A espiritualidade, o Engajamento Político e a Vida Pública

“Eu não poderia levar uma vida religiosa se não me identificasse com a humanidade inteira, e isso eu não poderia fazer se não fizesse parte da politica”, disse Ghandi.

A Fundação Ford apóia um trabalho de pesquisa para traçar o contorno das novas práticas e expressões espirituais e suas implicações em participação de atividades civis e políticas nos Estados Unidos. O projeto propõe estudar as consequências do aumento gradativo de componentes da espiritualidade na vida política. Muitas pessoas conhecidas por seus engajamentos espirituais estão se envolvendo nas questões sociais e políticas.

O que o estudo quer apurar é se o envolvimento dessas pessoas difere de alguma forma do engajamento dos outros e quais são as alternativas que trazem esse grupo de pessoas espiritualmente mais elevadas. As conferências para discutir o tema da Espiritualidade, Engajamento Político e Vida Pública, conta com a participação de instituições tradicionais, que construíram boa reputação em atividades espirituais e outras do mundo acadêmico, como a Universidade de Boston.

Pessoas que percorrem um caminho espiritual, buscando o crescimento pessoal, a prática de atitudes desprendidas, pensamento elevado em bondade seriam recomendadas a estarem envolvidas nas questões sociais e políticas e há uma razão importante para isso: Pessoas em viagens espirituais são adeptas da mudança, da transformação. E se você pode promover uma mudança na sua vida, isso pode ser estendido a um grupo maior de pessoas.

Dezessete mil crianças morrem de fome a cada dia na terra, nós somos a única espécie no planeta, que sistematicamente destrói o próprio habitat. Esses fatos só vão mudar quando trazermos para a resolução dos problemas homens dotados de coração mais comprometido com o amor, com a inclusão e com a bondade. É de um envolvimento que transforma as questões morais e sociais que estamos falando. Sem essas coisas, o mundo não se conecta mais.

Nós evoluímos a um ponto de estarmos prontos para efetivar profundas mudanças. Mas por que elas não acontecem? Talvez porque muitas pessoas ainda insistem em não participar de atividades políticas justamente porque não acreditam na mudança. Porém precisamos contribuir com reflexões e inserções sérias, para que possamos começar uma nova conversa sobre política, com uma nova visão de mundo civil e espiritual; adotando valores humanitários como o princípio organizador da civilização humana e não a economia, como tem sido.

Não devemos desviar o olhar do cenário político, seja ele qual for. Podemos sempre levar a perspectiva do amor, compaixão e respeito para nossas ações, até que cada pessoa possa encontrar o seu próprio senso de identidade dentro do mundo. Se as coisas da política perseguem o bem comum, onde a política falhar, a espiritualidade pode intervir para trazer equilíbrio e harmonia e construir uma organização humana de natureza perfeita.

Erasmo escreveu “A educação do príncipe cristão” em 1515 e nos ensinamentos diz ao príncipe que para ser um ótimo governante, ele não poderia ser superado naqueles bens que verdadeiramente lhe pertenciam: a grandeza de alma, a temperança e a honestidade. Quando o príncipe lhe pergunta qual seria a sua cruz, a resposta foi a seguinte: “ A sua cruz é não praticar o mal contra ninguém”.

O bem-estar da liberdade compensa os machucados

Jean-Jacques Rousseau, nascido em Genebra, na Suíça, foi um dos mais consagrados filósofos no século XVIII. Suas obras inspiraram reformas políticas e educacionais. Em sua filosofia da educação, enalteceu a educação natural, baseada em um acordo livre entre o mestre e o aluno.

Acabo de ler Emílio, um livro publicado em 1762, que embora criticado por setores pedagógicos, que citam a obra como uma leitura equivocada para os educadores, apresenta uma reflexão romanceada de como educar permitindo que as crianças se desenvolvam de forma independente e criativa, em contato com a natureza. A criança aprende valores que a tornaria comprometida com a sociedade, sem nenhuma idéia de superioridade, valorizando a liberdade e igualdade. Emilio soa como um tratado sobre as qualidades naturais do homem, sua bondade e liberdade.
A educação das crianças colocada como prioridade pelos pais, que teriam o dever de educar os filhos, seres humanos sociáveis e cidadãos aos olhos do Estado. O contraditório aí é que o próprio Rousseau não o fez. Pai de cinco filhos, entregou-os todos a um orfanato.

Entretanto, o desafio de educar Emilio é ligar intrinsicamente os valores corrompidos da cultura aos preconceitos e destruí-los para então buscar a simplicidade da natureza e uni-la às necessidades da sociedade. O Emilio, de Rousseau é criado no campo, tem vida simples, o que facilita o desenvolvimento do bem maior da formação humana para o pensador suíço: a liberdade. “Em vez de deixá-lo estragar-se no ar corrompido de um quarto, que seja levado diariamente até um prado. Ali, que corra, se divirta, caia cem vezes por dia, tanto melhor, aprenderá mais cedo a se levantar”. ensina Rousseau.
Rompendo padrões conservadores, à criança não se deve impor o que quer que ela seja. Ignorando todos os modelos de educação, Rousseau proclama que a criança não tem que se tornar outra coisa senão naquilo que ela deve ser; “Viver é o ofício que eu quero lhe ensinar. Saindo de minhas mãos ela não será, reconheço, nem magistrado, nem soldado, nem sacerdote; antes de tudo ela será um homem”.
Rousseau chama a atenção para os primeiros sentimentos da criança, que quando mal dirigidos fazem com que elas deem os primeiros passos para o mal.
Por isso nas brincadeiras e jogos Emilio é ensinado a desenvolver o raciocínio, a criatividade e sobretudo agir com bondade.

Rousseau evoca a compaixão, o bom coração como sentimentos que devem ser cultivados por Emílio, assim como o respeito profundo por si mesmo e pelo outro. Forma-se o bom coração controlando a natureza humana, sondando as emoções, as paixões, as habilidades, as virtudes estampadas na alma.
A educação segue a tendência, hoje moderna, da interatividade, é espontânea, divertida e contextualizada para promover a felicidade, sem imposição institucional. Emilio aprende que deve ter um perfil que se oponha aos dos jovens de vida cotidiana deteriorada; deve ter vigor de um atleta, força no corpo e na alma e a razão de um sábio. Deve seguir as leis eternas da natureza, escritas no fundo do seu coração pela consciência e pela razão. A liberdade em Emílio está no seu coração de homem livre; ele a carrega consigo por toda parte.

No livro Emílio, ou da educação, Rousseau mostra que a educação pode promover no homem um processo de preservação de suas condições naturais como a liberdade e a autenticidade. Ocupando o aluno imaginário com todas as boas ações possíveis, Rousseau apresenta no final Emilio, um homem total, virtuoso, o homem natural que aprendeu a viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes.

Perfeitamente Imperfeitos

Surpreendentemente, os tapetes persas legítimos quase sempre apresentam imperfeições intencionais. Na verdade, há um velho ditado persa que diz: “Um tapete persa é perfeitamente imperfeito e precisamente impreciso”. Esta noção de intencionalmente incluir pequenas irregularidades, além de manter na linha de produção os tecelões humildes, é derivada da crença religiosa de que Deus é o único ser perfeito e que a tentativa de produzir algo de perfeição absoluta seria ameaçar a posição do Todo-Poderoso. Você poderá encontrar nos grossos tapetes persas uma cor principal que sofre variação de tom de uma extremidade a outra. Estas imperfeições, porém, conferem aos tapetes o caráter e a autenticidade.

   A mitologia grega criou seus deuses com aparência humana, para apresentá-los como seres sujeitos à imperfeições, suscetíveis às paixões e intempéries. Não há lugares ou pessoas perfeitas e não há exceção à essa regra. Podemos ser no máximo um “insight” do bom comportamento humano. O que é perfeito, talvez a natureza, não é criação do homem que aqui vive.

   O que existe é a pressão para que sejamos perfeitos. O perfeccionismo é como um relatório interminável, que mantém as pessoas completamente envolvidas numa auto-avaliação eterna, colhendo frustrações, ansiedade e depressão. Levado ao extremo, o perfeccionismo fica no meio do caminho da competência. Isso prejudica o desempenho, em vez de ajudar. A vida é temporária e condicionada a imperfeição. Aceitar a verdade da imperfeição é saudável e mesmo libertador. Não tem nada a ver com descuido e desleixo. Significa baixar a guarda e desapegar da idéia rígida e inflexível sobre como as coisas devem ser.

   Poderíamos pensar em nossas imperfeições como impedimentos, mas as imperfeições são uma grande parte do que somos e minhas imperfeições não são apenas um bom instrumento de triagem, elas são realmente as chaves para a convivência comigo. Na minha vulnerabilidade, autenticidade, coragem, e, por vezes desconfortável nível de imperfeição, está o ingrediente secreto. Ao expor de forma corajosa as minhas imperfeições, liberto os outros para fazerem o mesmo diante de mim.

   E você é corajoso o suficiente para compartilhar suas imperfeições? A perfeição é uma obsessão para muitas mulheres e um negócio lucrativo para os cirurgiões plásticos. Entretanto, seguimos o curso, com ruga, celulite e pele flácida aqui e acolá. Por que prender-se a um padrão de perfeição de beleza se o mesmo é inatingível? Depois repara; existe beleza na imperfeição!

   Angustio-me quando as coisas começam a parecer muito perfeitas, como se isso despertasse a minha desconfiança e me fizesse gritar: “eu não confio em você até você deixar-me ver a sua sombra, sua vergonha, sua dor, tristeza, decepção, a arrogância, o julgamento, a rigidez e constatar em ti a imperfeição que marca todos nós. Somos seres imperfeitos, por isso não há vantagem em julgarmos a nós mesmos ou um ao outro, e na compreensão desta verdade está a aceitação da imperfeição, que deixada à mostra, torna-nos mais livres

Quando viver pode ser simples e prazeroso

A vida é cheia de prazeres simples, cuja lista completa seria bastante extensa. O prazer é a gratificação dos sentidos ou da mente, é a sensação agradável, a felicidade produzida pela expectativa ou pelo gozo de algo bom. O prazer representa uma amostra dos acontecimentos bons que ocorrem todos os dias.

Podemos experimentar a sensação de prazer em pequenas coisas, como por exemplo, quando deixamos o olhar vagar inadvertidamente pela rua e fitamos alguém do sexo oposto que cruza o nosso caminho. A troca de olhar causa uma sensação de prazer momentânea, uma curiosidade que dura uma fração de segundo, mas que faz bem. Assistir pessoas passando e contemplar os passos seguros, incertos, silenciosos, ruidosos, de pessoas altas, pessoas pequenas, magras, gordas e iguais. Cada movimento pende para um lado, tem um compasso diferenciado e expressões difusas. Num cenário natural esse conjunto de pessoas, rebolados e expressões produzem efeito hipnotizador.

Lembrar e contar histórias reais e engraçadas. Um dos papéis mais atraentes de um grupo de amigos é o do contador de histórias. Todos gostam de compartilhar histórias das conquistas que geram sempre uma curiosidade quase maliciosa. É gratificante estar entre amigos ouvindo ou contando uma história verdadeira, recheada de renúncias, desencontros que causa risos anos mais tarde. Ficar na cama em dia de chuva, ouvindo o barulho leve do vento batendo na janela, você estica e fica em perfeita sintonia com seu travesseiro e o quarto se torna um santuário. O único lugar que você gostaria de estar naquele momento.

Ouvir música causa um bem estar indescritível, a melodia transporta as pessoas de um mundo ao outro. Não importa qual seja o cenário, ouvir a música certa no momento certo é um desses prazeres simples da vida que imediatamente levanta o espírito, como um convite para dançar. Algumas músicas são para certos momentos e quando o som chega aos ouvidos, a vida ganha um significado mais cristalino. Não há prazer mais simples e satisfatório do que relembrar os velhos tempos com os amigos, ouvindo a música da época. Os melhores momentos das nossas vidas foram passados com amigos, com fundo musical e muita cena.

Contemplar uma bela paisagem pela janela do carro… o carro segue e o olhar se perde como se fosse possível trazer a imagem distante num zoom. A cabeça pende para o lado de fora. O cheiro das flores, da vegetação, o verde. O cenário do sonho bem ali, mas faltou olhos, tempo e paciência para enxergar. Receber um elogio inesperado num dia sem grande brilho, sem grandes acertos faz o dia tornar-se especial. A espontaneidade dá credibilidade ao elogio, além de elevar o valor das palavras.

Fazer alguém sorrir para aliviar o estado de estresse diante das cobranças cotidianas. Emendar uma frase tola, provocar o riso só para ajudar a descontrair e desconstruir o clima pesado de ansiedade. A vida é extraordinária nos momentos em que você está rindo tanto que mal consegue respirar. Este momento de riso profundo seduz, encanta e define valores mais positivos para o coração. Terminar com as sessões de adiamento e de desculpas e começar a caminhar, a exercitar-se. No final bate uma sensação de realização, de bem-estar com o corpo e mente, que traz leveza à vida. É prazeroso desafiar a preguiça. É algo assim…você no topo das prioridades. E se a família vem junto melhor ainda!

Passear de mãos dadas com alguém que você ama é um sutil, porém sensual contato físico, um gesto simples, romântico, que se não automático, alimenta a sensação de felicidade e proteção. Milhares de outras atitudes simples trazem sentimento de felicidade, que embora momentâneo torna a vida mais prazerosa e agradável. Olhar a vida com olhos de quem sabe viver é um exercício diário que devemos aprender a praticar.

O que vem depois da eleição é tão importante quanto a eleição em si

O grande desafio é lançado após as eleições. Como viveremos os próximos quatro anos é um questionamento vital tanto quanto saber como esses desafios serão superados. Mesmo quem seguiu atentamente o programa de governo dos candidatos, precisa agora de nova posição, pois no nome do novo prefeito recai não apenas desafios e propostas, mas sobretudo responsabilidades.

E embora estejamos acostumados a cobrar resultados instantâneos, os problemas que enfrentamos hoje não serão resolvidos tão rapidamente ou facilmente. É preciso construir um novo momento para Cuiabá, uma cidade castigada pela omissão; sem tempo a perder é preciso centrar fogo na solução dos problemas, é preciso governar com coragem e sem coleira, sem acomodar desejos pessoais na quota das prioridades.

Os laços devem se estreitar entre o prefeito e o povo, a relação recíproca entre ambos é incondicional, sem a qual não seria sequer possível o processo democrático das eleições. Embora não haja nada de errado com o projeto de entusiasmar eleitores, essa etapa acabou. Como pano de fundo agora, vê-se o descaso e o abandono da nossa cidade, a pobreza que alargou na periferia, a falta de médicos no pronto socorro e nas policlínicas, ônibus sucateados, falta de creches…problemas municipais que emergem há tempos sem solução.

Amparado pela Lei 10.609, publicada em 2002, o grupo de transição de governo pode iniciar o trabalho a qualquer momento. O processo tem por objetivo assegurar que o prefeito eleito possa receber informações e dados necessários ao exercício da função, assim que tomar posse. Esse é o momento de troca de conhecimento entre a gestão que termina e o novo governo. Na opinião do professor doutor em Sociologia Política da Universidade de Brasília (Unb) Rodolfo Teixeira, essa operação é absolutamente necessária para que o eleito possa ter uma noção concreta de como fará para implementar suas propostas.

Cuiabá, sob os cuidados do governo do Estado, se prepara para estar à altura de ser uma das cidades sedes da Copa do Mundo em 2014. Aos programas da matriz de responsabilidade da FIFA, como a Arena Pantanal e os centros de treinamentos, somou-se outras grandes obras de infraestrutura e intervenções de mobilidade urbana que estão, a olhos nus, visíveis até para quem tem má vontade de enxergá-las. Estão aí as grandes trincheiras, os viadutos, as travessias urbanas, as obras de desbloqueios que criam novas alternativas de trânsito, a duplicação da ponte que liga Cuiabá a Várzea Grande e ainda programas de capacitação em áreas diversas para melhorar o atendimento ao turista e torcedor que visitar a cidade.

É premente que Cuiabá tenha um governante à altura da sua beleza e importância como centro geodésico da América do Sul.

A virtude positiva de expressar gratidão

Temos vivido tensos e com medo de não ter o suficiente para viver. O medo está em toda parte. Mas a prática da gratidão é um longo caminho para aliviar esses sentimentos desconfortáveis de medo da escassez. Onde há gratidão, não há espaço no coração do homem para o medo.

A vida pode ser muito provocadora, a ambição eleva assustadoramente o nível de ansiedade. Quando você tem o suficiente, agradeça por que isso pode ser benéfico para a saúde. A virtude positiva de dar graças é uma expressão de gratidão, um reconhecimento que expressa a bondade.

Um artigo do Wall Street Journal escrito por Melinda Beck, sugere que a manutenção de uma atitude de gratidão pode melhorar o psicológico, o emocional e o bem-estar físico da pessoa. O artigo afirma que a gratidão e agradecimento, podem ser cultivados para mudar velhos padrões. Adultos que frequentemente sentem gratos tem mais energia, otimismo, conexões sociais e felicidade, são mais propensos a perseguir objetivos mais elevados, sentirem-se mais satisfeitos com seus amigos e familiares. Os pesquisados que mantém sentimento de gratidão são mais propensos a fazer progressos em direção a importantes objetivos pessoais, em comparação com indivíduos amuados e eternamente insatisfeitos.

Pode ser difícil mostrar gratidão, porque é necessário humildade. Entretanto as pessoas podem aprender a ser gratas, a cultivar esse sentimento manso, que pode ser traduzido por um sorriso, uma palavra, um abraço forte, uma visita. A gratidão pode ainda ser a cura para o materialismo e uma das melhores maneiras de aumentar a felicidade e sensação de bem-estar.
A gratidão brota de um momento de introspecção, portanto, identificar e expressar gratidão às vezes pode ser difícil, especialmente se você não acha que tem muito a agradecer.

É claro que precisamos vigiar permanentemente nossa mente para que não passemos mais tempo reclamando do que apreciando a vida. Nem sempre quando escolhemos o caminho mais fácil, fazemos a melhor escolha.
Voltando ao básico, devemos ser gratos por estarmos vivos. Não devemos concentrar em coisas materiais que podemos e queremos ainda adquirir, mas devemos debruçar sobre o que já temos, por exemplo; a saúde , o trabalho, o teto sobre nossas cabeças, saber de onde vem a próxima refeição. Quando se trata de ser grato, acho que sabemos exatamente por onde começar; agradecendo pelo dom da vida. Seja qual for o seu fardo, eu espero que você tenha motivos para ser grato, também.

Podemos ser gratos até por algumas dificuldades que vivenciamos em nossas vidas e reconhecê-las como experiência, amadurecimento e cura dos males da nossa alma. Nada existe sem essa dualidade de positivo e negativo. Em vez de resistir as dificuldades, podemos escolher enfrentar as emoções que nos cercam. Pois embora a maioria de nós acredita que a emoção é criada por causa do problema, é o problema que é criado por causa de determinadas emoções.

A eterna busca do homem em si mesmo

A discussão aqui envolve uma realidade muito presente, a angústia e o desespero. O que se seriam estes dois conceitos aplicados no atual ser humano e na sua concepção de mundo ? O filósofo e teólogo dinamarquês, Soren Aabye Kierkegaard, criador do existencialismo, corrente de pensamento da qual se distingue Jean-Paul Sartre, e para a qual o objeto próprio da reflexão filosófica é o homem na sua real existência.

O ato de buscar-se exige coragem e determinação pois é necessário assumir as consequências de tal atitude. Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso, de forma que exista libertação de tudo o que aliena o homem. Portanto, o foco da discussão é a busca do homem em si mesmo e a busca pela sua real existência.
O ato de angustiar-se e desesperar-se são características marcantes do homem. O ato de buscar a sua essência em si mesmo, é necessariamente o ato do angustiar-se, pois o homem deve iniciar uma nova construção da sua existência. O desesperar-se seria a falta de esperança, o fim de tudo, onde nada mais pode influenciar o homem, onde ele deve apresentar-se a si mesmo sem mascaras.

Mostrar o real modo de existir seria o ato de mergulho em si mesmo. O homem convive com todos os que estão ao seu redor, com a família, amigos, colegas de trabalho, tem relacionamentos sociais, mas se este mesmo homem não consegue se encontrar verdadeiramente consigo mesmo, consequentemente ele cai no desespero.
Uma das principais características do homem que está em desespero é a de se tornar vítima de circunstâncias, ou de atos externos que acontecem no meio em que ele está vivendo. Embora o homem mantenha a tendência de procurar uma saída, mas esta procura incessante pode agravar a situação de desespero.

No entanto, quando o homem reconhece a sua situação de desespero ele aproxima-se da cura, pois este fato de reconhecer–se desesperado é o passo mais importante para a cura. A simples afirmação de não estar desesperado é uma máscara usada para encobrir a situação que se está vivendo. O desespero é uma doença do espírito. Por esta razão também descobre-se que bem antes de estarmos desesperados já estávamos em desespero. O que aconteceu foi um simples afloramento do que estava latente em nosso íntimo.

A angústia é um sentimento de inquietude que está presente na fonte da livre opção. Não tem um objeto definido, como o medo e o pecado, seu objeto é quase um nada. Não é uma falta, não é um fardo. A angústia é o solo da liberdade, pois para se definir melhor, a angústia é a própria possibilidade de liberdade, mas nem sempre encontramos o caminho para esta liberdade, e a única forma de liberdade que conseguimos foi a opressão do outro.

O sentimento de angustia do homem está relacionado com as suas escolhas. Ao viver o processo da escolha o homem mergulha em um grande abismo de angústia, pois ao fazer tal escolha o homem deve assumir a responsabilidade por tais. Então, todos os seres humanos estão condenados a viver a angústia, pois todos um dia vão fazer suas escolhas.

Conversando sobre política com as crianças

  

Impressionante como as crianças, embora não lembradas devidamente nos programas políticos, se envolvem com as eleições. Vinicius, 9 anos encontrou uma candidata, na qual queria votar para vereadora. Os motivos que o levou ao encantamento com a jovem candidata realmente me surpreendeu. Disse-me que a moça colocou cestos de lixo nos canteiros centrais de Cuiabá com nome e número, em vez das tão criticadas placas de propaganda. Atitude louvável, não resta dúvida.

Em outra ponta o escritor Rubem Alves escreveu com extremo bom humor, uma série de quatro belos textos (bem eu só li estes) sobre como explicar a política para as crianças. Conta que no princípio de tudo, na era do homem contra o homem, quem tinha o “porrete” maior, mandava mais. Os homens não se entendiam e como numa partida de futebol, sem árbitro, sem regras não era mais possível continuar. Então, criaram a política para, através dela, restabelecer a ordem. Os homens elegeram os seus reis; jovens ricos e bonitos, que ao terem a coroa na cabeça e espada nas mãos transformaram-se em tiranos e esqueceram do povo. Foi assim durante muitos séculos, até que os homens reuniram-se novamente e decidiram estabelecer um contrato para garantir da igualdade entre eles.

Rubem Alves usa e abusa de metáforas para explicar a democracia, o exercício da liberdade, transparência e honestidade, onde os representantes escolhidos pelo povo tinham um único ideal: trabalhar pelo bem de todos. Contudo, o poder continuava a corromper os ideais dos homens. Ironicamente o autor usa um banquete para ilustrar os problemas da igualdade democrática. Na mesa havia um queijo grande para ser dividido entre todos os ratos, resguardando-se o costume; os ratos grandes e fortes à frente, os fracos e humildes, atrás. O queijo começa a ficar pequeno e ficam sem comida os que vem lá atrás. Os bichos se revoltam como na literatura de George Orwell, em “ A revolução dos bichos”.

É a estória dos animais de uma fazenda; cavalos, porcos, vacas, cabritos, patos, gansos, cachorros, que cansaram-se de ser explorados pelo fazendeiro e resolveram fazer uma revolução. Uniram-se e expulsaram o fazendeiro aos coices, das suas terras. Os bichos criaram novas leis, estabeleceram a igualdade como princípio entre eles e escolheram seus líderes. Mas logo esses líderes, que antes eram oprimidos se tornaram opressores. Nem todos os bichos tinham tratamento igual. No quarto texto, os bichos criam partidos políticos com plataformas distintas para concorrerem as eleições. Havia o partido das Bananas, da Lingüiça e dos Abacaxis. Os vencedores tomaram posse, elaboraram novas leis, que continuaram a ser desrespeitadas.

O Partido das bananas percebeu que as leis eram armadilhas e convocou os aliados, os pássaros para uma grande manifestação pública. Como no filme de Alfred Hitchcock, os pássaros vieram em bando. Os ataques foram piorando progressivamente, começando com algumas gaivotas, corvos, até chegar a um cenário quase apocalíptico, com o céu coberto de negro, pássaros por toda parte piando e gritando, num movimento orquestrado para depor o governo corrompido. Há sempre uma forma alegórica ou lírica para explicar as coisas do mundo adulto para as crianças. Mas aos adultos muitas vezes, falta resposta para certas indagações sobre as crianças.

Como explicar que embora seja dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a elas o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar, colocá-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, isso ainda não se concretizou plenamente?

A neutralidade é um recurso da guerra

O Brasil possui um sistema de votação rápido, moderno, desde que a urna eletrônica foi introduzida no processo em 1996, o que permite a totalização dos votos apurados, em poucas horas após o término da votação. Somos o terceiro país com o maior número de eleitores do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e India.
Ao aproximar-se o dia das eleições as pessoas assistem televisão, leem os noticiários e podem estar perdidas num emaranhado de números que são divulgados a todo momento, como pesquisas eleitorais e previsões de analistas políticos. É assim mesmo. Os números são de vital importância para avaliar o desempenho dos candidatos.

Você pode estar perguntando-se se o seu voto realmente pode fazer a diferença. Eu digo que sim. O seu voto é o passaporte para seu futuro pelos próximos quatro anos. Não votar ou tratar com displicência o voto é rejeitar sua capacidade de ter influência sobre a forma como sua cidade será administrada, é como dizer que você não se importa com o destino do lugar que você escolheu para morar. Na realidade cada voto conta porque você tem que lembrar que como um indivíduo seu voto pode parecer apenas um sussurro, mas quando o seu voto soma-se com os votos de outros que compartilham de seus pontos de vista, o sussurro ecoa e todos ouvem.

É claro que as divagações intermináveis sobre o pleito, as promessas infundadas e as trocas de acusações desanimam, mas creia, votar é um tremendo presente. O dia da votação é o dia do eleitor. Permita-se caminhar altivo rumo a sua cabine de votação numa manifestação silenciosa de cidadania. Saiba que no dia da eleição igualamo-nos todos; pobres, ricos, brancos, negros, homens, mulheres, jovens e velhos.
Há contudo, espertos e desavisados por toda parte. Sejamos também fiscais do exercício pleno dos nosso direitos. No dia da eleição é proibido reuniões, grandes concentrações de pessoas, distribuição de comida, oferecimento de transporte, distribuição de material de propaganda, fazer carreatas, fazer boca de urna e coagir eleitores. Se você não encontrar seu título eleitoral, você pode votar apresentando documento de identidade com foto, até mesmo carteira de motorista, desde que seu nome conste no caderno de votação e no cadastro de eleitores da seção.

Enfim, o espírito da democracia não pode ser imposto por quem está de fora. Ele deve vir de dentro, como ensinou Mahatma Gandhi.

O analfabeto funcional e a persuasão eleitoral

Imagine você pegar um livro e não poder ler, tomar um medicamento, mas não conseguir ler as contra-indicações, visitar uma cidade e não saber ler os sinais da rua. Segundo as Nações Unidas, um em cada cinco adultos no mundo não sabem ler. E uma população alfabetizada é a base central para promover o bem-estar e uma democracia que funcione bem. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO –, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no seu idioma. Dentro desse conceito, a UNESCO define  analfabetos funcionais como sendo as pessoas com menos de quatro anos de estudo. Para a organização, mesmo que essas pessoas saibam ler e escrever frases simples, elas não possuem as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do seu dia-a-dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente.

No Brasil, um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional, não tem as habilidades básicas necessárias para funcionar na sociedade, exercendo a cidadania, participando plenamente na vida familiar, com emprego e cidadania.   

No passado a alfabetização era como uma ferramenta utilizada pela burocracia dos estados, comércio e pela igreja, que através da leitura, expandiam seus poderes e exerciam controle sobre o povo. Mas a partir do século 19 a instrução, sobretudo através da leitura tornou-se habilidade obrigatória para os indivíduos serem capazes de ter controle sobre as suas vidas. Aprender a ler e escrever é o passo inicial do saber. Mas ler, ouvir e escrever são processos mais profundos, não apenas sons, repetições e vocabulário. Serve enfim, como instrumento para proteger as pessoas da exposição e exploração.

Estudando técnicas de persuasão eleitoral pude constatar que a grande mídia adota um formato que concilia mensagens repetidas, ingênuas e de fácil memorização visando encantar exatamente os indivíduos que não assimilam além do que ouvem e que não lêem ou discutem política ao longo do ano. O interesse é momentâneo e as informações que lhes chegam são igualmente superficiais e carregadas de configuração distorcidas da realidade. Vemos hoje que as imagens se sobrepõem ao campo das idéias. Até porque as imagens são facilmente agrupadas, captadas num contexto e exibidas em outro absolutamente distinto. É assim que as coisas estão sendo postas a grosso modo, como se fossemos todos analfabetos funcionais.

Queremos ver idéias sendo lançadas e contestadas. Mas a estratégia política e os recursos do marketing seguem caminho oposto. Apostam no potencial da manipulação das mentes dos analfabetos funcionais, que mesmo quando conseguem ler, não desconfiam do artificialismo utilizado nas mensagens. Por isso o exagero, às vezes resvala na comicidade.

Fico eu aqui a imaginar o mundo constituído por pessoas alfabetizadas, autônomas, críticas, pessoas construtivas, capazes de transformar as idéias em ações a favor da coletividade.