Que muitos se beneficiem do seu crescimento

Você não tem que viver sua vida como os outros esperam que você viva. Acima de todas as expectativas que depositam em seus ombros, leve em conta seus desejos, a realização dos sonhos, a liberdade de existir dentro de um universo que você idealizou.
Acerque-se do que te faz bem, cultive em sua vida atitudes que carrega em seu interior. Deixa a compaixão brotar. Sê bondoso faz bem a quem é bom mais do que aos que recebem benefícios disso. Tornar o mundo um lugar melhor é que você deve fazer, todos os dias, um pouquinho de cada vez.
Encontre o meio de estender sua glória pessoal aos que te cercam. De nada adianta estar bem, rodeado por pessoas angustiadas. Liberte-se do egoísmo, da vontade exacerbada de crescer e crescer. Compartilhe valores, conhecimento, alegrias. Que muitos sejam beneficiados pelo seu crescimento pessoal.
Eu já quis cercar-me do bem, do prazer, do conhecimento e da riqueza, para meu único proveito. Meu coração não aceitou viver limitado a minha própria existência.

Prazer, Dor, Paixões (John Locke)

O amor
A principal e primeira de todas as paixões é a mais indócil entre todas as demais e cega, porque o amor não se move até nos propormos algo que é em si mesmo delicioso. O amor se decide apenas por um fim que tenha a secreta faculdade de encantar.
O amor se estende a tudo o que aparentemente é capaz de nos fazer bem.
O ódio apresenta-se como uma ideia na mente disposta a nos adoecer e cuidado, a dor atua mais sobre nós do que o bem e o prazer.
Suportamos a ausência de um grande amor mais facilmente do que a presença de um pouco de dor.
Jamais nos queixamos do sono, que sempre nos furta a sensação de muitos gozos, mas o tomamos por prazer, quando faz cessar qualquer uma de nossas dores.

Falsa Consciência

No mundo desenvolvido ou em desenvolvimento, muitos países em muitas partes do mundo não avançaram muito em termos de dignidade no tratamento dado às mulheres. A violência, sobretudo doméstica é muito preocupante. As mulheres estão sim, tendo mais facilidades para encontrar empregos, mas isso não significa que estejam sendo valorizadas como deveriam, tampouco integradas como parte legal do sistema político. Mulheres ainda são tidas como boas auxiliares, quase nunca atuam como artistas centrais das tramas.

O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade ótima para refletir e aumentar a consciência sobre como podemos contribuir para melhorar nossa performance na aceitação do desempenho de nossas funções. É dito que temos forte tendência para transferir conhecimento, somos mais reflexivas e amorosas. Na construção do relacionamento com nossos pais, companheiros e filho vamos nos colocando corajosas, vamos ensinando e cobrando respeito e atenção.

As mulheres são conhecidas por serem mais práticas, mais próximas à natureza, preocupadas com questões de segurança, capazes de executar tarefas múltiplas e, além de tudo, são a fonte da vida, trazem crianças ao mundo. Se efetivamente somos melhores transmissoras do conhecimento, temos que nos aprofundar até esgotar o esforço para estancar toda forma de violência contra as mulheres.

Violência que não está contida numa cultura, numa região ou num país, nem a grupos particulares de mulheres. As raízes da violência contra as mulheres decorrem mesmo da discriminação persistente que sofrem até os dias de hoje. A forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física, até homicídio, praticado pelo parceiro atual ou anterior. Enfim, as mulheres enfrentam múltiplas formas de discriminação e risco premente de serem vítimas de violência.

Faz sentido reconhecer que quando maiores oportunidades são oferecidas às mulheres, crescem também as perspectivas de tornar o mundo um lugar mais pacífico e estável. A presença das mulheres é vital para e para contornar os conflitos domésticos, assegurar que os filhos frequentem a escola, que recebam tratamento médico, que sejam livres. É verdade que a maioria das mulheres carregam fardo maior que a maioria dos homens no decorrer de suas existências. Não me ative a examinar, mas possivelmente os países que valorizam e dão crédito às mulheres nas tomadas de decisões sejam mais estáveis e seguros?

Avanços pontuais, pessoais, claro que existem em todas as áreas. Mas a desigualdade existe mesmo e muita. No cenário político do Estado, votados pelos eleitores, não temos nenhuma senadora, nenhuma deputada federal, apenas duas deputadas estaduais, uma vereadora na capital e de 141 prefeitos, apenas 19 são mulheres. Então, espero um pouco mais para celebrar as conquistas.

O que prego, o que sou

Inevitavelmente a hora chega.
É preciso assumir os planos e viver o que pregamos.
Se queremos ser felizes, falemos de felicidade, façamos outros felizes
Para transformar a vida, comecemos moldando nosso interior,
flexibilizando as ideias radicais.
Aceitando o imponderável como fruto do amadurecimento.
Fugir até quando esgotar o medo, até contar o último segredo.
Agora, nada mais impede.
O caminho se abre diante dos passos largos e firmes.
Não ser sombra, não ser vontade.
Ser livre, ser inteira!
Abracar o dia com alegria,
tratar os seres, humanos ou não, com gentileza.
A hora para mim chega, assim precisa ser
Não posso fugir de mim mesma.

Desídia

Sim, eu sei que é carnaval. E o que você acha que os políticos estão fazendo no feriado? Falando de política e articulando seus espaços.
Façamos o mesmo aqui, já que um dos principais problemas que vejo no país, quando falamos de eleições é que as pessoas simplesmente não são informadas, não articulam o preenchimento de suas representações políticas, como eleitores. É por isso que são influenciadas, na última hora, pela campanha política feita na televisão. Não tem sido assim? Precisamos evitar a supressão do eleitor.
Somos doutrinados para acreditar que nossas únicas escolhas são invariavelmente entre um e outro candidato e isso nos impede a olhar em volta. Se consideramos que a classe média está afundando e já não tem poder aquisitivo suficiente para manter a economia crescendo e criando empregos; se vemos que os ricos estão só acumulando riqueza e que muitos políticos estão usando o poder para obterem maiores ganhos corporativos e subsídios para seus próprios negócios, tudo isso significa menos igualdade de oportunidades. Eu li na revista Forbes que o Brasil produziu 19 novos bilionários ano passado. Mas o que isso tem a ver comigo? Eles bilionários não nos representam e de certa forma, causam desconforto ao raciocínio.
Se você vê a política com desconfiança, veja bem, não precisamos alimentar a máxima de Carl Schmitt que atribuiu à política um critério seco de distinção: a oposição entre amigos e inimigos. Em tese, os aliados seriam os amigos e o inimigo, aquele com quem debatemos. Penso eu que a política segue um código de regras que avançou. Fazer oposição é saudável. Não há como pensar na esfera política sem conflitos.
Se é para sermos ativistas, devemos sê-lo de modo coletivo. Não podemos nos contentar em sermos eleitores de olhos abertos, mas mudos. Devemos ser mais ativos politicamente e observar de onde podem vir as melhores soluções para os problemas da pobreza, da segurança, da saúde, da educação, do meio ambiente. Devemos nos comportar como observadores políticos permanentes e ser otimistas quanto a condução do processo eleitoral que, incontestavelmente passará pelas nossas mãos.
Cidadãos orgulhosos, que trabalham querem um país com economia estabilizada ou crescente, querem produzir, sentirem-se parte da engrenagem que move o país. Então esse é seu dever consigo: pensar na política como um dever moral, que pode harmonizar o que você considera digno e humano. É o dever de exercitar a liberdade interior, onde pulsa os princípios da cidadania.
Alguém indiferente sobre como a situação do país está para os outros é absurdamente egoísta. O cidadão não deve renunciar a sua personalidade e envergonhar-se de posicionar-se contrário ou apoiar o que está posto. A consciência e a valoração em pé de igualdade com os outros é a leitura que se faz de pessoas com grande valor moral. Estas, devem sim, disporem de si mesmas, de modo íntegro, para coibir os abusos que consideram inaceitáveis.

O racismo é anti igualitário

“O racismo é antiliberal, antiigualitário, intolerante, violento e criminoso”. Norberto Bobbio

Cenas de racismo deixa a certeza de que há falhas de conduta de certas categorias humanas que nunca serão removidas ou reformadas e assim, retrógradas, permanecerão para sempre. O racismo não precisa de inspiração para ser instigado, para fazer brotar o ódio elementar que leva a estranheza, a antipatia e a agressividade. Desde 1999 a ONU declarou o dia 21 de março, como o dia de combate a discriminação racial, mas estamos realmente envidando esforços para eliminarmos todas as formas de intolerância racial?

O caso que ocorreu no Perú, envolvendo o jogador do Cruzeiro Tinga, não pode ser considerado uma modalidade de ressentimento entre grupos, foi uma demonstração isolada de conteúdo. Cena de barbárie mesmo, que também aconteceu com o jogador italiano Mário Balotelli, do Milan. Ao tocarem na bola, torcedores emitiam sons imitando macacos. Houve manifestação de apoio aos jogadores lá e aqui. Os jogadores do Milan entraram em campo com palavras anti racismo nas camisas e aqui, jogadores famosos usaram todas as mídias para prestarem solidariedade a Tinga, que disse que se pudesse, trocaria todos os títulos, por uma vitória na luta contra o preconceito.

Não bastassem os episódios apresentados, eis que vem a público o vídeo em que um parlamentar brasileiríssimo, formado engenheiro agrônomo, no alto de seu terceiro mandato de Deputado Federal, discursa classificando o racismo quase como uma ideologia, com argumentos conscientes e perversos, como deve ser sua sombria visão de mundo. Exercitar o pensamento crítico é realmente relevante para as questões tanto de preconceito quanto de ideologia política. Havia lido Norberto Bobbio, filósofo italiano, que sem sombra de dúvida, é meu preferido e lembro-me de uma frase que marcou-me: “Quem não tem preconceito que atire a primeira pedra”.

Ensinou-me também, que devo ter cautela ao falar do preconceito dos outros, sem antes avaliar o meu. O racismo entretanto, não cai do céu. Vários estudos apresentam uma correlação entre as crenças conservadoras e racismo. Um estudo anterior feito pela Universidade de Ontário já revelava uma ligação entre as pessoas de QI. baixo e maior incidência de preconceito. Ou devemos adotar o discurso de Rousseau, que sustenta que a natureza fez os homens bons e iguais, mas as condições de vida os tornaram desiguais, ou ainda acreditar no príncipe dos filósofos não igualitários, Nietzsche, para quem o homem é por natureza mau e desigual e apenas a sociedade com seus freios morais é que poderia torná-los iguais?

Basta dar uma olhada nesse imenso planeta para perceber como é longo o caminho que se deve percorrer para enfrentar as lutas que estão por vir. O mundo não está pronto para ser o paraíso e a possibilidade de um atalho mais ajustado à vida humana decente, vai se perdendo com fatos como esses. As eleições se aproximam, é bom acompanhar o desempenho eleitoral do Deputado Gaúcho e se nada mudar, resta-nos a descrença de não mais nos sentirmos em casa nesse espaço que nos cabe no planeta. Vou sentir-me ameaçada na situação desconfortável de exilada.

Uma visita ritual

A dinâmica da vida política e social é carregada de metáforas que escondem ou ao contrário, expõe, a pormenorização das mensagens que emitimos. O aspecto simbólico dos rituais contribuem para esclarecer aspectos da vida social. Quando pensamos em ritual, a ideia que nos vem a mente é quase sempre de algo arcaico feito para celebrar momentos especiais, mas não é isso.

Os rituais são as formas simbólicas e repetidas de poder, de descrição esmiuçada, às vezes sem palavras, de cenários e representações que falam por si. Ao ler Victor Turner, eu fui remetida à minha lida diária com eventos públicos, presididos por pessoas que detém o poder. Turner reforça que os rituais encenam histórias poderosas, tradições seculares, que são traduzidas em ritos que dizem muito. Na verdade a simbologia dos ritos pode significar o enquadramento das tradições, que precisa de movimentos minimamente coreografados para transportar sujeitos de verdade ao mundo das representações simbólicas.

Cada evento é único e somente a criatividade pode quebrar a rigidez das regulamentações hierárquicas. Os rituais acontecem sob certas condições e precisa de público para acontecer. É preciso ter competência para comunicar com a plateia, empatia para transmitir o pensamento de forma que as entrelinhas possam ser lidas e entendidas.

As figuras públicas se expressam por meio de rituais ordenados, que favorecem a transmissão das mensagens e das imagens. Todo ato com a presença da presidente da República, não é um acontecimento meramente casual. Ao contrário, são utilizados mecanismos eficientes de comunicação para levar a mensagem ao destino certo.
Escolhi estudar Antropologia das Formas Expressivas esse ano e agora ao estar na coordenação dos preparativos para a visita da presidente da República Estado de Mato Grosso, posso constatar que a organização desse ato é constituído por um conjunto de pequenos atos simbólicos, embora a visita ocorra numa área de plantio, com certa informalidade. O desembarque, o lugar de passagem, a distribuição do público, a arte por trás do palco, tudo cuidadosamente verificado e aprovado.

A maior autoridade do País se movimenta hoje aqui, cumprindo agenda e rituais inerentes ao poder por ela exercido, observando as tradições, fortalecendo as relações com os antepassados. Há simbologia em todas as atividades, em todo o material envolvido na construção do cenário. Tudo ressalta os aspectos políticos dentro do conceito da manutenção dos ritos do poder, sem distrações que possam desvalorizar os rituais. Devemos estar atentos aos gestos, expressões, pois o corpo é um veículo que transporta muitos significados, que contextualizados, podem traduzir as diversas formas, através das quais, nos comunicamos.

Como esquecer o Araguaia?

Sair da zona do conforto, ir até as pessoas, conversar, perguntar, ouvir, é seguramente a melhor forma de saber a verdade. De uma sala distante, o máximo que se tem são impressões frias e achismo, o que leva alguns políticos a trafegar na contramão da realidade regional por vários anos. E olha, não se corrige impressões desfocadas com uma única viagem. No site do Senador Pedro Taques, em matéria sobre sua visita a Região do Araguaia está escrito literalmente assim: “Há 40 anos cidadãos desta região sonham com o asfalto na BR-163”. Gelei! A BR 163 não passa na região.

Não se trata aqui, é claro, de mostrar um Estado perfeito e irreal, mas mostrar as possibilidades que se abrem com trabalho sério, embates e entendimentos entre pessoas comprometidas com o futuro. O Mato Grosso visto por quem viaja por todas as regiões, em períodos de chuva, de estiagem, frio e calor, não está parado, tampouco apodrecido, como foi noticiado. É com o povo que o político deve estabelecer parceria para exercer o mandato, desde o primeiro dia. Mas convenhamos, essa parceria exige um relacionamento de ida e volta e constante. É desolador e parece irônico assistir a entrevista de um político, 03 anos após assumir o mandato, dizer que é uma alegria conhecer as pessoas corajosas de Luciara. Só conheceu agora?

Os problemas soam enormes quando se fica muito tempo distante deles. Porém, não se pode esconder a obra de pavimentação entre Santo Antônio do Fontoura e Confresa, a ligação de Santa Terezinha a BR 158, através da MT 413, a ligação de Canabrava a Porto Alegre do Norte, fora os trechos que tiveram os contratos assinados, como S. José do Xingú, Santa Cruz do Xingú e Vila Rica; a publicação do edital para construção do Hospital Regional em Porto Alegre, que dia 28 próximo já terá o edital disponibilizado para os interessados, a autorização para construção de uma nova escola do EJA na mesma cidade. É preciso saber mensurar o que isso significa para quem mora lá. O Governo esteve presente na região no final de abril do ano passado quando lançou as obras e retornou essa semana, após 9 meses para inaugurá-las.

Percorremos de carro de Cuiabá a São José do Xingú e o único trecho sem asfalto é do Alô Brasil a Canabrava do Norte e lá na frente, depois de Santo Antônio do Fontoura. Isso significa avanço para quem conhece e visita o Araguaia frequentemente como eu, para quem faz públicas e reiteradas declarações de amor ao pedaço desse Estado que pertenço de nascimento e de coração. Conheço os números da produção, a extensão das obras, o tamanho da pobreza, dos quilômetros com e sem asfalto. Não há milagre, tampouco milagreiro.

O progresso é fruto do trabalho do povo, com intervenção dos Governos para consolidar as ações necessárias para o desenvolvimento da região.
Falta muito? Falta! Mas daí a referir-se ao Araguaia como Vale dos Esquecidos é quase uma afronta. Como dizer isso de uma região onde está o Parque Indígena do Xingú, o Parque das Águas Quentes, a Serra do Roncador e sua aura mística, o Rio das Mortes, e o mais belo dos rios do Brasil; o Araguaia? Como chamar de Vale dos Esquecidos a região que tem um leilão de gado que bate recorde mundial?
Como chamar de Vale dos Esquecidos o lugar onde está a casa do bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga?

Tremores existenciais

O mundo é um lugar imperfeito, que abriga, entre tantas coisas, uma multidão de pessoas excluídas, que não têm para onde ir, onde se divertir. A vida moderna tem criado fatos intrigantes e exposto os humanos à situações de instabilidades e desigualdades gritantes e agora as instituições, como a família, a escola e o trabalho não são mais suficientes para auxiliar as pessoas a construírem um projeto de vida coerente. Esta situação confusa, onde as pessoas não têm um senso estável de quem eles são, do que representam e a que lugar pertencem, resulta no aumento do sentimento de ansiedade, medo e incerteza, que Zygmunt Bauman chama de ” tremores existenciais”.

As desigualdades entre ricos e pobres estão cada vez mais visíveis, o que os impedem de viverem juntos. A elite é parte de um mundo instável que se desloca de um lugar para outro, buscando proteção e melhores oportunidades de negócios. Enquanto para o resto, são condenados a uma ansiedade crescente de medo e desconfiança, que deriva da imprevisibilidade do mundo em que vivem e sobre o qual, não tem nenhum controle.

As estratégias adotadas quase sempre envolvem a colocação de barreiras para protegerem-se uns dos outros. Estratégia de barreira que inclui o surgimento de uma fortaleza para manter os desiguais do lado de fora. Essas estratégias são sempre ineficazes pois recrudescem o sentimento de segregação e, eventualmente serve para justificar a nossa paranoia diante de qualquer movimento inesperado.

Temos estranhamente medo de toda uma série de coisas que representava novidade. Ao invés de olhar para as causas complexas da nossa sensação irracional de medo, vemos as pessoas da periferia como seres que estão confinados num universo de pobreza. O fato de termos medo das pessoas de classe social diferente, significa que não estamos propensos a nos aproximar deles, o que por sua vez leva a uma situação de estranhamento mútuo, onde ambas as partes procuram manter maior distância possível entre si. O distanciamento entre os cidadãos é um fato facilmente ignorado por muitos e na verdade, só lembrado agora por conta da rebeldia de alguns jovens, que furaram o cerco e saíram para se divertir.

Na vida e na cidade moderna esperava-se que ricos e pobres pudessem viver lado a lado. Que nada! A arquitetura da cidade moderna tornou-se o principal fator de segregação. Aqueles que podem pagar mudam-se, tiram proveito de uma série de mecanismos de segurança, os pobres são excluídos permanentemente de grande parte de sua cidade e na falta de capital econômico, inventam o que podem a fim de conquistar algum status.
Isso incomoda o projeto de vida de muitas pessoas, que não se esforçam para compreender mais profundamente o que significa viver em comunidade, o que significa estender o olhar carinhoso e humano para quem vive ao lado. Essas pessoas estão demasiadamente ocupadas e limitadas a minimizar as ameaças percebidas quando um grupo de jovens da periferia se reúne e invade um espaço nunca antes frequentado.

Empobrecimento existencial

“Diga-me quais são os seus valores e eu lhes direi qual é a sua identidade”
Zygmunt Bauman

As identidades são mutáveis e estão em contínuo processo de construção, desconstrução e reconstrução. Essa falta de identidade fixa é um produto da pós modernidade. Esse processo de despersonalização do indivíduo, imerso no oceano da indiferença existencial, é a característica por excelência da ideia de uma vida precária, em condições de incerteza constante. A insegurança nos estimula a assumir uma ação defensiva. Preocupa-me saber o que estamos fazendo com o nosso tempo neste planeta e como escolhemos viver nossos momentos aqui.

Nada contra a beleza, nada contra cuidar-se. Contra o exagero, o apego às futilidades e a prática desmedida de não aceitar-se. Vejo pessoas aturdidas, gastando a maior parte de seu tempo e dinheiro para tornarem-se outras pessoas.
O processo de construção da identidade é vendido como algo que é divertido, como algo que deve ser prazeroso e como algo que é indicativo de liberdade individual. Basta olhar para os vários perfis das redes sociais e sites para ver que a expressão da identidade é algo associado ao prazer e a aparência. Tornou-se uma parte normal da vida gastar uma quantidade considerável de tempo, esforço e dinheiro na construção, manutenção e transformação contínua de si mesmo. Embora possamos pensar que somos livres, na verdade somos obrigados a nos engajar num processo de reinvenção contínua, porque nossa vida social está condicionada a um fluxo muito acelerado.

A maioria das pessoas estão insatisfeitas consigo mesmas. Reclamam dos cabelos, do cheiro, do olhar, dos peitos. Isso não deve ser assim. Nossa cultura está cheia de mulheres de rostos plastificados, sorrisos sem expressão alguma. Homens de emoções engarrafadas, que compram relógios e carros caros, esperando que um dia isso os faça sentirem-se homens especiais.
Esse descompasso entrou nos relacionamentos. A mesma atitude crítica, o julgamento de que o outro nunca é bom o suficiente, impede que as pessoas vivam seus amores plenamente. Parece que algumas pessoas nunca vão encontrar a paz de espírito, nunca descobrirão quem realmente são e todas as tentativas de se encontrar através da reinvenção de si mesmos nunca será satisfatória.

É assim que nós deparamos com a maior tragédia do nosso tempo: a futilidade, que faz com que as fofocas de celebridades sejam mais importantes para as pessoas do que a fome, a guerra e a doença em todas as partes do mundo. Porém, ninguém é forçado a nada, as escolhas vão sendo feitas ao longo da vida e no final, sem surpresas, somos o que construímos em corpo e alma. Se todos soubéssemos o quão poderosos e bonitos podemos ser, não viveríamos a alimentar o potencial caótico dentro de cada momento dessa curta e emocionante viagem que chamamos de vida.