Jornalistas na linha de frente

As mulheres tencionadas a participar da economia, do sustento da família, têm investido cada vez em suas profissões. 
 Ascendem profissionalmente e exigem respeito como profissionais e ainda aquela velha história do gênero.

Cheguei na Austrália há 10 dias e a mídia está absolutamente voltada para o repúdio aos ataques machistas, acontecidos recentemente no país, em cima das mulheres jornalistas.

O primeiro caso teve desdobramentos sérios e levou à renúncia do ministro das Cidades que, em viagem oficial a Hong Kong, na China, teceu galanteios e tentou beijar uma funcionária da Embaixada australiana.

Ela reportou o desconfortável assédio à ministra das Relações Exteriores, Julie Bishop, a qual a Embaixada está vinculada. A notícia ganhou notoriedade depois que uma jornalista australiana começou a investigar o caso.

Apurou os fatos e escreveu um editorial, condenando a atitude desrespeitosa do ministro. Enfurecido, ele queixou-se com o amigo, ministro de Imigração da Austrália, relatando o ocorrido, alegando estar sendo perseguido pela fúria da conceituada editora.

Para solidarizar-se com o amigo, o ministro de Imigração, escreveu-lhe que não se preocupasse e referiu-se a jornalista com palavras absolutamente rudes e vulgares. Ao enviar a mensagem atrapalhou-se e a enviou para a própria jornalista.

O incidente duplamente ofensivo, foi considerado um episódio imperdoável pelo primeiro ministro australiano e a pressão pela renúncia do ministro das Cidades foi impiedosa. Ele reconheceu publicamente o comportamento inadequado e deixou o governo.

O ministro de Imigração desculpou-se publicamente com a jornalista. Dias depois, um ídolo do críquete australiano, um dos mais bem pagos jogadores, o jamaicano Chris Gayle, ao ser entrevistado por uma bela jornalista, fez galanteios ao vivo, elogiando os olhos e quando perguntado o que esperava do jogo, prontamente respondeu que esperava vencer e mais tarde sair com ela para celebrar a vitória. Bastou!

A mídia imediatamente reagiu a deselegância do jogador. Gayle minimizou inicialmente o incidente, depois veio a público desculpar-se. Foi multado pelo seu time, o Melbourne Renegades, que em nota afirma que a política do time não aceita esse tipo de comportamento, de embaraço e assédio por parte de seus jogadores.

Gayle deve sofrer certo boicote da mídia esportiva, já que a atitude desagradou emissoras de TV, que manifestaram apoio e solidariedade à jornalista pelo constrangimento que fora exposta.

Tanto a diretoria do time, quanto o jogador demonstram preocupação em superar o incidente. Certamente não há espaço para cantadas cretinas num espaço onde deve-se apreciar o desempenho profissional em detrimento de atributo físico.

O terceiro episódio, num cenário similar e mais recente, envolve um apresentador de TV que, ao dar boas vindas a Miss Austrália, que iniciava trabalho no mesmo canal, como a moca do tempo, fez galanteios e rodeou-lhe o corpo num abraço desproporcionalmente demorado, ao vivo.

Foi empurrado gentilmente pela moça e esmagado sem piedade nas mídias sociais, pelo comportamento inadequado em um ambiente em que o relacionamento deveria ser meramente profissional e respeitoso. Teve que voltar ao vivo, sozinho, para um sonoro pedido de desculpas.

Dar publicidade a estes fatos é um mecanismo importante para conter a empolgação de ataques machistas, pois uma cena destas pode impactar tremendamente a reputação de quem se atreve.

Ladeira a baixo

Parece que é improvável abrir um caminho favorável ao Brasil no próximo ano. Entretanto, continuar indo para as ruas com cores de roupas combinadas pelas mídias sociais, tirando “selfies” e carregando cartazes em inglês realmente não altera o quadro desilusório que vivemos. Eu não vejo pessoas pressionando a classe política para promover as mudanças que almejam.

Mudar o estado das coisas é sempre possível, embora nem sempre num curto prazo se considerarmos que, com raras exceções, as pessoas se atiram na política não porque é um ideal ou um trabalho bom, eles vão para fazer conexões e alianças para depois, legislarem em causa própria. Isso é algo que certas pessoas vão continuar fazendo enquanto existir a humanidade. O interesse próprio é o que alimenta as pessoas, constrói estradas, hospitais, escolas, indústrias etc…Já viu estrada construída por igreja, ou por uma organização não governamental?

As ações políticas permeiam nossas vidas do amanhecer ao entardecer e queiramos ou não, somos protagonistas ou coadjuvantes desse sistema que aí está. Se você não vota, não pode reclamar, porque foi omisso. Se você vota, não pode reclamar porque você concordou em participar, optou por confiar na proposta de algum candidato. Fazer o que? Votar direito. Cobrar os direitos.

É contra a frouxidão no controle dos gastos públicos, contra o suborno que corre solto que devemos nos posicionar. É por conta dessas práticas de privilégios que a desigualdade social persiste e avança no Brasil e no mundo. Pensa bem: 1% da população mundial possui tanto dinheiro quanto os 99% restante da população do mundo. A estatística do Credit Suisse, apenas reforça o que é perceptível: os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, relativamente mais pobres. No Brasil a desproporcionalidade é gigante e a expectativa de mais um ano ruim, deixa para análise um cenário bem sombrio.

O governo anunciou cortes. Será garantida a execução apenas de obras já contratadas e em estágio avançado rumo a conclusão e os gastos importantes mas não obrigatórios foram remanejados ou serão cancelados. Mantidos os Programas  de inclusão social e transferência de renda, como Bolsa Família, que são importantes para fomentar o desenvolvimento humano. É improvável que estas medidas sejam suficientes para conter a crise econômica e política e  não é realista esperar que a classe política abra mão dos privilégios num ano que vão dedicar-se a salvar suas próprias peles.

Enfim, ladeira a baixo todo santo ajuda. Despencamos! Fico a cismar…negar Chico Buarque é um direito, mas um povo que exalta Wesley Safadão? Sinceramente? Nem todos os santos podem nos fazer subir a ladeira.

Pequenas intervenções

Nós estamos juntos nesse grande mistério que é viver. Nós caminhamos, corremos, dançamos e descobrimos que a vida é um presente maravilhoso para ser compartilhado entre os iguais e diferentes. Os desafios que enfrentamos são sérios e são muitos. Eles não serão vencidos com facilidade ou num curto período de tempo. O que desejamos nem sempre é possível, por isso temos que saber esperar, renunciar, sem alardear.  A cooperação deve substituir o conflito na construção de relações políticas saudáveis, de modo que as pessoas possam desfrutar do direito a ter direitos em todas as esferas da vida. Ainda estamos a aprender a ser um todo, a ser uma coisa só.

Se queremos crescer, temos de estar dispostos a aceitar uns aos outros em um nível mais profundo do que temos feito até agora. Temos de estar dispostos a unir as faces das diferenças de crença e de perspectiva. Ainda que dotada de certa inquietação e insubordinação numa sociedade marcada por porteiras e fronteiras, discorro sobre os poderes extraordinários dos seres humanos, que mantém-se no limiar do que pode ser explicado, dentro da moralidade ortodoxa que nos vigia.

Nós temos condição de converter nossas histórias, que tem poder de sedução para encantar os jovens. Acho que não deveríamos perder este momento. Não estamos aqui para sermos um fardo pesado ao planeta, ao próximo; estamos aqui para criar um mundo novo; uma sociedade nova que opera baseada no amor e na aceitação do outro e nesse sentido, mesmo as perspectivas mais estranhas podem ter algo genuíno para nos oferecer. Acredito nas pequenas intervenções, no poder das pequenas histórias.

Se estamos seguros de nossas crenças, a filosofia de outros não terá influência sobre o que pensamos, todavia, merece ser ouvida e entendida com respeito. Devemos nos deixar conduzir pela magia sob o pretexto de que é necessário aceitar o diferente, com a riqueza de pontos de vistas alheios. Na vida, as peças vão se encaixando, os pedaços se juntam para formar o todo para que todos possam se sentir confortáveis colocando sua peça no quebra-cabeça. Vamos aprendendo que as nossas diferenças exteriores não devem nos manter divididos.

Apesar de nossos vários pontos de vistas, temos que estar dispostos a escolher um novo modo de vida sobre o velho e fazer um esforço para preencher a lacuna que começa a se formar entre os vários campos da nossa individualidade. Um dos aspectos mais difíceis da vida é crescer intelectualmente, abrir-se, deixar-se impregnar pelo conhecimento, ver o mundo considerando sua multiplicidade espetacular, encantar-se com a simplicidade das pessoas e então, promover pequenas intervenções no mundo interior, para não ficarmos divididos entre o fascínio e a desilusão no ano que vem.

Guerra política

Numa estrutura absolutamente burocrática, ineficiente e atrasada, os homens prosperam em corrupção. Não um partido, não um homem, mas muitos homens que integram o emaranhado sistema partidário brasileiro.

Não existe política partidária coerente no país neste momento. O vice presidente Michel Temer tenta manter o controle de pelo menos metade da bancada do PMDB, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado estão na lista dos que estavam se beneficiando dos subornos do escândalo de corrupção da Petrobrás. O Partido dos Trabalhadores e a presidente Dilma, enfraquecidos não se entendem.

Menos de um ano do início do segundo mandato, a presidente Dilma vê o pedido de seu impeachment ser aceito pelo presidente da Câmara e ganhar contornos indecifráveis nos próximos episódios, já que uma pesquisa feita recentemente pelo MDA Pesquisa indica que 59,7% dos entrevistados querem a saída da presidente. É certo que a corrupção causa indignação e que ver políticos utilizarem bens públicos como se fossem patrimônios particulares causa não apenas indignação, mas náusea.

Todo esse compadrio existente entre parlamentares é sinal de negociata, de toma lá, vota cá. E isso tem que acabar.

Cunha, dissimulado, disse em entrevista que ele não estava feliz com a aprovação do processo de impedimento contra a presidente, mas que não poderia perder a oportunidade de colocar em pauta esta questão tão discutida em todo país, nos últimos meses. Assim o fez o presidente da Câmara, um político que ganhou notoriedade após assinar a autoria do ultrajante projeto  que institui o “dia do orgulho hétero” e pela movimentação de robustos valores nos bancos suíços, provenientes de intragáveis subornos em conexão com a corrupção da Petrobrás.

Tem muitos pupilos espalhados na bancada denominada BBB: Bancada do Boi, Bíblia e Bala. 342 destes ilustres senhores são esperados a votar favoravelmente ao impeachment da presidente, após serem instruídos por membros da Comissão Especial do Impeachment, composta, entre outros por Eduardo Bolsonaro e pelo pastor Marco Feliciano.

( A comissão foi suspensa  pelo Supremo Tribunal Federal até dia 16 de dezembro, porque a escolha de seus membros deu-se em votação secreta, o que não está prevista nem no regimento interno da Câmara, nem na Constituição Federal).

Percebem que até para votar um pedido de impeachment contra a presidente, acusada de atos de corrupção, o fazem burlando a lei? Os líderes de 10 partidos pró-impeachment estão em campo, coletando assinaturas e cooptando adesão de outras siglas. Em entrevistas afirmam que contam com apoio de 280 parlamentares até o momento.

Bizarro mesmo é o PMDB, cujo vice-líder Deputado Darcísio Perondi, afirma que dos 66 membros da bancada, metade é a favor da aprovação do impedimento, que beneficia diretamente seu presidente, Michel Temer, vice-presidente da República do Brasil, outra metade, contra.

Se aprovado na Câmara, a votação segue para o Senado e a presidente ficará afastada do cargo até o fim do processo, ou até por 6 meses

Inclinação de ser correto

A moralidade não deveria ser uma questão de obediência às regras. O homem que não rouba porque tem as mãos atadas atrás das costas por medo de cair em tentação e ser pego, não é um homem moral. É claro que a escolha moral não ocorre em um vácuo, do nada, ela ocorre em um contexto específico, onde as ações saudáveis ​​vem acompanhadas de motivações igualmente saudáveis.

Muitos filósofos procuram explicar por que não podemos evitar ser moral. A moralidade, além de ser um conjunto de compromissos ou escolhas, é de fato, a expressão da nossa relação fundamental e inescapável com o mundo, onde nós existimos como seres que se criam juntos e o fato de nos comunicarmos um com o outro, compartilharmos o mesmo mundo, nos coloca face-a-face em pelo menos, aparente contexto.

É o olhar para o rosto do outro que nos recorda de nossas obrigações morais. O rosto do outro é que nos interpela e desperta para a vergonha, para a culpa. Esse conceito lindo do acesso ao rosto é do filósofo francês Lévinas.

Nos tempos pós-modernos, os impulsos morais precisam ser domesticados, embora a maioria dos homens saiba lidar responsavelmente com as consequências produzidas por suas ações. Agir moralmente não significa agir contra a inclinação natural; é o agir inclinado pelo cultivo das virtudes acumuladas.

Isso representa uma aceitação do que mundo moderno tem procurado escapar: da responsabilidade. A responsabilidade moral é o oposto da obrigação de ser moral, o que baseia-se no medo da punição ou em interesses particulares. A responsabilidade vai além do que um homem pode ou não fazer pelo outro. É uma relação de cuidado para com a necessidade do outro.

A moralidade deveria existir misteriosa, inexplicável e incapaz de ser reduzida a um mero seguimento de regras que indicam o que e quando fazer as coisas, onde começam e terminam os deveres, o que naturalmente produz uma limitação na responsabilidade espontânea. Essa concepção frágil de moralidade conduzida e vigiada presta-se para o estado assumir de vez o papel de educador moral, executor e agente fiscalizador para que as regras não sejam quebradas.

O Estado torna-se o defensor da moral e da razão, o que facilita justificar suas ambições infinitas. Porém, nos estudos sobre a moral contemporânea, grande parte das teses promovem o desmascaramento dessa utilização do poder do Estado como sendo necessário.

Mas, por fim, não há uma sociedade perfeita, os indivíduos não são perfeitos, a moralidade é muitas vezes, contraditória e a incerteza sempre nos acompanhará. Mas vale agir correto, mesmo que seja para acalmar a ansiedade moral e existencial e para obter respostas às indagações diante de quadros incompreensíveis do comportamento humano.

A moralidade da qual falamos é o que todo ser racional deveria escolher. Porém, como muitas outras virtudes, quanto mais dela se necessita mais dificilmente está disponível.

A vida é o que sempre foi

Entre roubos, arroubos, frouxidão, delação, prisão, estamos encerrando mais um ano, numa conjuntura inquietadora, cheia de angústia, num estado de expectativa e de demora para o desfecho do momento político impregnado por fatos e atos estéreis.

O que há? Há um torneio de palavras disputado por juristas eruditos, que num choque de palavras, como uma brincadeira que causa um misto de terror e contentamento, propõe o impedimento da presidente, para ser julgado por uma corte rasa que, com pouquíssima exceção, concentra sua energia em negociar vantagens e escapar de suas próprias armadilhas.

Mas a intervenção no poder político é salutar quando o povo assim o quer. É com esse olhar turvo de incerteza que terminamos o ano. É provável que essa perspectiva de sombras afete nossos relacionamentos, a paz interior. Mas nós, pessoas sem glória, temos a chance de gesticular e extravasar a indignação, a aflição e apesar da modéstia, com argumentos obstinados, podemos declarar que vida não é apenas aquilo que se extrai no choque do poder e que o poder pode ter efeitos múltiplos que não seja escândalos nem a aniquilação da esperança.

Mas veja o empobrecimento e a desordem do ensino! Não são mais capazes de conter a sã rebeldia dos nossos adolescentes, que tiveram que furar bloqueios policiais, alcançar a rua e pedir apoio para que não fechassem escolas. Em parte, ao menos o cotidiano não apresenta grandes mudanças. As relações revestidas de imagens prematuras vão se estabelecendo pelo poder, se desfazem e se reconstituem em outra dimensão não muito diferente desta.

O poder vai ser sempre alimentado pela ira e pelas vilanias. Porém é sabido que toda generalização é perigosa. Não se deve colocar todos no mesmo saco.. Há tanta injustiça quanto compaixão, tanto drama quanto frustração, tanto amor quanto dor. Mas é tão difícil perceber as exceções!

Sobre tudo isso se ouve discursos inflamados, disputas públicas e muitas conversas secretas. Resolver? O que? Se cessa esse murmúrio do impeachment, logo começa um outro. Mas, dia virá em o poder será exercido no nível da vida cotidiana, onde o que vale pode ser visto e dito em meio a pequenos gestos, humildade, gentileza e honestidade, virtudes que enriquecem a vida e melhoram os homens.

Entretanto, enquanto não atingimos esse nível de civilização, a ceia do homem comum é um diálogo com o que ele passa durante o ano todo: bebedeira, violência, desentendimento dos casais, arrependimento, promessa e espera.

Esta retórica queixosa é meio típica de final de ano, assim como a contraditória esperança de que viveremos dias melhores no próximo ano.

Entre a lama e o sangue

Robert Kennedy, poucas semanas antes de morrer, fez uma declaração acalorada, criticando os institutos que mediam os índices econômicos do país. Disse ele que “os especialista consideram para seus cálculos, os custos da produção, do sistema carcerário, investimentos em saúde, contenção da destruição das florestas, a urbanização descontrolada, produção de armas nucleares, armamentos, mas não observa a qualidade da educação que estamos dando aos nossos filhos, a glorificação da violência e desordem; não medem a beleza da poesia, o amor nos relacionamentos, não avaliam a integridade das declarações políticas, a honestidade dos nossos representantes. Não consideram a coragem, a sabedoria, tampouco a cultura e a compaixão. Em resumo os especialistas medem tudo, menos o que faz a vida valer a pena”.

Robert Kennedy morreu em junho do ano de 1968. Filósofos e cientistas sociais têm sido atormentados por dúvidas sobre qual direção estamos tomando e quais são os valores que tem nos mantido juntos até agora, numa sociedade governada por políticos profissionais; onde as pessoas são motivadas a produzir e consumir cada vez mais e as atividades, inclusive lúdicas, são subordinadas a fins econômicos; a cultura perde-se na vida difusa, sem concentração.

Fazemos um monte de coisas ao mesmo tempo, displicentes e apressados para ficarmos ricos e mais felizes.

As pessoas capazes de amar dentro do atual sistema, são inegavelmente as exceções. O amor brota como um fenômeno marginal e não é tolerado em muitas ocupações, porque o espírito amoroso refuta as contradições de uma sociedade gananciosa.

Se como creio, o amor é a única resposta sã para as aflições da existência humana, não devemos nos colocar frios e nacionalistas diante das tragédias.

Se, de um lado, duas barragens se rompem devido aos avisos negligenciados por corporações gananciosas, do outro, tiros e explosões de homens bombas, deixam corpos dilacerados, amontoados, como um lembrete de atritos étnicos.

Se estamos abertos para o amor, não podemos, ao mesmo tempo selecionar a dor pela qual choraremos. Os irmãos estão espalhados além das fronteiras, além da língua e dos costumes. Chora-se por tiros, explosões e pela lama que escorre. Chora-se a morte do homem e da natureza e não, a nacionalidade da tragédia.

Entre a lama e o sangue não é possível fazer escolha ou ficar indiferente. Não há ser humano desimportante e mesmo que o mundo seja injusto, podemos ser virtuosos e inventar uma forma de medir os índices da nossa solidariedade, da compaixão e do respeito pela vida do outro. A raça humana teve a sabedoria de criar a ciência e a arte; por que não deve ser capaz de criar um mundo de justiça, de fraternidade e de paz?

Eu não sou um homem, sou um irmão

E por que devo me interessar pela fraqueza dos outros? Sejamos verdadeiramente pelo outro; façamos do fraco, forte, façamos o silencio falar, deixemos a necessidade do outro nos comandar, tomemos responsabilidade pela vida do outro nos momentos mais sombrios, nas lutas mais difíceis.

Diante da profunda desconfiança causada pelo individualismo contemporâneo, você pode despertar ou pode não despertar e continuar aparteado dessa proposta de responsabilidade pelo outro, porém, além do alarme de que estamos vivendo a era do vazio, onde o indivíduo maneja sua existência como bem quer, posso demonstrar que minha emancipação não está comprometida com a submissão e emergir para a sensatez, readmitindo o outro como o próximo.

Nem sempre rende votos a construção de hospitais e escolas, o acolhimento aos imigrantes, a defesa de políticas de proteção à criança e ao adolescente e às mulheres vítimas de violência. A visão conservadora persiste neste mundo, que é um lugar imperfeito, que finge que não sabe que não é a pobreza a causa das catástrofes estruturais, são os governos que não erradicam a pobreza, por que esta, alinha-se às promessas no discurso político, é a massa que rende boa manobra e então, por ato deliberado, os governos não avançam realmente em direção ao problema.

É apenas um exemplo. Dias atrás os jornais estamparam a notícia de que as Santas Casas de Misericórdia de várias cidades poderiam fechar devido ao problema crônico da falta de apoio. Se os governos não se dispõem a cobrir-lhes os custos, devemos ser tocados e movidos para alterar esta realidade. Devemos doar tempo e energia e quem pode, doar algo mais, para que o atendimento não seja paralisado. Não é justo milhares de olhos nos encarando, crianças nos braços de suas mães implorando pela vida e virarmos às costas. As Santas Casas servem a quem? Basicamente aos mais pobres!,

Estamos cientes que problemas estruturais não se resolvem com doações esporádicas ou esmolas, tampouco com ideias simplistas; é preciso que estejamos conectados por um fio inegável de amor e não importa se estamos lutando apenas por uma possibilidade ou, por esperança.

Há luz! Há bons homens!  E vale a pena ser bom com os outros, sem  obrigação, sem a expectativa de reciprocidade, mas porque a minha ética me guia para ações que possuem sentido e significado, porque a minha liberdade consegue construir em cima da desconfiança do outro.

A ética pós-moderna pode ser a ética do amor. E o amor, sempre encontra um meio de reafirmar-se vivo.

Corredor de espelhos

Algumas pessoas pensam que todos os comentários que ouvem são ecos de suas próprias vozes, parecem andar sozinhos num corredor de espelhos. Nada reflete senão a própria imagem e vai além da compreensão a vaidade que nutrem por si mesmos e por seus feitos, quando em verdade executam suas obrigações, tarefas pelas quais são bem pagos.

Alguns entes públicos propagandeiam seus nomes como se fossem marcas e quanto mais os popularizam, mais aparecem.

A vaidade em si, transmuta num ato de corrupção, sendo um elemento falseador, pois que a vaidade não se contenta com o que as coisas são, mas com o que aparentam ser, contanto que pareçam grandes e renda lisonjeio que prometa a admiração do mundo.

Servidores públicos vaidosos gostam de aparecer, de ser o centro das atenções, sustentando ares de superioridade quando se dirigem aos outros. E na escalada sobem estes, nervosos e ambiciosos, ávidos de consideração, que querem a todo custo serem cortejados e quase sempre são.

Sabe quando o ego parece não caber no corredor? É este o espaço onde os vaidosos colocam-se à prova, onde cumprimentos e acenos lhes são dirigidos e onde experimentam a sensação de fascínio pela fama alcançada, à custa da exposição desmedida de alguns profissionais, cujas profissões, não por códigos, mas por bom senso, deveriam ser exercidas em discrição.  Porque a mesma vaidade que inspira a retidão, muitas vezes a embaraça.

Como toda época tem suas faces, vejo homens e mulheres lutando com mesquinhez pelos ganhos ou pelo gozo da vaidade e a refrega parece ser dura na arena dos privilegiados; ali dominam as más paixões; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de generoso, de grande e de justo.

O mundo anda tão controvertido que os valores são medidos pelos extremos e não pelos méritos em si; uma ação é considerada boa apenas porque não é repreensível; é competente porque exalta as próprias qualidades.

Nos cargos públicos, de todas as esferas, não deveria haver holofotes e sim pessoas comprometidas, que postergam seus projetos mais particulares para se dedicarem aos interesses públicos. Pessoas que substituem a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder para ver florescer mudanças estruturais. A estes, que neste parágrafo se encaixam, parabéns pelo Dia do Servidor!

Mas são poucos! Os homens querem ser admirados!  E Matias Aires, em 1752 já afirmava a universalidade da vaidade, como a única virtude constante, que se insinua inesperadamente em todo mundo, em todos os tempos, em todas as profissões e em todos os Estados.