A acanhada participação das mulheres na política

A ONU Mulheres trabalha com a premissa fundamental de que as mulheres têm o direito a uma vida livre de discriminação, violência e pobreza e de que a igualdade de gênero é um requisito central para se alcançar o desenvolvimento, mas não há ainda uma fórmula desenhada para salvar da pobreza extrema o contingente escandaloso de 66 milhões de meninas sem acesso algum a educação.

Tenho dedicado especial atenção aos artigos que tratam do empoderamento das mulheres, ou seja, as conquistas das mulheres ao redor do mundo, a mudança de comportamento que tem lhes favorecido o reconhecimento e o acesso ao mercado de trabalho. Isso tem sido avaliado considerando a forma justa que mulheres e homens são tratados no ambiente social e de trabalho, respeitando os princípios da não-discriminação, garantindo-lhes saúde, segurança e bem-estar, promovendo a educação, capacitação. A geração de mulheres silenciosas ficou para trás e após um processo de transição, eu acredito que o mundo tenha progredido significativamente na política de igualdade das mulheres excetuando os tradicionais casos de preconceitos, em comunidades tradicionais.

Estudos apontam que, através das mulheres, as forças de conciliação e paz têm maior chance de sucesso, o ciclo da pobreza pode ser quebrado mais facilmente, a disseminação das doenças sexualmente transmissíveis pode ser evitada, aumenta-se a consciência ambiental e a mulher tende a transmitir hábitos mais construtivos aos jovens.

Nossa experiência mostra que, quando as mulheres têm o poder de fazer suas próprias escolhas, coisas boas acontecem. Estamos conscientes de que o progresso nos direitos das mulheres ocorre passo a passo e que cada vitória se torna uma plataforma sobre a qual o próximo passo pode ser dado. Tenho visto mulheres arriscando suas vidas para a construção de sociedades democráticas e para melhorar o respeito pelos direitos humanos fundamentais.

Pena que a composição partidária brasileira reflete ainda os resquícios da sociedade patriarcal. Se considerarmos a dimensão da representação política concluiremos facilmente que há forte desequilíbrio entre homens e mulheres. As mulheres representem 51,7% dos eleitores brasileiros, mas a participação delas na Câmara dos Deputados é de apenas 9% e 10% registrados no Senado. Das 26 capitais brasileiras, apenas uma mulher foi eleita prefeita.

Para focarmos na representação política, primeiro é preciso que as mulheres ganhem poder em outras esferas, que ocupem cargos com poder de decisão, tanto na direção das empresas públicas ou privadas, para que tenham reais chances de disputar um pleito eleitoral. O Brasil tem menos de 10% de mulheres na política e para que os cargos políticos sejam divididos paritariamente com os homens, as mulheres, levarão quase 150 anos, já que o ritmo de crescimento é de 1% a cada eleição, observou o demógrafo José Eustáquio Diniz, co-autor do livro “mulheres nas eleições 2010”.

Divergências políticas

Conforme caminhamos para a batalha das eleições, as discussões, as reuniões entre os grupos políticos de apoio ou oposição ao governo começam a se articular e isso provoca, embora não devesse, um julgamento precipitado dos homens que compõem esses grupos; sejam eles trabalhadores, democráticos, republicanos, socialistas, solidários ou trabalhistas. Importa muito a sintonia entre o grupo apoiador e o governo para a preservação do poder, igualmente importante é observar a escolha dos aliados e como eles se comportam dentro do grupo político.

Muitos deputados, prefeitos e vereadores reclamam que seus partidos têm pouco espaço no governo e pressionam para ampliá-lo, de olho nas composições das chapas para as próximas eleições. Mas estariam de fato considerando ampliar o espaço particular ou do partido? As composições são partidárias e não devem privilegiar os interesses de ocasião dos aliados obstinados em demonstrar falta de humildade política, ignorando os partidos.

Maquiavel construiu suas teorias a partir das circunstâncias, do lugar e do tempo em que viveu e deixou escrito formas discutíveis de dominação para se ter o poder: Os opositores devem ser aniquilados; destruídos no sentido exato do termo ou reduzidos em seu poder e argumentação, tornando-os nulos. A habilidade de dissimular, o parecer ser o que de fato não é, é outro ensinamento determinante de dominação no jogo do poder. E tão atual quanto possível é o aliciamento; conquistar com base na persuasão, seduzindo os futuros aliados com promessas e ganhos. Contextualizando o momento de democracia moderna que vivemos, vê-se ainda essas práticas diluídas aqui e ali.

No entanto, há clareza quanto aos grupos que não marcharão juntos, sobretudo devido à conjuntura nacional que envolve os partidos políticos. Mas é salutar manter o diálogo, assim como aceitar a coexistência de fundamentos políticos divergentes. É realmente necessário essa movimentação, esse assédio de um grupo ao outro para se conhecer as intenções alheias, aparar as arestas e nivelar as mensagens que hoje soam conflitantes. No universo político não é muito típico a repetição. Raramente a mesma mensagem é dita duas vezes. É um desafio saber quem terá a autoridade para impor disciplina nesses 5 meses de confabulações secretas ou explícitas.

A democracia é também esse sistema anti autoritário, em que é comum o recuo, a indefinição dos rumos e a desobediência ao todo poderoso do partido. O partido de personalidade autoritária, é o Partido Republicano americano, composto por pessoas que prezam a arrogância da autoridade, obedecem aos mandamentos com receio de atualizar a ordem estabelecida. Isso não existe no Brasil, embora tenhamos aqui o Partido da República, mas nos moldes da democracia brasileira.

Os eleitores leem tudo, perguntam tudo e espero que entendam que esse momento político é assim mesmo. Não adianta que fiquemos irritados ou confusos. As partes não estão em guerra e lá na frente vão fazer composições que hoje hesitamos acreditar. Isso porque a política obedece a um código de regras diferente, onde o aliado ideal nem sempre é um amigo.

Houve um tempo em que as coisas eram duráveis

Será que o hábito de jogar fora tudo o que quebra ou fica obsoleto tem paralelo com a falta de paciência para restaurarmos a nós mesmos e os nossos relacionamentos?

Saí de casa em busca de conserto para uma pequena máquina de café e um secador de cabelos, itens indispensáveis no meu dia-a-dia. Já na segunda loja fui desencorajada a continuar procurando as oficinas de reparo. Mal sabe o moço o valor sentimental do secador que adquiri em Amsterdam, anos atrás. Percebi então que a reparação eletrônica está se tornando uma arte perdida.

Com a inundação de novos produtos, vindos de toda parte, as pessoas jogam equipamentos fora quando eles quebram, em vez de consertá-los. Lembro-me de uma das lojas, cheia do chão ao teto com peças de reposição. Agora, enquanto analisavam meus produtos, eu vi jovens de olhar vazio e encabulados diante de equipamentos tão simples.

Lembrei-me de um belo texto do jornalista e escritor Uruguaio, Eduardo Galeano, em que ele, brilhantemente, nos classifica como seres que andamos pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelos modelos mais novos, uma geração que se rendeu a era dos descartáveis. Isso em todas as áreas da vida. É impressionante como Galeano descreve a breve utilidade das coisas e das pessoas em nossas vidas. Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. Galeano reclama da geração que não lava as fraldas dos filhos, não leva o sapato para fazer meia sola e com isso, se endivida e contribui enormemente para produzir mais lixo.

E assim vai…ora irônico, ora saudoso, traçando um cruel paralelo entre os valores que descartamos nas pessoas e nas coisas, embora não seja prudente comparar pessoas com coisas; diz que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis; também o casamento e até a amizade. Sente falta das pequenas lembranças guardadas nas gavetas; das tampinhas dos refrigerantes, com as quais fazia limpadores, para colocar diante da porta. Fica a impressão que hoje somos pessoas de gavetas vazias.

Os relacionamentos têm um valor que ultrapassa o nível da superficialidade e as pessoas interessadas na construção de relacionamentos de confiança compreendem a importância de deixar para trás um rastro de integridade e sinceridade em suas relações. Quando se trata de reparar um relacionamento quebrado, se interessado, você vai encontrar um caminho. Se não, vai encontrar uma desculpa.

Há em Londres um projeto inovador, chamado Restart. Está ajudando as pessoas a prolongar a vida útil de seus aparelhos eletrônicos e incentivando a prática além do Reino Unido. O projeto reúne voluntários reparadores de diversas áreas. Os jovens diretores dizem que em tempos difíceis, é bom aprender a preparar o terreno para uma economia de manutenção e reparação dos equipamentos quebrados. A verdade hoje é que quando alguma coisa quebra, as pessoas não sabem o que fazer, perdemos a confiança nas oficinas de conserto, na capacidade de regeneração das coisas e das pessoas. Além disso, somos empurrados pela propaganda a sempre olhar para o próximo grande lançamento. As pessoas tendem a adquirir coisas novas, em vez de fazer melhor uso daquilo que já possuem.

Mais de 90% dos fatos políticos são previsíveis; a maioria das previsões são erradas

A afirmação é do estatístico e escritor americano, Nate Silver, que escreveu, entre outros, o livro “ O Sinal e o Ruído”. As pessoas gostam de estatísticas, é fato; previsão do tempo, da movimentação econômica, pesquisas eleitorais. Quanto aos erros das previsões, vejamos como foram os últimos dias que antecederam o prazo final para filiação partidária para quem quer candidatar-se na próxima eleição. A presidenciável Marina Silva criaria a Rede Sustentabilidade, porque não comungava com as práticas políticas de nenhum partido brasileiro. Ao ter o registro negado, foi-lhe oferecido o PPS, PC do B, PV para filiar-se e seguir adiante com o projeto de concorrer a presidência da república. Todos apostaram nisso. O que fez Marina? Abrigou-se nos braços de Eduardo Campos, ele próprio candidato a presidente. Marina? Coadjuvante! Como disse o presidente do PSDB Aécio Neves: “Eu e ninguém esperávamos essa reviravolta”.

Em todas essas áreas, mas sobretudo na política, as previsões saem erradas graças a preconceitos, interesses escusos e excesso de confiança. Para alcançar interesse as previsões têm de ser chocantes e inesperadas e baseadas em projetos inovadores, que distinguem um verdadeiro sinal de ruído.
A maioria das previsões falham, muitas vezes com um grande custo para a sociedade, porque a maioria de nós temos vaga compreensão da probabilidade e da incerteza.

Mas o excesso de confiança é muitas vezes a razão para o fracasso. Se a nossa apreciação da incerteza aumenta, as nossas previsões podem melhorar muito. Este é o paradoxo da previsão: Quanto mais humildade formos sobre a nossa capacidade de fazer previsões, mais bem sucedido seremos no planejamento do futuro. Os detalhes das conversas políticas, os encontros devem ser analisados dentro de um contexto amplo, valorizando todos os agentes, explorando semelhanças inesperadas. A verdade é encontrada onde poucos se preocupam em olhar. Na maioria dos casos a previsão é ainda uma ciência perigosa e muito rudimentar.

As pesquisas não traduzem perfeitamente as expectativas, mas as previsões mais precisas tendem a trabalhar bem com a probabilidade, distinguem o previsível a partir do imprevisível, do olhar que capta os sutis movimentos e percebe mil pequenos detalhes que levam mais perto da verdade.
Distinguir o sinal do ruído requer tanto o conhecimento científico e de autoconhecimento: a serenidade para aceitar as coisas que não podemos prever, a coragem de prever as coisas que posso, e a sabedoria para saber a diferença, ironiza Nate Silver.

Os homens cultos e os iletrados

O filósofo grego Aristóteles teria dito que a diferença que existe entre os homens cultos e os incultos é a mesma diferença que existe entre os vivos e os mortos.
Porém a palavra cultura tem muitos significados diferentes. Para alguns, refere-se a uma apreciação da boa literatura, música, arte e comida, no entanto, para a maioria dos antropólogos e outros cientistas comportamentais, a cultura é o conjunto de padrões de comportamento humano aprendidos. Edward Tylor, antropólogo inglês define cultura como todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, direito, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.

A cultura tem uma dimensão de descoberta individual, uma viagem para a qual se deve partir só, guiado pela curiosidade, pelo ávido desejo de adquirir e vivenciar o conhecimento. No mundo de hoje, onde há até excessiva informação, com possibilidades de acesso aos clássicos de Baudelaire e a mil outras obras primas e romances populares, não podemos dizer que somos cultos. Pois que, o homem culto deve espelhar-se e manter as suas tradições culturais, aquilo que o distingue de outras sociedades, como a linguagem e as crenças. Além disso, deve compartilhar em vez de esconder a sua cultura, orgulhar-se de suas experiências, da culinária, dos bons modos, da prosa gentil.

Preservar os valores e as crenças são padrões utilizados pelos homens cultos para discernir o que é bom e justo. Os valores são sentimentos críticos profundamente enraizados e as crenças são as convicções que possuem para contar suas verdades.
Nas viagens eu gosto de visitar pessoas e ouvir histórias que refletem os valores e as crenças. Histórias de homens cultos, que falam outros idiomas, que conhecem outros países. Entretanto, a maioria das histórias que ouço são de homens não letradas, mas que possuem um refinamento de vida nos hábitos, nas conversas, na seleção da memória.

Homens simples que recitam versos, relembram fatos históricos com riqueza de detalhes. São talhados pela boa educação, são generosos. Homens que constroem teorias com suas vivências. Eu fico a ouvi-los, porque penso na cultura como uma ferramenta que deve favorecer a compreensão e a sobrevivência harmônica entre os homens.
Entretanto viver de acordo com os valores de uma cultura pode ser difícil, porque é fácil valorizar a boa saúde, mas é difícil parar de fumar. Valoriza-se verbalmente a monogamia, mas muitos casais se envolvem casos de infidelidade. A diversidade cultural e igualdade racial são propagadas como valores do mundo contemporâneo, mas os mais altos cargos do país são ainda ocupados por homens brancos.

Os valores do homem culto sugere como as pessoas devem se comportar, mas não refletem exatamente como as pessoas se comportam. Pena que a cultura ideal não reflete a cultura verdadeira.
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O desenvolvimento aqui não é obra de ficção

Uma semana de viagens e reuniões importantes que serviram para reflexão sobre o muito que se diz por aí. É bom salientar que apesar de servir com absoluto senso ético ao governo, não faço assessoria caolha, não ignoro os fatos, mas os analiso adicionando também o que vejo, ouço e sobretudo sinto. O governo não é uma coisa desconectada de todas as outras. Uma ação quando efetivada, foi demandada, discutida e elaborada por entes governamentais e sociedade civil, principalmente.

Poucos projetos são elucubrados à escuridão,  resultados de vontades arbitrárias, normalmente eles foram se desenvolvendo entre erros e acertos, de indivíduos e de governantes.
Numa distante cidade do interior um grupo de chineses trabalham no ritmo alucinante deles para realizar um trabalho, para o qual a empresa habilitou-se e ganhou a concorrência. São mais de cem homens construindo um linhão de energia. Ao conversar com alguns deles, desconfiados, disseram-me que estão encantados com o desenvolvimento da região, que estão sentindo-se bem à vontade com a comunidade local e que esperam que a empresa consiga novas frentes de trabalho, para que possam permanecer no Estado.

Havia viajado a outra cidade bem mais acima, onde encontramos um grupo de cinquenta haitianos trabalhando numa hidrelétrica, acolhidos num programa humanitário do governo, para que possam refazer suas vidas longe do país onde nasceram, que foi parcialmente destruído por terremoto em 2010 e o projeto de reconstrução tem se revelado um pesadelo. A maioria é muito jovem e alguns confessaram que pretendem construir suas vidas aqui em Mato Grosso, casando-se com alguém local.

Ao acompanhar por três dias o Embaixador da Bélgica no Brasil ouvimos um depoimento no mínimo agradável. Onde nós moradores de Cuiabá, estamos vendo o caos, ele viu o progresso, o desenvolvimento. Elogiou todas as intervenções que estão sendo feitas na cidade, visitadas em horário de pico, sem carro precursor abrindo-lhe a preferencial, porque vislumbra não apenas a melhoria no trânsito em poucos meses, mas porque pode enxergar à frente. Viu a correção definitiva de um problema que aflige todas as cidades grandes no mundo, a mobilidade urbana. E numa cidade próxima a Cuiabá, participou entusiasmado da inauguração de uma indústria belga de matéria prima para a fabricação de gelatinas.

Na Arena Pantanal novamente nos encontramos com haitianos. São mais de trezentos homens e mulheres, uma delas entregou-me um bilhete, com nome, número de telefone e um pedido: “peço ao governo de Mato Grosso, que não me deixe ir embora quando terminar a obra”. O pedido ganhou uma dimensão maior, quando a abordei e soube que ela ainda não fala português e que na noite anterior, utilizou ferramenta da internet para traduzir o pedido.
Os nossos dias são sempre cheios de histórias sensíveis, verídicas e de fatos comprováveis.

Brasil – um país de altos e baixos

A população do Brasil atinge a marca de 201.032.714 habitantes. O país registrou um avanço consistente na aferição do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), puxado pela melhora dos municípios menos desenvolvidos nas dimensões que medem o índice da longevidade, educação e renda. É parece que as coisas vão bem. A ONU diz textualmente, no Relatório que mede o Progresso Humano, IDH 2013, que o Brasil, em 85º lugar entre os países com melhor índice, elevou o seu padrão de vida porque expandiu as suas relações internacionais e implementou programas de combate à pobreza, que foram modelos para todo o mundo.
Considerado um país relativamente rico, com economia destacada na América Latina e no mundo, resguardando, obviamente alguns incidentes de percurso, o Brazil vai se revelando como um país que não pode mais ser apresentado apenas como o Rio de Janeiro, futebol, mulatas e favelas, mas um grande e respeitável mercado, com um moderno sistema de internet, que beneficia cerca de 80 milhões de cidadãos. Tem o segundo maior número de pessoas conectadas ao Facebook, atrás apenas dos Estados Unidos. O percentual de fumantes na população brasileira acima de 18 anos caiu 20% nos últimos anos e a quantidade de brasileiros fumantes alcançou o menor índice de todos os tempos: apenas 12%. O Governo brasileiro reservou 2.4 bilhões de reais para emprestar com juros baixos as empresas que investirem em projetos de energia renovável e inovação tecnológica.
Porém, outras fontes pesquisam outros horizontes e eis que lá vamos nós ladeira abaixo. A Organização Transparência Internacional, divulgou o ranking global de percepção da corrupção no setor público e o Brasil está colocado no 73º lugar entre 176 países pesquisados. O ranking é liderado pela Dinamarca, que tem a menor percepção de corrupção do mundo. Segundo a ONU a corrupção desvia 200 bilhões de reais por ano no Brasil. Soma-se a isso, o fato de que as leis brasileiras são absurdamente incompreensíveis para os estrangeiros. O Banco Mundial divulgou também um estudo dizendo que em nenhum outro país do mundo se gasta tanto tempo para estar legal com a documentação exigida para operar aqui. No Brasil, uma empresa gasta, em media longas 2.600 horas para preparar documentos, calcular e recolher taxas no insano mundo da burocracia.
A violência assusta os investidores. Os homicídios praticados no Brasil representam um volume muito superior ao de países que vivem em guerra, com isso, o Brasil ocupa um lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo, tomando como base a proporção de assassinatos para cada cem mil habitantes: 20,4 pessoas. A média de assassinatos é o dobro da que a ONU considera tolerável (dez para cada cem mil habitantes). Esses números são preocupantes para um país que não tem enfrentamentos étnicos, religiosos, de fronteiras, raciais ou políticos.
A pobreza é uma injustiça que pode e deve ser sanada por ações concretas, sem clientelismo, sem olho gordo no voto. As crianças e adolescentes precisam ser apoiados integralmente, mas o que li foi que nos anos de 2011 e 2012, o total de filhos gerados por adolescentes de 15 a 19 anos teve um salto gigantesco. No Brasil, um em cada cinco nascimentos ocorre com mães com idade entre 11 e 19 anos. Talvez porque o valor anual do gasto do governo brasileiro com a saúde, R$ 954,00 apesar de ter dobrado, é ainda muito inferior à média mundial, de R$ 1.432,00. A violência aqui apresenta-se em várias nuances. O País tem uma política internacional atrapalhada, com privilégios e relacionamento difuso com ditaduras latinas, importa médicos, que sequer receberão seus salários aqui, ataca verbal e equivocadamente um diplomata que salvou um político condenado à morte por denunciar o tão obvio vinculo de Morales com o narcotráfico e talvez, orgulhosamente seja o único país do mundo a ter um prisioneiro que é deputado federal, recebendo salário e tratamento diferenciado na cadeia.
Penso que o bem estar e a liberdade do ser humano e a sua relação com a equidade e a justiça no mundo não podem ser reduzidos apenas a estatísticas. O cidadão precisa sentir que esse bem-estar adentrou o seu lar. Percebo tristemente que esse senhor, nem tão jovem assim, completa 191 anos de independência, não faz as tarefas de casa.

O espaço da aparência

A política deve ser um instrumento aberto e participativo para a resolução de problemas e, consequentemente, para garantir a justiça. O melhor governo deve permitir aos seus cidadãos perseguir e realizar as atividades inerentes a uma vida justa e equilibrada. Não é o suficiente ter uma coleção de indivíduos vaidosos que querem expor e impor as suas querelas particulares como problemas públicos.

Em vez disso, esses indivíduos devem ser capazes de colaborarem uns com os outros em público, reunirem-se em um espaço público-político, de modo que suas diferenças possam tornar-se objeto de debate democrático. Ou então, redesenhar a fronteira do que é público e do que é privado, porque o que se vê hoje são muitos dos chamados problemas particulares tornando-se preocupações públicas.

O espaço da aparência é uma teoria da filósofa Hannah Arendt, que sublinhou a artificialidade da vida pública e das atividades políticas em geral, propondo que nas cidades existissem um espaço destinado ao discurso livre e honesto, sem a interferência de argumentos e diferenças particulares. Assim, no espaço da aparência todos teriam igual acesso, no sentido de que os participantes deveriam ser capazes de colocarem-se no debate político como seres políticos iguais. A inspiração é que os cidadãos se reúnam como iguais para debater as questões do dia e para tomar decisões de interesses coletivos.

No espaço da aparência os indivíduos conhecem uns aos outros, respeitam-se e são capazes argumentar, rebater as diferenças e procurar alguma solução coletiva para os problemas, a partir de diferentes perspectivas. Isso é a liberdade. A chance de subir ao palco político, de atuar num universo aberto, transparente. Favoreceria a manifestação dos cidadãos, que precisam de acesso para as possibilidades de engajamento e de bases sobre as quais possam interagir, estabelecendo relações de reciprocidade e solidariedade, com suas identidades reveladas, sem máscaras.

É justamente devido a impossibilidade prática de recriar esses pontos de encontro no mundo moderno, que a visão de Arendt encanta. Imagino um espaço onde posso aparecer para os outros como outros aparecem para mim. Imagino um espaço de diálogo, onde o governante apresenta-se baseado nos princípios da igualdade e cidadania e o indivíduo comum, no direito de contribuir para o debate, apresentando sugestões, teria a oportunidade de colocar-se na esfera pública, como um ente também político. Por outro lado, também imagino que teríamos que reinventar um significado para a palavra aparência, no texto utilizada como expressa manifestação da realidade, porém desgastada, hoje é ligada à coisas da superficialidade, de natureza fugaz.

Aspectos populares das marcas globais

O consumo popular ganhou muitos adeptos com a progressão da classe social de milhares de pessoas, assistidos ou não pelos governos entraram no universo do consumo. Houve um fortalecimento do poder de compra das classes C e D. Esses emergentes são a novidade econômica e social dos últimos tempos.
A sociedade atual é uma sociedade em que uma parcela das pessoas que compra bens e serviços vivencia a explosão do consumo, em geral, pela busca excessiva pelo prazer; o hedonismo – privilégio das classes mais altas. As elites consomem produtos de luxo, que tem certa áurea de sedução e que estão no topo da moda, na mídia, como símbolo de distinção social e como objeto de competição entre as classes.

Além disso, a compra de produtos fabricados por empresas globais é o meio que permite os sujeitos vivenciarem, de fato, o processo da globalização entrando em suas vidas.
Há um discurso moralizante que permeia o tema dos gastos dos setores de baixa renda, onde diz que os pobres devem gastar apenas com o que é necessário para sua sobrevivência, ou seja, eles devem apenas alimentar a prole, fugir do crediário, algo considerado moralmente incorreto. A pobreza, cujo conceito não é relativo é mensurável, não deixa de ser a situação em que o indivíduo não tem condições para assumir prestação alguma.

Os moradores da periferia se espelham nas elites e dentro de suas condições usam produtos pirateados, imitações de grifes famosas. A falsificação, no caso, confere uma democratização do consumo e estilo de vida. O povão, como muitos preferem ser chamados pode não ter dinheiro para comprar os mesmos produtos, mas pode dar-se ao luxo de usar o mesmo estilo de produto que os ricos exibem.

Algumas marcas tem sido objeto de desejo da classe rica e os produtos que fabricam são copiados e distribuídas no mundo inteiro. O produto do luxo torna-se acessível aos pobres. Não raro mulheres ricas compram itens falsificados e os exibem como legítimos nas altas rodas sociais, sem nenhum receio que alguém as reconheça como falsas. Afinal, o poder de quem usa uma bolsa Louis Vuitton é que a legitima como produto original ou falso. Tal produto é sumariamente taxada de falsificado quando usado por uma moradora da periferia.

A questão da marca é o que predomina no imaginário popular. Para as pessoas é muito importante estar inserido no que representa o símbolo da marca. É importante carregar e compartilhar esse símbolo, não importa se o produto é verdadeiro, a marca é a mesma, o símbolo tem a mesma representação. O que interessa é estar socializado com o que dá prestigio e confere status. A ordem é consumir as marcas globais, trabalhar imensamente para trocar o dinheiro pela sensação de pertencer e se identificar com o mesmo universo.

Driblar as crises ou aprender com elas?

Baseado em fatos e números o mundo está passando por transformação interessante. A maioria das pessoas hoje vive mais do que seus pais, são mais bem nutridas, gozam de melhor saúde, são melhor educadas, e tem perspectivas econômicas mais favoráveis. Contudo, há também muitas coisas a lamentar e corrigir, como a pobreza sem fim e a desigualdade marcante que ainda persiste, mesmo em meio a riqueza de tantos. Doenças antigas e novas nos ameaçam, as práticas sustentáveis de vida, das quais nossa espécie depende para sua sobrevivência, estão sendo gravemente perturbadas pelas nossas próprias atividades cotidianas.

As grandes disparidades permanecem dentro de todos os países, a desigualdade tende a aumentar, embora a maioria dos países em desenvolvimento tenham melhorado substancialmente seus índices de ascensão no patamar social. O Brasil é citado como um dos países que teve grande avanço na área, juntamente com a China, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia.

No entanto, o Brasil ainda é o lar de muitos pobres do mundo. Sem investimento em pessoas, o retorno para as tentativas de melhorar o índice de desenvolvimento humano tende a ser limitado. O sucesso, quando medido, é mais provável que seja o resultado de mera integração com a economia e não acompanhado por investimento em pessoas, instituições de educação, saúde, proteção social, capacitação e tudo mais que possa permitir que as pessoas pobres participem efetivamente do crescimento do país. A importância da justiça e da igualdade de oportunidades, os direitos humanos, a democracia vai muito além da medição do progresso, na forma de renda.

Os protestos, especialmente por pessoas educadas, tendem a entrar em erupção, quando estas se sentem excluídas da influência política e quando as perspectivas econômicas são sombrias e reduzem as oportunidades. Ao se engajarem em tais protestos, cobram pelo menos uma política de inovação social. A história está repleta de revoltas populares contra governos que não ouvem e não respondem. Essas revoltas, despertam a desconfiança e podem inviabilizar o desenvolvimento e o crescimento econômico.

Os pobres lutam para expressar suas preocupações, e os governos nem sempre asseguram que os serviços cheguem onde eles estão. A igualdade de tratamento é fundamental para a estabilidade política e social e mesmo que nem todos esses serviços sejam fornecidos pelo poder publico, os cidadãos precisam ter acesso seguro às formas de proporcionar o seu desenvolvimento.
As pessoas devem ser capazes de influenciar a formulação de políticas públicas e cobrar resultados, os jovens em particular, devem ser capazes de olhar para a frente, para as oportunidades e ampliarem a participação na política. É difícil prever quando a sociedade vai chegar a um ponto de inflexão. As revoltas ocorridas são lembrete de que as pessoas, especialmente os jovens, colocam grande expectativa na possibilidade de conseguir um bom emprego, querem ser ouvidos nos assuntos que influenciam suas vidas e mais, devem ser tratados com respeito.