Buracos Negros

Apesar de ser da natureza humana ampliar os seus horizontes e desvendar os territórios inexplorados, ainda existem lugares misteriosos na terra, onde escondem-se seres humanos numa ação deliberada de violência ou acidente. Acreditávamos que a tecnologia moderna tornaria o mundo um espaço menor e mais controlado, já que podemos olhar praticamente para qualquer destino pela internet, conferir fotos, vídeos, e até mesmo conversar com as pessoas nesses lugares distantes em segundos. No entanto, mesmo com toda tecnologia disponível nos dias de hoje, ainda existem algumas fronteiras inexploradas na terra, onde ocorrem fatos impressionantes e desafiam a inteligência das autoridades políticas e científicas.

Voltando à Idade das Trevas, quando as pessoas desapareciam o tempo todo com as Cruzadas e doenças, no mundo moderno tais desaparecimentos são quase impossíveis. Quando as pessoas desaparecem geralmente foram mortas ou sequestradas, mas o ponto é que normalmente tem-se algum tipo de pista. Há empresas especializadas em rastreamento e monitoramento dos cidadãos e embora achem extremamente difícil uma pessoa apagar literalmente seus rastros sobre a terra, há pessoas que evaporaram sem deixar pistas e isso deve ser devastador para as famílias. Como entender que uma pessoa que você ama desapareceu sem deixar vestígios?

As pessoas somem hoje vitimadas pelo tráfico humano, que é uma prática moderna de escravidão e alimenta uma crescente indústria criminosa com bases no mundo inteiro. Atua no recrutamento, acolhimento e transporte de pessoas para fins de exploração. As vítimas de tráfico humano são pessoas forçadas a práticas sexuais ilegais ou trabalho escravo em fábricas, fazendas e grandes corporações. O tráfico sexual – pornografia, prostituição e abuso sexual de crianças -, é um dos setores mais lucrativos do comércio ilegal de pessoas. Na Nigéria mais de 300 meninas foram sequestradas por um grupo extremista, algumas conseguiram escapar, mas 276 continuam ainda desaparecidas e devem ter sido vendidas como escravas sexuais em países vizinhos, onde os controles do fluxo migratório nas faixas de fronteiras são frouxos exatamente para contribuir com as práticas criminosas.

Como explicar a invisibilidade de vários caminhões carregados de garotas? Pois bem, ainda nessa época da internet, da NSA, da comunicação instantânea, é possível, embora raro, que um avião com 239 passageiros desapareça, exatamente porque nenhum equipamento projetado para transmitir a posição da aeronave funcionou e sobre seu destino até agora, nada de concreto se sabe. Percebemos agora que um Boeing 777 é algo muito grande para sumir deliberadamente, mas aprendemos que o oceano é imensamente muito mais vasto do que imaginávamos.

Vê-se portanto, que na terra, céu e mar há mistérios que nossa eficiência não consegue rastrear.

Não!

“Não vou impedir a candidatura de ninguém em lugar nenhum, não vou travar o direito de nenhum postulante ser candidato sob pretexto de manter a união em torno do meu nome. Não sou candidato a Governador”, anunciou o senador Blairo Maggi em entrevista à imprensa, semana passada.

Há uma cultura em torno da qual nos sentimos pressionados a dizer sim aos apelos de amigos e dos grupos aos quais pertencemos. Mas real, é dizer sim quando há inspiração, vontade, desafios a serem vencidos; quando todo o roteiro causa certo encantamento e provocação. É isso que move os homens. É preciso estar confiante e seguro para colocar-se numa posição de negação a disputa de um pleito, visto que para muitos, isso seria a realização de um sonho alimentado há anos.

Mas devemos entender que somos todos seres humanos com funções iguais, mas com aspirações absolutamente distintas e que a exposição que o exercício do poder causa ao cidadão e família, a invasão à vida privada deve ser algo que contribui enormemente para desaquecer a tesão. Esse mapa de contrariedades, a falta de estímulo para brigar por uma posição já conhecida é compreensível. Ademais, Blairo Maggi é um senador que está na metade de um mandato eletivo. Não estará, portanto, distanciado do núcleo do poder político do Estado.

Deveríamos todos aprender a dizer “não” aos postos que não estejam alinhados com nossos ideais no momento, aos projetos que são muito mais de outros do que nossos, a uma consumação de tempo e imagem para debater algo que repetidamente temos negado. Por isso somos livres! Para exercer o direito de negar aos outros o que nos pedem. Muitos políticos parecem entrar na política para serem aplaudidos, para serem unanimidades. Mas é importante contradizer-se e ao grupo também, é importante reconhecer quando o momento não é propício, quando a vontade não é suficiente para abraçar o pleito. Jamais vai existir uma decisão política que agrade a todos. È importante fazer o que não é convencional em política: dizer não. Creio que os eleitores gostam de políticos que vão direto ao ponto.

Repetidamente dizemos sim quando nosso intimo diz “não”.  Vaidosos, temos o desejo de sermos aclamados, de sermos acolhidos e temendo rejeição e incompreensão, acabamos cedendo e nos sobrecarregando com compromissos que não validam nossa competência. Se ao contrário disso,  chamamos a decisão para nós mesmos, estamos imediatamente criando um ambiente mais harmonioso, que pode beneficiar a todos que nos rodeiam. Talvez valha aqui a máxima de que nunca devemos comprometer nossa paz, seja para nossos filhos, cônjuges ou amigos. É imprescindível estarmos motivados por impulsos vibrantes, para que nossa energia seja utilizada de forma contributiva. Outro, porém, é que quando dizemos “não”, a negação é feita num determinado momento e não há mal nenhum em mudar de opinião, contanto que seja para melhor.

Os quatro Bardos

Bardo é uma palavra tibetana que significa transição.

Nada é permanente e todos passamos por períodos de transição, períodos de grandes incertezas. A vida é um intervalo entre nascimento e morte. A experiência do bardo acontece ai, o tempo todo que vivemos. Nossa existência é dividida em quatro realidades, quatro bardos:  O bardo desta vida, todo período do nascimento até a morte; o bardo doloroso da morte, o bardo luminoso do pós morte e o bardo cármico, do renascimento, ou do que viremos a ser.

Nesse mundo turbulento que estamos inseridos, vivemos o bardo da nossa existência fragmentada e ameaçada. Muitos de nós não entendemos à impermanência que permeia todos os lados da vida. A transitoriedade da vida nos mostra que toda segurança material que lutamos tanto para adquirir pode desaparecer num piscar de olhos. Embora a mudança constante possa nos fazer infelizes, a roda da existência gira implacável, mesmo em meio a raios de agonia. Nossas emoções fluem como água e levam para o buraco as experiências que acumulamos, as respostas óbvias que tínhamos para tudo. A história tem provado uma e outra vez e vai continuar provando que nada neste mundo é duradouro. Todas as coisas com as quais nos agarramos se transformam, resplandecem ou acabam.

Tantas lições para aprender! Eventualmente nos agarramos ao que nos parece permanente, confiável e imutável.  No mundo físico, pensamos em rochas e montanhas como coisas imutáveis. No entanto, a ação do tempo provoca grandes mudanças nas formações rochosas. 

O que é que faz com que a transitoriedade difunda tanto terror em nossas vidas? Talvez porque seja inegociável.

Nenhuma opção senão aceitar humildemente que nada podemos fazer para mudar o que é inegociável. Mesmo tomados por sensação estranha de súbita imobilidade, devemos seguir o fluxo da vida, nos adaptarmos as mudanças e entender que nada do que temos tem garantia de permanência. Mudanças acontecem a toda hora e com todos. Precisamos sentir, ajustar e, em seguida, aproveitar ao máximo o que a vida nos dá. Temos que aprender absorver os sentimentos de perda e tristeza, e seguir em frente com o que temos.

Emocionalmente, todos nós ansiamos pela estabilidade permanente, sonhamos com segurança financeira, família feliz, boa saúde e juventude. No entanto, enquanto nossa visão míope persistir, temos a tendência de viver relações inflexíveis no mundo flexível que nos rodeia.  Eu diria que o medo do impermanente não é de todo um problema dos jovens, porque esta geração já é definida por aquilo que é passageiro, o que é novo envelhece em um ritmo cada vez mais acelerado. A incapacidade de se comprometer, a opcionalidade, são características desta época em que tudo é vivido em alta velocidade.

Muitas pessoas assimilam bem a natureza mutável da vida, tanto que nota-se em muitos, um certo agir que parece desapaixonado.  Acredito que seja possível descobrir uma forma de felicidade também passageira, transitória, que proporcione um centro de segurança neste círculo da impermanência. Sim, pode ser possível dar uma base sólida a esse mundo incerto.   E desde que a transitoriedade é a única característica permanente das nossas vidas no planeta, devemos viver relacionados com o que é transitório porque vida e morte estão na palma da mão.

Existe beleza na tristeza

Rompimentos são desagradáveis, perdas são acontecimentos devastadores. Sentimos falta do abraço, da palavra, mas mesmo tristes, temos que ter coragem para continuar porque é assim que a vida acontece, entre momentos felizes e tristes.  Deve existir dentro de nós uma brigada de resgate para nos fazer crer que existe um mundo além da nossa dor, do desespero que nos paralisa, da falta que o outro nos faz.

Ficar se consumindo em auto piedade, em apelos dramáticos não é uma atitude emocionalmente saudável. A vida tem seus ciclos e eles se cumprem inexoravelmente! O amor, de modo geral, é incondicionalmente efêmero e muitos relacionamentos são também a base de sentimentos egoístas e passageiros. A amargura pode transformar-se em momentos doces, reflexivos, saudosos, se flexibilizarmos nosso entendimento que a saudade não é um sentimento ruim, que a tristeza não é necessariamente um estado depressivo, mas uma temporária fase de melancolia, que eu definiria como um sentimento um pouco vago, uma coisa que deixa a alma intangível, mas algo que seduz, no meio do ardor, desejo de viver e amargura do mistério e arrependimento.

E se pensarmos no todo? Só sentimos tristeza e saudade por algo que foi bom, que amamos verdadeiramente e sentimos falta. Sejamos gratos pela experiência vivida e vivamos a nova fase que acena, trabalhando muito, lendo, escrevendo, pintando, chorando, cozinhando, assistindo um filme, experimentando algo novo, praticando o que dá prazer. Esse frenesi de atividades distrai a tristeza, mesmo que não estejamos ainda curados. Vários estudos demonstraram os efeitos excelentes de exercício físico nos momentos de tristeza; sair e movimentar-se, apesar do tempo sombrio e triste no coração.

As situações de rompimento e perda servem ainda para reafirmar quem são os verdadeiros amigos, que é saudável recorrer a companhia deles, fazer-lhes confidências, pedir apoio. Muitas vezes negligenciamos os bons amigos por causa de relacionamentos que nos ocupam demais a mente e o coração. A tristeza não é uma enfermidade. É um estado de espírito, que só não pode ser usado como desculpa para estagnar, para maltratar as pessoas, para reclamar. É o momento propício para aprender. Chorar faz bem, porém, temos que parar mais cedo ou mais tarde, e em seguida, decidir o que fazer. A tristeza é boa na medida em que ajuda a refletir e nos empresta um olhar para dentro, uma luz nítida que diferencia o bem e o mal, um olhar sóbrio, que trás respostas que nem sempre gostamos. Mas, como poderemos crescer e mudar se nos olhamos e nem sempre nos enxergamos?

E, se no  entanto, entre os fatos de uma vida feliz, acontecer momentos melancólicos, não são nada senão uma pausa para refletir e pensar mais e mais profundamente sobre a qualidade dos relacionamentos que estamos vivendo, sobre os altos e baixos da vida e sobre as lições que podemos aprender, de nenhuma outra forma, senão com certa dor. Já que não podemos suprimir esses estados emocionais sofridos, façamos bom uso deles!

A Lei do Talião

  1. Versículo 23. mas se resultar dano, então darás vida por vida;
  2. Versículo 24. olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé;
  3. Versículo 25. queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.

No México, na Argentina, no Brasil e provavelmente em muitos outros países está havendo uma onda de reações violentas para responder aos atos de violência praticados por marginais. Nesses casos, as pessoas estão tomadas por sentimentos de vingança e não por sede de justiça.

E ora, se não somos marginais, se repudiamos o disseminação da violência, não devemos agir como tais. Não mais vivemos em estado de natureza, sem regras, sem leis e por mais que se esteja desiludido com o sistema, com a frouxidão das punições, do cumprimento das sentenças, quando “fazemos justiça” com nossas próprias mãos, estas se igualam à mãos dos criminosos, nos colocamos acima da lei e tornamos carrascos. Sem leis, já não seremos uma sociedade civil e vamos degenerar nossa condição humana para uma situação degradante e sem controle.

Ademais, não podemos retroceder ao Código de Hamurábi, uma compilação de leis punitivas antigas e rígidas com 282 cláusulas, decretado pelo rei da Babilônia, Hamurábi, por volta do ano 1772 a.C., para regular as obrigações e deveres nos relacionamentos familiares, religiosos e comerciais e nos desvios de conduta de qualquer natureza. Composto pelo Manual dos Inquisidores, a Lei das XII Tábuas e pela Lei do Talião, o código impõe uma pena para cada tipo de delito, sobretudo observando a Lei do Talião, palavra que vem do latim e significa “tal”, “igual”, o que reforça a tese de se restituir na mesma medida o ato de violência sofrido, ou seja, estabelece o princípio da igualdade entre o crime e a punição.

Contextualizado, é óbvio que o Código de Hamurábi e seus compêndios foram decretados pela conveniência dos homens em converter em leis, suas necessidades sociais para regular a vida humana na sociedade da época.

Eu porém, continuo a defender, a desbarbarização dos seres humanos, embora reconheça que temos vivido tempos de violência levada às extremas consequências e não saiba com que arma poderosa venceremos a violência que planta horrores em nossos cotidianos. Mas não existe violência justa, não existe violência necessária.  Nesse sentido, repito, além da Bíblia, escrito de Norberto Bobbio, para quem o princípio ético de não matar é absoluto, imperativo e categórico.

O original do Código de Hamurabi, possivelmente o primeiro escrito jurídico do Ocidente, com estabelecimentos de normas penais consideradas muito bem elaboradas para o seu tempo, pode ser visto no bloco original de pedra em que foi escrito no museu do Louvre, em Paris.

Quando ações e palavras não se alinham

Mahatma Gandhi escreveu que a verdadeira moralidade não consiste em seguir uma trilha batida, mas em encontrar o verdadeiro caminho para nós mesmos e sem medo segui-lo. Para encontrar novos caminhos devemos ir além do mero cumprimento das caminhadas diárias. Afinal de contas ter boas intenções e não colocá-las em prática é apenas desperdício de energia. Muitas vezes eu vi pessoas desviarem-se das críticas sobre sua conduta, fazendo falsa alegações sobre suas intenções.  Chega uma hora em que causa aborrecimento ouvir: “Eu não quis fazer o mal”. “Nunca foi minha intenção”. “Eu não sou racista”. “Eu não sou homofóbico.”

Praticamos o que somos na essência. Traídos às vezes pela linguagem corporal, nossas palavras revelam o que pensamos. Devemos então, convergir conversa e coração para o mesmo rumo. É importante ter senso de compromisso, pensar no que se fala, no que se faz. As palavras não podem ir por um lado e as atitudes por outro. Vez ou outra é bom refletir, avaliar o impacto que nossas palavras e ações causam na vida das pessoas com quem convivemos. Quando digo algo que fere alguém, não importa muito se eu pretendia dizer outra coisa, se me expressei mal. Já causei dor. Lidar com a forma como compreendemos os que nos rodeiam, com suas experiências, seus privilégios, tempo de decisão é uma lição profunda de justiça e respeito.

As nossas palavras devem ser da ordem das coisas sérias, embora quando, sem profundidade, pareçam coisas da ordem da inconsequência. Dizem que uma imagem vale por mil palavras, mas sem receio de entrar em polêmica, diria que quase tudo o que vemos precisa de palavras para ser verdadeiramente compreendido. Nossas intenções não, elas precisam ser materializadas. As palavras constroem diálogos importantes, suscitam debates, curam, são gritos ou instrumentos efetivos para construir e reconstruir vidas e projetos, porém palavras e ações devem cumprir o mesmo fim, sem linhas artificiais a separá-las.

Penso o mesmo em relação à política. As palavras não estão aí para promover ideações sem a menor possibilidade de concretizarem-se. O ideal político seria que os homens fossem altamente comprometidos com as ideias que defendem, que mantivessem a preocupação de vigiar suas ações, cumprir as promessas e unificar os ciclos de intenções e ações e aos eleitores; que fossem vigilantes e cobrassem sempre que percebessem distanciamento entre uma coisa e outra.

Não disse que o homem mente quando afasta-se do que prega. Bem mais condizente seria dizer que é uma inclinação natural do ser humano acreditar na sua própria retórica.

Mundo fugaz

Não podemos depender de abrigo e refúgio neste mundo onde tudo é movimento, inconstante e fugaz.  O caminho até pode ser o mesmo, mas a hora é outra, o sentido inverso, o sol e a chuva incidem sobre o caminho, mudam os obstáculos de forma, de lugar. A minha ignorância ainda representa tudo o que me aprisiona, contudo, trago comigo a esperança, nunca a certeza de renascer em bondade, coragem e compaixão.

Talvez aprendiz ainda apressado, que não aprendeu a não inquietar-se. Se nuvens cobrem meu céu ainda temo a escuridão. Mas não devo. O ensinamento diz que há uma luz que nunca se ausenta, que sempre brilha e que me guia. Se a luz parece fraca é minha fé que está fraca.

É da natureza do homem buscar poder e privilégio

Debruçada em estudos, debates, seminários sobre as implicações que o distanciamento entre os homens pode causar na construção de uma sociedade mais justa, li em Hobbes que jamais nos encontraremos numa situação de igualdade, porque é assim o homem, um caçador natural de poder.

A igualdade pode ser fundamental, mas a desigualdade é promovida pelo próprio homem, que avidamente busca por bens e formas de recompensa, nem somente financeira, mas também em termos de poder, para distanciar-se dos outros e assim, do alto do poder conquistado, dominar os que estão nas camadas abaixo. Enfim, as desigualdades sociais entre um indivíduo e outro dentro das sociedades estão em toda parte e é promovida por causas variadas, como fator econômico, poder, status, e está também associada a questão da cor e do gênero.

Em vários autores, entre eles, Platão e Santo Agostinho, a desigualdade social é confirmada como um elemento da natureza e não produz necessariamente resultados maléficos. Dentro desse contexto, nos lembramos que a sociedade idealizada por Platão, já seria desde o princípio, estruturada em classes distintas; os guardiões, os auxiliares e os trabalhadores. Maquiavel, ao ensinar a governar as massas, evidencia a desigualdade entre uma força e outra. A força que governa teme a massa, exatamente pelo distanciamento em que se encontram e pelos interesses antagônicos que defendem.

O Estado bem poderia ser o agente que viabilizaria a existência da sociedade em suas diferenças, ser o equilíbrio entre as classes. Mas o Estado legisla para proteger a propriedade e a elite que a possui. Os indivíduos que ocupam posições diferentes, tem naturalmente interesses distintos. Por conseguinte, haverá sempre uma classe dominada e outra dominante, que por ter poder, controla ou influencia as ações do Estado.

Em meio a criticas e alguns conceitos vagos, o juízo de valor que as pessoas fazem umas das outras dependem do poder que exercem, da riqueza que possuem e do prestígio que desfrutam e são elementos fundamentais para constituir a desigualdade social. Aquela velha história de ser reconhecido pela roupa que veste, pelo bairro que mora, pelos lugares que frequenta. Outros fatores são acusados de promover desigualdade social, como por exemplo, a desigualdade de gênero, que tem raízes históricas. Os homens são evidentemente mais ricos, gozam de melhor status e são inegavelmente, nem por isso justo, mais influentes do que as mulheres.

No Brasil, mesmo considerando todo investimento nos programas de elevação da renda, há um vasto mundo de desigualdades separando os indivíduos, ora por região, pela cor, pelo gênero, pelo distanciamento cultural, pelo status e pelo poder político. A desigualdade social, que pode ter sido escancarada pelo processo de globalização, sempre foi um incômodo para o país, que tristemente vivencia todas as formas de desigualdade citadas pelos autores estudados. Alguns autores minimizam seus efeitos negativos, outros as reconhecem como resultados naturais das lutas empreendidas por indivíduos naturalmente desiguais.

Retrocesso na delicadeza

Há prazeres da vida que não dependem da condição financeira.
O homem apressado não sente a beleza da poesia, a fluidez dos relacionamentos, não se preocupa em avaliar a qualidade dos debates públicos e a integridade dos homens de bem.  Nada diz sobre a compaixão e dedicação. O homem está atento a tudo, menos ao que faz a vida valer a pena.

Alguns pequenos prazeres da vida não dependem da condição financeira. Não se encontram à venda o amor e a amizade, as dores e os prazeres da vida em família, a satisfação poder cuidar de alguém, a auto estima proveniente do reconhecimento pelo trabalho bem feito, a simpatia, a proteção carinhosa e o respeito dos amigos.
A vida nas cidades, dados os problemas mais profundos da vida moderna, ainda possibilita a retomada do indivíduo e sua interioridade à sociedade, que de acordo com o sociólogo Georg Simmel, não é algo feito, acabado ou estático.

Mas ao contrário, a sociedade hoje é um fluxo incessante de fazer-se, desfazer-se e refazer-se. Os laços que mantêm os indivíduos unidos são desfeitos e refeitos com uma contínua fluidez. É na cidade grande que os estranhos se confrontam, que as luzes que acendem, que o show começa e ninguém mais presta atenção em nada. Simmel foi um sociólogo atento aos movimentos do cotidiano, principalmente das grandes cidades.
Diz que precisamos harmonizar com o que quer que esteja nos consumindo e nos remetendo a esse estado quase blasé, essa forma de existência indiferente e superficial, vivendo encontros raros e breves.

Aos que buscam o prazer e não são afeitos a cuidar, uma empresa inglesa, preocupada com o aumento do número de cachorros abandonados pelos donos, que logo cansavam-se de executar as tarefas diárias no tratamento dos animais, abriu um serviço de alugar os animaizinhos por algumas horas ou dias. Assim, os bichinhos treinados e educados animam as crianças ricas, que podem dispor da companhia dos cães sem o incômodo de cuidar ou amar. A que ponto chegamos!

Quanto mais puder, ofereça a outras pessoas bens que o dinheiro não pode comprar. Lembra-te que costumávamos nos reunir-se em torno da mesa, com comida preparada por muitas mãos para ser compartilhada, entre conversas, risos e barulho das crianças? Lembra-te que havia sempre uma pessoa que ouvia com atenção uma longa explicação de ideias e pensamentos, esperanças e apreensões?
Precisamos tentar o impossível, porque Simmel ao falar das grandes cidades e da vida do espírito, diz que é possível notar um retrocesso acentuado da cultura dos homens com relação à espiritualidade, delicadeza e idealismo e que a cidades grandes sempre foram o lugar da multiplicidade, da velocidade e os homens modernos que habitam as grandes cidades são envoltos num espírito cada vez mais contábil, na medida em que o dinheiro compensa toda a pluralidade das coisas belas.

Fico a pensar, no que deve ser o reverso da liberdade; que em nenhum lugar pessoas se sentem mais solitárias e abandonadas do que no meio da multidão nas cidades grandes.

Você confia em mim?

É uma característica da vida humana que normalmente encaremos uns aos outros com natural desconfiança. As pessoas geralmente tecem suas teorias de mundo utilizando-se de suas experiências. Na geração atual o que vemos são lições sendo apresentadas, recomendando estratégias de proteção à vida, insinuando que um estranho é alguém em quem não se deve confiar, que a vida é um jogo duro, para pessoas igualmente duras.

Os jogos começam sempre do zero, vitórias passadas não contam e cada jogador, por conta própria, tem que buscar a vitória, eliminar colegas, obstruir o caminho. Seria bonito se a vitória fosse sempre coletiva, sem a descartabilidade dos seres irmãos. Os estranhos não são uma invenção da vida moderna, mas aqueles que permanecem estranhos por um longo período são e deveriam ser advertidos que não é permitido permanecer estranho por muito tempo. Eu, pessoalmente, não tenho habilidade para desconfiar das pessoas prontamente. Como posso almejar uma vida pacífica desconfiando de todos?

Embora isso possa estar em desacordo com as regras de preservação da espécie, há um enigma que me aflige: me aperfeiçoar ou me proteger?
No relacionamento com as pessoas devemos ser cuidadosos, porém, a confiança é essencial para estabelecer acordos, para trabalhar com o diferente, para promover o bem comum. A desconfiança, por outro lado, promove o ceticismo, a frustração. Quando a confiança é baixa, a maneira como reagimos e nos comportamos uns com os outros torna-nos menos civilizados.

Não há uma explicação única para a perda da confiança. Ela vai acontecendo, empurrada pela fragilidade dos comprometimentos, pela quebra de valores morais, pelo alargamento do fosso social entre ricos e pobres, pela perda do senso de compartilhar o destino. È extremamente difícil restaurar a confiança perdida. A relação, quando abalada, não suporta mais nenhum movimento em falso. Lembro-me das palavras do mais famoso ciclista do mundo, Lance Armstrong, ao ser pego em caso de dopping e banido das pistas: “Eu passarei o resto da minha vida tentando recuperar a confiança que as pessoas perderam em mim, porque eu construí meu sucesso pautado na imagem do homem de confiança, de respeito e eu quebrei essa confiança”.

Os grandes paradoxos da confiança é que as pessoas em quem não confiamos também não confiam muito em nós e apesar de ser complexa e desafiadora devemos exercitar a tarefa de restaurar a confiança uns nos outros. Parece que quando conseguimos recobrar a confiança, a relação fica mais forte do que se a confiança nunca fora quebrada.
Entre todos os atributos que exalam respeito num líder, a confiança é de maior destaque.

É conquistada, na medida em que a capacidade, a diligência e a integridade são colocados à prova. Já é suficientemente difícil viver tentando ser uma pessoa decente, atendendo as demandas do mundo, sem grandes sentimentos de culpa ou vergonha. Não precisamos ser olhados com desconfiança o tempo todo.