Pequenos delitos

Não somos limitados pela situação que nos encontramos, mas pela atitude que adotamos. As pessoas se sobressaem quando tomam atitudes inesperadas, que causam grandes impactos sobre a vida de outras pessoas; são inspiradas e motivadas a desviarem-se dos processos e práticas testadas, partindo do princípio básico de que se você optar por fazer as coisas da maneira que todo mundo faz, obterá os mesmos resultados dos outros.

Ninguém nunca mudou um grande cenário, fazendo o que todo mundo faz. Se o comportamento convencional das pessoas é irmanarem-se no erro, sejamos pois, inconvenientes.
Vivemos em um mundo onde o fim justifica os meios e isso não pode ser aceitável. Um indivíduo desonesto em qualquer aspecto da vida, vai ser desonesto todas as vezes que tiver oportunidade. Afinal, se uma pessoa não se pode confiar nas questões mais simples de honestidade, como poderia ser confiável em negócios maiores e mais complexos?

O que um exame sereno das circunstancias mostra é que a força dos maus hábitos não encontra, para resistir-lhe, a punição sistemática. Nota-se má fé no Parlamento que não vota as reformas necessárias e aprova as propostas que bem entende. Má fé dos opositores que ficam nas superficialidades e quando podem apontar os erros, temem ir ao fundo da ferida, afastando-se da conclusão que às coisas se compreende melhor quanto mais são discutidas à luz da honestidade. O mal único, o mal essencial, o mal a curar do Brasil é a falta de integridade e a forma como esta estabeleceu-se como advento intrínseco da cultura brasileira.

Nas práticas diárias em casa, nos cruzamentos das ruas, nas calçadas vê-se a despreocupação em corrigir-se, em reformar os hábitos corrompidos. O adesivo “Muda Brasil” está ainda grudado em carros que sobem a contramão da rua (de mão única) onde moro. E numa desenvoltura alarmante, espero que concluam seus delitos, para então, ter a oportunidade de entrar na garagem.

O consumo de produtos falsificados entre a classe média e alta foi objeto de pesquisa na disciplina Sociologia do Consumo, na UFMT. Michael Kors e Louis Vuitton “made in China”, percorrem corredores nobres da corte, com altivez e arrogância. Segundo um entrevistado, a classe alta não frequenta o shopping popular, porém recebe as sacoleiras que invadem as repartições, onde pessoas com grandes salários se lambuzam às compras, procurando réplicas de modelos tradicionalmente caros para enganar ninguém, senão a si mesmas.

É uma compra sem nota aqui, um produto falsificado ali, um pneu só sobre a calçada, um olhar indiferente a quem precisa e assim, credita-se à cultura o comportamento deseducado e mal intencionado, que pode efetivamente ser corrigido. Basta querer e estas ranhuras do sistema corrompido, podem ser reparadas.
O mega investidor americano Warren Buffet disse que quando procura pessoas para contratar, ele se fixa em três qualidades: integridade, inteligência e energia. Porém se as pessoas não tem a primeira, as outras duas, as matarão.

Que coisa feia!

Incivilidade, falta de educação e atitudes inapropriadas tem sido o recheio da mídia nas últimas semanas. Mensagens carregadas de ódio, racismo, pessoas que desabafam seus sentimentos ofendendo, desprezando os outros, fazendo-se os donos da verdade, como os que seguram um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; mas enquanto isso, se queimam.

Sabemos que circulam entre nós pessoas abomináveis, que promovem julgamentos racistas, onde a cor da pele determina como a pessoa deve ser tratada pela vida. Um olhar sobre as estatísticas sugere que, apesar de tudo o que se avançou na questão de igualdade racial, honestamente, não importa para onde você olha, a raça ainda é um fator muito importante para determinar o tratamento que se dão às pessoas. É uma lástima, mas certas pessoas só entendem as coisas mediante suas acanhadas percepções

Tentaram explicitar isso à apresentadora de televisão que foi vítima de xingamentos racistas. Isso não configura crime?
Civilidade e educação continuam sendo parte de um discurso moderno de quem aprecia discutir igualdade racial, política e de gênero.
Mas o que dizer do tipo de pessoa que pratica um discursinho insosso e na falta de conhecimento das praticas democráticas e outras nem tão democráticas assim para se destituir um governo, atacam sordidamente, com falta de respeito e distribuição de adesivos ofensivos que ridicularizam a condição feminina da presidente da república? E se a foto fosse da sua mãe?

Longe de mim, achar que devemos limitar o discurso, seja de raiva ou não, de quem quer que seja, mas é uma carga tolerar o comportamento grosseiro e pouco civilizado de muitos. O comportamento incivilizado e descortês, especialmente em conversas políticas, merece considerável atenção para investigação.
Boa educação tem os que observam as normas morais e sociais, os que foram instruídos no respeito, na tolerância e na bondade. A civilidade, concentra-se mais nos valores da sociedade civil, nas práticas democráticas e na rotina do debate. Juntando os dois tem-se pessoas que a outros concedem direitos e oportunidades iguais e que tratam os irmãos como gostariam de ser tratados; indivíduos com conceitos robustos de democracia e de respeito.

O preconceito tem duas fontes, ensina o filósofo Mário Sérgio Cortella: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele.

Flores do mal

Baudelaire, um dos maiores poetas do final do século 19, graças à sua genialidade com as palavras, escreveu em 1857 o livro as Flores do mal. O livro foi mal compreendido, proibido e recolhido. Em 1861 volta em segunda edição, com quadros da vida cotidiana de cidadãos marginalizados na Paris moderna, e a vida é colocada como cena melancólica, dolorosa e difícil.

A beleza em Baudelaire não combina com a normalidade e a modernidade não era primariamente uma designação para um período histórico. Era uma aspiração estética, uma vida voltada para a superficialidade, para a aparência e valores volúveis.

A poesia de Baudelaire exprime igualmente essas convulsões e angústias que assaltam os corações em todos os tempos. Eis a relação da sua poesia, na aparência tão sofisticada, com a vida de sentidos despedaçados.

O poema de abertura do livro Flores do Mal oferece provavelmente o retrato mais aterrorizante da versão do tédio, da tristeza. Ele afirma que, de todos os males, talvez seja, a tristeza, o mais vil de todos. Em contraste com outros sentimentos, a tristeza não faz alarde, não dói no peito, não chama a atenção para si.

Lentamente faz sucumbir a preciosa vontade de reagir. A partir daqui, os limites normais são apagados e as vítimas, quando podem saem em busca de algo para sentirem-se vivas. O céu é negro e torna o dia mais escuro que a própria noite. O abraço que envolve a todos, pode indicar a condição de estrangulamento. Dias e noites igualam-se. Em dias assim, tão obscuros, a esperança parece minguar e o futuro é inalcançável.

Provocativo, Baudelaire avança a partir dos retratos chocantes da tristeza como um monstro, que requer um tipo diferente de luta, onde a falta de vontade de viver é representada como um componente interno de uma vida criativa, que gira fora de si, num presente fugaz e futuro irrealizável.

A vida entristecida é tão apenas a personificação da morte em vida. Ao mostrar a degradação causada pela modernidade, pela frugalidade, ele mesmo passageiro de uma viagem efêmera, demonstra riqueza ao conseguir unir à degradação interior à figura do belo.

Baudelaire escreveu sobre um tempo em que não há esperança, sobre um tempo em que não se pode recriar a liberdade, sobre um tempo em que a tentativa de reconstruir uma vida justa lateja em dor. Tão contemporâneo!

Artigos e discursos sobre a tristeza, a perda da vontade de viver, tem ganhado grande audiência, no entanto estamos assombrados com este tema que assinala a entrada em um mundo de possibilidades inexploradas. E a alma é uma coisa tão frágil e impalpável, que muitas vezes é tapeada pelo mal, que vem suavemente travestido em flor.

Baudelaire, ele próprio, um homem angustiado e melancólico. Boêmio desde os 18 anos, Baudelaire vive um período  nas ruas, apaixona-se por uma prostituta, contrai doenças, perde-se e morre aos 46 anos.

A vida é muito curta para ser pequena

Apesar de ouvirmos sempre que a vida é um teatro, que não permite ensaio, que vem sem manual de instruções, o Ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, que tem sido convidado a ser patrono de turmas de Direito, sobretudo da UERJ, onde ministra aulas há décadas como professor titular, chama os alunos de filhos espirituais, enumera as boas ações que devem praticar segundo um manual para a vida, cuja oralidade busca palavras simples, porém de efeito profundo, para a reflexão dos jovens.

Dá exemplos, cita parábolas bíblicas, trechos de Kant, numa tentativa monumental de dar vigor e esperança para quem está se apresentando para a vida adulta.

Ao ler os discursos não resisti reproduzi-los, com revelada pretensão, à minha maneira, ora acrescentando ingredientes éticos que considero indispensáveis à uma vida plena e harmoniosa, ora revelando a insensatez do mestre adentrando a vida pessoal e espiritual dos pupilos.

Mas isso é também fruto do afeto, da ansiedade de condensar os ensinamentos num guia para se ter às mãos nos momentos tempestuosos. Sabemos que a vida é plural, que a felicidade é vivida de forma diferente por cada pessoa e que as verdades são descobertas ao longo da caminhada.  É preciso estar atento, saber ouvir todos os lados da mesma história.

Percebo que muitas vezes não sabemos quem está certo porque não sabemos interpretar os fatos. Temos a tendência de não vermos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos. Portanto nunca formemos uma opinião sem antes ouvir todos os lados. Pois a verdade não tem dono e pode ter várias faces.

Diz que não somos dispensados de agir com integridade nem quando somos acometidos por coisas tristes. Portanto, independente do que estiver acontecendo à nossa volta, devemos fazer o melhor que pudermos, sermos bons e corretos, mesmo quando ninguém estiver olhando. É sábio pavimentar o caminho sem esquecer que ninguém é bom demais, que ninguém é bom sozinho e que precisamos aprender a ser gratos.

Certamente alguns se reportarão ao advogado constitucionalista, como o ministro que defendeu pesquisas com células tronco, a equiparação da união homoafetiva à união convencional, que seria um excelente ministro na Suécia. Intrigas? Má vontade com o ministro? Não sei. Mas não é disso que estamos falando aqui e sim, do breve manual de instruções que afetuosamente elaborou para seus alunos.

A má vontade emperra a reforma política

As discussões sobre a reforma política têm dominado a agenda dos políticos brasileiros desde que a democracia foi reintroduzida no Brasil, como o único instrumento viável para a renovação do ambiente político, mas igualmente há décadas, encontra-se emperrada nos corredores da Câmara Federal.

Sem entendimentos, exibindo conteúdo fatiado e com viés de autoritarismo, o processo de reforma tem sido conduzido de forma caótica. Até agora, batem sempre na mesma tecla, o fim da reeleição para os cargos do executivo, quando vários outros temas considerados de suma relevância, tais como; a redução do número de partidos, o fim do financiamento empresarial às campanhas, regulamentação mais sérias as formas de coligações, para que elas não sirvam apenas para somar tempo no horário político na TV e a unificação das eleições, devem aguardar na prateleira do plenário.

O financiamento empresarial de campanhas, deve ganhar contornos proibitivos. Isso á foi tentado antes , não avançou. As mesmas grandes empresas e empreiteiras continuarão dando as cartas na política brasileira, de outras formas. porque entre o financiador e o financiado, ficará a dívida perversa e o ônus da retribuição, num universo gigantesco.

O Brasil tem 32 partidos, segundo o site do TSE. A cada ciclo de 4 anos, com eleições regulares de dois em dois anos, o Brasil elege 59.500 vereadores, 1.059 deputados estaduais, 513 deputados federais, 81 senadores, 27 governadores e um presidente da república. O povo, que deveria estar na base do debate, apenas abana a cabeça consentindo com o que o Congresso decide. Para deputados e senadores, a reeleição continua valendo, lógico ou você acreditou que os deputados votariam contra algo que os favorece?

A falta de empenho e má vontade política são claras. Os parlamentares estão atuando para dizer que tentaram, mas não vai haver avanço significativo.
Os partidos estão acomodados do jeito que as coisas estão. Vão adiando, protelando até onde puder para não fazer efetivamente uma reforma política que possa decrescer os favorecimentos.
Sabíamos que iriam emperrar a proposta porque para os políticos, a discussão básica passava pela manutenção do financiamento das campanhas por empresas privadas, embora os partidos e candidatos podem, voluntariamente, recusar dinheiro de empresas mal intencionados. Parece que isso já ocorreu num passado recente. Poucos porém, ousam dizer não.
Enfim, o pacto em torno da construção de uma profunda reforma política, que ampliasse a participação popular, não aconteceu.

Não se confia no bom senso dos homens

Muitas leis são criadas para se cumpra, por coerção o que deveria naturalmente ser praticado pelos homens. Sabemos todos que não se deve bater em mulher, todavia a incidência de casos chegou a níveis astronômicos e expôs o Brasil à punição internacional por omissão em relação aos casos relatados de violência doméstica.
Criou-se a Lei 11.340/06 (conhecida como Lei Maria da Penha) para punir com rigor casos negligenciados de violência doméstica e familiar contra a mulher.

Sabem os pais que não se deve bater nas crianças, porém os casos de espancamentos causados por familiares eram recorrentes e então? Criou-se da Lei 13.010 (Lei da palmada), para garantir que as crianças sejam educadas sem castigos físicos. É preciso educar as crianças, mas igualmente o estado foi chamado para criar um programa de incentivo à freqüência escolar.

Sabemos todos que o financiamento de campanhas políticas por empresas e corporações é pernicioso à prática democrática, e quando uma esperança de proibir essa prática surgiu, o que fizeram os nossos parlamentares? Numa manobra questionável, decidiram manter a influencia do poderio econômico sobre os parlamentares e a bancada do bife (JBS) satisfeita, continuará com seu clientelismo.
Contribuiu com a eleição de 162 políticos brasileiros, segundo dados publicados logo após as eleições. No mesmo caminho, seguem os grandes bancos Bradesco e Itaú e grandes empreiteiras. A história nos mostra que não aprendemos muito, apesar de tudo o que sabemos. Deveríamos agir certo pelo motivo correto, não por temer a punição.

Deveríamos…mas o estado tem interferido em comportamentos que deveriam ser autônomos. A autonomia tem sido relacionada à rotina, à banalidades e mediocridades e não à temas relevantes e fundamentais. Mas por que a racionalidade dos homens é sempre colocada em desconfiança?
Por que a capacidade livre dos homens exercerem suas convicções naturais tem se expressado quase sempre em licenciosidade? A confiança é uma parte intrínseca da natureza humana. A confiança no bom senso dos homens é fundamental para manter os relacionamentos e ter uma sociedade consciente e saudável. Ser um indivíduo correto na verdade não é uma questão de escolha. De fato é, falta de escolha. Já que escolher, seria ir contra a ordem natural das coisas.

A fragmentação das nossas ações nos impedem de ver os resultados ou as consequências delas. A falta de conceitos e de valores é uma consequência da modernidade, que nos empurra a viver inclinados a fazer o que queremos e não o que nós sabemos que devemos fazer. E não nos falta informação e exemplos. Desde o início do tempo o homem vem buscando o sentido de si mesmo e de seu mundo. Ele tem buscado esse entendimento. Mas o tempo passou e o homem não foi capaz de conquistar sua própria natureza.
A situação muda, mudam-se termos, mas mantém os conceitos, não muda a mentalidade, com isso, a forma de estancar os problemas continua a mesma: coerção do estado, punição e mais leis.

A ética da autenticidade

A primeira fonte de preocupação do ideal da autenticidade seria a ética. Para ser autêntico, é preciso entender e respeitar os limites da própria verdade e a autenticidade do pensamento do outro. Ser fiel a mim significa ser fiel à minha originalidade, a forma como eu me defino e articulo minhas potencialidades.
Esta virtude confundiu-se com o individualismo, esta liberdade moderna, onde as pessoas podem escolher o seu modelo de vida, decidir em consciência as suas convicções e configurar os projetos de vida sem considerar a existência de outros seres e suas ricas histórias de vida.

Esta confusão instalou-se na medida em que nos desvinculamos dos nossos antigos horizontes, onde sentíamos parte de uma ordem cósmica na qual cada ser possuía lugar numa hierarquia da sociedade humana.
A exacerbação do eu como mal moderno e a defesa da autenticidade em todas as instâncias da vida, é um descrédito, porém, na cultura moderna, uma vida boa é aquela que cada indivíduo procura à sua maneira, centrar-se em si mesmo. O que tanto estreita quanto desregula nossas vidas.

Não estamos falando do direito de escolher para si as convicções que se pode abraçar e determinar a vida de maneira que os antepassados não puderam fazer; mas da implicação de práticas individualistas, que determinam o destino por si mesmo, com concentração no eu interior.
E o outro? A cultura vulgar da autenticidade leva as pessoas a falar o que pensam e viver fechados em interesses particulares, desfrutando apenas de satisfações pessoais, prazeres pequenos e fugazes.
A perda ou enfraquecimento dos horizontes morais estão ligados à formas degeneradas do ideal de autenticidade, como o individualismo. Nesta perspectiva a autenticidade tende a favorecer a prioridade do indivíduo e seus desejos acima de tudo.

O filósofo Charles Taylor entende que nossa compreensão sobre a autenticidade precisa ser modificada e o compromisso com essa virtude, não implica um compromisso com o egoísmo, com a imposição de vontades e caprichos individuais.
Podemos decidir os objetivos que queremos perseguir e que contribuem para a nossa qualidade de vida, mas podemos, aliado a isso, ajudar outras pessoas a florescer, num conjunto bem ordenado de preferências para o bem.

A realidade, é que nosso relacionamento com outras pessoas é construção e troca e assim, se não aproveitarmos a oportunidade para conviver, compartilhar ideias, exultar uns as qualidades dos outros, para que ao contabilizar os ganhos não tenhamos o valor da nossa existência, atenuado.
Temos que falar dessa tensão causada pela utilização da autenticidade como fator de individualismo e hedonismo e descobrir como é que vamos conciliar uma forma de estar em nossas vidas individuais e em nossas conexões políticas e sociais com outros indivíduos.

O individualismo gera egoísmo e formas narcísicas de expressar a autenticidade e a autenticidade pode ser um ideal digno se desenvolvido num contexto de valores apropriados.

É possível viver sem ter superpoderes

É possível viver com sensatez e equilíbrio, transitar entre a cautela e a realidade, sem conformar-se em ser sujeito passivo de marcas e publicações alheias, mas produzindo o próprio conteúdo da vida. É possível fazer da necessidade a virtude de querer mudar o mundo a partir da comunidade local. É possível recriar os espaços se o mundo, tal qual está não parece um lugar assim tão habitável com justiça e transparência, com a preocupação decorrente dos excessos que costumeiramente cometemos contra a natureza e a natureza humana.

É possível retomar a serenidade mesmo após o gigantesco esquema de corrupção que bombardeou órgãos governamentais. O Brasil tem jeito. Precisamos nós ter jeito também. Havemos de entender que a corrupção corrói não só dinheiro, mas valores éticos e morais e que essa prática danosa é apenas a consequência da escolha feita pelo indivíduo através do voto, ou pela omissão deste. Porém, é possível desfazer certos mitos; a política não precisa ser a arte de escolher entre o desastroso e o intratável, tampouco é necessário que todos os reis e presidentes sejam filósofos como quis Platão, para o mundo conhecer a paz e humanidade.  A paz deve ser parte da abundância do mundo.

Não precisamos apontar defeito nos outros como estratégia de ocultação das nossas imperfeições. E se o sistema político, financeiro e social está ultrapassado, falido, é possível reorganizar os excessos, reconstruir a confiança e crescer de novo. Em verdade, é sempre possível emergir. Basta definir o que é essencial e útil, canalizar as preocupações para organizações que atuem na área que preocupa; basta declarar a favor de fórmulas alternativas de participação na política, se os meios tradicionais não inspiram confiança. É preciso certa propensão à prudência em tempos de crise para alcançar os objetivos.

É possível que o tempo esteja mudando, que a solidariedade seja um valor importante. Pode ser. Mas se não muda o tempo, mudamos a forma de observar as coisas e as pessoas. Mas é possível que não consigamos afastar a tristeza a que nos expomos por sermos humanos, a nos livrar da dor da vida, o que nenhum sistema político pode nos ajudar, nem fugir do medo da morte, da sede do absoluto. É possível que o tempo seja melhor aproveitado, que o mundo esteja pronto para entender a mensagem que buscar uma vida boa é algo que perturba. Porque exige acima de tudo um novo estilo de vida, com outros objetivos, uma mudança na forma como usamos nossa capacidade de quebrar certos esquemas pessoais.

O ponto é, que chega um momento em que somos solicitados a viver mais generosamente, a fazer contato com as diversas periferias que não fazem parte do nosso círculo fechado de relacionamento. Eu, pessoalmente, longe de ser um exemplo do que proponho, entendo que o grande problema atual é traduzir o pensamento em estilo de vida.

Trabalhar para sustentar os ciclos da vida

Trabalhar não significa necessariamente ter emprego. Muitas pessoas tem emprego e não trabalham, outros não tem emprego e trabalham muito. Uma nova cultura começa quando o trabalhador e o trabalho são tratados com respeito.
Visualizada rápida no panorama pelas condições de trabalho no mundo, observamos que nos últimos 20 anos, a participação dos salários na renda total dos trabalhadores diminuiu quase 70% em muitos países, apesar de haver registro do aumento da oferta de emprego.
O número de empregos bem pagos e seguros está encolhendo e até o serviço público que era considerado estável e de boas condições, tem sido denunciado como local de trabalho precário. A maioria destes empregos mal pagos e sem proteção trabalhista é ocupado por mulheres.

Em muitos países, a situação dos trabalhadores é muito desesperadora e sem acesso a um emprego formal, sem beneficiar-se dos investimentos em serviços públicos e devido a crescente onda de insegurança, centenas de pessoas morrem cruzando fronteiras enquanto fogem do caos e da pobreza em seus países.

A maioria dos indivíduos trabalham duro todos os dias para dar uma vida melhor para a família e isso começa com o pensamento de uma boa educação. Lutam por bons empregos com bons salários. Lutam pelo acesso a saúde, uma aposentadoria digna. Lutam mesmo pela chance de dar à família uma vida melhor do que a que tiveram. Trabalhar para sustentar os ciclos da vida não é fácil.

O presidente americano Harry Truman, num discurso memorável, feito em Detroit em 1948, após citar os feitos do presidente Roosevelt, que havia corrigido os abusos que eram cometidos contra os trabalhadores norte-americanos, assegurando-lhes elevação na média salarial, a negociação coletiva, o seguro-desemprego, e salvou milhões de casas dos trabalhadores, que iriam a leilão, disse aos trabalhadores que eles sempre tiveram que lutar pelos seus ganhos, mas que a partir dali deveriam lutar pelo futuro do movimento operário, travando uma luta para certificarem-se que seus direitos seriam mantidos e respeitados para sempre.

O trabalho, que faz parte da natureza e da cultura humana, é sistematizado pela rotina e precisa receber o reconhecimento e incentivo que merece e os trabalhadores não podem se ater a máxima de que a cultura do bom trabalho precisa ser demonstrada através do consumo e aquisição de bens materiais, que exaltem a vida exuberante.
Gente infeliz vive a comparar-se. Trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem em desespero para pagar as prestações, mas é através do consumo que estes assinalam suas existências. Embora muitas mercadorias sejam absolutamente necessárias à subsistência, nosso destino não há de ser apenas subsistir, tampouco nos expor numa relação de poder.

As posses materiais não importa qual sejam, devem fornecer minimamente abrigo e comida. Trabalhamos de olho no consumo desde o nascimento das grandes marcas, como a Coca-Cola e Kodak entre os anos 1886 e 1888 respectivamente, que trouxeram a novidade das grandes campanhas publicitárias seduzindo as pessoas, vendendo imagens de uma vida perfeita, ao consumir produtos que traziam bem-estar profundo e a felicidade.

Somos filhos do mesmo pai?

As migrações, desde a Idade Média, tem afetado os indivíduos que procuram proteção dentro dos muros das cidades. O movimento de pessoas e migração dos povos tem sido expressa de várias formas nos séculos XX e XXI; são trabalhadores, refugiados, perseguidos, indivíduos desempregados, buscando melhores condições e colocações no trabalho e na sociedade. Atravessam nações, continentes, culturas e contradições, numa viagem mitigada pela esperança e medo. Embrenham-se numa travessia cara e insegura, para oferecer mão de obra pouco qualificada, para serem considerados classe de “pessoas perigosas”, para serem humilhados e ignorados em muitos destinos.

São milhares de pessoas que movem-se em todas as direções. São migrantes, imigrantes, emigrantes, retirantes, seres errantes. São irmãos, que compartilham a travessia, com as inquietações que afligem toda tragédia errática. A grande maioria castigados já são em seus cotidianos e agora levados pelo destino, mesclam suas carências com esperança, são tangidos pela incompreensão dos que não conseguem enxergar além de seus muros.

“Rocco e seus irmãos” é um belo filme de Luchino Visconti, que narra a saga de uma família Italiana pobre, do campo, que migra para a moderna Milão, buscando condições melhores de vida. Tentam manter-se unidos na assustadora cidade grande, porém não conseguem evitar que o dinheiro fácil, a traição, a ganância seja o palco das tensões que modifica e deteriora os laços familiares entre a mãe viúva e seus quatro filhos.

A família Parondi é abrigada em um cortiço e vive de pequenos bicos, como retirar neve das ruas. Porem, apesar da vida dura e das vicissitudes, os Parondi agarram-se às oportunidades, determinados a vencer. Rocco une-se ao exército e ajuda os irmãos a conseguirem trabalhos na Milão, que está um canteiro de obras, recuperando-se da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. A família Parondi acaba sendo vítima da prostituição, do dinheiro sujo, dos heróis descartáveis de fama instantânea e o desvirtuamento de um dos irmãos, ocasiona a desagregação da família que depende da intervenção de Rocco para salvar o que resta nos escombros sentimentais.

Assim como a família Parondi, retratada no filme de Luchino Visconti, muitas famílias haitianas são abatidas pela tragédia dos relacionamentos que se perdem na distância e no tempo da separação. No longo prazo, entretanto, povos e raças que vivem juntos, compartilhando a mesma economia, inevitavelmente se cruzam e desta forma, as relações que eram apenas de cooperação e economia, tornam-se social e cultural. A maioria dos haitianos vem de pequenas cidades. Cuiaba, parece-lhes grande e bruta e estão cientes que será muito difícil ascender socialmente, trabalhando na construção civil, enfrentando a tensão do idioma, das práticas religiosas, da desconfiança, do preconceito.

Assim, os haitianos, homens marginais vivem seus dilemas. Uns se adaptarão, aprenderão a conhecer seus direitos, cumprir com seus deveres, outros desistirão e farão de volta aquele caminho que parecia não ter volta. Nada foi feito para facilitar a vida dos que escolheram ficar em Cuiabá, nenhuma política pública voltada as necessidades dos haitianos foi implantada.
Talvez não falte trabalho, se continuarem não importando-se em ignorar suas ambições, se continuarem levantando paredes falando quatro idiomas. Crescer? O migrante sabe que é inevitável, embora indesejável, que aceite qualquer ocupação nesse estágio transitório. Só que o que é transitório não pode levar tanto tempo.

Entretanto não se vive apenas de emprego e estamos falando da vida em geral, da aceitação, da vida social, do amparo legal, das oportunidades de crescer, de trazer as famílias, de se firmarem como indivíduos na sociedade cuiabana e mato-grossense. Nessa complexa teia é preciso trabalhar políticas públicas que contemplem os estrangeiros, os estranhos, os diferentes; no sentido de facilitar a assimilação, a integração dos imigrantes com o povo local. Creio que os governos devem efetivar aos migrantes um sistema de igualdade de direitos civis, políticos e sociais, dentro dos padrões oferecidos aos grupos nacionais.

Se somos, como muitos creem filhos do mesmo pai, não devemos ter fronteiras a nos separar ou a nos jogar um contra o outro. É disso que falo, de recriar laços solidários entre os povos e essa questão do acolhimento aos migrantes, remete-me a uma frase de Dom Hélder Câmara, “Quando ajudo os pobres dizem que sou santo, quando falo das causas das injustiças, dizem que sou comunista.”