Onde mora o amor

um elevando-se aos céus
Não tenho vazio nenhum
Vivo feliz e em paz
Sem expectativa de que outro guarda amor para mim.
O amor não é recompensa, um quadro pintado
Nem uma história imaginada, uma felicidade romântica.
Amor não é um pote de ouro que se encontra no final da busca.
O amor está em mim desde a busca
Reside na aflição, na espera, no encontro.
Amor onde mais você mora
No céu, nas nuvens ou no oceano?

A história de quando a noite reinava na Terra

“Antigamente, não havia senão noite e Deus pastoreava as estrelas no céu. Quando lhes dava mais alimento elas engordavam e a sua pança abarrotava de luz. Nesse tempo, todas as estrelas comiam, todas luziam de igual alegria. Os dias ainda não haviam nascido e, por isso, o Tempo caminhava com uma perna só. E tudo era tão lento no infinito firmamento!

Até que, no rebanho do pastor, nasceu uma estrela com ganância de ser maior que todas as outras. Essa estrela chamava-se Sol e cedo se apropriou dos pastos celestiais, expulsando para longe as outras estrelas que começaram a definhar.

Pela primeira vez houve estrelas que penaram e, magrinhas, foram engolidas pelo escuro. Mais e mais o Sol ostentava grandeza, vaidoso dos seus domínios e do seu nome tão masculino. Ele, então, se intitulou patrão de todos os astros, assumindo arrogâncias de centro do Universo. Não tardou a proclamar que ele é que tinha criado Deus.

O que sucedeu, na verdade, é que, com o Sol, assim soberano e imenso, tinha nascido o Dia. A Noite só se atrevia a aproximar-se quando o Sol, cansado, se ia deitar. Com o Dia, os homens esqueceram-se dos tempos infinitos em que todas as estrelas brilhavam de igual felicidade. E esqueceram a lição da Noite que sempre tinha sido rainha sem nunca ter que reinar.”

MIA COUTO, no livro “A confissão da leoa”

As virtudes que nos faltam

Até quando as mulheres terão que se levantar todos os dias e perguntar: “Qual é a minha cruz?” A inauguração de um abrigo temporário para mulheres em situação de violência, inclusive, com o risco iminente de morte, é mais uma obra que se integra à Rede de Atendimento às mulheres brasileiras. A Casa da Mulher Brasileira, um espaço moderno, que oferece serviços especializados e multidisciplinares é assim como todos os demais espaços destinados a este fim, a constatação da vulnerabilidade e das desigualdades promovidas pela questão de gênero no país.

Embora campanhas de conscientização existam e os casos de violência estejam sendo julgados com mais celeridade, falta o compromisso de fortalecer a participação da mulher nos espaços de decisão. Percebe-se que não avançamos muito no Estado. Ano de 2015. De 24 deputados estaduais, apenas 1 mulher; entre o secretariado do Governo, 3 mulheres; de 21 vereadores, apenas 1 mulher; entre a bancada federal do Estado, nenhuma mulher.

O preconceito e a violência contra a mulher, causam indignação pela recorrência e perplexidade pela estagnação do pensamento que ainda permeia o tema. Na moderna América, onde o discurso de uma atriz falando em igualdade de gênero na questão salarial ainda causa arroubos, um deputado republicano do estado da Virginia fez uma declaração estarrecedora, durante a discussão sobre o acesso das mulheres ao sistema de saúde reprodutiva. Ele pedia um adendo de excepcionalidade no abrandamento da lei, nos casos de gravidez provocadas por ato de estupro. Inacreditavelmente o deputado disse que o estupro pode ser algo bonito se do ato nascer uma criança.

“Rape can be beautiful!” Esta observação fez ressoar uma série de afirmações políticas embaraçosas sobre o corpo da mulher, lembrando que anteriormente um senador já havia declarado que não existe gravidez fruto do estupro, porque quando o estupro é legítimo, o corpo feminino se encarrega de expelir o feto, evitando gravidez indesejada. Outro senador, tentando corrigir o incorrigível nas declarações dos outros, disse que as mulheres rotineiramente fabricam histórias de estupro para obterem vantagens.

Observações igualmente ignorantes ouvimos também de políticos brasileiros. Os temas ligados à questão de gênero nem sempre são discutidos dentro de um contexto de respeito e seriedade.

Do outro lado do mundo, neste mesmo fevereiro de 2015, na India, durante um vôo, após as luzes serem desligadas, uma jovem sentiu que uma mão subia-lhe as pernas. Um senhor de certa idade sentado ao seu lado, tentava apalpá-la. A jovem registrou a cena no celular, levantou-se e o repreendeu em voz alta, avisando-o que ao desembarcar formalizaria a denúncia. Visivelmente constrangido, o velho senhor tentava cobrir a face e num tom de súplica, pediu perdão.

Um ataque sob qualquer perspectiva do mundo contemporâneo, é um ato condenável e pronto! Até quando a secular luta contra a desigualdade e violência terá que ser engendrada?
Lembro-me quando li Erasmo em “A educação do príncipe cristão”, ele disse que as virtudes mais elevadas para um ser ideal, seriam as virtudes consideradas fracas: a clemência, prudência, gentileza, civilidade, sobriedade, temperança, integridade e a equidade. Talvez sejam estas as virtudes que nos faltam.

Deserto da alma

As vezes no meio da caminhada, preocupação e felicidade descobrem-se amigas.

Que nunca te falte um bom caminho adiante,
Um sorriso nos braços da amante.

Que seja reflorestado o deserto da tua alma,

Que em meio ao devir, traga-lhe calma.

Que não te falte o pão de cada dia,
e tempo para ler poesia.

Deixo para os outros a arte de realizar. Eu só aprendi a sonhar!

Não me sinto atraída pela crise

borboleta
Cansado de tamanha negatividade?
Eu estou.  Parece haver uma conspiração contra a solução dos problemas, que inegavelmente são enormes e urgentes .  Deveríamos todos estar focados  na resolução da crise. Muitos porém, servem-se dela como um prato de saborosa vingança. Em todo o tempo, mais ainda nos tempos sombrios, a verdade deve ser dita, os culpados apontados e punidos. Isso não há levar um tempo tão indeterminado, que pode inviabilizar o recomeço dos projetos abandonados.

No horizonte sempre descortina-se um ponto de otimismo, a bússola aponta o norte verdadeiro, onde o recomeço do mundo reside.  Onde não estão contaminados pelo teor excessivo de pessimismo, a política, a economia e a vida cotidiana.

Tempo de despertar

Aos 81 anos, em boa forma física e atividades intelectuais em ebulição, Oliver Sachs, neurologista e escritor britânico, famoso, após ter tido um dos seus livros transformado num belo filme, “Awakenings”, traduzido como Tempo de despertar, com Robin Williams e Robert de Niro, nos papéis centrais, descobriu que a sorte acabou. Tem múltiplas metástases no fígado e este tipo particular de câncer, que já ocupa um terço do órgão não pode ser interrompido. Escreveu uma carta de despedida, publicada esta semana no jornal The New York Times. “Não há tempo para mais nada que não seja essencial”. “Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e me doei em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma boa relação com o mundo, e uma relação especial de escritor para leitor.”

Agora cabe ao escritor escolher como quer viver o pouco tempo que resta. Assegura que sofreu pouca dor com toda esta desordem e não obstante o grande declínio que a doença causa, não sofreu um abatimento de ânimo no espírito ardoroso, nos estudos e na alegria da companhia dos amigos. Tem planos de viver da maneira mais profunda e produtiva que puder e não pretende repousar o homem de disposição veemente, entusiasmo e de extrema falta de moderação em todas as suas paixões.  Diz que acima de tudo, viver neste belo planeta tem sido um enorme privilégio e aventura.

As pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam espaços que não podem ser preenchidos, pois assim é o destino de cada ser humano para ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, para viver sua própria vida, para morrer a sua própria morte. E diante da inevitabilidade da morte anunciada o tempo agora é tangível, quantificável e talvez isso seja um benefício. Aos 81 anos, é melhor saber do que apenas esperar.

Dr. Sacks é um homem interessante; foi um dos primeiros neurologistas a estudar o autismo como um transtorno médico em vez de um comportamental, um clínico que pelos relatos à época do filme, vê os pacientes além de suas enfermidades. O filme inclusive é baseado em fatos reais, de pacientes, cujas famílias autorizaram a divulgação dos casos diagnosticados por Oliver Sachs. O neurologista trabalha num hospital psiquiátrico, onde estão internados vários pacientes catatônicos. É preciso pesquisar uma medicação que possam despertá-los e ele chega a conclusão que um novo medicamento testado em pacientes com Mal de Parkinson, pode trazer-lhes de volta à realidade.

O diretor do hospital determina que se escolha apenas um paciente para submeter-se aos testes. Robert de Niro é Lowe, o paciente escolhido; há décadas ele estava adormecido. Ele se recupera e o neurologista administra o medicamento nos outros pacientes também. Os efeitos adversos e incontroláveis começam a surgir…

Oliver Sacks é professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é o autor de muitos livros, incluindo “Awakenings” e “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.”

Lua

 

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O que é essa lua que brinca lá no alto?

Muda de lugar, muda o brilho do meu olhar.

Faz-me ver deserto reflorestado

Pássaro que se desaninha

Alma boa que segue sozinha.

Que lua é essa que brinca e zomba?

Faz-me rir, rodar e tonta

Fitar o céu, rasgar o véu

Ver nascer riachos pequenos

Árvores, flores e uma casinha

Impenetravelmente minha!

 

Expectativas, esperança e medo

Aqui sentada aprecio a existência.

Sempre sou tomada por expectativa que gera esperança e medo. E mesmo quando acontece de conseguir o que espero,  as expectativas não cessam. Elas se multiplicam, são reforçadas e passo a alimentar novas expectativas.

Se parece inevitável conter o infindável querer devo dar asas as expectativas baseadas sobretudo na condição de impermanência das coisas.  Verdade imutável: Tudo passa! Esta consciência traz alívio. A dor é passageira, a felicidade também. Novos ciclos se iniciam, se fecham. Nunca se reabrem. Abrem-se outros.

Muitas vezes  atravessei tempestades e todas passaram”. Os problemas presentes que estamos atravessando agora, não são os maiores problemas. E os problemas de hoje, serão insignificantes no futuro.

Rocco e seus irmãos

Rocco e seus irmãos é um lindo filme de Luchino Visconti, (1967) que narra a saga de uma família do sul da Itália que migra para o norte rico e moderno. Os efeitos da mudança são sentidos na desunião que se instala na família, a mãe e quatro filhos, cada um a seu modo, procurando adaptar-se à vida na cidade. São tão distintos uns dos outros, que movem-se com desconfiança na mesma casa. A família Parondi mudou-se para que pudessem ficar juntos, mas não estão unidos em convívio e harmonia.

As incertezas que trazem a mudança, o vaivém da grande cidade, o estado de espírito mudou. Os irmãos se redefinem, afastam-se, surgem divergências, desencontros, brigas. Em Milão não passam de forasteiros, retirantes. A travessia para a estabilidade não ocorre serenamente, porque os fantasmas dos que ficaram, assombram-lhes os sonhos.

Desigualdades naturais e sociais

criança puxando água
Uma das constantes aspirações do homem é viver numa sociedade de iguais. Mas é claro que as desigualdades naturais são muito mais difíceis de vencer do que as sociais. Aqueles que resistem às reivindicações de maior igualdade são levados a considerar que as desigualdades são naturais e como tais, invencíveis. Ao contrário, aqueles que lutam por maior igualdade estão convencidos de que as desigualdades são sociais ou históricas e podem ser vencidas.

Rousseau, no Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, sustenta que a natureza fez os homens iguais e a civilização os tornou desiguais, em outras palavras, que a desigualdade entre os homens têm uma origem social e por isso, o homem voltando à natureza, pode retornar à igualdade. Experimente agora considerar o príncipe dos escritores não igualitários, Nietzsche, o anti-Rousseau. Para o autor de Além do bem e do mal, os homens são por natureza desiguais e apenas a sociedade, com sua moral de rebanho, com sua religião baseada na compaixão pelos defeituosos, é que fez que eles se tornassem iguais. Onde Rousseau vê desigualdades artificiais e portanto condenáveis e superáveis, Nietzsche vê desigualdades naturais e portanto não condenáveis nem superáveis.

( baseado no livro Elogio da serenidade, Norberto Bobbio)