felicidade mental e espiritual relaciona-se com a amizade, amor, harmonia. Essas condições de felicidade dependem de causas externas, onde a felicidade é vivenciada ao se ter algo ou receber algo de alguém. Dessa maneira, quando a causa da felicidade cessa, a felicidade também desaparece, justamente por estar além de nosso controle.

Mesmo a felicidade que vem do amor, da amizade, simpatia e bondade não é algo que de que se possa depender, pois o amor frequentemente se transforma em outro sentimento, amigos se distanciam…

A vida nos ensina que o melhor é olhar para o centro das coisas ao invés de olhar ao redor, procurar a felicidade em si mesmo e não no mundo exterior e saber lidar com os incontroláveis acontecimentos lançados pelo destino.

Devemos olhar para dentro de nós mesmos a fim de constatar o que cria a felicidade;  encontrar o caminho do amor ao invés do caminho de ser amado. Este é o mundo da Talidade. Ver coisas como elas são. A verdade como ela é, a felicidade em seu natural. Talidade é o mundo livre da artificialidade, onde uma rosa é uma rosa e o homem é o homem.

O homem moderno usa máscaras demais. Devemos tirar as máscaras e sermos nós mesmos, de maneira sincera e honesta e, assim, viver verdadeiramente com as limitações que nos caracteriza, pois, o rumo do que deve ser uma experiência preciosa, nunca erra

Pequenos delitos

Não somos limitados pela situação que nos encontramos, mas pela atitude que adotamos. As pessoas se sobressaem quando tomam atitudes inesperadas, que causam grandes impactos sobre a vida de outras pessoas; são inspiradas e motivadas a desviarem-se dos processos e práticas testadas, partindo do princípio básico de que se você optar por fazer as coisas da maneira que todo mundo faz, obterá os mesmos resultados dos outros.

Ninguém nunca mudou um grande cenário, fazendo o que todo mundo faz. Se o comportamento convencional das pessoas é irmanarem-se no erro, sejamos pois, inconvenientes.
Vivemos em um mundo onde o fim justifica os meios e isso não pode ser aceitável. Um indivíduo desonesto em qualquer aspecto da vida, vai ser desonesto todas as vezes que tiver oportunidade. Afinal, se uma pessoa não se pode confiar nas questões mais simples de honestidade, como poderia ser confiável em negócios maiores e mais complexos?

O que um exame sereno das circunstancias mostra é que a força dos maus hábitos não encontra, para resistir-lhe, a punição sistemática. Nota-se má fé no Parlamento que não vota as reformas necessárias e aprova as propostas que bem entende. Má fé dos opositores que ficam nas superficialidades e quando podem apontar os erros, temem ir ao fundo da ferida, afastando-se da conclusão que às coisas se compreende melhor quanto mais são discutidas à luz da honestidade. O mal único, o mal essencial, o mal a curar do Brasil é a falta de integridade e a forma como esta estabeleceu-se como advento intrínseco da cultura brasileira.

Nas práticas diárias em casa, nos cruzamentos das ruas, nas calçadas vê-se a despreocupação em corrigir-se, em reformar os hábitos corrompidos. O adesivo “Muda Brasil” está ainda grudado em carros que sobem a contramão da rua (de mão única) onde moro. E numa desenvoltura alarmante, espero que concluam seus delitos, para então, ter a oportunidade de entrar na garagem.

O consumo de produtos falsificados entre a classe média e alta foi objeto de pesquisa na disciplina Sociologia do Consumo, na UFMT. Michael Kors e Louis Vuitton “made in China”, percorrem corredores nobres da corte, com altivez e arrogância. Segundo um entrevistado, a classe alta não frequenta o shopping popular, porém recebe as sacoleiras que invadem as repartições, onde pessoas com grandes salários se lambuzam às compras, procurando réplicas de modelos tradicionalmente caros para enganar ninguém, senão a si mesmas.

É uma compra sem nota aqui, um produto falsificado ali, um pneu só sobre a calçada, um olhar indiferente a quem precisa e assim, credita-se à cultura o comportamento deseducado e mal intencionado, que pode efetivamente ser corrigido. Basta querer e estas ranhuras do sistema corrompido, podem ser reparadas.
O mega investidor americano Warren Buffet disse que quando procura pessoas para contratar, ele se fixa em três qualidades: integridade, inteligência e energia. Porém se as pessoas não tem a primeira, as outras duas, as matarão.

Que coisa feia!

Incivilidade, falta de educação e atitudes inapropriadas tem sido o recheio da mídia nas últimas semanas. Mensagens carregadas de ódio, racismo, pessoas que desabafam seus sentimentos ofendendo, desprezando os outros, fazendo-se os donos da verdade, como os que seguram um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; mas enquanto isso, se queimam.

Sabemos que circulam entre nós pessoas abomináveis, que promovem julgamentos racistas, onde a cor da pele determina como a pessoa deve ser tratada pela vida. Um olhar sobre as estatísticas sugere que, apesar de tudo o que se avançou na questão de igualdade racial, honestamente, não importa para onde você olha, a raça ainda é um fator muito importante para determinar o tratamento que se dão às pessoas. É uma lástima, mas certas pessoas só entendem as coisas mediante suas acanhadas percepções

Tentaram explicitar isso à apresentadora de televisão que foi vítima de xingamentos racistas. Isso não configura crime?
Civilidade e educação continuam sendo parte de um discurso moderno de quem aprecia discutir igualdade racial, política e de gênero.
Mas o que dizer do tipo de pessoa que pratica um discursinho insosso e na falta de conhecimento das praticas democráticas e outras nem tão democráticas assim para se destituir um governo, atacam sordidamente, com falta de respeito e distribuição de adesivos ofensivos que ridicularizam a condição feminina da presidente da república? E se a foto fosse da sua mãe?

Longe de mim, achar que devemos limitar o discurso, seja de raiva ou não, de quem quer que seja, mas é uma carga tolerar o comportamento grosseiro e pouco civilizado de muitos. O comportamento incivilizado e descortês, especialmente em conversas políticas, merece considerável atenção para investigação.
Boa educação tem os que observam as normas morais e sociais, os que foram instruídos no respeito, na tolerância e na bondade. A civilidade, concentra-se mais nos valores da sociedade civil, nas práticas democráticas e na rotina do debate. Juntando os dois tem-se pessoas que a outros concedem direitos e oportunidades iguais e que tratam os irmãos como gostariam de ser tratados; indivíduos com conceitos robustos de democracia e de respeito.

O preconceito tem duas fontes, ensina o filósofo Mário Sérgio Cortella: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele.

Flores do mal

Baudelaire, um dos maiores poetas do final do século 19, graças à sua genialidade com as palavras, escreveu em 1857 o livro as Flores do mal. O livro foi mal compreendido, proibido e recolhido. Em 1861 volta em segunda edição, com quadros da vida cotidiana de cidadãos marginalizados na Paris moderna, e a vida é colocada como cena melancólica, dolorosa e difícil.

A beleza em Baudelaire não combina com a normalidade e a modernidade não era primariamente uma designação para um período histórico. Era uma aspiração estética, uma vida voltada para a superficialidade, para a aparência e valores volúveis.

A poesia de Baudelaire exprime igualmente essas convulsões e angústias que assaltam os corações em todos os tempos. Eis a relação da sua poesia, na aparência tão sofisticada, com a vida de sentidos despedaçados.

O poema de abertura do livro Flores do Mal oferece provavelmente o retrato mais aterrorizante da versão do tédio, da tristeza. Ele afirma que, de todos os males, talvez seja, a tristeza, o mais vil de todos. Em contraste com outros sentimentos, a tristeza não faz alarde, não dói no peito, não chama a atenção para si.

Lentamente faz sucumbir a preciosa vontade de reagir. A partir daqui, os limites normais são apagados e as vítimas, quando podem saem em busca de algo para sentirem-se vivas. O céu é negro e torna o dia mais escuro que a própria noite. O abraço que envolve a todos, pode indicar a condição de estrangulamento. Dias e noites igualam-se. Em dias assim, tão obscuros, a esperança parece minguar e o futuro é inalcançável.

Provocativo, Baudelaire avança a partir dos retratos chocantes da tristeza como um monstro, que requer um tipo diferente de luta, onde a falta de vontade de viver é representada como um componente interno de uma vida criativa, que gira fora de si, num presente fugaz e futuro irrealizável.

A vida entristecida é tão apenas a personificação da morte em vida. Ao mostrar a degradação causada pela modernidade, pela frugalidade, ele mesmo passageiro de uma viagem efêmera, demonstra riqueza ao conseguir unir à degradação interior à figura do belo.

Baudelaire escreveu sobre um tempo em que não há esperança, sobre um tempo em que não se pode recriar a liberdade, sobre um tempo em que a tentativa de reconstruir uma vida justa lateja em dor. Tão contemporâneo!

Artigos e discursos sobre a tristeza, a perda da vontade de viver, tem ganhado grande audiência, no entanto estamos assombrados com este tema que assinala a entrada em um mundo de possibilidades inexploradas. E a alma é uma coisa tão frágil e impalpável, que muitas vezes é tapeada pelo mal, que vem suavemente travestido em flor.

Baudelaire, ele próprio, um homem angustiado e melancólico. Boêmio desde os 18 anos, Baudelaire vive um período  nas ruas, apaixona-se por uma prostituta, contrai doenças, perde-se e morre aos 46 anos.

A vida é muito curta para ser pequena

Apesar de ouvirmos sempre que a vida é um teatro, que não permite ensaio, que vem sem manual de instruções, o Ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, que tem sido convidado a ser patrono de turmas de Direito, sobretudo da UERJ, onde ministra aulas há décadas como professor titular, chama os alunos de filhos espirituais, enumera as boas ações que devem praticar segundo um manual para a vida, cuja oralidade busca palavras simples, porém de efeito profundo, para a reflexão dos jovens.

Dá exemplos, cita parábolas bíblicas, trechos de Kant, numa tentativa monumental de dar vigor e esperança para quem está se apresentando para a vida adulta.

Ao ler os discursos não resisti reproduzi-los, com revelada pretensão, à minha maneira, ora acrescentando ingredientes éticos que considero indispensáveis à uma vida plena e harmoniosa, ora revelando a insensatez do mestre adentrando a vida pessoal e espiritual dos pupilos.

Mas isso é também fruto do afeto, da ansiedade de condensar os ensinamentos num guia para se ter às mãos nos momentos tempestuosos. Sabemos que a vida é plural, que a felicidade é vivida de forma diferente por cada pessoa e que as verdades são descobertas ao longo da caminhada.  É preciso estar atento, saber ouvir todos os lados da mesma história.

Percebo que muitas vezes não sabemos quem está certo porque não sabemos interpretar os fatos. Temos a tendência de não vermos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos. Portanto nunca formemos uma opinião sem antes ouvir todos os lados. Pois a verdade não tem dono e pode ter várias faces.

Diz que não somos dispensados de agir com integridade nem quando somos acometidos por coisas tristes. Portanto, independente do que estiver acontecendo à nossa volta, devemos fazer o melhor que pudermos, sermos bons e corretos, mesmo quando ninguém estiver olhando. É sábio pavimentar o caminho sem esquecer que ninguém é bom demais, que ninguém é bom sozinho e que precisamos aprender a ser gratos.

Certamente alguns se reportarão ao advogado constitucionalista, como o ministro que defendeu pesquisas com células tronco, a equiparação da união homoafetiva à união convencional, que seria um excelente ministro na Suécia. Intrigas? Má vontade com o ministro? Não sei. Mas não é disso que estamos falando aqui e sim, do breve manual de instruções que afetuosamente elaborou para seus alunos.

A má vontade emperra a reforma política

As discussões sobre a reforma política têm dominado a agenda dos políticos brasileiros desde que a democracia foi reintroduzida no Brasil, como o único instrumento viável para a renovação do ambiente político, mas igualmente há décadas, encontra-se emperrada nos corredores da Câmara Federal.

Sem entendimentos, exibindo conteúdo fatiado e com viés de autoritarismo, o processo de reforma tem sido conduzido de forma caótica. Até agora, batem sempre na mesma tecla, o fim da reeleição para os cargos do executivo, quando vários outros temas considerados de suma relevância, tais como; a redução do número de partidos, o fim do financiamento empresarial às campanhas, regulamentação mais sérias as formas de coligações, para que elas não sirvam apenas para somar tempo no horário político na TV e a unificação das eleições, devem aguardar na prateleira do plenário.

O financiamento empresarial de campanhas, deve ganhar contornos proibitivos. Isso á foi tentado antes , não avançou. As mesmas grandes empresas e empreiteiras continuarão dando as cartas na política brasileira, de outras formas. porque entre o financiador e o financiado, ficará a dívida perversa e o ônus da retribuição, num universo gigantesco.

O Brasil tem 32 partidos, segundo o site do TSE. A cada ciclo de 4 anos, com eleições regulares de dois em dois anos, o Brasil elege 59.500 vereadores, 1.059 deputados estaduais, 513 deputados federais, 81 senadores, 27 governadores e um presidente da república. O povo, que deveria estar na base do debate, apenas abana a cabeça consentindo com o que o Congresso decide. Para deputados e senadores, a reeleição continua valendo, lógico ou você acreditou que os deputados votariam contra algo que os favorece?

A falta de empenho e má vontade política são claras. Os parlamentares estão atuando para dizer que tentaram, mas não vai haver avanço significativo.
Os partidos estão acomodados do jeito que as coisas estão. Vão adiando, protelando até onde puder para não fazer efetivamente uma reforma política que possa decrescer os favorecimentos.
Sabíamos que iriam emperrar a proposta porque para os políticos, a discussão básica passava pela manutenção do financiamento das campanhas por empresas privadas, embora os partidos e candidatos podem, voluntariamente, recusar dinheiro de empresas mal intencionados. Parece que isso já ocorreu num passado recente. Poucos porém, ousam dizer não.
Enfim, o pacto em torno da construção de uma profunda reforma política, que ampliasse a participação popular, não aconteceu.

Saudade

Saudades, em mim, nunca têm pressa. Demoram tanto que
nunca chegam. Só quando eu danço me liberto do tempo — esvoam
as memórias, levantam voo de mim. Eu devia era dançar
todo o tempo, dançar para ela, dançar com ela.
Mia Couto
al pacino