Uma visita ritual

A dinâmica da vida política e social é carregada de metáforas que escondem ou ao contrário, expõe, a pormenorização das mensagens que emitimos. O aspecto simbólico dos rituais contribuem para esclarecer aspectos da vida social. Quando pensamos em ritual, a ideia que nos vem a mente é quase sempre de algo arcaico feito para celebrar momentos especiais, mas não é isso.

Os rituais são as formas simbólicas e repetidas de poder, de descrição esmiuçada, às vezes sem palavras, de cenários e representações que falam por si. Ao ler Victor Turner, eu fui remetida à minha lida diária com eventos públicos, presididos por pessoas que detém o poder. Turner reforça que os rituais encenam histórias poderosas, tradições seculares, que são traduzidas em ritos que dizem muito. Na verdade a simbologia dos ritos pode significar o enquadramento das tradições, que precisa de movimentos minimamente coreografados para transportar sujeitos de verdade ao mundo das representações simbólicas.

Cada evento é único e somente a criatividade pode quebrar a rigidez das regulamentações hierárquicas. Os rituais acontecem sob certas condições e precisa de público para acontecer. É preciso ter competência para comunicar com a plateia, empatia para transmitir o pensamento de forma que as entrelinhas possam ser lidas e entendidas.

As figuras públicas se expressam por meio de rituais ordenados, que favorecem a transmissão das mensagens e das imagens. Todo ato com a presença da presidente da República, não é um acontecimento meramente casual. Ao contrário, são utilizados mecanismos eficientes de comunicação para levar a mensagem ao destino certo.
Escolhi estudar Antropologia das Formas Expressivas esse ano e agora ao estar na coordenação dos preparativos para a visita da presidente da República Estado de Mato Grosso, posso constatar que a organização desse ato é constituído por um conjunto de pequenos atos simbólicos, embora a visita ocorra numa área de plantio, com certa informalidade. O desembarque, o lugar de passagem, a distribuição do público, a arte por trás do palco, tudo cuidadosamente verificado e aprovado.

A maior autoridade do País se movimenta hoje aqui, cumprindo agenda e rituais inerentes ao poder por ela exercido, observando as tradições, fortalecendo as relações com os antepassados. Há simbologia em todas as atividades, em todo o material envolvido na construção do cenário. Tudo ressalta os aspectos políticos dentro do conceito da manutenção dos ritos do poder, sem distrações que possam desvalorizar os rituais. Devemos estar atentos aos gestos, expressões, pois o corpo é um veículo que transporta muitos significados, que contextualizados, podem traduzir as diversas formas, através das quais, nos comunicamos.

Como esquecer o Araguaia?

Sair da zona do conforto, ir até as pessoas, conversar, perguntar, ouvir, é seguramente a melhor forma de saber a verdade. De uma sala distante, o máximo que se tem são impressões frias e achismo, o que leva alguns políticos a trafegar na contramão da realidade regional por vários anos. E olha, não se corrige impressões desfocadas com uma única viagem. No site do Senador Pedro Taques, em matéria sobre sua visita a Região do Araguaia está escrito literalmente assim: “Há 40 anos cidadãos desta região sonham com o asfalto na BR-163”. Gelei! A BR 163 não passa na região.

Não se trata aqui, é claro, de mostrar um Estado perfeito e irreal, mas mostrar as possibilidades que se abrem com trabalho sério, embates e entendimentos entre pessoas comprometidas com o futuro. O Mato Grosso visto por quem viaja por todas as regiões, em períodos de chuva, de estiagem, frio e calor, não está parado, tampouco apodrecido, como foi noticiado. É com o povo que o político deve estabelecer parceria para exercer o mandato, desde o primeiro dia. Mas convenhamos, essa parceria exige um relacionamento de ida e volta e constante. É desolador e parece irônico assistir a entrevista de um político, 03 anos após assumir o mandato, dizer que é uma alegria conhecer as pessoas corajosas de Luciara. Só conheceu agora?

Os problemas soam enormes quando se fica muito tempo distante deles. Porém, não se pode esconder a obra de pavimentação entre Santo Antônio do Fontoura e Confresa, a ligação de Santa Terezinha a BR 158, através da MT 413, a ligação de Canabrava a Porto Alegre do Norte, fora os trechos que tiveram os contratos assinados, como S. José do Xingú, Santa Cruz do Xingú e Vila Rica; a publicação do edital para construção do Hospital Regional em Porto Alegre, que dia 28 próximo já terá o edital disponibilizado para os interessados, a autorização para construção de uma nova escola do EJA na mesma cidade. É preciso saber mensurar o que isso significa para quem mora lá. O Governo esteve presente na região no final de abril do ano passado quando lançou as obras e retornou essa semana, após 9 meses para inaugurá-las.

Percorremos de carro de Cuiabá a São José do Xingú e o único trecho sem asfalto é do Alô Brasil a Canabrava do Norte e lá na frente, depois de Santo Antônio do Fontoura. Isso significa avanço para quem conhece e visita o Araguaia frequentemente como eu, para quem faz públicas e reiteradas declarações de amor ao pedaço desse Estado que pertenço de nascimento e de coração. Conheço os números da produção, a extensão das obras, o tamanho da pobreza, dos quilômetros com e sem asfalto. Não há milagre, tampouco milagreiro.

O progresso é fruto do trabalho do povo, com intervenção dos Governos para consolidar as ações necessárias para o desenvolvimento da região.
Falta muito? Falta! Mas daí a referir-se ao Araguaia como Vale dos Esquecidos é quase uma afronta. Como dizer isso de uma região onde está o Parque Indígena do Xingú, o Parque das Águas Quentes, a Serra do Roncador e sua aura mística, o Rio das Mortes, e o mais belo dos rios do Brasil; o Araguaia? Como chamar de Vale dos Esquecidos a região que tem um leilão de gado que bate recorde mundial?
Como chamar de Vale dos Esquecidos o lugar onde está a casa do bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga?

O princípio de respeitar as diferenças

“Quem habita este planeta, não é o homem, são os homens. A pluralidade é a lei da terra”. Hannah Arendt.
A pluralidade é a condição humana por meio da qual somos semelhantes e, portanto, humanos, embora sejamos também diferentes, pois não há nenhum de nós que seja exatamente idêntico a qualquer outro que exista ou tenha existido. O pluralismo muito se assemelha à compreensão filosófica de Bobbio sobre a tolerância, na aceitação das múltiplas verdades. No entanto há várias graduações de tolerância e são vários os locais de sua manifestação e seu seio pode contemplar muitos intolerantes também. Assim temos duas escolhas a fazer quanto a isso: aceitar a convivência com a intolerância latente, ou lutar constantemente contra ela.

Na condição de seres humanos somos plurais. Somos indivíduos portadores de algumas semelhanças e diferenças irreconciliáveis. A modernidade do mundo expõe as revoluções tecnológicas e morais, colaborando para colocar em xeque identidades relativamente estáveis e sólidas. Mas uma coisa é a incompatibilidade das verdades, outra é o problema dos preconceitos sociais e culturais contra a diversidade. É um alento saber que há caminhos múltiplos, pessoas diferentes, opiniões diversas, comportamentos ousados, moderados. Isso não significa que estamos irremediavelmente ameaçados.

Ao contrário, isso significa liberdade e uma grande oportunidade para aprender a olhar, entender, aceitar e deixar ir. Quem habita esse planeta são seres múltiplos, complexos, que se não são tolerantes por dom, podem ser por hábito.
Geralmente os grupos sociais trazem em si uma ideia persistente e quase sempre deslocada, carregada de generalizações preconceituosas e superficiais sobre os outros grupos.

A tolerância existe como um dever ético, onde não há renuncia da própria verdade, mas um princípio moral absoluto em respeitar o que é diferente. Deveria ser irrelevante as condições de gênero, de raça e condição social nas nossas relações diárias. Mas ainda causa reboliço imenso o beijo gay na novela e a movimentação dos jovens da periferia rumo aos shoppings. Impressionante como a estrutura se desarma com as novidades!
A intolerância golpeia geralmente as minorias que tentam vir à tona, respirar na superfície de um espaço que certos setores da sociedade julgam-se donos.

Eu creio que o verdadeiro segredo para que as transformações ocorram está ligado a questões culturais. A solução para a intolerância e os confrontos da diversidade é a alfabetização cultural, uma revisão dos valores dominantes, a aceitação como forma de contribuir para construir um mundo menos desigual. Pois para se libertarem da intolerância os homens precisam antes de mais nada, viver numa sociedade realmente livre.

“O respeito e o amor devem se estender também àqueles que pensam e operam diferentemente de nós nas coisas sociais, políticas e até mesmo religiosas, pois com quanto mais humanidade e amor entrarmos em seu modo de sentir, tão mais facilmente poderemos iniciar com eles um diálogo”. Trecho da Constituição Apostólica do Concílio Vaticano II.

A banalidade do mal

O incompreensível virou rotina. Mulher briga com marido e joga o cachorro do 12º andar; uma criança paquistanesa de 10 anos, trabalhava como doméstica para um casal da classe média no Paquistão e é morta com barra de ferro pelos patrões; briga generalizada fere várias pessoas numa festa de formatura em Cuiabá; senhor idoso foi denunciado após ser flagrado se esfregando na sobrinha de 9 anos e após a denúncia várias outras sobrinhas denunciaram que haviam sido molestadas também; Ana Clara, uma garotinha de 6 anos foi queimada viva dentro de um ônibus no Maranhão. Pessoas absolutamente inocentes tratadas de forma vil. O que é isso? A banalização da maldade?

Seria insano negar a realidade do mal e os perigos a ele relacionados. O bem parece perder seu caráter, o padrão, pelo qual o bem e o mal podem ser reconhecidos. O homem perdeu a fé, a capacidade de pensar e de agir com auto controle. A maldade de certa forma nos embaraça, nos envergonha e deixa uma verdade desconfortável que nos ameaça como cidadãos.
O mal é banal. É banal e apresenta-se nas mais variadas formas de covardia e camuflagem. O mal é praticado diariamente pelo homem comum. Pessoas perfeitamente normais psiquicamente e socialmente podem cometer um mal inimaginável, pois as pessoas acumulam rancores pervertidos e como agravante, adicionam o componente da hipocrisia, da capacidade de enganar e mentir. Ou seja, qualquer sujeito patético, dentro da sua mediocridade pode armar cenas cruéis, de elevado impacto. O mal insidioso e emblemático reside em toda parte. O que horroriza, é a nossa incapacidade de perceber que o monstro pode estar por perto, porque o monstro tem a cara do bom vizinho da porta ao lado.

Grandes males estão manchando nosso cotidiano. O homem mimado vive de escolhas individuais, não pensa na dor do outro. A filósofa política, Hannah Arendt, ao analisar as atrocidades praticadas pelo chefe nazista Adolf Eichmann, que havia passado anos vivendo oculto na Argentina e após ser preso, foi julgado em Jerusalém, criou esse termo “banalidade do mal”, após ouvi-lo explicando as atrocidades que cometera, fazendo crer que limitou-se a cumprir ordens superiores, como se fosse indiferente o trabalho que desempenhara na chacina de seis milhões de seres humanos. A palavra é essa: Indiferença!

Vê-se então, que pessoas normais conseguem realizar tarefas condenáveis, portanto, não podemos de forma nenhuma aceitar que as pessoas que praticam o mal sejam, para se defender, tratados como deficientes mentais ou sádicos. A grande maioria são pessoas plenamente normais e não apresentam qualquer sinal de profundidade diabólica.
A banalização da crueldade, do pensar despreocupado com a punição é o extrato de uma realidade de oportunismo inconsequente e assustador. Não sei o que dizer, mas cuidado; as conversas vazias podem ocultar pensamentos hediondos.
Nossa vida flui ou se arrasta de um desafio para outro e de um episódio para outro, os pânicos vêm e vão, e embora possam ser assustadores, podemos presumir que terão o mesmo destino de todos os outros. Serão banalizados!

Não há mais um mundo privado?

A realidade da vida na era digital é que praticamente tudo o que fazemos deixa um rastro que é compartilhado com outros. A empresa de telefonia armazena nossos dados, os provedores de internet e empresas de cartão de crédito também o fazem. As redes sociais armazenam muito mais do que dados, armazenam interesses de consumo e desejos íntimos. Tanto o Google, como Facebook e Twitter podem obter informações muito precisas sobre os indivíduos, cruzando dados dos comentários feitos. A explosão das mídias sociais e da vontade das pessoas de compartilhar informações on line sobre si mesmas tem fornecido uma pegada digital com o qual pode-se rastrear praticamente qualquer pessoa no planeta. E, portanto, quem utiliza internet não pode definitivamente esperar que suas informações sejam privadas. Estamos vivendo em uma era digital e as empresas usam as nossas informações em uma base regular, ou, às vezes nos expõe demasiadamente vulneráveis, mas isso é um fato da vida moderna.
É bem verdade que existe diferença entre o que se fazia com os registros de dados em décadas passadas com o que pode ser feito hoje. As empresas e os governos agora tem uma capacidade infinita de coletar dados eletrônicos. Entretanto, os métodos de proteger a individualidade devem evoluir à medida que a tecnologia avança.
Algumas pessoas reclamam que querem ter privacidade e que a intrusão ocorre indiscriminada nas redes sociais. O fato é que todos temos direito de permanecer em silêncio, manter certas informações confidenciais, assim como outras pessoas têm o direito de informar-se sobre o mundo, inclusive sobre nós. As tecnologias não vão invadir a privacidade. As pessoas, ao utilizar inadvertidamente as tecnologias é que ameaçam a própria privacidade. As informações que liberamos sobre nós mesmos é que revelam nossas intimidades. Ajuste o nível de privacidade para o que você considera ideal.
Existe um site específico que armazena dados e informações sobre empresas, onde pode-se checar e bisbilhotar registros corporativos, chama-se “ Open Corporates”. O site busca informações em orgãos públicos, centrais de regulação e construiram um banco de dados impactante. A Open Corporates, tem registro de empresas no mundo todo e as disponibiliza facilmente para pesquisas. Porém há limites, pois que as informações são alimentadas pelas próprias empresas, que podem omitir dados, alterá-los ou induzir a leitura equivocada.
Existem claro, muitas formas de invasão de privacidade, como a chantagem com o uso indevido de dados pessoais, da imagem, a compilação de informações para construir dossiês secretos, o que não é novidade, sobretudo em períodos eleitorais. Uma boa metáfora sobre a utilização de dados pessoais para se construir dossiês é o livro “O Julgamento”, do escritor tcheco, Franz Kafka, que no dia do seu aniversário é levado preso, sem conhecer o motivo. Ele tenta desesperadamente obter informação sobre o que ocasionou sua prisão e descobre que um misterioso sistema judicial tem um dossiê secreto sobre ele. O problema pode ser a forma como a informação é processada, como os dados coletados são manipulados, utilizados ou distorcidos. Privacidade, em outras palavras, envolve tantas coisas que é impossível enumerá-las.

Transformando desertos em pastos verdes

Tirei um momento silencioso para avaliar o que realmente tocou-me no ano de 2013. O pensamento percorreu os caminhos tortuosos dos dias que se passaram e que refletiram de forma profunda na condução da minha vida, pois trouxeram lições que aprendi, geraram expectativas que não sei onde vão chegar e confesso sem sombra de dúvidas, que fui marcada pelo pronunciamento inspirador de Pepe Mujica, presidente do Uruguai, na 68 Assembleia Geral da ONU em Nova York setembro passado.
O Brasil havia acabado de passar um momento meio mágico de mobilizações, as pessoas haviam despertado da indiferença e imobilismo e foram às ruas clamando por mudanças, pelo estabelecimento de uma nova forma de democracia. Bem parecia que finalmente as coisas iriam tomar um rumo outro, que não fosse a aceitação da corrupção e a acomodação com a velha forma de fazer política.
O indício era de surgimento de uma nova era; a luta do povo e não de uma classe, contra o Estado, considerado corrupto e omisso com o provimento de bens e serviços considerados básicos em qualquer democracia do mundo. Os manifestantes isolaram a classe política e os partidos de direita, centro e esquerda, por acreditar que estariam em colapso, mas nenhum novo líder surgiu dos movimentos, nenhum sindicato assumiu ou comprometeu-se com as mudanças.
Ė certo que precisamos de reforma política, ė igualmente certo que há muitos políticos que atendem apenas as demandas de seu interesse eleitoral, entretanto, será fácil perceber a profundidade dos protestos após as eleições gerais em outubro do próximo ano. Vamos ver se os políticos saberão interpretar o espírito dos protestos e se povo será ouvido e considerado o elemento central das possíveis reformas.

No discurso de Josė Mujica um novo mundo ė absolutamente possível, porque há uma demanda por renovação moral na inquietação civil desse tempo moderno.
Pode parecer utópico, mas eu espero que sejamos capazes de viver com mais humanidade, menos desperdício e sem preocupação demasiada com a acumulação de bens. Nem tudo pode continuar sendo esculpido pelo poder financeiro. Torna-se imperioso conseguir consenso para desencadear solidariedade aos mais pobres e abolir a violência das guerras urbanas que envergonham o mundo. O que precisamos fazer para conseguir isso? Pensar no todo, em todas as formas de vida, incluindo a vida humana com toda a dificuldade para manter o equilíbrio frágil que nos sustenta. Ninguém ė mais do que ninguém, nossas diferenças nos aproximam e a tolerância ė essencial para nos reconheçamos um no outro. Na política aprendemos que os governos devem representar o bem comum, a justiça e a equidade, sem nenhuma deformação. Ninguém deve se considerado pequeno e fraco.

Este é nosso desafio e nosso dilema. Como manter esta nova dinâmica que inspirou as redes sociais a reproduziram novas conexões e circulação de idéias? Os brasileiros aprenderam realmente a se organizar e demonstrar descontentamento com o distanciamento do Estado? Esta tensão latente não pode virar ressentimento.
Que em 2014 sejamos capazes de dar sustentabilidade aos nossos sonhos, que definitivamente compreendamos que somos os únicos responsáveis pela mudança que queremos ver acontecer nas nossas vidas.

A família, a escola e o mundo

Transformar-se e transformar o mundo. Essa ideia seduz e traduz a busca pela realidade com a qual se sonha e se luta, vencendo as barreiras que limitam a vida social e pessoal. Não se faz isso sem esperança, ensina-nos Paulo Freire para quem, a luta pela transformação do mundo e de si mesmo é uma luta sem fim.
O que de fato almejamos? Quais são os nossos sonhos diurnos para 2014? Preocupa-me a escalada da violência que tem causado mortes precoces, mas sonho mesmo com a educação de nossas crianças. A educação deveria ser o tema central nas discussões públicas. Uma criança educada com princípios de bondade, de compaixão, com muita leitura, provavelmente não se juntaria aos bárbaros que agiram no estádio, em Joinville. A educação de que falo começa, segue e termina fundamentalmente com a família. É a ela que compete educar e a família não deve delegar inteiramente à escola a sua autoridade moral. As crianças devem ser amadas, protegidas e integradas pelas famílias e orientadas pela escola. A escola é um agente de educação, de iniciação da criança na sociedade, mas na escola são usadas as forma de estimular as qualidades da inteligência, mais do que as qualidades de caráter, que cabe a família.
Os pais põem filhos num mundo que já existia, velho, cheio de crises, de vícios e acabam responsáveis pelos seus filhos e pelo próprio mundo. Contraditoriamente tem que cuidar e proteger a criança, para evitar que o mundo a estrangule. Então família, é sobre ti que recai o papel de acompanhar o crescimento e desenvolvimento harmonioso dos seus recém-chegados. É dentro do limite do seu muro que se desenrola a formação de um ser cidadão. Comparados, o lar e a escola são muito pequenos frente ao mundo e na medida em que a criança não conhece ainda o mundo, devemos introduzi-la nele gradativamente.
Entre um apontamento sábio e outro, Durkheim ao falar da educação das crianças tanto na família quanto na escola, coloca-se contra as punições. Diz que o castigo corporal é a negação da dignidade e que qualquer punição perde eficiência cada vez que é utilizada. Os pais precisam exercer influencia sobre os filhos e os educadores sobre os alunos. Tempos atrás essa sintonia era sentida nas atitudes de reprovação: um gesto, um olhar ou o silêncio. A educação não tem no indivíduo seu único e principal objetivo; é acima de tudo a forma pela qual a sociedade recria perpetuamente as condições da sua existência. A educação tem que estender-se até o ato de modelar socialmente o indivíduo, tornar os jovens autônomos, dotados de capacidades de pensamento crítico e reflexivo, essenciais para o desenvolvimento de sociedades civilizadas e democráticas.
A responsabilidade da família e da escola estão intrinsecamente ligadas, visto que são complementares. Diante da agressão, da brutalidade a que estamos todos expostos, o objetivo maior da educação deve ser o de verter na criança uma moralidade humanística, de lhe dar um sentimento constante de dignidade.
A escola bem poderia ser o elo a facilitar a transição da família para o mundo.

Nelson Mandela, o Brasil e o amigo FHC

Em 1º de agosto de 1991, um ano após ter sido libertado da prisão, Nelson Mandela desembarca pela primeira vez no Brasil. Foi recebido com samba, inaugurou Cieps acompanhado pelo governador Brizola. A visita de Nelson Mandela nessa escola fortaleceu a ideia de igualdade. Ainda hoje, entrevistados, os alunos disseram lembrar do olhar carismático que transmitia toda a sua história e a sua luta contra a segregação racial. O legado dele ficou. Hoje é o patrono da escola.

Foi condecorado pelo presidente da República, Fernando Collor e pelo Congresso Nacional. Mais de uma vez elogiou a democracia brasileira e o belos sorrisos multi raciais que se abriam para recebê-lo. Nos anos 50, Mandela era um advogado ativo e líder carismático que militava no partido do Congresso Nacional Africano, CNA e atiçava as massas negras contra o apartheid com uma campanha de desobediência civil. Nos anos 60, após um massacre, no qual os policiais mataram 67 negros, Mandela resolveu fundar um grupo guerrilheiro para enfrentar o apartheid. Mandela ė um politico em absoluta paz com a sua história. Casou-se três vezes, teve seis filhos, escreveu um belo livro autobiográfico, que fala do espírito do triunfo sobre a opressão.

Dedicou a vida à libertacão do seu povo, começando pela militância num partido negro e pela adesão a luta armada. Passou 27 anos numa prisão, onde entrou aos 44 anos e saiu com 72 para ser consagrado como o primeiro presidente negro da historia da África do Sul, com mandato de 1994 a 1999.

Mandela inspirou movimentos contra o racismo em todo o mundo. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Voltou ao Brasil em seu último ano como presidente para estar com o amigo Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil, que o havia visitado 2 anos antes. Discursou em Brasília, falando do sentimento de irmãos separados pelo Atlântico, enalteceu o fato de o Brasil ser um destino turístico respeitável e popular, creditando o fato, ao nosso vasto território, cheio de recursos naturais, nossa criatividade, paixão e diversidade cultural. Descontraído, disse que veio também para aprender a dançar e mostrou-se orgulhoso por estar estabelecendo um contato baseado no respeito, na estabilidade política e numa agenda positiva de contribuição para ambos os países.

Entre as razões para aprofundar a amizade, citava alguns itens considerados coincidentes, como o fato dos dois países terem emergido após enfrentar problemas em suas democracias e hoje enfrentarem problemas também para superar as disparidades entre ricos e pobres; o desafio imenso de erradicar a pobreza, gerar empregos r melhorar os serviços oferecidos para a população. No tom eloquente e elegante elogiou o programa Comunidade Solidária, citado como uma lição para outros países seguirem, como forma de estreitar as desigualdades sociais.

Logo após deixar a presidência, em 2002, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu uma carta convite de Mandela para integrar a organização internacional, que ele liderava, os “The Elders”, um grupo de homens notáveis dispostos a elaborar e discutir propostas de paz, de colaboração entre os povos e nações nas áreas sociais, de saúde e educação. Fernando Henrique é o único sul-americano a fazer parte do grupo, que conta, entre outros, com ex-presidentes de alguns países, laureados com Prêmio Nobel da Paz e um ex-secretário geral da ONU.

Inevitável render homenagem a esse homem extraordinário, líder visionário que partiu dessa terra imortalizado como um símbolo de resistência e coragem.

O espaço público e o privado

É senso comum que existe uma classe dominante, que influencia os negócios e políticas públicas da sociedade, que são as redes privadas controladas por homens ricos e poderosos, que eventualmente também, é a causa do surgimento de escândalos envolvendo homens públicos. Embora na política, tal como na vida particular, a despeito dos interesses, temos que olhar os meios que utilizamos para atingir nossos objetivos.

Muitas redes privadas nos inspiram e nos ensinam a trabalhar com mais determinação para um futuro melhor. São empresas, cujos líderes empresariais desempenham um papel público, crucial no mundo moderno, como debatedores dos principais desafios futuros. A classe política precisa dessa contribuição, desde que seja ela despida de interesse financeiro e vantagens.

Os governos dos dias de hoje têm que lidar não apenas com outros governos, com os relacionamentos institucionais, mas também com as sociedades privadas que têm em todos os lugares e seus agentes, que não tem nenhuma afinidade com a ideologia do governo, mas aderem a este, de olho nos interesses do grupo que representa. Da ascensão espetacular ao colapso de empresários que serviram-se dos governo para enriquecer, fica a advertência do que pode dar errado quando o dinheiro público é usado para apoiar a iniciativa privada ou quando o inverso ocorre e as redes privadas bancam estripulias de políticos.

O grupo de Bilderberg, que é acusado de fixar o destino do mundo por trás de portas fechadas é uma confraria de corretores, empresários, banqueiros e industriais de diversas áreas, que se reúne em lugares sigilosos, em data camuflada, para tratar de questões globais, para definir variações cambiais, manipular seus faturamentos e nível de influência de suas corporações na sociedade política mundial. Nem uma palavra do que é dito nas reuniões do grupo é conhecida aqui fora, mas os efeitos do consenso das decisões vai-se percebendo aos poucos na política que é feita no mundo.

Que a política global está amplamente moldada pelos interesses das grandes redes corporativas, não há dúvida, contudo, o desenvolvimento da vida social na era moderna reflete as oportunidades que temos e as limitações normativas do que é público e não nos pertence. Praticar a diferença do que é público e privado é fundamental, assim como é salutar que os líderes na política, negócios, finanças e meios de comunicação possam compartilhar a crença no valor de soluções globais se reúnam, troquem experiências, falem de negócios, de suas posições e aspirações.

Esse convívio e apoio deve ser crucial para o sucesso da democracia. O que não pode haver é a negociação livre de favores e a disputa por posições de influencia e autoridade. Porque enquanto os negócios e a política permanecerem mutuamente dependentes, só os negócios vão prosperar. John Kennedy disse: “Você não pode negociar com pessoas que dizem que o que é meu é meu e o que é seu é negociável”.

Não somos civilizados?

A era dos extremos, livro de Eric Hobsbawm, transmite uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que nos abateu no século XX, em relação à desvalorização do indivíduo, que ainda hoje, não reaprendeu o real significado da palavra respeito. Estamos convivendo com sério nível de incivilidade em nossas práticas diárias, no trabalho e nos relacionamentos pessoais. Falamos alto no telefone quando estamos em local público, usamos telefone no meio da refeição, sentamos numa cadeira, a bolsa senta-se na outra, ultrapassamos o limite de velocidade, passamos em sinal fechado, chegamos atrasados, jogamos lixo no chão. Isso não é mais considerado falta de educação?

Perdemos amigos, empregos por agirmos com grosseria. Nossos heróis se comportam incivilizadamente, nossos políticos, nossos desportistas também, embora saibamos que o comportamento não apropriado provoca reação violenta; palavras grosseiras recebem respostas igualmente grosseiras e aí, não se retoma o nível da civilidade aceitável entre seres humanos.

A incivilidade está virando uma epidemia nacional e se tornando o novo manual de comportamento e há quem afirme que a Internet incentiva a incivilidade, através de postagens ou comentários impróprios. Mas foi mesmo o trânsito que levou o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, a afirmar que somos uma sociedade moderna atrelada ao passado, um país republicano com resquícios da aristocracia, que dirigimos sem olhar para os lados e quando temos que faze-lo, fazemos com arrogância e má vontade.

O estudo virou o livro “Fé em Deus e Pé na Tábua”, onde nossa incivilidade é escancarada tanto quanto foi quando ele escreveu Carnavais, Malandros e Heróis, onde a tradicional frase: “ sabe com quem está falando?” foi elucidada e explorada em todas as suas nuances. Agora ao estudar o nosso comportamento ao volante, novas verdades foram produzidas por DaMatta quanto a nossa civilidade. Afinal somos um povo com tendência a violar o princípio da igualdade. E o trânsito, contraditoriamente, nos obriga a uma situação igualitária. Todos temos que passar pelo mesmo lugar, embora ainda, quem tem um carro caro e grande sente-se dono de um espaço maior da rua. Alguns ainda agem como indivíduos, cuja vontade não pode ser contrariada.

Explica DaMatta que o brasileiro não aprende em casa ou na escola a ver o outro como uma pessoa que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço público. Geralmente pensamos o contrário: o espaço de todos pertence a quem chega primeiro. Ele diz que o incomodado não deve mudar-se, tem que aprender a confrontar o comportamento transgressor do outro.

Um conselho de DaMatta para reforçamos a civilidade em nossas ações seria falarmos mais sobre igualdade. Igualdade de seguir na mesma rua, obedecer os mesmos sinais, nas mesmas leis. Para o antropólogo, fechar outro veículo, xingar no trânsito são apenas confirmações do conceito “sabe com quem está falando?”