O reino da Dinamarca e o ataque terrorista

Desembarquei sozinha em Copenhague. Era agosto de 2009, ainda verão, com temperatura entre 18 e 22 graus. Quinze dias de férias, no país dos meus sonhos. O reino da Dinamarca, outrora o pais dos vikings, depois invadida e ocupada pelos alemães, tornou-se livre em 1945; está situada entre a Europa e a Escandinávia, é uma nação próspera e culturalmente muito rica. Impossível descrever Copenhague, a cidade da famosa escultura da pequena sereia, numa só palavra, porque a cidade situa-se entre vários adjetivos: é linda, liberal, caríssima (para meu padrão), sofisticada, próspera e pitoresca. A bucólica Copenhague também tem trens elétricos, o Blue Planet Park, o maior e mais moderno aquário do mundo, o Tivoli Park, os bares e cafés da boêmia Kongensgad, o renomado restaurante Noma, premiado por 3 anos consecutivos como o melhor restaurante do mundo.

Sem roteiro, ia andando. Desde o belo porto de Copenhague, o Royal Theatre, The Opera, até a Universidade de Copenhague, que orgulhosa ilustra a história de seu filho famoso, o filósofo Soren Kierkegaard, considerado o pai do existêncialismo, que incorporava reflexões filosóficas na relação existencial do ser humano com o mundo e consigo, o que faz dele um autor angustiado e desconcertante.

Dentro de Copenhague está Christiania, uma vila que se auto proclamou uma cidade livre. Um grande área privada, onde o consumo de drogas e todo tipo de sexo é praticado livremente. Vale enfatizar que este país absolutamente liberal é, na sua essência, composto por 90% de protestantes luteranos, sem nenhum analfabeto. De trem fui de Copenhague para Esbjerg.

Uma das maiores cidades da Dinamarca, localizada á beira do Mar do Norte. Esbjerg virou a base para novas explorações. Cidade portuária, moderna, próxima da milenar cidade de Ribe, com suas três belas Catedrais católicas, (na Dinamarca só existe cinco) datadas de 1175. Ribe hospeda o melhor museu da cultura da era dos Vikings, cujo estilo de vida é reproduzido em encenações nas ruas. De balsa, fui para a Ilha de Fano, onde é proibido a entrada de veículos. Bicicleta alugada para trafegar pelas ladeiras, ruas estreitas e lotadas, num final de semana mágico de solstício de verão. Sol até as 22 horas. Por fim, fui a Billund, onde está construído o segundo maior aeroporto do país e a matriz da lendária fábrica de brinquedos Lego.

A Dinamarca é reconhecida pela equidade, políticas sociais universais, como o sistema de saúde e educação gratuitos e salário mínimo elevado, onde segundo pesquisa da ONU, vivem as pessoas mais felizes do planeta, considerando estilo de vida, ambientes familiares e culturais e respeito à natureza.

Paradoxalmente um jovem dinamarquês de origem árabe, de apenas 22 anos causou ranhuras irreparáveis nesta sensação de felicidade, atirando contra o Centro Cultural, onde reuniam-se em seminário para discutir a liberdade de expressão, o Ministro de Relações Exteriores da França, intelectuais e o artista sueco Lars Vilks, considerado o alvo do ataque, por que desenhou caricaturas de Maomé em 2007. Horas depois o jovem disparou contra uma sinagoga. O ataque à liberdade da Dinamarca era questão de tempo, porque a tensão existe desde 2004, quando um radical muçulmano assassinou o diretor de cinema Theo Van Gogh, um critico do fundamentalismo islâmico e no ano seguinte, um cartunista dinamarquês publicou charges do profeta no jornal Jyllands-Posten, o que gerou uma onde de violência no exterior, com várias Embaixadas da Dinamarca incendiadas pelo mundo afora. É senso comum afirmar que estamos diante de uma crescente crise de violência global que tem o potencial de se agravar e escapar ao controle dos governos.

Em busca da ordem flexível

Compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir as suas particularidades. O nosso mundo cotidiano, no qual nos movemos, como membros da comunidade, é habitado por homens de rostos, qualidades e gostos concretos, diz o Papa da Interpretação das Culturas, Clifford Geertz.

Encontrar lugares que se façam de ponto de reuniões de todas as tendências, misturando tudo até tornar-se o que verdadeiramente somos; onde um chega com sua filosofia, outro com opiniões políticas, outro com sua ideologia e assim muitos artistas, pessoas criativas estão produzindo suas artes e transfigurando o cotidiano em algo extraordinário; estão se tornando empreendedores criativos; trabalhando dentro de uma conjunto de relações talvez pequeno, mas estável e sem cobranças excessivas.

Alguns fazendo da sua arte, mais entretenimento do que o trabalho estereotipado para agradar e abocanhar clientes. Estes ambientes onde as pessoas ganham dinheiro com suas ideias criativas estão ganhando espaço em Cuiabá. Neste final de semana a Feirinha da tradicional Rua 24 de Outubro, comemorou um ano, lotada, entre ameaça de chuva e um público que não arredava o pé.

É bonito perceber como a relação de troca, que é considerada o bem mais essencial da cultura, se estabelece. Um valorizando e protegendo a arte do outro. Claro que é preciso alguém com olhar mais experiente para perceber a qualidade e a pureza da arte e a possibilidade desta transformar-se num bom negócio. Muitas vezes, é no afastamento dos ambientes tradicionalmente elegantes, que percebemos desenvolvimentos verdadeiramente criativos.

É de se louvar a criação destes espaços, onde gasta dinheiro quem pode e quer, porque o acesso é de graça e transitar ali é vivenciar o esforço de muitos para expressar sua criatividade cultural, interferindo no formato de uma rua tradicionalmente estreita e quieta. Um espaço também privado, a Casa do Parque, promove exposições permanentes de artistas com entrada gratuita. Oferece ainda, refinada programação musical com jazz, blues e clássicos da MPB.

Na tradicional Praça Conde de Azambuja, que já teve tantos nomes e hoje é conhecida como Praça da Mandioca, há um movimento nesse mesmo sentido. Fazer da criatividade e da arte, entretenimento e um meio de fazer bons negócios. O GranBazar acabou virando um ambiente de multiuso, onde simetricamente convivem, boêmios, artistas e os apaixonados por música e pelo centro histórico, que regam as noitadas com a cuiabaníssima cerveja Benedita, produzida com ingredientes que valorizam a culinária local.

Estamos falando de espaços novos, sem preterir a comunidade tradicional de São Gonçalo Beira Rio e outras, onde as ceramistas há muito já dispõem de espaço para a expressão cultural e artesanal e integram à Associação para facilitar a exposição e o fluxo dos objetos decorativos que produzem. É preciso multiplicar os exemplos, porque a economia alternativa ou social, como chamam os sociólogos, favorece a criação de espaços, que oferecem a possibilidade incrivelmente inovadora de associar criação e diversão com produção, para um público que consome, não essencialmente produtos, mas cultura.

Nai Talim, Gandhi e a educação

O relatório de Desenvolvimento do Milênio elaborado por profissionais do mundo inteiro, coordenados pela ONU, prevê até final deste ano, a universalização da educação “primária” no mundo, garantindo que todas as crianças completem o ciclo do ensino básico. Meta que o mundo não alcançará, por várias razões, entre elas, a exorbitante disparidade social que ainda separa um homem do outro e pela lentidão com que as reformas são implantadas.

A estrutura fundamental do pensamento de Gandhi sobre a educação, baseia-se no princípio de preparar a sociedade com pessoas boas, não apenas com alfabetizados e escolarizados. A educação deve ser uma arma poderosa capaz de promover uma revolução social silenciosa. Desdobra-se em liberdade, libertação da ignorância, da superstição e da submissão.

A concepção dessa ideia de educação, conhecida como Nai Talim, traduzida como Educação Básica para Todos, deu-se nos anos que Gandhi esteve na Africa do Sul e tal modelo educacional contraporia a herança imperial do modelo inglês vigente na India, que legava à nação a educação de homens dentro das necessidades de absorção de mão de obra do mercado e do estado, numa ação descoordenada entre mente, corpo e alma; por esta razão, a ênfase foi dada na conduta, nas qualidades espirituais, no serviço comunitário; uma escola com práticas acolhedoras, que se utiliza da diversidade cultural e religiosa do país subdividido em castas, para promover a inclusão. O objetivo da prática Nai Talim é extraordinário: Remover as intocabilidades.

Este estado bom, perseguido como um sonho distante, foi sendo implantado no país, diante do olhar incrédulo de muitos educadores e especialistas. Gandhi, um advogado que pregava a resistência à dominação inglesa, não está preocupado apenas com o intelecto. A alfabetização é apenas uma ferramenta para atingir o verdadeiro fim, que é o desenvolvimento pleno do ser humano.

Gandhi considerava que dois aspectos poderiam regenerar e melhorar a vida de seu povo: a saúde e a educação. Tanto a saúde quanto a educação, em sua opinião, envolvem todos os homens e toda a sociedade.  A saúde da comunidade não pode ser alcançada apenas através da construção de uma clínica; nem a educação da comunidade poderia nutrir e manter o espírito altivo, apenas construindo escolas. A visão holística ampliada de Gandhi foi marcada pelo uso de um novo vocabulário. A partir de então ele falou não só da Educação Básica Nacional, considerada um equipamento mínimo necessário para as crianças da nação, mas também de Nai Talim, o modelo da nova educação.

Para ser educativo para a mente, o corpo e alma, o projeto deve ser planejado e os materiais e ferramentas preparados para um fim comum. São todos ensinados a cooperar a despeito das diferenças de capacidade e temperamento. O tempo de provação, porém, não tardou chegar. O governo prendeu não só políticos companheiros de trabalho de Gandhi, mas muitos trabalhadores e alunos adultos das novas escolas.

O trabalho foi interrompido e somente gradualmente reorganizado em  1947, ano em que a liberdade política do domínio britânico foi restabelecida. Um ano depois, Gandhi é assassinado. Mesmo muitos anos após a morte de Gandhi um grupo grande de educadores Nai Talim prometem dedicar o resto de suas vidas para propagar a educação baseada no espírito da verdade e da não-violência.

Pessimismo é um luxo para ricos

Todos nós precisamos ajustar o rumo da vida num determinado momento. Viajamos através da vida e muitas vezes tem-se a noção de ‘não estar cabendo’ onde estamos ou “não pertencer” a um grupo de pessoas com as quais nos associamos. Como se estivéssemos um pouco fora de vida, espiando uma existência que não se coaduna com o que somos.

As chances são, de que todos já nos sentimos assim e não há absolutamente nada de errado em ter este tipo de sentimento de estar perdido num tempo e num espaço que não são familiares. O sinal de desconforto é apenas um sinal de que chegou a hora de promover mudanças na vida. Mia Couto, um extraordinário escritor Moçambicano, ao ser convidado para fazer o discurso da “Sapiência”, para uma turma de formandos, exaltou a nossa dificuldade de pensarmos em nós mesmos como sujeitos, como ponto de partida e como destino dos nossos sonhos. Falou que temos sete sapatos sujos, que precisamos descalçar e deixar na soleira da porta, ao adentramos o mundo que queremos ter.

O primeiro sapato é o da desresponsabilização. A velha ideia de que os culpados são sempre os outros e nós, as vítimas. Se quisermos algo, temos que construir e parar de olhar para nós mesmos com benevolência. O segundo sapato traz a ideia de que o sucesso não depende do trabalho e sim de forças invisíveis que comandam nosso destino. O êxito é sim, resultado do esforço do trabalho a longo prazo.
O terceiro sapato é o preconceito de tratar quem critica como inimigo. A intolerância desencoraja o espírito crítico e faz com que muitos debates de ideias sejam substituídos por agressões verbais, que demoniza quem pensa diferente. No quarto sapato, a ideia de que mudar as palavras, muda a realidade. Temos produzido discursos de ordem cosmética e que privilegia o superficial.

O quinto sapato é a vergonha de ser pobre e o culto das aparências. Vivemos num palco de representações, onde um carro, não é mais um objeto funcional. A arrogância e o exibicionismo são emanações de quem troca o conteúdo pela embalagem, mas já houve tempo em que éramos medidos pelo que fazíamos e não pelo espetáculo que somos capazes de promover de nós mesmos. O sexto sapato, a passividade diante da injustiça. Só denunciamos injustiças quando praticadas contra nossa pessoa, nosso grupo, nossa religião.

Estamos menos dispostos a denunciar quando a injustiça é praticada contra os outros e não nos afeta diretamente. O sétimo sapato é da imitação e da ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros e que só temos que manter a identidade naquilo que é folclórico. Em outras palavras, só somos modernos se copiarmos o estilo de vida dos americanos. Mia Couto provoca os políticos, a cultura herdada e nunca recriada, mas provoca sobretudo as pessoas que não sabem reinventar seu universo e se debulham às lamúrias. Os sete sapatos sujos não são frutos do imaginário do moçambicano, é a realidade escrita, questionando modelos de pensamentos que nos aprisionam a um cartão de visitas cheio do que não somos.

Tolerância, a maior virtude da democracia

Devemos buscar outras causas para a violência do que atribuí-las à religião. O terrorismo é a velha prática política de grupos radicais que recorrem à atos bárbaros contra pessoas ou coisas simbólicas, para provocar o terror, com ações que tem a priori o papel de vingar e atingir o centro de um poder. Os grupos radicais fazem dos atos de violência contra civis o principal instrumento de suas lutas. A ação terrorista supera os limites ideológicos, religiosos e não reconhece os limites territoriais, além disso, os extremistas quase nunca representam a totalidade da comunidade da qual fazem parte. O que parece claro é que seja quem foi o responsável pelo atentado na França, tentou-se uma jogada conhecida de atrair propaganda e apoiadores para o ato de selvageria. Violência não tem justificativa, embora possa ter causas.

É absolutamente repugnante e condenável qualquer violência praticada contra um ser humano, levando-se em conta que por ser humano, entende-se um ser revestido de pensamento, vontade, fé e liberdade. As razões, as provocações fazem parte do jogo democrático, da liberdade de expressão gozada pelos cidadãos franceses, até que os limites éticos da tolerância foram testados. Aí, a diferença cultural, a cultura do oriente e do ocidente se estranharam de forma traumática. A França, que foi o berço da cidadania moderna e desde a Revolução Francesa (1789) alimenta a tradição de idéias universalistas, que orgulha os franceses e seduz os estrangeiros, está confusa e busca entender como pôde o movimento jihadista penetrar e perfurar o posicionamento da sua cultura política de separação entre Igreja e Estado. Isto torna o ato terrorista um acontecimento mais chocante e perturbador.

Os estudos sobre a paz e conflitos tem ocupado minha mente. Não devemos cair em retrocesso civilizacional, não devemos limitar a liberdade, o pluralismo dos direitos, a democracia, pois que não é a diversidade de opiniões, mas a recusa da tolerância com os que tem origem, opinião e crença diferentes, que tem dado origem a maioria das guerras. É verdade que esses horrores não mancham a face da terra todos os dias, todavia, tem sido freqüentes. Como parar estes grupos terroristas? Como fazê-los entender que a ninguém é facultado o uso da espada para forçar os homens a adotar determinada fé, ou proibi-los de praticar outra religião? Como desmontar a bomba armada sob o pretexto de que a violência é um círculo que se repete infinitamente? O outro lado da moeda é reconhecer que a tolerância política e religiosa é maior virtude da democracia moderna.

Voltaire, o mais expressivo filósofo francês do período do Iluminismo, escreveu em O Tratado sobre a Tolerância, 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus? Possam todos os homens lembrar-se que são irmãos”

O fluxo da existência

Talvez apenas aqueles que entendem o quão frágil a vida é sabem o bem precioso que ela representa e como é importante levá-la a sério. Levar a vida a sério não significa gastar toda a energia meditando, categorizando e classificando nossos atos. Temos que trabalhar e ganhar a vida, mas não devemos ficar entalados numa existência metódica, sem qualquer ponto de vista do significado mais profundo da vida. Nossa tarefa é encontrar um equilíbrio, buscar um caminho do meio, para aprendermos a não nos doarmos em atividades estranhas e preocupações fúteis, mas para simplificarmos nossas vidas cada vez mais.

A chave para o equilíbrio da vida moderna é a simplicidade, viver com o que é  necessário e justo, apostar nos relacionamento humano, no conhecimento que traz a libertação, na calma diante das adversidades. Assim como as rochas que ao serem chicoteadas pelas ondas, não sofrem nenhum dano, mas são esculpidas em belas formas, nossos personagens podem ser moldados, podemos aprender com as perdas e decepções, que devidamente compreendidos, podem vir a ser uma fonte inesperada de força interior. Fortes ou fracos a nossa existência tem sido tão transitória como as nuvens no verão. Tudo muda e por esta razão podemos assistir nascimento e morte, dia e noite, sol e chuva e  qual dança de formas transitórias num mesmo dia,

Viver exige compartilhamento, conhecimento e esforço. Não é uma mera sensação agradável, uma experiência, que é uma questão de acaso, e sorte, tampouco um filme de histórias de amores felizes e infelizes. Não caia no erro de achar que viver bem é esbaldar-se em consumo e felicidade, na m estar na moda e posar de bem sucedido para influenciar as pessoas. Não! Até porque o que especificamente torna uma pessoa atraente independe da moda da época. E para tornar-se um mestre na arte de viver é preciso estudar a teoria e praticar e nada no mundo pode ser mais importante que esta arte. Talvez aqui tenhamos falhado. Nossa cultura enumera quase tudo como mais importante do que aprender a arte de viver e amar.

Eduardo Galeano num belo ensaio diz que somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Diz que vivemos em plena cultura da aparência, onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. Tem sido mesmo assim? Enfim, o choque entre transitoriedade e relações duradoras, passado e futuro, vida séria, vida fugaz, o que somos e o que fazemos, produz um comportamento que parece o de uma sociedade que celebra distrações estéreis, que passam longe da verdade.

O cacique e seu labret

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No universo Xinguano o velho é dono da história; o homem, dono da aldeia; e a criança, dona do futuro.
Neste momento em que cabe-me um breve exercício de retrospectiva e planos, as histórias que ouvi nas viagens ao Xingu, seguramente são as que mais produziram mudanças no meu estilo de vida. Dalí extraí a essência do que tenho sido, o alimento que purifica meu coração, o olhar carinhoso que acompanha a curva do rio onde os espíritos se banham.

Ao longo de 12 anos, o encantamento abrandou-se e cedeu lugar a uma convivência respeitosa. Meu mestre é o grande chefe Aritana Yawalapiti, que reorganizou politicamente seu povo inúmeras vezes, quando vencidos por invasões ou doenças. Alí aprendi sobre seus símbolos míticos, sobre fabricação dos corpos dos guerreiros, que as escoriações feitas no corpo são necessárias para que o sangue fraco seja eliminado antes das lutas, aprendi sobre respeito eterno aos mortos, a confiança no poder de cura dos pajés e aprendi sobretudo que as crianças são entidades intocáveis. Não há de se zangar com as crianças.

Movida por essas lembranças, recebi com alegria o cacique e pajé Raoni Metuktire, líder Kayapó, da terra indígena Kapot-Jarinã, na cerimônia de posse do governador Pedro Taques e eu que transito nos dois mundos ali constituídos; cerimonialista pública e estudante de Antropologia não entrei em conflito, quando o cacique quis se manifestar.
Ali estava ele, portando o habitual labret no lábio inferior, (um ornamento concedido aos guerreiros prontos para morrer por sua terra), revestido de sua autoridade de líder de uma nação indígena reconhecido no mundo inteiro, com sua cultura e seus protocolos, a seu tempo e hora. O cacique Raoni não “roubou” a cena. Fora convidado pelo governador e, portanto, estava solenemente dentro do cenário da posse.

De tudo sempre fica a certeza, de que o índio, o meio que ele vive, a cultura imaterial e espiritual se harmonizam com o Mato Grosso indivisível, majestoso e imponente, como disse Orlando Villas Bôas. O movimento de integração entre índios e brancos viveu outros momentos solenes, como em 2004, quando tive a honra de organizar a transferência oficial do governo para o Parque Indígena do Xingu. Todo staff governamental e chefe do Poder Legislativo estabelecidos na aldeia Yawalapiti.

O cacique Aritana, falando em aproximadamente 9 idiomas indígenas, intermediava a conversa. Alí sentados no chão da Casa dos Homens, vimos Mato Grosso ser governado a partir do Parque Indígena do Xingu.
Se a mim, como mato-grossense cabe um pedido ao novo Governador, eu aponto para o Xingu, a mais importante reserva das Américas e peço um olhar carinhoso para a questão indígena e com segurança digo que é no Xingu que pulsa o coração desse inigualável estado e que é plenamente possível conciliar interesses econômicos e preservação das áreas indígenas, viver a nossa contemporaneidade e respeitar a identidade e cultura deles.

Estado mínimo?

Impressionante e inexplicável o silêncio que envolveu a conversa sobre as mudanças climáticas e seus efeitos devastadores sobre a natureza e consequentemente sobre nossas vidas, ocorrida em Lima, no Peru. Apesar do clima no planeta nunca ter sido estável, as diferenças e divergências sempre existiram, a China continua sendo o país que mais polui, a culpa, porém, recai agora sobre os países em desenvolvimento, onde comprovou-se que metade dos gases estufa emitidos no planeta saem desses países, que embora instigados a assumirem suas responsabilidades, anseiam continuar crescendo a despeito da destruição da natureza. O tempo esgota-se e ninguém lança um olhar esperançoso sobre o problema. O mundo está num silêncio conveniente.

Mas por que devo eu preocupar-me se tudo, alienavelmente tudo que constituía a vida natural e pertencia a criação de Deus agora pertence a soberania da estrutura dos Estados? Houve um tempo em que vida e política não necessariamente se misturavam. A vida inquestionável e tutelada por direitos básicos estava acima da esfera política.

Foucault identifica que a vida do homem e todos os processos inerentes ao ser humano passaram a fazer parte do cálculo do poder. O controle político sobre os indivíduos não se dá somente pela consciência ou pela ideologia, mas a partir do corpo, do biológico. A vida é absorvida pelo Estado, que visando ampliar e fortalecer as suas forças, passa a gerir politicamente a vida dos homens, controlando os espaços públicos, ditando regras, estabelecendo acordos, intervendo nas ações individuais e coletivas, num tempo em que parecia moderno a máxima de governar menos, para uma eficácia máxima. A sociedade, porém, não se opõe, entrega-se.

Comportamento contraditório num momento em que o homem moderno conquista direitos universais e o domínio da sua vida entra em questão. A vida, o corpo, a saúde, as necessidades, a reprodução, que antes faziam parte da esfera particular da vida, transformam-se nas questões políticas por excelência.

O Estado ocupa-se de tudo, permeia todas as possibilidades de estabelecimento de novas práticas de economia, de cultura, de vida sustentável. Tudo é objeto de estratégia, de tomada de decisão, de implementação de políticas públicas para adentrar o sonhado Estado do Bem Estar Social, onde o Estado em si, exerce a representação dos indivíduos.  O usuário pode até fiscalizar os serviços, mas é o Estado que é colocado para coordenar a produção dos bens sociais.

A ação política anulou a capacidade do homem de produzir reação a partir de seu próprio sentimento ou de sua necessidade. O cidadão espera pelo Estado, que precisa ordenar que se economize água, para que ele o faça.

Para cada ganho há uma perda

Uma jovem de nacionalidade holandesa passou as férias viajando pela Ásia e documentou todos os momentos da viagem através das mídias sociais. Ela posou para fotos saboreando comidas típicas em restaurantes tradicionais, mergulhou em águas azuis entre peixes coloridos e visitou belos templos budistas na Tailândia. Férias perfeita, assim parece! Só que na realidade Zilla não saiu de Amsterdam, sua cidade natal.
Todos os cenários foram planejados com riqueza de detalhes, montagens e photoshop, justamente para enganar a todos e comprovar como é fácil manipular a atenção das pessoas e estabelecer como verdade o mundo online que orgulhosamente exibimos. O mergulho na água azul foi retratado com câmera especial numa piscina pública, os peixes foram adicionados pelo photoshop, um restaurante local colaborou com a experiência preparando os pratos e no próprio quarto, a jovem montava os apartamentos dos hotéis, com decoração oriental.

Viu só? É plenamente possível construir uma identidade falsa e disseminá-la para satisfazer as necessidades da cultura em particular exibicionista e vazia em significado e satisfação. A dependência cega da mídia para ler sobre a vida dos outros fornece alimento para reforçar a identidade que queremos exteriorizar, seja ela verdadeira ou não. Há uma grande diferença entre registrar a vida e compartilhar com amigos e familiares e exibir-se diante de uma câmera gigantesca que gira ávida para controlar a vida alheia. É certo que não mais podemos viver como estranhos, cabe-nos então, compreender e ajustar esse mundo emergente e acelerado que marca a contemporaneidade e transitar entre a confiança e a reserva.

Se há necessidade de ganhar o amor e aprovação, de ser valorizado não é neste espaço que o afeto vai se manifestar. No mundo virtual sobrevive sem machucar-se quem tem maturidade para suportar o fascínio das mensagens implacáveis de galanteios e do patrulhamento político. No meu entendimento, o mundo online favorece as relações sólidas já existentes, e abre, com racionalidade, algumas possibilidades de construção de relacionamentos novos e saudáveis. Há evidências da influência positiva do mundo digital no desenvolvimento das pessoas e na construção da autoestima, no aprimoramento das habilidades sociais, permitindo certa expansão na interação de pessoas tímidas.

Depois de certo tempo de compartilhamento da identidade, tornamo-nos todos pessoas públicas e torna-se impossível apagar as evidências da nossa existência neste belo mundo real. Considere não se expor em demasia, estabelecer filtros razoáveis e mais do que tudo, comunicar-se com mensagens a partir do mundo real, lembrando-se que as fotos tem uma relação ambígua com a realidade e é uma batalha fazer o objeto fotografado o mais bonito possível e retratar a verdade.