Vamos avançar

Vem eleição aí. Sem desviar a atenção do momento crítico que vive o país, precisamos nos ater ao que está para acontecer bem perto de nós; as eleições locais, para prefeitos e vereadores.

Eleições em todos os níveis não deveriam ser apenas disputas entre os políticos, mas uma agenda de interesse nacional e devemos sempre começar arrumando a casa que habitamos. Olha sua cidade, entenda como o prefeito e a Câmara tratam de temas relevantes como saúde, educação, moradia, se combate as desigualdades, facilita o acesso aos serviços básicos, se gera emprego e renda.

Numa escala progressiva é significante o número de políticos locais que mais tarde ascendem em cenários mais amplos, em âmbito estadual e federal. É bom que estejamos um pouco alterados, impacientes e indignados com as práticas políticas e de certo modo estamos mandando um duro recado de que não podem eles continuar a subtrair vantagens das instituições públicas.

Não somos ingênuos e sabemos que em ano eleitoral o discurso muda. A sustentabilidade dos programas assistenciais é garantida, promessa de construção de novas escolas, creches, novos ônibus. Vereadores prometem isenção, independência, mas lembremos que o governo exerce uma atração gravitacional estupenda e quem o apoia recebe afagos e muitos cargos.

O descrédito na política e nos políticos é algo que deve ser repensado. O que deve mudar são as práticas políticas, o agente público tem que aprender, ajustar-se. Preocupa-me que no desespero, tem-se transferido capital político para cidadãos com discursos messiânicos, que embora sejam natural onde a desigualdade impera, são perigosos. Salvador da pátria não existe. O Brasil não muda pela ação de um cidadão, ou pela multidão nas ruas. O Brasil vai avançar porque as instituições são fortes, apesar de parcela de parlamentares que deprecia o Congresso Nacional.

Em meio a esta duríssima crise política, faltam 6 meses para as eleições municipais. Agora quem deve tirar proveito da situação são os eleitores ao retomar o encantamento pela política, cobrar eleição limpa, transparente, discursos afinados com realidade local e comprometimento; isso sim, pode ser a revanche por todo o tempo que foram enganados. Porque alguns políticos parecem tangidos por uma capacidade telúrica de mudar o discurso, de mudar de lado, de transpor qualquer lógica para se elegerem.

Certamente surge um monte de pessoas que estão sendo conduzidos pelo ódio e difamação. A mídia omite, exagera, opina, toma partido.

Membros de instituições publicas, também. É difícil manter-se saudavelmente à margem do que pensam os outros. Porém, nossos valores e verdade são postos à prova exatamente quando as nossas vidas estão cheias de incerteza, medo e inquietação.

Situação e Oposição

Nada que acontece no mundo moderno é imprevisível. Todas as conjunturas políticas são decorrentes de falhas, incompetência e omissões. No mundo globalizado, os governos estão cada vez mais impotentes para gerenciar as crises e os indivíduos estão cada vez mais insatisfeitos com seus governantes.

Tem sido difícil distinguir um partido do outro; a situação da oposição, pois todos se movem dentro do mesmo sistema e estão sujeitos aos mesmos desvios perigosos. Por isso, acho que está em crise o sistema político tradicional como um todo. Nenhum partido representa realmente os anseios da população e, mesmo quem não participou de nenhuma das manifestações, não está satisfeito com o governo.

Aliás, a criação desenfreada e até mesmo a recriação de partidos tem servido apenas para atender interesses privados, para cacifar líderes políticos visando as eleições municipais. Entretanto, esse sistema eleitoral absurdo não é tema de preocupação no Congresso Nacional desde que aprovaram a PLC/75 em setembro do ano passado, após “exaustivos debates” (como pode um tema tão sério ser analisado, alterado e votado em apenas 2 dias)?

É preocupante que dos 65 deputados federais indicados dia 17 de março para integrar a comissão que vai analisar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, 40 receberam dinheiro de empresas investigadas durante a campanha de 2014. Cerca de 20 desses parlamentares já foram inclusive julgados e são réus.

O deputado que recebeu a maior fatia foi Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), recebeu R$ 732 mil e é favorável ao impeachment da presidente. O deputado Paulo Maluf (PP-SP), vice-campeão, com R$ 648 doados por empresas denunciadas é contrario ao impeachment.Na lista divulgada há sobrenomes famosos como Covas, Bolsonaro, Abi Ackel, Feliciano, entre outros.

Entre os partidos que indicaram nomes para a comissão, apenas PSOL, Rede, PV, PROS e PEN não receberam recursos dessas empresas.

A propósito, não estamos aqui falando da luta do bem contra o mal, do bate boca insuportável entre situação e oposição, mas propondo que conversemos sobre os projetos de poder a qualquer custo, sobre a corrupção e a justiça seletiva, que investiga uns e fecha os olhos a outros. Precisamos aprimorar o debate que está colocado nas ruas, para não perdermos o gancho. São os partidos, os congressistas que irão definir se o governo cai ou não. Cobra-lhes pois, posição. Manifestações de rua podem influenciar o voto dos parlamentares, não podemporém, ultrapassar o poder das instituições.

O processo legal tem seus ritos. É importante que o desfecho da crise que vive o Brasil seja institucionalizado, com decisão do Supremo ou seguindo os trâmites para o impeachment, de forma imparcial. O gigantismo das denúncias impressionam. O deboche dos congressistas é insustentável. E tal atitude se espalha pelos governistas e oposicionistas. Sejamos sérios e não céticos com relação a política!

Balaio de gatos

Não sou filiada ao PT nem ao PSDB e entendo que o momento que Brasil atravessa não pode ser discutido dentro dessa ótica estreita e polarizada. Não são os partidos, embora em todos haja corruptos, mas este sistema político brasileiro, contaminado e voltado para a prática de atos de corrupção, que tem transformado o país e a política numa máquina impiedosa de arrecadar dinheiro para sustentar a burocracia, os escandalosos gastos públicos e a corrupção endêmica, que obviamente não é restrita a classe política, mas que, segundo o cientista político Francisco Sampaio, da PUC de SP o esquema tem se mantido de governo para governo, desde Itamar Franco.

Apesar de termos recuperado o status de país democrático há pouco mais de 30 anos e termos sofrido as revezes de 2 décadas de ditadura militar, não aprendemos ainda a ser livres, a cultivar o pensamento crítico e exercer pressão sobre os parlamentares em quem votamos, para que legislem dentro do que pregaram na campanha política, para que se posicionem publicamente sobre os temas graves que estão balançando a República. É muito ruim este distanciamento entre os eleitores e seus representantes.

É possível destituir a presidente? Sim, apesar do sistema! O processo de impedimento já começou e não creio que configure golpe. Os políticos devem prosseguir com o processo. O impeachment é um instrumento democrático, previsto na Constituição, mas começou mal, porque começou sob o signo da barganha com o presidente da Câmara, um político investigado. E tiveram que barganhar por que?

Porque a base aliada da presidente Dilma é extremamente pulverizada entre os partidos, infiel e gulosa. Ao perceber que o governo do PT perde substância, dobra o preço do apoio. O cientista político Roberto Romano, da Unicamp, assegura que a população sabe que a simples saída da presidente pouco mudará no relacionamento do Estado, que continuará autoritário, pouco democrático e movido à base da corrupção. “Tal fato não se deve a um ou dois partidos, mas a todos.”

Apesar de marcar território e votar sistematicamente contra os projetos do governo na Câmara e no Senado, a oposição ainda não encontrou um discurso honesto e capaz de questionar o governo do PT. O que ocorreu foi que o governo enfraqueceu por si, tropeçou nas próprias pernas, mas a oposição não teve competência para se fortalecer, nem as custas disso.

Seria ingênuo pensar que o destino da nação depende do número de manifestantes que se colocam nas ruas, mas na dúvida a oposição transferiu a responsabilidade para o povo.

O movimento Vem Pra Rua, um dos organizadores dos protestos, contabilizou manifestações contra a presidente, com estrutura de carros de som, adesivos, camisetas, faixas e cartazes em mais de 400 municípios brasileiros e também em 23 cidades de 13 países, entre eles Estados Unidos, Portugal, Espanha, Reino Unido, Suécia e Alemanha.

Ouvi de um amigo um questionamento interessante para o qual ninguém do grupo teve resposta. E você…já se perguntou quem paga essa conta?

Claro que quem foi às ruas sabe. Se estavam manifestando contra a falta de transparência e corrupção, não participariam de algo que não fosse totalmente transparente e lícito, não é?

Conversinha de mulher

Algumas mulheres, inegavelmente, ocupam espaços importantes. São influentes, tomadoras de decisões, dão passos agressivos e decisivos na gestão de negócios, demonstram boa performance como investidoras e doam-se à ações filantrópicas.

Em Taiwan, Jamaica, Croácia, Chile, Polônia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Brasil e muitos outros países há mulheres governando países. As mulheres estão na BM&F, em Wall Street e nas grandes empresas. Aqui na nossa terra, o Tribunal Regional Eleitoral, o do Trabalho, as duas universidades públicas, UFMT e UNEMAT e a Academia de Letras são presididas por mulheres.

No âmbito político, as mulheres não têm a mesma representação nos cargos mais altos; nenhuma senadora ou deputada federal; apenas uma deputada estadual, duas secretárias de Estado e uma vereadora no Legislativo da Capital de Mato Grosso.

A despeito de haver um monte de mulheres fortes, que são líderes, não há o suficiente no mundo dos negócios nem na política. O Brasil ocupa o vergonhoso 29º lugar nas Américas, que tem a Bolívia na dianteira, como o país que tem maior representação feminina no parlamento.

Conversinha de mulher hoje é falar sobre o êxodo do povo sírio, do financiamento americano de guerras perpétuas, da abertura diplomática entre os Estados e Cuba. Conversinha de mulher é opinar sobre as ações coercitivas da Polícia Federal, do poder de Deus transferido aos homens mortais do Ministério Público. Conversinha de mulher é tentar entender onde vamos parar com tantos desmandos. Acreditam alguns que estamos vivendo um processo de depuração. Depois virá a paz…a tão sonhada paz…Isso sim, é sonho de homem. Mulher não acredita nisso! Não agora!

Conversinha de mulher é por fim analisar os dados dos relatórios sobre a violência contra elas e numa perspectiva realista tentar entender porque o aumento das denúncias e da pena não reduzem as agressões. Conversinha de mulher é cobrar dos governos uma reforma política inclusiva, cobrar educação de qualidade para formar os bons cidadãos para a sociedade que queremos ter no futuro; cobrar resposta rápida e eficiente para controlar as “zicas” que tornam a saúde pública vulnerável.

Em certa medida há um amplo espectro de estratégias para tornar as mulheres mais participativas politicamente, para que elas se preocupem mais com a vida cívica e com os contextos culturais e políticos de suas comunidades e o processo de engajamento naturalmente desperta a cobrança para que se coloquem nas disputas eleitorais, principalmente onde há um eleitorado desgostoso com os políticos homens que estão no poder. Não creio que seja somente questão de gênero, mas também a intenção de promover um emparelhamento de condições para romper e definitivamente deixar para trás os séculos de submissão.

Janela para o diálogo

Ao exercer a cidadania, naturalmente assumimos ares de engajamento político e isso sinceramente não é algo que emerge como se fosse da nossa natureza. É sim, um exercício cultural de realização adotado por indivíduos que interagem significativamente e puxam o debate para si. Na política nada se move ou acontece que não seja por articulação, cobrança e mais cobrança.

Lutas de décadas para consolidar a democracia, para garantir lugar mais amplo para o envolvimento de sociedades plurais na elaboração de planos de governos e estes são sistematicamente abandonados e substituídos pelas velhas práticas do toma lá, dá cá. Tem que cobrar? Tem!

A participação dos cidadãos no desenvolvimento de políticas ou no acompanhamento da prestação de serviços são disposições que dão visibilidade para uma sociedade civil vigorosa e vibrante. Os governos brasileiros tradicionalmente convivem bem com críticas, cobranças, demonstrações públicas de apoio e repúdio e o povo tem conseguido dar o recado, ciente de estar vivendo simultaneamente as duas piores crises; política e financeira.

Não somos espectadores. Somos os protagonistas de nossas existências e responsáveis por manter a vida dentro do padrão que acreditamos ser ideal, somos responsáveis por expressar ideias e defende-las com argumentação séria e procedente.

Janelas precisam ser abertas para o diálogo e não apenas para permitir troca de partido. Não devemos assistir inertes os preços subindo a níveis descontrolados, a corrupção levando para o setor privado recursos que deveriam abastecer políticas públicas, das quais muitos se beneficiariam. Não há como não nos envolvermos nas tomadas de decisões, pressionando a classe política, que em tese nos representa nas esferas mais altas na corte estadual e federal.

Cidadãos e governantes são atores inseparáveis. É pior se você pretende ignorar a política, não tomar conhecimento das audiências públicas que são realizadas, dos movimentos sociais e sindicatos que lutam por determinadas categorias. Parece razoável sugerir que o exercício para desenvolver a cultura do engajamento político comece nos pequenos agrupamentos de amigos e familiares e nas reuniões de organizações sociais.

A participação dos cidadãos nas decisões políticas é a base da democracia. E a democracia, como um processo de liberdade em construção, deve ser recalibrada e reimaginada sempre que o caminho da política não nos ofertar serviços públicos decentes, educação de qualidade, acesso ao sistema de saúde, entre outros.

Num discurso inovador, o primeiro-ministro inglês David Cameron disse que em sua visão de grande sociedade (Big Society) é imprescindível o governo adote abordagem totalmente nova para governar; envolvendo a comunidade e os funcionários públicos nas tomadas de decisões. Em termos gerais, a medida evita pressões, cobranças dos cidadãos quanto aos serviços ofertados, além do interesse real de entregar melhores serviços a população.

A República não tem amantes

No mundo moderno escandalosos casos extraconjugais são frequentemente comentados e explorados pela mídia e opinião pública.

As pessoas e a mídia gostam de saber sobre a vida particular e os ilícitos affairs dos políticos e famosos, como os ocorridos na Casa Branca sobre Eisenhower, Roosevelt (tanto o presidente quanto a primeira dama, Eleanor tiveram casos extraconjugais) e Keneddy?, no Palácio do Planalto sobre Getulio, Juscelino, Collor, FHC e Lula e no Palácio do Eliseu sobre Mitterrand, que tinha duas famílias com filhos em duas casas, Sarkozy e Hollande, citando apenas os casos dos mandatários de 3 países, que deixaram escapar que suas vidas privadas foram, enquanto exerciam a presidência de seus países, recheadas de traições, escândalos e favores sexuais.

Muitos políticos nacionais e estrangeiros são até mais famosos devido à suas extravagantes vidas particulares do que pelo desempenho no exercício dos seus mandatos. Claro que há assédio, claro que o poder torna os políticos mais atraentes, claro que num certo momento as amantes vazam os segredos. Elementar caros amigos!

Não há nenhuma evidência de que a atividade política leve o indivíduo a colecionar casos extraconjugais. O que ocorre é que os deslizes tornam-se públicos, embora o direito a privacidade nas questões pessoais seja direito de todos. Deve sim existir vida privada para os entes públicos.

Lembrando que a dignidade e o respeito devem ser a base da relação entre o público e o privado e que, em certa medida, assumir o privado pode prejudicar uma pessoa pública. É bom deixar claro também que ninguém é amante da república ou de outra instituição qualquer, e que estas também não geram filhos.

No universo do público, o sexo está completamente dissociado de compromisso. Numa rápida visita ao passado, pude concluir que pouquíssimos políticos que conheci abandonaram suas famílias por causa das romances extraconjugais. Alguns não, muitos viveram vidas em jornadas duplas e assim passaram muito tempo com familiares fazendo vistas grossas ou minimizando estes relacionamentos paralelos.

Certa feita fui abordada por uma preocupada assessora que estava tendo um caso, nada secreto com um político amigo. Disse-me que estava arrasada com os comentários de que o tal político abandonaria a família para viver com ela, que negava-me o relacionamento.

Não me contive e disse-lhe malvadamente que isso jamais aconteceria porque o amigo político era uma homem apaixonado pela sua mulher e que se por ventura, ele estava tendo um caso com alguém, essa pessoa seria logo abandonada por ele.  Acho que o romance não evoluiu porque o casamento continua.

Um político casado sustentou uma bela amante por muitos anos. Separou-se e casou-se novamente. Engana-se quem pensa que a amante foi elevada ao posto de esposa. Aparentemente bem casado, dispensou a amante.

Claro que mulheres públicas também traem. Eleona Roosevelt e a princesa Daiana tiveram suas experiências amorosas censuradas e criticadas. Porém, num país machista como o Brasil esses fatos não chegam a manchar a biografia dos políticos. Nem mesmo quando as amantes oficiais são sustentadas com recurso público.

Isso sim, uma vergonha, considerando que os salários que recebem são altos e podem manter as suas expensas a oficial e a teúda e manteúda, o que não seria da nossa conta.

O arco-íris não espera

Estar presente nos momentos importantes da vida em família é um desafio que todos nós enfrentamos. Falta tempo, dinheiro e oportunidade. Mas mesmo que as  dificuldades pareçam perpetuamente intransponíveis, precisam ser vencidas.

Uma vida com significados profundos constrói-se vencendo obstáculos, juntando-se à família e amigos para compartilhar momentos que tarde, muito mais tarde, essas memórias serão a redenção de nossas vidas vazias.

A vida é um evento do qual participamos exercendo múltiplas tarefas. É natural então que nos sintamos exaustos, movendo de um lado para outro, envolvidos em emoções e estresse desde a hora que nos levantamos até o momento em que vamos para a cama. Isso lhe parece familiar, não? Saiba que sua presença é demandada em outras esferas da vida, saiba que sua experiência pode ajudar, acalmar, restituir a segurança. Guarde energia para gastar com o que vale a pena: com pessoas! O mais, tudo o mais pode esperar um pouquinho. O trabalho pode esperar enquanto você contempla o arco-íris, mas o arco-íris não espera você terminar o seu trabalho.

Ser presente de forma plena parece contraditório para aqueles que sacrificam a vida correndo atrás de garantir um futuro rico. Lembro-me então de uma frase atribuída a Henry D. Thoreau: “Você deve viver no presente, atirar-se em todas as ondas, encontrar sua eternidade em cada momento. Os tolos ficam em suas ilhas de prosperidades, vislumbrando outras terras. Mas não há outra terra, não há outra vida, senão esta”.

É profundo imaginar que quando nos colocamos presentes numa situação do cotidiano ou fato extremo, não é apenas a presença que estamos oferecendo, mas a estabilidade, a paz, a liberdade e a generosidade são percebidas na ação de desprendimento e presença. Não podemos nos relacionar e conviver com as pessoas baseados apenas nas condições ideais e na razão. O amor é compassivo, pacificador; traz a calma, afasta o medo e o drama. Estar presente é trazer afago. Para estar presente na própria vida e na vida de alguém, não devemos considerar o tamanho da ajuda que podemos oferecer. Doar-se é em si, um ato desmedido.

Estar presente vai além da presença física. Ser presente é uma oportunidade generosa de ser obediente à consciência desenvolver as habilidades da confiança, da segurança, da compreensão. Ingredientes vitais para o equilíbrio nos relacionamentos.

Estar presente é caminhar entre as histórias que se ouve e o silêncio, é deslocar-se das desproporcionalidades. Não é possível sofrer mais ou menos, não se vive mais ou menos, Ou seja, quando estiver envolvido numa situação, esteja lá com todo seu coração!

A vida no piloto automático

A intrincada dança da rotina é que nos impede de quebrar certos hábitos e promover as mudanças que realmente importam em nossas vidas. São os hábitos que determinam o que comemos, como ocupamos nossas horas, como gastamos nossas economias. Como robôs ou escravos, vamos nós agindo numa sequencia de movimentos programados, que limitam os ciclos do nosso comportamento.

A vida, como um par de sapatos velhos e bons deve ser amaciada, lustrada, receber remendos, meia sola, para que confortavelmente dure muito. Vasta vida não pode existir apenas dentro de preocupações pessoais. Não existimos dentro de um quarto decorado refletindo nossas próprias imagens do piso ao teto. Dentro desse conceito estreito, a vida se torna monótona e insana. Estranhamente muitas pessoas sentem-se seguras em suas prisões apesar da natureza humana ser potencialmente criativa e transformadora.

Então, como escapar dessa prisão que transforma pessoas interessantes e competentes em seres angustiados?

Teorias de como mudar a vida podem ser encontradas em manuais e livros que buscam esclarecer porque algumas pessoas lutam para mudar e não conseguem e outras, parecem renascer a cada dia. A princípio considere que mudar a vida implica mudar os hábitos e para mudar os hábitos inexoravelmente afetamos a rotina de outras pessoas, com as quais nos relacionamos.

É um processo de libertação das amarras que fazem mal, dos laços que apertam, dos horários exíguos, do tempo escasso. Mudar a vida não é alisar o cabelo, perder peso, aprender um idioma, fazer uma viagem.  E a menos que se reconheça o peso embutido nesta atitude, a vontade de mudar permanecerá apenas como uma voz dissonante num interior em declínio pela rotina.

Os hábitos que moldam a rotina são profundamente tóxicos, insidiosos e muitas vezes invisíveis como um vírus, que destrói a satisfação, a emoção rara de flertar com a vida; um sentimento que desponta apenas quando a vida não é levada tão a ferro e fogo. Em outras palavras diria que o apego aos hábitos determina falta de criatividade e controle sobre as situações que trazem riscos e que podem machucar.  A rotina que organiza a vida é necessária, entretanto os hábitos que mantém nossas vidas operando no piloto automático deixam a impressão de que a vida está apenas passando por nós…E a vida é uma jornada de acontecimentos extraordinariamente impermanentes.

Ironicamente a rotina exagerada é uma voz destoante numa terça-feira de carnaval, onde nada sobrevive a desordem da dança, da alegria, dos relógios parados, dos corpos suados. Bem feito! Quando parece que vamos iniciar a rotina, nos salva o carnaval!

Mundo perfeito?

No estado de Australia do Sul o investimento na saúde consome 31,5% do orçamento do Estado. Logo após o nascimento, o bebê é inscrito no MediCare, para ter o acesso e atendimento facilitados nos hospitais públicos. O nascimento do bebê deve constar numa central do governo que controla o pagamento da licença maternidade.

O estado, sem distinção de renda, deposita pouco mais de 1 mil dólares, por um período de 18 semanas à família. Isso ocorre porque, na maioria dos casos, as empresas não pagam salário integral às mães durante a licença de seis meses. Preserva-se o emprego por um ano, mas o salário cai ao nível de um salário mínimo por mês. Óbviamente essas condições podem ser negociadas, mas, em geral, é isso o que acontece.

Pouquíssimos hospitais são privados. O médico não pode cobrar se tiver qualquer vínculo de emprego com o governo, mesmo acompanhando paciente num hospital privado. Meu neto Leonardo nasceu num hospital privado, obstetra particular e pediatra do setor público. O plano de saúde foi acionado para cobrir as despesas do parto e o inesperado nascimento prematuro e duas semanas de UTI neonatal não tiveram custo adicional para os pais.

Uma semana após a alta, a casa é visitada por uma enfermeira, que aqui chamam de Midwives. São especialistas em atendimento pós-parto e trabalham tanto para os médicos quanto para hospitais. Ela supervisiona a cicatrização da cirurgia, pesa, mede o bebê, observa-o sendo amamentado e orienta sobre depressão pós-parto.

Na Austrália cerca de 7 em cada grupo de 10 mulheres sentem-se deprimidas quando retornam para casa com o bebê. Uma situação que preocupa o governo. Tanto que na segunda semana, uma agente de saúde, do governo faz acompanhamento da recuperação da mãe e do bebe. Percebe-se através das perguntas uma outra preocupação, a violência doméstica. Na oportunidade, em tom formal, a agente do governo instrui quanto os endereços das entidades as quais deve-se recorrer em caso de necessidade de auxílio. Ao sair, checa o quarto do bebe.

Grandes hospitais são inúmeros em Adelaide. Entretanto o governo está implantando um novo sistema de saúde, que está gerando críticas por parte dos sindicatos dos serviços da saúde e usuários. O projeto chama-se ¨Transformando a Saúde¨ e inicia com a construção de um imponente hospital central, com atendimento ambulatorial contemplando todas as especialidades, centro para atendimento e cirurgias de média e alta complexidade, centro de reabilitação, laboratórios e centro avançado de pesquisas.

Disseram-me que o povo na verdade, não está interessado nesse complexo, cuja intenção do governo trabalhista é tornar a Austrália do Sul numa referencia nacional em saúde pública. Alegam ainda que o suntuoso edifício pode não atender as necessidades dos médicos e enfermeiros e que fizeram a opção por uma obra de arquitetura estética, que será entregue a população até o meio do ano.

Os antigos hospitais serão transformados em centros de atendimentos especializados, de forma que, uma vez acometido de um mal, o paciente sabe exatamente para qual unidade deve se dirigir. Haverá um hospital público para ortopedia, outro para mulheres e crianças, hospital cardíaco, outro para tratar doenças crônicas e outros. Estes hospitais estão sendo redesenhados como ambiente para cuidar de pessoas em condições de saúde complexas e crônicas.

Explorando o contraditório, percebe-se que este país moderno ignora completamente os 3% da população de origem aborígene. São negligenciados pelos governos, possuem baixa escolaridade, vivem em precária condição de saúde e em estado de pobreza, longe desse mundo aparentemente perfeito.

De Adelaide, Austrália

Eu não menti para você

Ignorância não é apenas não saber. É também uma criação maledicente para que as pessoas não saibam a verdade sobre as coisas que importam. Vivemos num mundo de ignorâncias plantadas e, mesmo que os conhecimento seja acessível, nem sempre é acessado e as pessoas continuam subtraindo conhecimento da tradição, da religião e o que é pior, da propaganda.

Com isso, vamos perdendo nossa capacidade de decidir levando em consideração as informações que poderiam nos beneficiar mais. Estamos cedendo muito facilmente aos encantamentos do mundo de respostas instantâneas. Devemos consultar mais, ouvir mais e mesmo com toda a imperfeição que permeia nossos seres, podemos nos reinventar a cada dia, contando com a imprevisibilidade, juntando pedaços, buscando um novo formato para nossas vidas.

Podemos crescer misericordiosos, enfrentar os infortúnios, aprender a fazer escolhas corajosas, em vez de ficarmos navegando num mundo de felicidade imaginária ou de caos induzido. A ignorância cria a ilusão de facilidades ou a paranoia de enxergar demônios em toda parte.

A vida boa não é uma coisa nem outra. Não se trata de colecionar tampouco repartir infortúnios.

Planos, assim como mentes e circunstâncias mudam. Estou cada vez mais convencida de que devemos procurar, acima de tudo, a simplicidade e não pode haver muita distancia entre o que somos e o mundo em que vivemos. A mente deve ser capaz de dar saltos que não machuquem o coração. Muitas vezes é mais confortável crer no tangível, no que o olho captura.

Ir além disso, almejar o que não se pode ver, pode ser pista de leve delírio… mas que assim seja!

Eu não minto para você quando digo que bem-aventurados são os  sonhadores, os poetas e aqueles cujos corações podem dançar em meio as incertezas; aqueles que são capazes de iluminar a vida com seus sorrisos; os corajosos que cruzam as pontes, rompem fronteiras de um lado para outro, porque acreditam que somos apenas uma raça, e almas irmãs.

Bem-aventurados os que acreditam na realidade e no milagre que só amor promove.  Bem-aventurados os que ousam ser melhores filhos, melhores pais, melhores seres humanos. Esses podem negociar com Deus suas mortalidades.

Estes podem visitar mais lugares, esquecer de tirar fotos e, usar a mente para recordar o que tem vivido. Que a dor e seu significado nos aflijam cada vez menos e que saibamos fazer ajustes nas nossas vidas até chegar ao ponto onde todas as distâncias necessárias tenham sido percorridas e todo o aprendizado tenha sido colocado em prática.