Imagine Dragons e Richarlison espalhando conscientização sobre saúde mental

Li várias entrevistas, rela

tos de pacientes e médicos, proposta da Organização Mundial da Saúde e do Governo Federal sobre saúde mental. Estigma, discriminação e violações de direitos humanos contra pessoas com problemas de saúde mental são comuns em várias comunidades; 20 países ainda criminalizam a tentativa de suicídio. Em todos os países, porém, são as pessoas pobres que correm maior risco de problemas de saúde mental e que também são as menos propensas a receber tratamentos adequados.

Um levantamento da consultoria Alvarez & Marsal aponta um crescimento anual de 12% a 15% nos últimos quatro anos em atendimentos de saúde no Brasil devido a transtornos mentais. O país tem o 3º pior índice de saúde mental do mundo, conforme dados do relatório global anual Estado Mental do Mundo 2022. No primeiro semestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022, houve um aumento de 37% na aquisição de antidepressivos, segundo mapeamento de uma empresa de plano de saúde.

 As estatísticas fizeram acender a luz vermelha no Governo Federal e o Ministério da Saúde anunciou que no Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC 2024) vai construir 150 novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em cidades de todas as regiões do país. Essa ampliação promove a inclusão de 13,4 milhões de pessoas na Rede de Saúde Mental do Sistema Único de Saúde (SUS). 1.148 municípios se inscreveram. Serão investidos R$ 339 milhões, nos locais com menor taxa de cobertura; onde haja proposta de Caps de funcionamento 24h e de Caps Infanto-Juvenil. Os Caps atendem pessoas de todas as faixas etárias que apresentam sofrimento mental grave e persistente, incluindo aqueles relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

As mulheres são desproporcionalmente afetadas pelos transtornos mentais, como ansiedade e depressão, comparadas aos homens. Suas emoções são reprimidas para cuidarem de outros antes de si mesmas, com a necessidade de conciliar atividades profissionais e familiares, diante da desigualdade de gênero, questões reprodutivas, cobranças pela gravidez, implicações e depressão pós-parto, violência doméstica.

O relatório Esgotadas: empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres, desenvolvido pela ONG Think Olga, indica que 45% das mulheres brasileiras apresentaram diagnóstico de ansiedade, depressão, ou outros tipos de transtornos mental no contexto pós pandemia. A ansiedade, transtorno mais comum no Brasil, faz parte do dia a dia de 6 em cada 10 mulheres brasileiras.

Quando pessoas famosas se abrem para relatar seus dramas, aumenta a fresta de esperança sobre a conscientização sobre o tema. A honestidade e a abertura dessas pessoas são importantes para quem vive situação semelhante.

Em emocionante entrevista à ESPN Brasil, o jogador brasileiro Richarlison contou que disse ao pai que queria desistir depois de lutar para se motivar para sair do quarto e participar de treinos. “Eu estava chegando ao meu limite, sabe? Não sei, não vou falar em me matar, mas eu estava com uma depressão lá e queria desistir”. Libertou-se do preconceito, do medo de ser taxado de louco e procurou ajuda, participou de sessões de terapia, que acredita ter ajudado a salvar sua vida. Percebeu a repercussão positiva da sua coragem de se abrir e encoraja colegas jogadores de futebol a se observar e procurar ajuda nos primeiros sintomas.

O vocalista e líder da banda americana Imagine Dragons, Dan Reynolds é outra personalidade, entre milhares, que entre uma música e outra faz confidências ao público sobre sua condição: um quadro cíclico de depressão, que vai e volta há muitos anos. De família Mormon, recebeu boa educação, foi para a Universidade, mas essa condição não o livrou da solidão e depressão.

Sempre criativo e emotivo ele disse que sente os sintomas de depressão desde muito jovem. Artista bem sucedido, shows com ingressos esgotados ao redor do mundo, às vezes perde o interesse em tudo e precisa se afastar para silenciar a voz interior que o assombra. Escrever músicas se tornou uma experiência terapêutica, além da aceitação do terapeuta formal em sua vida, ainda assim, diz Reynolds, que amor próprio tem sido um de seus maiores desafios.

 “…quando sentir o meu calor, olha nos meus olhos. É onde meus demônios se escondem”, escreveu Dan Reynolds.

Manipulação do sagrado

” Não manda o seu filho para a faculdade. Vai vender picolé na garagem.

Ah, mas eu não criei meu filho para isso.

Cê criou seu filho, para quê?

Para ele ir para o inferno, pô?

Criou sua filha para virar uma vagabunda ou para ser uma mulher santa, digna, de família e cheia de Deus?

Aí ela tem um diploma e é rodada, é doida”.

Transcrição do vídeo com a fala de André Valadão, líder religioso da Igreja Batista Lagoinha, incentivando pais a não mandarem seus filhos para a faculdade, segundo o pastor, um lugar de trevas.

Duramente criticado pela pregação o pastor foi para as mídias sociais bater boca com internautas, ora defendendo sua teologia do domínio e seu discurso fundamentalista, ora explicando-se, tentando reparar a ignorância pronunciada. Tentando remediar, o pastor declarou que tudo que ele fala em púlpito é com compromisso com a palavra de Deus e que não está isento de errar e que suas falas são distorcidas por aproveitadores, que ele não é contra jovens frequentarem a faculdade, e nem contra cristãos na ciência. Contudo, o vídeo está aí para quem tiver estômago para assistir, as palavras ditas em som bem alto, simples e diretas não foram minimamente distorcidas por quem o criticou.

A manipulação emocional é uma tática de persuasão antiga, onde indivíduos podem usar ensinamentos religiosos para provocar emoções fortes nos outros, como culpa, medo da desaprovação divina e de punição ou vergonha, a fim de controlar o comportamento ou as tomadas de decisões dos fiéis vulneráveis. Outra intenção explícita é a imposição como líder religioso autoritário e controlador, que quer explorar sua autoridade para influenciar as ações e escolhas dos seguidores, até para o próprio benefício, ao se pretender ter fiéis que não frequentam universidades, que não tem discernimento para perceber e questionar o abuso, o extremismo, a manipulação. Com fiéis cegos, o dízimo não mingua, os estudos nos Estados Unidos do pastor, são garantidos.

Porque, ele mesmo, foi estudar nos Estados Unidos, sua formação religiosa foi toda moldada em instituições americanas, provavelmente custeada pela Igreja, um negócio da família Valadão desde 1957. Essa não foi a primeira tampouco a segunda vez que Valadão se envolve em polêmica com suas pregações manipuladoras. Já atacou a Igreja Adventista, dizendo que a considera não uma igreja, mas uma seita.

Atacou as pessoas LGBTQIA+ afirmando que Deus lhe disse: “ já meti esse arco-íris aí, se pudesse mataria todas e começaria tudo de novo” e incitou seu público, a ‘ir para cima’ dessa população.

O que o manipulador da fé faz é exatamente isso, tenta mudar as crenças e desejos das pessoas (todos os pais almejam mandar seus filhos para a universidade), oferecendo-lhe razões ruins, disfarçadas de argumentos bons, ou argumentos falhos e falsos disfarçados de argumentos robustos e sólidos, mas ele, o manipulador sabe que suas intenções são ruins e aposta que seus argumentos falhos não serão percebidos.

Um ataque e desrespeito às crianças e mulheres

Mesmo com os partidos destinando a cota de 30% de candidatos para mulheres não atingimos ainda 20% das cadeiras no Legislativo brasileiro. Com grande avanço nas últimas eleições chegamos a 17,7%, enquanto a média global da participação das mulheres nos parlamentos é de 26,4%. Por essa razão, pautas sensíveis, sobre a vida, o corpo, a escolha das meninas e mulheres estão sendo discutidas e votadas majoritariamente por homens, com posições conservadoras, que não dialogam com os direitos das mulheres.

Na Câmara Federal, a bancada conservadora tem muitas mulheres que defendem pautas e pensamentos ultrapassados e machistas. Embora o Brasil seja constitucionalmente um país laico, grande parte de nossos congressistas flertam com o fundamentalismo religioso. Dos 33 deputados que votaram pela urgência na tramitação do Projeto de Lei 1904, que obriga a criança ter filho do estuprador e equipara a pena por aborto ao homicídio simples, 12 são mulheres, de diversos partidos e algumas possivelmente mães ou avós de meninas.

 presidente do Senado, Rodrigo Pacheco se comprometeu a examinar o projeto sem a urgência descarada imposta pelo presidente da Câmara Arthur Lira, que impediu os debates públicos de um tema tão complexo nas Comissões e concluiu a votação pelo regime de urgência em 24 segundos. Lamentavelmente alguns representantes do nosso estado que deveriam estar em Brasília analisando os estudos do Anuário Brasileiro da Segurança Pública sobre a violência sexual infantil, propondo medidas para freá-la, estão do lado obscuro da Câmara Federal que quer imputar pena pesada a quem já está destroçada pela violência sexual, pela infância perdida, pela exposição e pela humilhação.

O ex-governador Pedro Taques, com expressiva carreira na advocacia se pronunciou, criticou a aberração jurídica e lembrou que desde 1940, o Código Penal, que ainda é vigente, não criminaliza o aborto em casos de estupros e entende como desproposito penalizar a vítima, em situação, que pode ocorrer de pegar pena maior do que a do estuprador. Lembrando que neste país, segundo o estudo ‘Sem deixar ninguém para trás – gravidez, maternidade e violência sexual na infância e adolescência’, a maioria (67%) meninas vítimas de estupro tem entre 10 e 14 anos e são vítimas de familiares e conhecidos próximos e o crime acontece na casa das vítimas.

Pai violenta filha em leito de UTI em São Paulo. O abuso sexual de crianças e adolescente é crônico, recorrente e indecente; o pervertido pede segredo, faz promessas e ameaças físicas, promove confusão mental com chantagens e estamos falando da pessoa que a criança acreditava que iria protegê-la. Em vez de dispender tempo propondo aplicação de pena dura para crianças vítimas de violência sexual, que abortem,  o senador Styvenson Valentim apresentou um Projeto de Lei, que está na Comissão de Direitos Humanos do Senado, propondo, ações duras e indicando mecanismo de financiamento para a prevenção e enfrentamento da violência sexual contra nossas crianças, incluindo o aumento das penas para esse tipo de crime, aumento das estruturas de apoio e equipamentos para as escolas, creches e os Conselhos Tutelares apertarem a vigilância.

É uma perversidade que a vítima de estupro seja penalizada. Estuprador não pode ser chamado de pai, criança não pode ser mãe e o PL do estupro diante das grandes manifestações deve minguar, apesar do deputado autor do projeto assegurar em entrevista que tem 300 votos garantidos entre os 513 parlamentares.

Não tem mais volta

Apesar de estarmos vivenciando catástrofes climáticas, a maioria das pessoas dá de ombros quando se discute o futuro do nosso planeta. Há uma explicação psicológica para isso; não fomos projetados para permanecer em um estado de aflição e medo por muito tempo.

O físico Paulo Artaxo, pesquisador da USP, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, vinculado a ONU disse em entrevista recente que o relatório do Painel Brasileiro, que fizeram há oito anos mostrou que haveria o risco de chuvas extremas no Sul do país e nada foi feito pelos governos para prevenir a ameaça anunciada. Um dos mais brilhantes cientistas brasileiro, o climatologista Carlos Nobre, que fez carreira no INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, diz que nesse cenário de aquecimento global, as previsões para a região Sul do Brasil são aumento de 10% a 20% da chuva anual e em todo o resto do Brasil, a previsão é de diminuição da chuva e seca.

O cientista Carlos Nobre diz que a capacidade de previsão meteorológica avançou muito e que fenômenos extremos estão sendo previstos com vários dias de antecedência mas, alerta que os governos precisam melhorar muito seus sistemas de respostas, senão, as tragédias serão cada vez maiores. Nobres diz que eventos extremos como o que ocorreu no Rio Grande do Sul, não tem mais volta e vão acontecer com frequência, causando deslizamentos, enxurradas e muitas mortes, as secas trarão problemas de abastecimento de água, queda de produtividade da agricultura.

Depois da tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul, na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, a Assembleia Legislativa realizou um seminário em Cuiabá para discutir a questão das mudanças climáticas, falar sobre os objetivos traçados pela ONU para reduzir as catástrofes. As discussões de forma transversal relacionavam o recrudescimento das mudanças climáticas às práticas permanentes de corrupção dos governos, através dos subornos recebidos para fechar os olhos diante de destruição causada em grandes áreas, pela falta de política pública para retirar famílias inteiras que vivem em áreas de risco.

Se o governo não se preocupa, o público responde com a mesma indiferença. Mesmo com bons palestrantes da Unemat e outras instituições, com exposição de práticas sustentáveis desenvolvidas em escolas públicas pela Unemat poucas pessoas compareceram. Enfim, o palco estava repleto de bons técnicos mas as cadeiras da plateia estavam vazias, porque o cidadão, ainda não está disposto a levantar sua voz para cobrar do governo, em todas as esferas e das grandes empresas, a adoção de práticas de desenvolvimento sustentável.

Mato Grosso deveria ter despertado depois de divulgadas as ações predadoras do fazendeiro, que sozinho causou um dano hipoteticamente impossível de ter ocorrido sem ter sido percebido por algum órgão de controle. O cidadão gastou a fortuna de 25 milhões para promover desmate químico em 81 mil hectares no meio do Pantanal Mato-grossense e ao ler a história do pedido de prisão do pecuarista pelo Ministério Público, as autoridades fizeram cara de espanto, diante de um caso que não ocorreu em um dia.

A ação predadora aconteceu paulatinamente, durante anos, num tempo em que temos equipamentos precisos de monitoramento e controle, ação fiscalizadora presencial e tudo mais…A reação pública sobre o gigantesco desmate foi um silêncio constrangedor, sobretudo diante de informações sobre aplicação de multas aplicadas e contestadas num passado recente. Enfim, nenhuma ação de chega, basta!

Todos enfrentamos diariamente escolhas que acarretam um custo climático de baixo ou elevado impacto. Fala-se muito hoje em dia sobre a necessidade de levarmos estilos de vida o mais sustentável possível. Isso não significa viver sem carros, não precisamos ser vegetarianos. A ação individual é importante e a questão central é concentrar-se nas escolhas. Precisamos de mudanças sistêmicas que reduzam a pegada de carbono de todos, de quem se preocupa com as mudanças climáticas e de quem as nega.  

O freio contra comportamentos inadequados

O cerimonial é observado como um conjunto de normas jurídicas, tradições, crenças, pressupostos básicos, inventados ou repetidos, regras de comportamento. O conhecimento das regras do cerimonial, desde a China antiga era considerado uma das virtudes necessária para a promoção da elevação social, assim como o conhecimento da música e da matemática.

O cerimonial foi apresentado ao Brasil, na sagração de D. Pedro I, onde José Bonifácio de Andrade e Silva, fazia parte da junta organizadora, que tentava conciliar o poder irretocável do imperador e o poder dos deputados constituintes eleitos. O rito foi tão baseado no cerimonial religioso que até coroa foi confeccionada semelhante ao barrete eclesiástico que os bispos usam.

As Normas do Cerimonial Público no Brasil foram instituídas por um decreto assinado pelo presidente Médici em 1972, em pleno ano de chumbo do regime militar, com forte repressão à oposição política. O decreto ordenava o lugar de precedência das autoridades, visando sobretudo dar voz aos aliados do governo, colocar em visibilidade os cargos distribuídos pela indicação do governo militar, como governadores, prefeitos das capitais e senadores em detrimento dos cargos eleitos pelo voto direto, deputados federais e estaduais e vereadores.  Uma tentativa clara de calar as vozes de oposição, abrigadas sobretudo na Câmara Federal.  Além disso, a formação cultural do povo brasileiro transfere ao Poder Executivo toda a força do capital simbólico que tinha o Imperador D. Pedro I.

Veio a nova Constituição em 1988 e trouxe um novo olhar para os costumes, regulamentou carreiras e instituições, entre as quais o Ministério Público, portanto devemos conhecer e aplicar as Normas do Cerimonial Público com bom senso, contextualizando o momento, o ambiente de seu surgimento. Se, por um lado, tenho um olhar enviesado sobre as Normas do Cerimonial Público, por outro, reconheço e o aplico como um freio social contra comportamentos inadequados e como representação simbólica e política que se desempenha entre os poderes.

A Constituição de 1988 sublinhou tão fortemente a independência dos poderes que a partir daí as cerimônias do Poder Legislativo e Judiciário, puderam ser conduzidas pelos seus presidentes, mesmo com a presença do Presidente da República e nos estados, mesmo com a presença do Governador.

Somente a educação pode propiciar uma coexistência respeitosa e harmônica entre os Poderes, entre os parlamentares, entre as pessoas da plateia. Enfim, nos dias atuais, a palavra de ordem é parceira e quanto mais amplo for o evento mais difícil é estabelecer a hierarquia pacífica entre as autoridades, garantindo-lhes o direito e o privilégio descrito na Lei. A precedência destacada a uma autoridade é percebida pelo lugar que ocupa nas cerimônias e eventos. E a autoridade, em geral, sabe onde é o seu lugar e faz questão de ocupá-lo.

O cerimonial assume então, o papel de informar a todos que naquela cerimônia, encontram-se autoridades e personalidades importantes que serão distinguidas de acordo com a hierarquia estabelecida nas normas de precedência e não de forma ideológica ou aleatória.

Para onde vamos a partir daqui?

Traz alento as boas notícias sobre ações humanitárias de pessoas desconhecidas e famosas, destinando recursos para apoiar iniciativas para a reconstrução das cidades alagadas do Rio Grande do Sul, após o estado ter sido devastado pela pior enchente de sua história.

Três semanas depois, povo gaúcho entra na difícil fase de reconstrução material, mental e espiritual. Inacreditável, mas no auge da crise humanitária, caminhões utilizados e identificados para o transportar de doações já foram flagrados e apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal, com quilos de drogas escondidas entre os pacotes de alimentos e itens de higiene doados.

A rede de solidariedade espalhou-se pelo país inteiro e ainda assim, mais de 130 indivíduos foram detidos roubando os galpões onde são guardadas as doações, para posterior distribuição aos que perderam tudo e estão há quase um mês alojados nos abrigos. Leio que mesmo nos abrigos, tem sido denunciado um ou outro caso de homens que tentam inapropriadamente tocar os corpos de mulheres debaixo dos cobertores. Que sejam poucos, que fosse apenas um caso: inadmissível! Foco na tragédia, na solidariedade, na reconstrução da vida.

Não somos impotentes. Nem estamos condenados a viver em desespero. Mas as convulsões de saúde e social que vivemos no período da Covid-19, mostrou nitidamente que não mudamos o curso de nossas vidas, que o medo, o sofrimento, as perdas não nos levaram a grandes reflexões e mudanças. Seguimos a vida, como se nenhum aprendizado tivéssemos tirado dos dramas experienciados.

As mudanças climáticas previstas cientificamente e anunciadas há décadas podem nos castigar, como resposta a nossa falta de civilidade e respeito quanto a exploração gananciosa dos recursos naturais. A relação do homem com o planeta fez com que as coisas chegassem ao evento climático extremo no Rio Grande do Sul. Não importa a dimensão de catástrofe, culpas ou responsabilização, a resposta deve residir sempre na mudança de atitude de comportamentos enraizados e nós, enquanto sociedade resistimos a fazer mudanças estruturais em nossas vidas, resistimos abraçar uma nova mentalidade.

Recentemente li o livro Where do we go from here: Chaos or Community? de Martin Luther King, que dispensa apresentação, onde ele fala das questões sociais, econômicas e políticas vivenciadas pelos negros americanos nos anos 1950 e 1960 e aconselhava-os  a se colocarem contra qualquer sistema que os oprimissem, mas que mesmo diante de toda dificuldade, violência e injustiça agissem centrados na reconstrução pelo princípio da dignidade e do amor. Que os negros deveriam formar comunidades centradas na reconstrução por meio da justiça, igualdade de oportunidades e no amor pelos semelhantes. Que o esforço, o trabalho e o pensamento fossem envidados para fortalecer os pilares que poderiam manter a comunidade unida.

Disse Dr. King que toda luta avança até o ponto em que todos os envolvidos questionam;  e agora, para onde vamos a partir daqui: para o caos ou para a vida destinada a compartilhar amor e solidariedade?  

Martin Luther King possivelmente ficaria decepcionado ao perceber que mais de 55 anos depois de seu questionamento, os negros no mundo todo enfrentam muitos dos mesmos problemas: maior taxa de desemprego do que os brancos, maior taxa de mortalidade infantil, as meninas e mulheres sofrem mais violência sexual. Quando nos perguntamos, para onde vamos a partir daqui reconhecemos que há dúvidas e incertezas e ajustes a serem feitos no modo que estamos vivendo.

Talvez este seja o momento de querer realmente saber quando vamos parar de aceitar comportamentos que agridem, que subtraiam, atos desonestos de tirar o quase nada de quem perdeu tudo, a desonestidade e crime de quem transporta drogas num caminhão com adesivo de ajuda humanitária. A impaciência e as eleições podem potencializar as perspectivas de mudança.

A falta de informação é a primeira violência

18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A exploração sexual refere-se a qualquer abuso consumado ou tentado de uma posição de vulnerabilidade, diferença de poder ou confiança, para fins sexuais. No ano de 2024, até o momento, foram registradas 11.692 denúncias relacionadas à violência sexual contra criança e adolescente no Brasil. O número é do Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.  A cada 24 horas, 320 crianças e adolescentes são explorados sexualmente no Brasil e os pesquisadores alertam que apenas 7 em cada 100 casos são denunciados. O estudo ainda esclarece que 75% das vítimas são meninas e, em sua maioria, negras.

Em termos globais, segundo a Organização Mundial da Saúde, dos 204 milhões de crianças com menos de 18 anos, 9,6% sofrem exploração sexual, 22,9% são vítimas de abuso físico e 29,1% têm danos emocionais profundos.

Apesa

Apesar do reconhecimento, até por organismos internacionais das leis brasileiras como um modelo eficiente para o combate à violência sexual de crianças e adolescentes, na prática os avanços são lentos. De acordo com a Childhood Brasil, organização que atua no enfrentamento ao abuso e à exploração sexual infantil, o desafio é transformar as leis em uma cultura real de proteção de crianças e adolescentes. “Desde o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, a violência sexual é o único indicador que não diminui”. Ou seja, fazemos boas leis mas não as cumprimos.

A data de 18 de maio foi instituída no governo Fernando Henrique Cardoso, em memória da menina Araceli, assassinada aos oito anos de idade em 1973 no Espírito Santo. O crime nunca foi claramente elucidado e o processo que envolvia membros de famílias tradicionais capixabas, foi arquivado após absolvição dos acusados. Mais recentemente, o Senado aprovou e instituiu-se a campanha Maio Laranja. Um mês inteiro deveria ser reservado a conscientização e às ações que promovam a proteção das crianças contra os abusos e explorações sexuais. O mês de maio já na metade e pouco se ouviu sobre eventos específicos sobre o tema.

Em matéria publicada no site do senado, há reconhecimento de que temos vivenciado casos graves de violência contra crianças e que é necessário, com urgência aprimorar os aparatos legais já estabelecidos para punir exemplarmente os autores dessas atrocidades e a Comissão de Direitos Humanos sugere o aumento do prazo para a prescrição aumenta esse prazo de prescrição civil de 3 para 20 anos, contados a partir da data em que a vítima completar dezoito anos. O texto de alguns projetos já assimila os danos e traz dados sobre o processo mental pelo qual passam as vítimas, já que o abuso sexual causa transtornos psicológicos terríveis nas pequenas vítimas. Outros oito projetos estão na Comissão para serem examinados e todos propõem o endurecimento das punições.

Vários parlamentares membros da Comissão reafirmam a importância da educação para prevenir esse tipo de crime, já que mais de 75% dos casos de abuso ocorrem dentro de casa, e em mais de 80% dos casos os abusadores têm perfil de proximidade com a vítima e seus familiares e as crianças, sobretudo, não têm consciência do que é abuso ou exploração sexual. Lamentavelmente essa temática ainda é tabu, mas somente o diálogo através da educação sexual assertiva, de qualidade e em conformidade com a faixa etária da criança ou adolescente pode ser um fator favorável para coibir a violência e a exploração sexual de nossas crianças e adolescentes.

Qualidades que políticos modernos devem ter

2024 será o superano das eleições no mundo. Cerca da metade da população mundial, 4 bilhões de eleitores, em 80 países, segundo cálculos da Agência France Presse-AFP irão às urnas em 2024, incluindo Estados Unidos, Rússia e a Índia, com incríveis 945 milhões de indianos convocados para as eleições gerais neste país que é o mais populoso do planeta com 1,428 bilhão de pessoas.  

No dia 6 de outubro, data do primeiro turno das Eleições Municipais 2024, 152 milhões de eleitores estarão aptos a votar para prefeito, vice-prefeito e vereador em 5.568 mil municípios do país, lembrando que as eleições municipais são estratégicas para partidos e políticos para o planejamento das eleições gerais de 2026.

Mato Grosso tem mais de 2.5 milhões de eleitores aptos a votar. Cuiabá representa 17,4% do eleitorado total do estado com 439 mil eleitores.

Uma boa combinação de certas características pessoais, habilidades e talentos são necessários para determinado profissional, empresário, cantor ser bem-sucedido. Mas será que o mesmo se aplica à política, à ciência e à arte de governar? A política é uma atividade muito importante, cujas ações e determinações são imprescindíveis para desenvolver cidades, comunidades e nações.  Por enfrentar muitas críticas e pressão implacável o universo da política é muitas vezes desgastante.    

Os políticos têm as maiores responsabilidades nas sociedades democráticas, mas a maioria deles não está necessariamente equipado com as qualidades e competências ideais. Algumas qualidades que bons políticos modernos devem ter incluem honestidade (alguém que honra os seus compromissos), autoconsciência, deferência para com os outros (colocar os outros em primeiro lugar) e alguém que cumpre com o que diz.

Se olharmos para os políticos em geral, raramente os vemos com estes traços ou qualidades de personalidade. Muitos ainda são literalmente analfabetos outros justificam a corrupção, colocam os seus próprios interesses em primeiro lugar e raramente cumprem o que prometem.

Por esta razão muitos cidadãos optam por não participar da vida política e também por se sentirem frequentemente ignoradas ou com poder limitado para influenciar uma mudança ou tomada de decisões. Outra barreira é a pobreza, a lida diária para sobreviver. As pessoas comuns precisam correr atrás do ganha pão e concentram suas horas em atividades de sobrevivência.

De toda forma a política é inegavelmente atraente. No livro ‘Como não ser um político’, o autor, um ex diplomata, ministro britânico e deputado por oito anos, Rory Stewart, fala de si mesmo, um homem genuinamente decente, com um desejo real de alcançar resultados políticos positivos, que se sentiu desconfortável por ter que conviver com a hipocrisia política e com a ignorância dos colegas que o rodeava. Deixou a lição de que a política é uma cultura que privilegia a campanha em detrimento de uma governança cuidadosa, pesquisas de opinião são mais importantes do que debates aprofundados sobre políticas e que anúncios são feitos onde nada é implementado.

Nada a fazer. As eleições se aproximam e até a ONU tem publicado artigos e chamamentos orientando as pessoas a se informarem e participarem ativamente dos pleitos eleitorais.

Lendas associadas ao nome de Maquiavel

Ainfluência política do pensador florentino, Nicolau Maquiavel (Niccolo Machiavelli) jamais deixou de ser sentida, apesar de os termos ‘maquiavelismo’, ‘maquiavélico’ terem sido vinculados a uma ação política baseada na imoralidade, na violência e na impiedade. Claude Lefort, filósofo francês, sugere que a identificação da política com o maquiavelismo se dá na medida que a política é o mal. Pierre Bayle, no Dictionnaire historique et critique, reforça a opinião dominante, segundo a qual o ensino de Maquiavel, o secretário florentino possui um carácter cínico, irreligioso e demoníaco. O público, à época, estava persuadido de que o maquiavelismo e a arte de reinar tiranicamente eram termos de igual significado.  

Porém, Maquiavel foi um grande intelectual da época Renascentista, Nascido na Itália, em 1469, o pensador é estudado até os dias de hoje por suas teorias de como fazer política. Maquiavel esteve por muito tempo no centro do poder na Itália, enquanto   secretário   e   chanceler   da República. Chefiou missões junto a outros Estados italianos e na França, realizou inovações em diversos campos da   administração, em   especial   a criação de um exército regular. Anos mais tarde, foi preso, torturado, teve sua grande obra O Principe, publicada postumamente.

A verdade é que, quase 500 anos depois de sua morte é imensa a contribuição de Maquiavel para o desenvolvimento político dos Estados Modernos. Observado o contexto dos escritos, de um pensador que nasceu na Itália desconfigurada e totalitária, não conformava com a impotência e a decadência italiana, com a ausência de um Estado Nacional forte e com as humilhações e submissão à vontade das grandes potências, principalmente da França e alimentava o sonho de um dia ver a Itália unificada, sob um governo forte.

Suas reflexões sobre o Estado colocaram-no como um clássico das ciências políticas e um autor indispensável para se entender a dinâmica política ainda hoje. Não por acaso é considerado o pai da filosofia política moderna. Um homem que ensinou que quem pretende fundar um Estado e dar-lhe leis, deve antecipadamente pressupor os homens como maus e sempre prontos a agir em maldade. Ensinou também que os homens costumam ser ingratos, volúveis, dissimulados, covardes e ambiciosos de dinheiro; enquanto proporcionar benefícios todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, a vida até os filhos.

Maquiavel mostrou que uma multidão livre deve ter medo de confiar a sua defesa a um homem só, o qual, quando não conseguir agradar a todos, vai trair a multidão em vez de governá-la. O entendimento desse Tratado Político V levou Jean-Jacques Rousseau, mais de século depois a se pronunciar dizendo que Maquiavel fazia crer que estava dando lições aos reis, mas estava falando indiretamente com o povo. 

Em tempo de campanha política, discursos elaborados por jornalistas e marqueteiros, ouve-se citação das obras de Maquiavel aqui e ali. Que fique claro que virtú, é um termo que expressa habilidade e virtude tipicamente políticas, nada a ver com conteúdo moral ou religioso e que para Maquiavel era muito relevante a participação do povo na política. “Pouco importa ao príncipe as tramas e armadilhas do inimigo se o povo estiver ao seu lado.”

O político que fala e faz

Oescritor Dias Gomes em O Bem-amado, recorreu aos imaginários políticos do ano de 1962, quando escreveu a novela; como os políticos, as promessas e os coronéis. A novela se passa na fictícia Sucupira, onde Odorico Paraguaçu, líder político e coronel abastado, vereador, candidata-se a prefeito, tendo como plataforma política a construção de um cemitério na cidade. Odorico vence a eleição e já empossado como prefeito, arquiteta planos para construir o cemitério. Odorico Paraguaçu é um político de palavra e ensina que, em política: “os finalmentes justificam os não obstantes”.

O prefeito Odorico pergunta ao seu fiel secretário de finanças, Dirceu Borboleta se há recurso no caixa da prefeitura para executar a obra. Dirceu diz que encontrou um restinho de recurso destinado a melhorar a luz da cidade. Anima-se Odorico respondendo que com um restinho já se faz um cemiteriozinho e argumenta quer não há necessidade de se melhorar a luz porque não há necessidade de se ler a noite. Desvia-se a verba e constrói o cemitério. Os falecidos hão de vir! Ordena que a banda se mantenha ensaiando a marcha fúnebre de Chopin, escreve o discurso, coloca o coveiro em alerta e decide não inaugurar o cemitério sem um morto.

Quando era ainda vereador em Sucupira, Odorico prometeu acabar com o futebol no largo da igreja e acabou, prometeu acabar com o namorismo e o sem-vergonhismo atrás do forte e acabou. Esse era o grande trunfo de Odorico, um político que se fez pela linguagem, pelo discurso e pela credibilidade de cumprir as promessas, mesmo se valendo dos desvios de verba, da desapropriação de terreno. Dias Gomes, nessa novela crítica, recheada de práticas não republicanas, que muitos de nós sabemos que ainda existe, mas a obra, contextualizada, retratava o imaginário do mundo político daquela época em que a palavra empenhada tinha peso.

O cemitério acabou sendo inaugurado com o enterro do prefeito Odorico Paraguaçu, assassinado por Zeca Diabo.

As eleições municipais trazem à tona personagens perdidos, que prometem o que não podem fazer ou que não sabem como irão realizar, fazem promessas inconstitucionais e de responsabilidade de outro nível de poder. Entretanto, a credibilidade, tão essencial na imagem de um candidato é, pois, a capacidade que o sujeito deve ter para se fazer acreditar naquilo que ele afirma, uma arma que expõe a imagem de si mesmo de maneira estratégica, que tem como objetivo convencer o auditório; por isso, ao planejar a campanha o candidato deveria fazer introspectivamente, uma pergunta: Como fazer para eu ser levado a sério?

Cientistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para executar os planos e ações. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.

Aristóteles, em Retórica, considera que a persuasão se dá, sobretudo por meio do ethos, que é a imagem que o candidato apresenta de si no discurso. Assim define Aristóteles: “Éthos é o apelo que se serve da credibilidade, da autoridade, do caráter ou do background do orador, da identificação com sua terra, para levar a audiência a confiar nele e então aceitar os seus argumentos.”