Mais de 90% dos fatos políticos são previsíveis; a maioria das previsões são erradas

A afirmação é do estatístico e escritor americano, Nate Silver, que escreveu, entre outros, o livro “ O Sinal e o Ruído”. As pessoas gostam de estatísticas, é fato; previsão do tempo, da movimentação econômica, pesquisas eleitorais. Quanto aos erros das previsões, vejamos como foram os últimos dias que antecederam o prazo final para filiação partidária para quem quer candidatar-se na próxima eleição. A presidenciável Marina Silva criaria a Rede Sustentabilidade, porque não comungava com as práticas políticas de nenhum partido brasileiro. Ao ter o registro negado, foi-lhe oferecido o PPS, PC do B, PV para filiar-se e seguir adiante com o projeto de concorrer a presidência da república. Todos apostaram nisso. O que fez Marina? Abrigou-se nos braços de Eduardo Campos, ele próprio candidato a presidente. Marina? Coadjuvante! Como disse o presidente do PSDB Aécio Neves: “Eu e ninguém esperávamos essa reviravolta”.

Em todas essas áreas, mas sobretudo na política, as previsões saem erradas graças a preconceitos, interesses escusos e excesso de confiança. Para alcançar interesse as previsões têm de ser chocantes e inesperadas e baseadas em projetos inovadores, que distinguem um verdadeiro sinal de ruído.
A maioria das previsões falham, muitas vezes com um grande custo para a sociedade, porque a maioria de nós temos vaga compreensão da probabilidade e da incerteza.

Mas o excesso de confiança é muitas vezes a razão para o fracasso. Se a nossa apreciação da incerteza aumenta, as nossas previsões podem melhorar muito. Este é o paradoxo da previsão: Quanto mais humildade formos sobre a nossa capacidade de fazer previsões, mais bem sucedido seremos no planejamento do futuro. Os detalhes das conversas políticas, os encontros devem ser analisados dentro de um contexto amplo, valorizando todos os agentes, explorando semelhanças inesperadas. A verdade é encontrada onde poucos se preocupam em olhar. Na maioria dos casos a previsão é ainda uma ciência perigosa e muito rudimentar.

As pesquisas não traduzem perfeitamente as expectativas, mas as previsões mais precisas tendem a trabalhar bem com a probabilidade, distinguem o previsível a partir do imprevisível, do olhar que capta os sutis movimentos e percebe mil pequenos detalhes que levam mais perto da verdade.
Distinguir o sinal do ruído requer tanto o conhecimento científico e de autoconhecimento: a serenidade para aceitar as coisas que não podemos prever, a coragem de prever as coisas que posso, e a sabedoria para saber a diferença, ironiza Nate Silver.

Emoções como herança

A chuva cai sobre o justo
E também sobre o sujeito injusto;
Mas principalmente sobre o justo,
Porque o injusto tem o guarda-chuva do justo.

É pelos atos que praticamos nas relações com os homens, que nos tornamos justos ou injustos. Para florescer no que viemos aqui para ser, é importante simplificar a vida. No estudo sobre a evolução da mente, Geertz já dizia que a criança sente o amor na sua pele, antes de senti-lo no seu coração; aprende a contar pelos dedos antes de contar na cabeça. As ideias, mas sobretudo as emoções são as heranças que devemos deixar.

Não podemos nos envolver com uma ordem genérica de educação. Temos que manter nossa forma particular de olhar a vida, de construir a rotina, de construir o mundo. A vida cotidiana, com a família em volta deve valorizar produções culturais, concepções simbólicas, os valores éticos.
Não há como reinventar. A vida é construída nos pilares basilares do prazer, da verdade, do amor, conhecimento e valores. Sim, somos seres muitos emocionais e ao educar transferimos sentimentos impulsivos e ensinamos exercícios tortuosos que remetem a vencer, a superar; mas é absolutamente preciso controlar os estímulos do medo, da raiva, do se sobrepor a qualquer preço, para impedir o sofrimento causado pela instabilidade afetiva. Não motivar as crianças pelo medo, pois que o medo opera afastando-os do amor.

O problema do sofrimento recai sempre na questão do merecimento. Embora nem sempre, mas quase sempre, o sofrimento é considerado cruel e também não merecido pelo sofredor. Nem sempre somos capazes de colocar nossas emoções indisciplinadas em ordem e nem sempre nossos julgamentos morais são isentos, principalmente se são afetados os nossos filhos.
Nosso modo de vida moderno está cheio de desculpas, nossas agendas cheias de compromissos, nossas cabeças cheias de medo. E o quem inspirado nossas crianças?

Padronizar a educação das crianças é o mesmo que destrui-las. Mante-las em atividades desde que se levantam até a hora que eles vão dormir, é roubar-lhes a oportunidade de experimentar o silêncio, o sossego, a preguiça boa. Ao estudar a interpretação das culturas, as formas e sentimentos, é bastante aplicável que para desenvolver normalmente a criança não pode ter seu tempo estruturado de forma mecânica e nem deve sentir pesado em si a influência e a expectativa dos pais. Agir com calma e deixar experimentar provoca respostas igualmente positivas.
Criar filhos para serem indivíduos misericordiosos, responsáveis e justos não é tarefa fácil!

Nostalgia – um compromisso com o passado

O que cai no passado vai tornando-se distante e estranho. Houve um tempo em que a nostalgia era considerada uma doença mental. Parece incrível, mas a saudade de um tempo, cujos sintomas podem ser desde crises de choro, batimento cardíaco irregular, falta de apetite, dificuldade de concentração, era atribuída aos demônios que habitavam o mundo interior.

Embora a nostalgia seja hoje considerada apenas uma experiência emocional benéfica, cerca de 80% das pessoas do planeta sentem-se nostálgicas pelo menos uma vez por semana. Há razão para pensar que a nostalgia manifesta-se de forma ruim, que tem componentes negativos, porque é muitas vezes vivenciada como uma perda ou saudade de um bom momento que não volta. Longe de ser vista como uma doença da mente, os psicólogos modernos veem a nostalgia como um antídoto ao tédio, pois a saudade comprovadamente pode dar significado a vida. A nostalgia combate solidão.

Como somos seres sociais, quando nostálgicos nos lembramos de nossas conexões com os outros, de afetos trocados e negligenciados. Isso reabre possibilidades de contato reparador.
Admito que sou quase sempre nostálgica. A nostalgia me parece um recurso mental valioso para reabilitar certos caminhos por onde já andei. Não precisa haver o sentimento que o mundo era melhor e mais culto, que as músicas tinham letras e melodias melhores. Não, não é saudade que eu sinto do passado, é um compromisso contínuo que tenho com ele, de não negá-lo, de não deixá-lo lá no fundo mofando.

Reminiscência nostálgica pode ajudar a manter esse sentido de continuidade, apesar do fluxo constante de mudança que enfrentamos ao longo da vida. É reconfortante perceber o quão rica nossas vidas têm sido, quanta alegria, trabalho, sucesso e emoção temos vivido. Quando estamos tristes ou desanimados, pode ser edificante lembrar que ainda somos a pessoa que foi muito feliz, forte e produtivo no passado.

A música é especialmente evocativa de emoção. As letras nostálgicas também capturam memórias felizes e a exuberância da juventude. a letra emocional de uma música pode envolver o ouvinte em uma reflexão sobre quem ele era antes e como ele chegou ao seu eu presente.
De toda forma, olhar para trás não faz mal a ninguém. Os jovens estão nostálgicos também. A própria realidade vai sendo fundamentalmente alterada por um mundo altamente midiatizado e neste admirável mundo novo, podemos apertar uma tecla e correlacionar nossas lembranças pessoais com o que estava acontecendo naquele dia, na mesma hora em qualquer parte do mundo.

Nossas lembranças estão armazenadas em discos rígidos, nossas fotos de viagens, das pessoas que conhecemos estão seguras em arquivos nas nuvens, mas eu vou tentar salvá-las também na minha mente e no meu coração.

Os homens cultos e os iletrados

O filósofo grego Aristóteles teria dito que a diferença que existe entre os homens cultos e os incultos é a mesma diferença que existe entre os vivos e os mortos.
Porém a palavra cultura tem muitos significados diferentes. Para alguns, refere-se a uma apreciação da boa literatura, música, arte e comida, no entanto, para a maioria dos antropólogos e outros cientistas comportamentais, a cultura é o conjunto de padrões de comportamento humano aprendidos. Edward Tylor, antropólogo inglês define cultura como todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, direito, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

A cultura tem uma dimensão de descoberta individual, uma viagem para a qual se deve partir só, guiado pela curiosidade, pelo ávido desejo de adquirir e vivenciar o conhecimento. No mundo de hoje, onde há até excessiva informação, com possibilidades de acesso aos clássicos de Baudelaire e a mil outras obras primas e romances populares, não podemos dizer que somos cultos. Pois que, o homem culto deve espelhar-se e manter as suas tradições culturais, aquilo que o distingue de outras sociedades, como a linguagem e as crenças. Além disso, deve compartilhar em vez de esconder a sua cultura, orgulhar-se de suas experiências, da culinária, dos bons modos, da prosa gentil.

Preservar os valores e as crenças são padrões utilizados pelos homens cultos para discernir o que é bom e justo. Os valores são sentimentos críticos profundamente enraizados e as crenças são as convicções que possuem para contar suas verdades.
Nas viagens eu gosto de visitar pessoas e ouvir histórias que refletem os valores e as crenças. Histórias de homens cultos, que falam outros idiomas, que conhecem outros países. Entretanto, a maioria das histórias que ouço são de homens não letradas, mas que possuem um refinamento de vida nos hábitos, nas conversas, na seleção da memória.

Homens simples que recitam versos, relembram fatos históricos com riqueza de detalhes. São talhados pela boa educação, são generosos. Homens que constroem teorias com suas vivências. Eu fico a ouvi-los, porque penso na cultura como uma ferramenta que deve favorecer a compreensão e a sobrevivência harmônica entre os homens.
Entretanto viver de acordo com os valores de uma cultura pode ser difícil, porque é fácil valorizar a boa saúde, mas é difícil parar de fumar. Valoriza-se verbalmente a monogamia, mas muitos casais se envolvem casos de infidelidade. A diversidade cultural e igualdade racial são propagadas como valores do mundo contemporâneo, mas os mais altos cargos do país são ainda ocupados por homens brancos.

Os valores do homem culto sugere como as pessoas devem se comportar, mas não refletem exatamente como as pessoas se comportam. Pena que a cultura ideal não reflete a cultura verdadeira.
.

O desenvolvimento aqui não é obra de ficção

Uma semana de viagens e reuniões importantes que serviram para reflexão sobre o muito que se diz por aí. É bom salientar que apesar de servir com absoluto senso ético ao governo, não faço assessoria caolha, não ignoro os fatos, mas os analiso adicionando também o que vejo, ouço e sobretudo sinto. O governo não é uma coisa desconectada de todas as outras. Uma ação quando efetivada, foi demandada, discutida e elaborada por entes governamentais e sociedade civil, principalmente.

Poucos projetos são elucubrados à escuridão,  resultados de vontades arbitrárias, normalmente eles foram se desenvolvendo entre erros e acertos, de indivíduos e de governantes.
Numa distante cidade do interior um grupo de chineses trabalham no ritmo alucinante deles para realizar um trabalho, para o qual a empresa habilitou-se e ganhou a concorrência. São mais de cem homens construindo um linhão de energia. Ao conversar com alguns deles, desconfiados, disseram-me que estão encantados com o desenvolvimento da região, que estão sentindo-se bem à vontade com a comunidade local e que esperam que a empresa consiga novas frentes de trabalho, para que possam permanecer no Estado.

Havia viajado a outra cidade bem mais acima, onde encontramos um grupo de cinquenta haitianos trabalhando numa hidrelétrica, acolhidos num programa humanitário do governo, para que possam refazer suas vidas longe do país onde nasceram, que foi parcialmente destruído por terremoto em 2010 e o projeto de reconstrução tem se revelado um pesadelo. A maioria é muito jovem e alguns confessaram que pretendem construir suas vidas aqui em Mato Grosso, casando-se com alguém local.

Ao acompanhar por três dias o Embaixador da Bélgica no Brasil ouvimos um depoimento no mínimo agradável. Onde nós moradores de Cuiabá, estamos vendo o caos, ele viu o progresso, o desenvolvimento. Elogiou todas as intervenções que estão sendo feitas na cidade, visitadas em horário de pico, sem carro precursor abrindo-lhe a preferencial, porque vislumbra não apenas a melhoria no trânsito em poucos meses, mas porque pode enxergar à frente. Viu a correção definitiva de um problema que aflige todas as cidades grandes no mundo, a mobilidade urbana. E numa cidade próxima a Cuiabá, participou entusiasmado da inauguração de uma indústria belga de matéria prima para a fabricação de gelatinas.

Na Arena Pantanal novamente nos encontramos com haitianos. São mais de trezentos homens e mulheres, uma delas entregou-me um bilhete, com nome, número de telefone e um pedido: “peço ao governo de Mato Grosso, que não me deixe ir embora quando terminar a obra”. O pedido ganhou uma dimensão maior, quando a abordei e soube que ela ainda não fala português e que na noite anterior, utilizou ferramenta da internet para traduzir o pedido.
Os nossos dias são sempre cheios de histórias sensíveis, verídicas e de fatos comprováveis.

Brasil – um país de altos e baixos

A população do Brasil atinge a marca de 201.032.714 habitantes. O país registrou um avanço consistente na aferição do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), puxado pela melhora dos municípios menos desenvolvidos nas dimensões que medem o índice da longevidade, educação e renda. É parece que as coisas vão bem. A ONU diz textualmente, no Relatório que mede o Progresso Humano, IDH 2013, que o Brasil, em 85º lugar entre os países com melhor índice, elevou o seu padrão de vida porque expandiu as suas relações internacionais e implementou programas de combate à pobreza, que foram modelos para todo o mundo.
Considerado um país relativamente rico, com economia destacada na América Latina e no mundo, resguardando, obviamente alguns incidentes de percurso, o Brazil vai se revelando como um país que não pode mais ser apresentado apenas como o Rio de Janeiro, futebol, mulatas e favelas, mas um grande e respeitável mercado, com um moderno sistema de internet, que beneficia cerca de 80 milhões de cidadãos. Tem o segundo maior número de pessoas conectadas ao Facebook, atrás apenas dos Estados Unidos. O percentual de fumantes na população brasileira acima de 18 anos caiu 20% nos últimos anos e a quantidade de brasileiros fumantes alcançou o menor índice de todos os tempos: apenas 12%. O Governo brasileiro reservou 2.4 bilhões de reais para emprestar com juros baixos as empresas que investirem em projetos de energia renovável e inovação tecnológica.
Porém, outras fontes pesquisam outros horizontes e eis que lá vamos nós ladeira abaixo. A Organização Transparência Internacional, divulgou o ranking global de percepção da corrupção no setor público e o Brasil está colocado no 73º lugar entre 176 países pesquisados. O ranking é liderado pela Dinamarca, que tem a menor percepção de corrupção do mundo. Segundo a ONU a corrupção desvia 200 bilhões de reais por ano no Brasil. Soma-se a isso, o fato de que as leis brasileiras são absurdamente incompreensíveis para os estrangeiros. O Banco Mundial divulgou também um estudo dizendo que em nenhum outro país do mundo se gasta tanto tempo para estar legal com a documentação exigida para operar aqui. No Brasil, uma empresa gasta, em media longas 2.600 horas para preparar documentos, calcular e recolher taxas no insano mundo da burocracia.
A violência assusta os investidores. Os homicídios praticados no Brasil representam um volume muito superior ao de países que vivem em guerra, com isso, o Brasil ocupa um lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo, tomando como base a proporção de assassinatos para cada cem mil habitantes: 20,4 pessoas. A média de assassinatos é o dobro da que a ONU considera tolerável (dez para cada cem mil habitantes). Esses números são preocupantes para um país que não tem enfrentamentos étnicos, religiosos, de fronteiras, raciais ou políticos.
A pobreza é uma injustiça que pode e deve ser sanada por ações concretas, sem clientelismo, sem olho gordo no voto. As crianças e adolescentes precisam ser apoiados integralmente, mas o que li foi que nos anos de 2011 e 2012, o total de filhos gerados por adolescentes de 15 a 19 anos teve um salto gigantesco. No Brasil, um em cada cinco nascimentos ocorre com mães com idade entre 11 e 19 anos. Talvez porque o valor anual do gasto do governo brasileiro com a saúde, R$ 954,00 apesar de ter dobrado, é ainda muito inferior à média mundial, de R$ 1.432,00. A violência aqui apresenta-se em várias nuances. O País tem uma política internacional atrapalhada, com privilégios e relacionamento difuso com ditaduras latinas, importa médicos, que sequer receberão seus salários aqui, ataca verbal e equivocadamente um diplomata que salvou um político condenado à morte por denunciar o tão obvio vinculo de Morales com o narcotráfico e talvez, orgulhosamente seja o único país do mundo a ter um prisioneiro que é deputado federal, recebendo salário e tratamento diferenciado na cadeia.
Penso que o bem estar e a liberdade do ser humano e a sua relação com a equidade e a justiça no mundo não podem ser reduzidos apenas a estatísticas. O cidadão precisa sentir que esse bem-estar adentrou o seu lar. Percebo tristemente que esse senhor, nem tão jovem assim, completa 191 anos de independência, não faz as tarefas de casa.

O espaço da aparência

A política deve ser um instrumento aberto e participativo para a resolução de problemas e, consequentemente, para garantir a justiça. O melhor governo deve permitir aos seus cidadãos perseguir e realizar as atividades inerentes a uma vida justa e equilibrada. Não é o suficiente ter uma coleção de indivíduos vaidosos que querem expor e impor as suas querelas particulares como problemas públicos.

Em vez disso, esses indivíduos devem ser capazes de colaborarem uns com os outros em público, reunirem-se em um espaço público-político, de modo que suas diferenças possam tornar-se objeto de debate democrático. Ou então, redesenhar a fronteira do que é público e do que é privado, porque o que se vê hoje são muitos dos chamados problemas particulares tornando-se preocupações públicas.

O espaço da aparência é uma teoria da filósofa Hannah Arendt, que sublinhou a artificialidade da vida pública e das atividades políticas em geral, propondo que nas cidades existissem um espaço destinado ao discurso livre e honesto, sem a interferência de argumentos e diferenças particulares. Assim, no espaço da aparência todos teriam igual acesso, no sentido de que os participantes deveriam ser capazes de colocarem-se no debate político como seres políticos iguais. A inspiração é que os cidadãos se reúnam como iguais para debater as questões do dia e para tomar decisões de interesses coletivos.

No espaço da aparência os indivíduos conhecem uns aos outros, respeitam-se e são capazes argumentar, rebater as diferenças e procurar alguma solução coletiva para os problemas, a partir de diferentes perspectivas. Isso é a liberdade. A chance de subir ao palco político, de atuar num universo aberto, transparente. Favoreceria a manifestação dos cidadãos, que precisam de acesso para as possibilidades de engajamento e de bases sobre as quais possam interagir, estabelecendo relações de reciprocidade e solidariedade, com suas identidades reveladas, sem máscaras.

É justamente devido a impossibilidade prática de recriar esses pontos de encontro no mundo moderno, que a visão de Arendt encanta. Imagino um espaço onde posso aparecer para os outros como outros aparecem para mim. Imagino um espaço de diálogo, onde o governante apresenta-se baseado nos princípios da igualdade e cidadania e o indivíduo comum, no direito de contribuir para o debate, apresentando sugestões, teria a oportunidade de colocar-se na esfera pública, como um ente também político. Por outro lado, também imagino que teríamos que reinventar um significado para a palavra aparência, no texto utilizada como expressa manifestação da realidade, porém desgastada, hoje é ligada à coisas da superficialidade, de natureza fugaz.

Aspectos populares das marcas globais

O consumo popular ganhou muitos adeptos com a progressão da classe social de milhares de pessoas, assistidos ou não pelos governos entraram no universo do consumo. Houve um fortalecimento do poder de compra das classes C e D. Esses emergentes são a novidade econômica e social dos últimos tempos.
A sociedade atual é uma sociedade em que uma parcela das pessoas que compra bens e serviços vivencia a explosão do consumo, em geral, pela busca excessiva pelo prazer; o hedonismo – privilégio das classes mais altas. As elites consomem produtos de luxo, que tem certa áurea de sedução e que estão no topo da moda, na mídia, como símbolo de distinção social e como objeto de competição entre as classes.

Além disso, a compra de produtos fabricados por empresas globais é o meio que permite os sujeitos vivenciarem, de fato, o processo da globalização entrando em suas vidas.
Há um discurso moralizante que permeia o tema dos gastos dos setores de baixa renda, onde diz que os pobres devem gastar apenas com o que é necessário para sua sobrevivência, ou seja, eles devem apenas alimentar a prole, fugir do crediário, algo considerado moralmente incorreto. A pobreza, cujo conceito não é relativo é mensurável, não deixa de ser a situação em que o indivíduo não tem condições para assumir prestação alguma.

Os moradores da periferia se espelham nas elites e dentro de suas condições usam produtos pirateados, imitações de grifes famosas. A falsificação, no caso, confere uma democratização do consumo e estilo de vida. O povão, como muitos preferem ser chamados pode não ter dinheiro para comprar os mesmos produtos, mas pode dar-se ao luxo de usar o mesmo estilo de produto que os ricos exibem.

Algumas marcas tem sido objeto de desejo da classe rica e os produtos que fabricam são copiados e distribuídas no mundo inteiro. O produto do luxo torna-se acessível aos pobres. Não raro mulheres ricas compram itens falsificados e os exibem como legítimos nas altas rodas sociais, sem nenhum receio que alguém as reconheça como falsas. Afinal, o poder de quem usa uma bolsa Louis Vuitton é que a legitima como produto original ou falso. Tal produto é sumariamente taxada de falsificado quando usado por uma moradora da periferia.

A questão da marca é o que predomina no imaginário popular. Para as pessoas é muito importante estar inserido no que representa o símbolo da marca. É importante carregar e compartilhar esse símbolo, não importa se o produto é verdadeiro, a marca é a mesma, o símbolo tem a mesma representação. O que interessa é estar socializado com o que dá prestigio e confere status. A ordem é consumir as marcas globais, trabalhar imensamente para trocar o dinheiro pela sensação de pertencer e se identificar com o mesmo universo.

O amor é expansivo, o medo, é exclusivo

buddhist-child-726x400“Siga seu coração” são palavras de ordem que temos ouvido muito ultimamente, mas a mente pode confundir um puxão emocional com a intuição que vem do coração. É preciso prática para discernir a diferença.

Aprendi através de tentativas e erros que a sedução do romance não é sempre o que o coração quer. O coração muitas vezes fala-nos em silêncio e o senso comum tende a racionalizar apenas os nossos desejos e reações. Na mente, os exemplos e julgamentos estão no controle. O coração, porém, é decididamente diferente, é mais suave, embora o que sugere o coração, possa envolver medo e uma paz que não exista. São como duas estações de rádio distintas. Quando se entra em sintonia com a estação do coração, a atitude ajusta e encontra-se respostas para muitas coisas.

É preciso aprender a equilibrar a natureza emocional e questões não resolvidas praticando qualidades que exalam do coração, como a compaixão, perdão, gratidão e carinho. Observe como essa radiação prolongada de cuidado afeta seu corpo, emoções e pensamentos. O coração é nossa casa emocional, onde afloram dúvidas, mágoas, desejos, anseios, alegrias e prazeres. O amor não é algo mensurável nem é um recurso limitado. Ele não conhece limites e não pode ser reduzido a uma definição ou interpretação restritiva. Amor, mais do que tudo, é uma atitude e uma decisão de buscar a felicidade porque devido a sua natureza expansiva, temos a capacidade de trazer o espírito de amor para tudo o que fazemos.

É um projeto da natureza que coloquemos a cabeça em sincronia com a intenção mais profunda do coração. Dizem que no mundo fascinante do coração, existe um pequeno cérebro em seu próprio interior. Sim, o coração humano, além das funções conhecidas possui um coração-cérebro que pode sentir, aprender e lembrar. O coração tem a sua própria maneira misteriosa de conhecimento, pode falar e influenciar o cérebro de forma coerente, estabilizando as emoções. Quando o ritmo cardíaco é compensado, o corpo, incluindo o cérebro, começa a experimentar todos os tipos de benefícios, entre eles uma maior clareza mental e capacidade intuitiva, incluindo melhor tomada de decisão.

Contudo, o principal trabalho emocional do coração é o amor em todas as suas manifestações. O amor pode abraçar o medo, dar direção à vida. E embora o coração e o cérebro estejam em constante comunicação, podemos intencionalmente direcioná-los a se comunicar de forma benéfica, num alinhamento harmonioso com a intuição.

Ouça o que seu coração tem a dizer, observando os sentimentos e sensações que chegam até você, talvez ele esteja oferecendo um novo sopro de argumentos, embora nem todos racionais. Abrir o coração para ouvir, respeitar e confiar é uma experiência poderosa. O coração é como um rei, enquanto a mente é a conselheira do rei, compara Alexander Lowen em seu livro Bioenergética. Os conselheiros informam o rei sobre o estado de seu reino, no entanto, as decisões são tomadas com base no próprio entendimento intuitivo do rei.

Driblar as crises ou aprender com elas?

Baseado em fatos e números o mundo está passando por transformação interessante. A maioria das pessoas hoje vive mais do que seus pais, são mais bem nutridas, gozam de melhor saúde, são melhor educadas, e tem perspectivas econômicas mais favoráveis. Contudo, há também muitas coisas a lamentar e corrigir, como a pobreza sem fim e a desigualdade marcante que ainda persiste, mesmo em meio a riqueza de tantos. Doenças antigas e novas nos ameaçam, as práticas sustentáveis de vida, das quais nossa espécie depende para sua sobrevivência, estão sendo gravemente perturbadas pelas nossas próprias atividades cotidianas.

As grandes disparidades permanecem dentro de todos os países, a desigualdade tende a aumentar, embora a maioria dos países em desenvolvimento tenham melhorado substancialmente seus índices de ascensão no patamar social. O Brasil é citado como um dos países que teve grande avanço na área, juntamente com a China, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia.

No entanto, o Brasil ainda é o lar de muitos pobres do mundo. Sem investimento em pessoas, o retorno para as tentativas de melhorar o índice de desenvolvimento humano tende a ser limitado. O sucesso, quando medido, é mais provável que seja o resultado de mera integração com a economia e não acompanhado por investimento em pessoas, instituições de educação, saúde, proteção social, capacitação e tudo mais que possa permitir que as pessoas pobres participem efetivamente do crescimento do país. A importância da justiça e da igualdade de oportunidades, os direitos humanos, a democracia vai muito além da medição do progresso, na forma de renda.

Os protestos, especialmente por pessoas educadas, tendem a entrar em erupção, quando estas se sentem excluídas da influência política e quando as perspectivas econômicas são sombrias e reduzem as oportunidades. Ao se engajarem em tais protestos, cobram pelo menos uma política de inovação social. A história está repleta de revoltas populares contra governos que não ouvem e não respondem. Essas revoltas, despertam a desconfiança e podem inviabilizar o desenvolvimento e o crescimento econômico.

Os pobres lutam para expressar suas preocupações, e os governos nem sempre asseguram que os serviços cheguem onde eles estão. A igualdade de tratamento é fundamental para a estabilidade política e social e mesmo que nem todos esses serviços sejam fornecidos pelo poder publico, os cidadãos precisam ter acesso seguro às formas de proporcionar o seu desenvolvimento.
As pessoas devem ser capazes de influenciar a formulação de políticas públicas e cobrar resultados, os jovens em particular, devem ser capazes de olhar para a frente, para as oportunidades e ampliarem a participação na política. É difícil prever quando a sociedade vai chegar a um ponto de inflexão. As revoltas ocorridas são lembrete de que as pessoas, especialmente os jovens, colocam grande expectativa na possibilidade de conseguir um bom emprego, querem ser ouvidos nos assuntos que influenciam suas vidas e mais, devem ser tratados com respeito.