Deixa a tempestade passar, o sorriso invadir seu dia,
Deixa o eco das palavras se perderem devagarinho.
Nao reaja ao que te entristece.
Deixa a tempestade passar…
Autor: olga lustosa
O idealismo de um político septuagenário
Estava lendo um artigo sobre o Idealismo e as desilusões trazidas pelo capitalismo, quando lembrei-me que aqui bem perto mora o senhor José Mujica, conhecido como “el Pepe”, presidente do Uruguai. O presidente recebe um salário de pouco mais de R$ 25 mil, mas doa 90% para instituições assistenciais que cuidam de pessoas pobres. Sobra-lhe R$ 2,5 mil, que segundo ele é suficiente para sustentar a família e abastecer o carro, um fusca.
Ex guerrilheiro de 77 anos, Mujica foi perseguido pelo regime militar Uruguaio, esteve preso por quase quinze anos, foi deputado, senador e ministro de várias pastas. Político de esquerda com aceitação fantástica em seu país, veio ao Brasil participar da Rio +20, quando deixou uma mensagem contundente que desconcertou a classe política presente.
Questionou as práticas adotadas pelos países ricos para eliminar a pobreza e de forma quase irônica condenou o consumo exacerbado que movimenta o mundo moderno, com uma pergunta: “O que aconteceria com este planeta se os habitantes da Índia tivessem a mesma proporção de carros por família que os alemães possuem? Quanto oxigênio teríamos para respirar?”
José Mujica entende que é necessário impor controle às sociedades mais ricas, que desfrutam a vida com elevado índice de consumo privado e desperdício, porque segundo ele, a discussão tem que seguir por outro caminho que não seja este guiado pelo mercado e pela competição. Ele fala de um olhar mais generoso para o planeta ou senão, seremos governados pela globalização, que invés de solidariedade impõe uma economia baseada na concorrência impiedosa. “Até onde chega a nossa fraternidade”?, pergunta Mujica.
Os desafios e destruição da natureza não são em si crises ecológicas. Segundo o presidente, é a crise política que impede que o homem governe com bondade, cuidando e preservando a vida. Os itens produzidos pelas grandes indústrias seduzem e temos todos que trabalhar cada vez mais para sustentar uma sociedade frívola, que usa, joga fora, compra de novo, alimentando o círculo vicioso do desperdício.
O que agride o planeta é o hiper consumo, o apetite que pode ser regulado pela vontade política dos líderes mundiais. Mujica entretanto, não faz apologia a um retorno melancólico do homem ao atraso monumental de anos atrás. O que ele, dentro da coerência de seu pensamento de esquerda prega, é que não podemos ser indefinidamente governados pelo mercado. Por isso a fala do presidente remete ao caráter cultural e político o problema do consumo, que torna os bens naturais escassos. Mujica define como pobre não aquele que tem pouco, mas sim, o que necessita de muito e deseja ter sempre mais e então, a crise da água e da devastação das florestas não pode ser discutida sem uma reflexão mais abrangente entrando no universo do homem transgressor. A causa, é o modelo de civilização que construímos ao longo dos anos, valorizando bens e produção em detrimento de gente.
“Mas seria esse o sentido da vida”?, pergunta Mujica. Emocionado, Jose Mujica completa: “Essas coisas que digo são elementares; o desenvolvimento não pode ir contra a felicidade. Tem que ser a favor da felicidade, do amor ao planeta, das relações humanas, do amor aos filhos, de ter somente o necessário para viver, porque a vida é o tesouro mais valioso que temos. Quando lutamos pelo meio ambiente, devemos lembrar que o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana”.
Pois bem, semana passada escrevi sobre os jovens e as motivações que os levam a disputar uma eleição. Agora pergunto: Qual é mesmo a tônica do discurso dos jovens?
Atravessando rios
Ainda tenho muitos rios para atravessar.
Águas claras, águas turvas
Mas o que importa é que minha esperança
me ensinou a construir pontes.
Displicência
Não gosto de dias sem côr,
de horas paradas, tenho pavor.
Causa-me estranheza e parece displicência
da natureza não colorir o céu.
Não traia a sua geração
Há vários candidatos jovens nas eleições atuais. Eles esbanjam beleza, energia, anunciam novos rumos, mas será que são realmente jovens de espírito assim como o são de aparência? Os rostos jovens se mostram inquietos, devem ouvir rock progressivo, se expor nas redes sociais. Mas por que querem ser políticos?
Aos jovens dá-se o crédito de serem arrojados, ousados, menos conformistas com a realidade. Gastam energia tentando mudar o rumo das coisas, tomam decisões que contrariam até pai e mãe. Imagina os correligionários!
O ex presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu um livro para orientar os jovens que queiram lançar-se na vida pública. Diz ele que “ a política é importante demais para ser deixada apenas para os políticos”.
A política é uma atividade complicada e quem participa dela sem o conhecimento adequado corre sério risco de ser enganado. É preciso entender seu funcionamento.
A política é uma jogada de risco. Só carinha bonita não ganha eleição. È preciso ir as ruas e convencer o povo que você pensa neles, que você pode ajudá-los a encontrar soluções para um monte de problemas.
Mas não seja político porque papai o é, porque vovô o foi. Apresente-se se tiver perfil, capacidade de andar em compasso com a realidade, se tiver vontade de ajudar a comunidade, de inspirar, de ser exemplo. Não seja político se você acredita que pode viver apenas do espólio dos votos obtidos no passado por gente de sua família.
Seja você no seu tempo.
Arrisque-se a acertar, errar e perder. Transmita suas opiniões claramente. Não, você não deve parodiar ninguém, não deve entrar em retóricas com palavras de efeito para atrair puxadores de palma.
Nosso país tem muitos problemas. Mas você que quer ser político deve conhece-los bem, deve ter certa facilidade para enxergar a solução e saída para as crises. Do político não espera-se uma visão genérica do caos. Trabalhe com fatos, com dados. Há progresso, desenvolvimento e avanços por toda parte. Critique o que tiver que criticar com honestidade.
Não enfrente a imprensa, respeite-a. As campanhas estão direcionadas à televisão. Olhe para a câmera e dia logo o que você vai fazer, prometa um caminho novo, inspire as pessoas a te seguirem.
Mas não minta. Vereadores são podem aumentar o número de empregos. Você entende um pouco de economia de mercado, sabe o que está acontecendo no mundo globalizado, não? Pois é, é a economia que regula o mercado. Não invente fórmulas mirabolantes!
O vice-presidente da República, Michel Temer ao escrever sobre o jovem e a política disse acreditar que o jovem é o esteio da transformação política brasileira, que precisa receber oxigênio novo e plantar novas sementes. E as sementes são os jovens.
Talvez seja a hora de olhar com mais atenção para o papel do jovem na sociedade.
O poder político inegavelmente dá visibilidade e abre portas. Mas o poder político exercido com seriedade tolhe, exige abnegação e expõe.
Eleito? Pronto! Agora você é pago com dinheiro público para trabalhar pelo bem da população. Seu papel muda e não adianta ficar reclamando das adversidades, da crise, do corte disso ou daquilo, você garantiu que seria uma alternativa boa, acreditaram em você. Bora?
A honestidade não pode ser programa de governo
Com o início do horário político obrigatório na televisão, tenho lido reclamações desalentadoras quanto ao nível cultural, falta de discernimento, falsas promessas e falta de escolaridade dos candidatos. Ao assistir os programas percebi razões de sobra para ampliar o desinteresse pelo processo eleitoral que se aproxima. Boa parte de nossos políticos contribui para esse descrédito, mas não nos esqueçamos que fomos nós que elegemos os que se candidatam à reeleição, que foi nossa omissão que permitiu que pessoas sem qualificação alguma fossem escolhidas pelos partidos. Nós, adultos, escolarizados e sendo levados na lábia por discursos vazios e promessas estapafúrdias.
Para escolher um candidato, preferencialmente busque alguém que tenha uma atuação ética, que tenha um currículo de credibilidade e que tenha construído boa reputação ao longo da jornada e que tenha conhecimento dos meandros da política. Vote consciente da sua escolha. E fique de olho depois, para poder cobrar, participar do mandato.
A honestidade não pode ser programa de governo. É um atributo pessoal do qual deveria ser dotado todos os políticos, honestidade não é senão parte integrante da essência, da qual deveriam ser dotados todos os políticos e seus projetos.
Se todos nós votássemos com mais razões e menos emoção, procurando ver o que representa e quem são realmente os candidatos, o que eles fizeram e falaram no passado, certamente teríamos um país melhor, com políticas públicas elaboradas a partir da preocupação com o fosso da desigualdade social.
Importante ficar atentos porque candidatos podem ser transformados em produtos, apresentados, muitas vezes, numa linda embalagem por fora mas sem conteúdo algum por dentro.
Essas frases de certo efeito moral ilustram o livro coordenado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, com a colaboração de outros nomes consagrados do jornalismo brasileiro, e cientistas políticos.
Há, é certo, preocupação grande com as mentiras e dissimulações contidas nas campanhas eleitorais brasileiras, razão pela qual, esse time saiu a campo para alertar o eleitor e dá-lhe certo balizamento de como evitar ser enganado pelo jogo de palavras e encenação.
Existem muitas questões a considerar quanto ás eleições. Escolha os seus candidatos com sabedoria. Os políticos decidem sobre questões como a política de segurança, educação, saúde, transporte, limpeza urbana e meio ambiente. Se você se preocupa com esses itens, você deve pensar bem antes de votar.
Se cada eleição nos ensina alguma coisa é que cada voto conta muito. Não podemos estar ocupados demais para participar do processo político ou simplesmente dizer que não nos sentimos atraídos por nenhum dos candidatos. O futuro da nossa cidade depende do nosso comparecimento nas urnas e a escolha não pode definitivamente ser pessoal. È uma escolha que vai refletir no destino a curto e longo prazo das pessoas. Então a questão é racional. A política é uma ciência e como tal, faz-se contas, das quatro operações antes da escolha.
Votar é um direito que nem todas as pessoas do mundo tem. Ao compreender a definição de democracia, vemos muitos exemplos de como votar transmite liberdade e dá voz. Agora, posto os nomes, não fuja de nenhuma responsabilidade sua como cidadão. Cada voto tem significado, várias eleições foram decididas por um único voto.
Nós vivemos numa democracia, somos livres, mas disso depende as pessoas exercerem os seus direitos.
Certo que as decisões não são irrevogáveis. Escolhas voltam. Mas quatro anos demora muito a passar.
Kuarup – uma celebração tipicamente xinguana
A região denominada Alto Xingu, formada por 14 etnias, esteve em festa no final da semana. A aldeia Yawalapiti, onde vive o não velho, 61 anos, porém lendário líder Aritana, realizou o Kuarup ou Quarup, uma bela festa ritualística onde os indíos choram e homenageiam os mortos, numa cerimônia em que tocam, cantam e lutam o huka-huka, no encerramento da celebração. Esta cerimônia, que é tipicamente dos povos indígenas do Alto Xingu, move-se de uma aldeia para outra porque ela ocorre onde tiver acontecido a morte de algum membro importante para a comunidade. A família então, assume os preparativos.
O cacique Aritana é a mais respeitada liderança do Alto Xingu. Desde que assumiu a chefia dos Yawalapiti, há cerca de 30 anos, ele luta incansavelmente pela preservação da cultura e dos hábitos dos índios xinguanos. Esforça-se para mostrar aos jovens a importância de ser o que são: índios.
A Adeia Yawalapiti comandada por Aritana e seu filho Tapí, homenageou também Darcy Ribeiro e a família foi representada por Paulo Ribeiro, que dirige a Fundação que leva o nome do antropólogo. Darcy Ribeiro foi ministro da Educação, durante o Governo João Goulart, aos 29 anos, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro e senador da República de 1991 até sua morte, em fevereiro de 1997. Criou o Museu do Índio e a Universidade de Brasília, da qual foi o primeiro reitor e formulou o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu.
A Aldeia Yawalapiti é toda circular, com uma praça limpa no centro, onde acontece toda festividade da Aldeia e também onde os mortos são enterrados. É também na praça que se localiza a Casa dos Homens que causa tamanha curiosidade. Uma construção igual as demais, porém com portas mais baixas. As flautas são guardadas lá dentro, presas as viga centrais. Ali mulheres não entram. Nos dias do Kuarup, a vida na aldeia não para um minuto. A atenção se volta aos guardiões da flauta que percorrem as ocas apresentando as virgens recém saídas da clausura. Como a aldeia é circular, impossível imaginar quantas voltas tenham dado nestes três dias que lá estive. As virgens dançam atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para descansar dentro de alguma oca. Esse ritual marca a passagem da infância para vida adulta e no final, as jovens estão prontas para casarem-se.
De manhã, três troncos fixados debaixo de uma tenda começam a ser enfeitados. Ao redor deles sentam-se os familiares dos mortos. Choram por algum tempo. Depois acalmam-se. A Aldeia retorna a rotina. Quando o sol começa a se pôr o ritual reinicia no centro da aldeia. Os familiares dos mortos se reúnem, choram copiosamente, acendem tres fogueiras, ao redor das quais, entoam cantos e dançam toda a madrugada. Aos poucos vão chegando indígenas de outras etnias, a chegada é saudada com gritos. Eles acampam na mata, um pouco distante do centro da Aldeia Yawalapiti.
Ao amanhecer de domingo é dia da esperada luta huka-huka. Os guerreiros untam os corpos com óleo, pasta de urucum e pequi. Vi alguns que se submeteram a arranhões feitos nos braços e pernas com dentes de peixes para aumentar a força. Os Yawalapiti estão confiantes no guerreiro Leo, um jovem que se destacou, porque se preparou intensamente para o embate. Não perde uma luta! São mais de duas horas de lutas. Por volta do meio-dia, os troncos ornamentados são depositados no rio. É o fim da cerimônia.
Os ciclos da vida do homem contemporâneo
A vida do homem pode ser de curta ou longa, dependendo das circunstâncias e do mundo perigoso onde ele vive. Se pressupomos que a idade média do indivíduo é de cerca de 75 anos, o tempo de vida pode ser dividido em vários momentos desde o nascimento até o fim da vida. A cada ciclo da vida, a idade é um fator determinante para a atividade intelectual. Dos 18 aos 25 anos a educação é reforçada e o cérebro é bombardeado com a aprendizagem de várias competências que respondem as curiosidades e que seguramente facilitarão a entrada na próxima fase da vida.
Dos 30 aos 50 anos somos envolvidos na estruturação da vida pessoal e profissional e muitas vezes a uma velocidade vertiginosa e sem muito cuidado com o corpo ou inspiração espiritual. É um momento crucial onde nos tornamos escravos de nossas próprias ambições, com a vida demasiadamente atribulada e os meios utilizados para alcançar os resultados nem sempre levam em consideração o estado da alma, que no processo tende a ser esquecida. Todavia, analisando a máquina humana, estes são os anos que precisaríamos de mais cuidado para apoiarmos os próprios sonhos, precisaríamos dar a nós mesmos permissão para nos estabelecermos como prioridade. Seria a hora de viver o que nos faria verdadeiramente felizes e realizados.
Entretanto estudos apontam que a virada hoje ocorre na maioria das vezes dos 50 aos 60 anos e então é uma viagem alucinada, por razões diversas que incluem tudo, desde a pressa de se viver o que não pode, o trabalho, vida difícil, consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o divórcio e problemas econômicos. Esse desafio de enfrentar julgamentos e retomar a vida não se aprende na escola. A falha do corpo e da alma humana gera um processo difícil de juntar os elementos básicos, dar-lhes novamente função, ouvindo os sinais vitais do corpo, num processo de preenchimento do buraco espiritual, deixado pela angústia diante das escolhas que são feitas a cada dia pelo homem.
Nunca é tarde e a qualquer tempo o homem deve iniciar ou reiniciar a construção ou o reequilíbrio de sua existência. Sorte que o homem não nasce com comportamento acabado e por isso pode ser transformado, tanto física quanto mentalmente, desde que o próprio corpo, alma e mente descartem os preconceitos e busquem a interação para uma vida mais proveitosa e gratificante, como um bilhete na mão para assistir a um grande espetáculo sobre novas crenças e hábitos que por anos foram bloqueados pelo ego.
O dinheiro, sem dúvida é a força que move quase tudo o que fazemos no mundo civilizado, mas o nosso crescimento não precisa ser igual em riqueza financeira e riqueza interior.
É preciso retomar o equilíbrio que esvaiu-se, que tornou impossível a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, estabelecer fronteiras, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira. Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de tudo que oprime.
Vê-se agora que a felicidade não é acidental, as ações tem efeitos cumulativos. Todavia “é preciso começar pelo mais escuro, buscar o vazio, e o negro, e o nu, e chegar progressivamente a luz”. Comte-Sponville (1997, p.13).
Os discursos dos homens austeros
O dicionário define austero como severo, duro e uma pessoa austera é alguém dotado de rígido comportamento e modo de vida sem conforto exagerado ou luxo. E se estendêssemos o significado a algo racional, um comportamento que beneficiaria nosso modo de vida, em vez de arruiná-lo, um comportamento que não trouxesse sacrifício, mas o entendimento de viver dentro de padrões de uma moral verdadeira?
A história mostra que os tempos austeros podem ter a capacidade de transformar as pessoas e as nações. Esparta, cidade-estado da Grécia antiga, tornou-se famosa pelo poderio militar de seus cidadãos através do seu modo austero de vida. Do nome desta cidade, a palavra “espartano” evoluiu e ainda hoje é usada para conotar abnegação.
A austeridade é provavelmente uma palavra que poucos pronunciam num contexto positivo; está inexoravelmente associada principalmente com o pessimismo econômico, com a perda do padrão de vida, sem qualquer objetivo de compensação à vista.
Mas há outro tipo de austeridade que hoje aqui exploro. A austeridade nos gestos, nos discursos políticos, a privação do sorriso, do abraço apertado, da esperança nos palanques. Os discursos inflamados, ainda remetem a mágoas passadas, os homens austeros sobem nos palanques inspirados pelo desejo de revanche e não olham nos olhinhos espremidos do que lá embaixo clamam por um afago, por uma palavra que lhes traga alento.
Engraçado como esses homens(e mulheres) conversam entre si nos discursos.
O povo, ah o povo! Esqueceram-se de falar com o povo. É por isso as urnas trazem surpresas, não para o povo, mas para os homens de palavras austeras, prometem cortar gastos, enxugar a máquina, que incontáveis vezes falam de seus projetos, mostram seus amigos, exibem força política. Mas e você que foi ao comício ou reunião política, como preferir, só para ouvir que sua vida vai melhorar, que seus filhos serão transformados em cidadãos dignos pela educação de qualidade que os alimenta e ensina enquanto você trabalha. Não viram você lá?
A alegria, a transmissão da esperança, o diálogo, a troca de carinho podem estar em cima de qualquer palanque e isso não comprometeria o rigor e a seriedade da campanha. Os homens de virtude serena não são fracos, embora isso lhes conceda pouca glória. Mas creia-me é possível adotar o agir político, cujo critério principal não seja apenas a conquista do poder em si. É a outra face da política, é deixar aflorar as virtudes elevadas da gentileza, da prudência, da honestidade, da temperança, da alegria, da tranquilidade e da boa educação. Abaixa-te e escuta o que te dizem.
As medidas de austeridade devem ser deixadas a esfera econômica, onde tem potencial positivo para reduzir o consumo excessivo e levar as pessoas a pensar com mais criatividade sobre o futuro, fazer escolhas de novos estilos de vida, abrindo mão de atividades não-essenciais que permeiam a vida moderna.
Politicamente as virtudes não precisam ser diagnosticadas fracas ou fortes. Nenhuma virtude renega a simplicidade e a tolerância. Há controvérsias, mas eu li e aprecio a teoria de que a base que sustenta uma boa república, mais até do que as boas leis, é a virtude dos seus cidadãos.
A culpa em si é um sentimento inútil
O sentimento de culpa é algo bom. As únicas pessoas que não sofrem com a culpa são os sociopatas e serial killers. A culpa significa que você tem consciência, boa percepção. Amparado por comodidade ou ensinamento religioso, alguns preferem acreditar que toda nossa história de vida se desenrola seguindo o que já fora traçado desde que nascemos.
Do terremoto aos desmandos políticos, tudo se move de acordo com a vontade de Deus. Assim fogem da atribuição de culpa aos outros e a si próprio quando as coisas vão mal. O sentimento de culpa é apropriado para que não sejamos inclinados a esquecer certos abusos. O racismo por exemplo. O que você faz para reforçar sua oposição ao racismo? Tudo? Então ótimo. Não se acuse e nem recuse a realidade do mundo que você vive. Todo mundo tem um um crítico dentro de si, dizendo-lhe como agir, o que fazer e o que não fazer, julgando a aparência, repreendendo o modo de vida.
Essa voz interior detém o poder incrível de nos atribuir culpas, de nos chamar a razão em momentos que absolutamente podemos mudar coisa alguma. Porém, em outras circunstâncias, temos que assumir nossas culpas pelas escolhas feitas às pressas, pelo fracasso de políticos que apoiamos, pela pobreza dos que vivem ao nosso redor.
Tragédias ressoam repetidamente em nossos ouvidos, massacres, guerras e isso é culpa nossa. São ações iniciadas pelos homens de razão, que estão sempre com um pé na possibilidade de erro. Mas não se curve em culpas; a culpa ostentada converte-se em fraqueza. No outro extremo, também não faça a mea culpa, porque pode parecer arrogância querer que a solução de todos os problemas passe por você.
Li que as mulheres são mais propensas a dureza da culpa. Culpam-se pela educação dos filhos, pelo excesso de trabalho, pelo acúmulo de horas fora de casa, pela liberdade que experimentam. Esta voz interior é fonte de estresse negativo, abala a auto-estima, causa infelicidade. Talvez porque as mulheres ainda ouvem as vozes do passado, que estão internalizadas. São talvez os pais, irmãos, marido, a escola conservadora, que colocou-as uma condição onde tudo é preto ou branco.
O desempenho do ser humano não é perfeito de acordo com nenhum padrão, não somos robôs. Isso não é fracasso. Fracasso é pegar uma situação ou característica negativa e multiplica-la. Ver um único evento desagradável como um padrão contínuo de derrota, é excesso de generalização. Erros ou falhas isoladas não indicam que você sempre falhará. Sempre hesitei em creditar culpa aos outros ou a mim mesma, nem mesmo sei quem seria o alvo das minhas acusações. Por certo, nem todo mal pode ser evitado, então não personalizo o fracasso, não assumo a responsabilidade de circunstâncias negativas que estão além de meu controle. Não dou ouvido a voz interna que diz que tudo é culpa minha.
Na contramão da culpa, melhor avançar e aceitar que somos seres imperfeitos, que fazemos o melhor com o que temos no momento e isso tem que ser bom o suficiente. A culpa excessiva corrói a alma, é uma emoção complicada, que mistura elementos da nossa cultura, religião e da família, além do nosso crítico mais severo; nós mesmos.