A fragilidade do amor moderno

O amor líquido é um livro intrigante do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que explora as relações humanas, quando as pessoas envolvidas num relacionamento enfrentam o dilema de precisar do outro, mas ao mesmo tempo temem que um relacionamento mais profundo possa deixá-los imobilizados em um mundo de movimento frenético, um mundo onde não há limites para a ilusão humana, para a futilidade dos sonhos. A sensível narração é mais que uma constatação do mundo líquido em que vivemos, da fragilidade dos laços que nos unem, e como esse homem sem vínculos, personagem do nosso tempo moderno, estabelece suas conexões e realiza suas ambições.

Há reflexões por vezes conservadora, mas o tom é de angústia pelos sentimentos humanos, uma emoção confusa, despertada pela pressa de encontrar o par perfeito, mas contraditoriamente, viver relacionamentos com amplas portas de saída para novos encontros, porque a insatisfação está mais presente nos relacionamentos que a afetividade. São coisas muito diferentes, ter parceiro, trocar afeto e comprometer-se. É sobre esse universo marcado por laços que não permanecem, não se estreitam, a ausência de consistência, que derrete a estrutura do relacionamento e torna o amor um sentimento líquido, que escorre por entre os dedos, que Bauman está falando.

É dentro desse contexto moderno que nossos laços, principalmente os antes duradouros, estão se desatando e nos condenando a viver numa sociedade sem raízes profundas.
As pessoas, nessa sociedade moderna e líquida não se vale nem mesmo dos laços de parentesco, preferem constituir laços de amizade ou relacionamento de amor provisórios, soltos o suficiente para não sufocar, mas firmes o suficiente para dar um certo consolo momentâneo, porém não confiável. Ao priorizarmos os relacionamentos artificiais, que podem ser tecidos ou deletados com igual facilidade, não conseguimos mais manter laços duradouros, o que afeta as relações amorosas e os vínculos familiares. Contudo, seria ingenuidade culpar as facilidades tecnológicas pelo recuo da proximidade contínua, do face a face nas relações humanas, que tornaram-se muito frouxas.

Homens e mulheres movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor, por isso nunca houve tanta procura em relacionar-se. O moderno mundo líquido é repleto de sinais confusos, frases abreviadas, que mudam muito rápido e de forma imprevisível e substitui a qualidade dos relacionamentos pela quantidade, o que é fatal para nossa capacidade de amar.
Zygmunt Bauman é um dos mais respeitados sociólogos da atualidade, e declara não mais acreditar que possa existir algo como uma sociedade perfeita, diz que a vida é como um lençol curto, quando se cobre o nariz os pés ficam frios, e quando se cobrem os pés o nariz fica gelado.

Fidelidade partidária II

No período democrático de 1946-64 não havia restrição para a troca de filiação partidária, as mudanças ocorreram, porém, com pouca intensidade. Eminentes figuras da política brasileira estiveram sempre ligadas a um mesmo partido: Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola ao PTB; Tancredo Neves, ao PSD; Carlos Lacerda e Afonso Arinos à UDN, diz o texto publicado pela Consultoria Legislativa do Senado Federal.

As trocas de partido vêm marcando a política brasileira desde a redemocratização do país, em 1985. Mas o STF já mostrou que é a favor da fidelidade partidária, embora coubesse muito mais ao Congresso do que ao Supremo disciplinar essas incongruências estruturais. Lendo artigos e observações de juristas e políticos, entre os quais, Paulo Brossard, Franco Montoro, Michel Temer, Dalmo Dallari e Gilmar Mendes, percebi a preocupação com as consequências que essas migrações causariam, entre elas, o enfraquecimento dos partidos políticos, o rompimento da relação ideológica com os eleitores e a contaminação do processo democrático. Embora seja um erro grave, por aqui não se vota em partido, vota-se em pessoas, porque o cidadão não percebe que o partido é seu complemento. Porém, a individualização começa no interior das convenções partidárias, que escolhem os candidatos.

Não sei qual seria o grau de satisfação dos eleitores com os partidos brasileiros, mas é certo que há um distanciamento entre dirigentes partidários e seus filiados, mesmo políticos eleitos; imagine, então, com o filiado que não detém mandato. Temos hoje 30 partidos registrados no site da Justiça Eleitoral e mais alguns com registro em andamento. Muitos com programas idênticos, outros, vagos, sem atuação relevante e marcados por decisões oportunistas, mas todos em prontidão para requerer o mandato do eleito que deixar o partido. Nessas condições, mesmo sujeitando-se ao rigor da lei, não se pode esperar outra coisa senão a vontade de mudar de partido.

Há de se considerar esse outro extremo em que os políticos ficam reféns daqueles que controlam as executivas partidárias. Deveria haver certo equilíbrio na legislação, onde os partidos tenham real influência sobre o comportamento dos políticos eleitos por suas siglas, mas também dificultar que os ocupantes de cargos eletivos fiquem à mercê dos dirigentes. É estranho observar que o sistema eleitoral prevê fidelidade a um membro do partido, enquanto do próprio partido não é cobrado coerência e fidelidade, na formação das coligações, por exemplo. Vê-se então que os pretensos infiéis não são os únicos vilões, pois muitos deixam o partido por não encontrarem espaço dentro dele, por serem excluídos de suas decisões e posicionamentos.

È inegável que grande parte dos parlamentares brasileiros pensam mais em seus interesses individuais do que no interesse do partido e no bem-estar dos eleitores que os elegeram. E não vai aqui nenhuma linha contra o Instituto da Fidelidade Partidária, o questionamento é sobre a ditadura que se impõe aos políticos, que uma vez eleitos por um partido, sem punição, é impossível mudar. Não se pode vislumbrar novos rumos, aderir a uma outra linha de pensamento, talvez seja este o único relacionamento fadado a durar até que a morte os separe, partido e eleito. Quanto ao mandato, bem, se pertence ao partido apenas, o político não pode perder o que nunca teve.

Fidelidade Partidária I

O instituto da fidelidade partidária surgiu em meio à ditadura militar, quando o Congresso Nacional autorizou a criação de organizações com competências atribuídas de partidos políticos, com apenas duas legendas para acomodar as diferenças internas dentro do regime, dando origem à Arena (Aliança Renovadora Nacional) e ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro), situação e oposição, respectivamente.

O patrulhamento partidário foi a forma encontrada pelo governo militar para garantir a maioria no Congresso. Em 1969, sutilmente inseriram na constituição do instituto da fidelidade partidária, a cassação dos mandatos dos políticos que mudassem de sigla. A Constituição escrita em 1988 eximiu-se da responsabilidade e deixou a cargo dos estatutos dos próprios partidos políticos regulamentar a fidelidade partidária, que é justificada, entre outras razões, para controlar o surgimento dos partidos de aluguel. Feito que não logrou êxito, são tantos aí na ativa.

O Brasil não tem tradição de dar aos partidos políticos um papel de grande relevância, embora para se candidatar, o indivíduo deve estar filiado a um partido, com o qual tenha a mínima afinidade ideológica, pois os partidos políticos são agentes importantes na consolidação da vontade do povo. Porém, é fato que a Constituição não exige a permanência do parlamentar no partido, assim como não prevê impedimentos para a troca de partidos. Mas, de acordo com a resolução em vigor no TSE, que disciplina o processo da perda de cargo eletivo e de justificação de desfiliação partidária, o partido político interessado pode pedir, na Justiça Eleitoral, a decretação da perda de cargo eletivo em decorrência de desfiliação partidária sem justa causa.

E por justa causa entende-se a incorporação ou fusão do partido, a criação de novo partido, a mudança substancial ou o desvio reiterado do programa partidário e discriminação pessoal. O Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC 23/07) que assegura aos partidos a titularidade dos mandatos parlamentares. De acordo com o texto, a fidelidade partidária passou a valer desde 1º de janeiro de 2010.

No site do Senado Federal há literatura vasta sobre o tema, onde li a argumentação do jurista brasileiro Clèmerson Clève, que é contra a punição severa com cassação de mandato. Segundo ele, o instituto da fidelidade partidária, deve aplicar penas moderadas, para impedir que se estabeleça uma ditadura partidária. Para o jurista, o partido não pode dispor livremente sobre o mandato. Salienta ainda que o mandato no Brasil é representativo, não imperativo, de onde decorre que a fidelidade partidária deve ser utilizada de forma moderada, jamais agredindo os direitos fundamentais do parlamentar, em especial a liberdade de consciência.

Semana passada o deputado estadual Alceu Maron (PSDB/PR) teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná. A decisão foi proferida por maioria, atendendo a solicitação do PPS, partido do qual o deputado havia pedido desfiliação. O deputado disse, porém, na defesa que ele deixou o partido em virtude de uma mudança de programa do PPS, que passou a apoiar um prefeito antes considerado oposição ao partido. Como se vê, o tema é demasiadamente complexo, assim como as argumentações e interpretações que recebe por parte do judiciário e da classe política.

É preciso curar o que causa a doença

Devo estar mais atenta ou medrosa. O fato é que nunca percebi tantas pessoas doentes, com doenças graves, no ambiente de trabalho, entre amigos, indivíduos simples e figuras proeminentes. Um número crescente de pessoas de idades variadas. Assustada fui ler sobre o assunto, observar se isso já não é um fato social, cujo quadro não pode mais ser alterado. Entendi que o esqueleto do homem dá sinal visível de saturação.

Impressionante detalhe é que os sintomas estão mascarados e também, como há uma falta de lógica no estabelecimento das doenças, referindo-me aos hábitos de vida das pessoas e até dos cuidados que muitos dedicam aos seus corpos. Há certos parâmetros que delineia o que realmente faz as pessoas saudáveis e o que as predispõem à doenças, assim como alguns experimentam curas de doenças em estágio considerados incuráveis, outros permanecem doentes mesmo quando recebem os melhores cuidados médicos. A pensar fico se não seria também necessário estender a cura a alma das pessoas, provocar-lhes até que reajam e acionem o poder de autocura que todos possuímos em nosso sistema. Temos que ser participantes ativos do processo de prevenção as doenças ou mesmo quando pacientes, com doenças já estabelecidas.

Estamos tão confortavelmente acostumados a entregar a solução dos problemas aos médicos, que curam as feridas, extirpam os tumores, mas não lhes cabem preencher o vazio da alma que não encontra fonte inspiradora para viver. Devemos incorporar o coração no processo de prevenção e cura senão não suportamos o fardo do stress, das cobranças por resultados financeiros positivos, das respostas certas, decisões irretocáveis e tudo isso talvez regado a estimulantes, calmantes, bebidas, cigarros e jantares. Por isso mesmo quando cuidamos do corpo, fazemos check-up, controlamos pressão arterial, níveis de colesterol, e não sei o que mais…estamos tratando da superficialidade do nosso ser. Mas estamos abordando o coração de maneira certa?

Estamos nos livrando do que nos pesa os ombros? Estamos lidando com o desconforto e promovendo mudanças em nossas vidas? O que significa de fato curar-se?
Não tenho as respostas para minhas indagações, mas penso que a cura deve ser algo além do processo externo da doença. É preciso curar o que provoca a doença, senão ela, sorrateira se repete. O médico ao diagnosticar uma doença grave expõe uma vulnerabilidade existencial propícia para o restauro da harmonia emocional. Com a alma curada, o corpo segue a frequência. Em um mundo perfeito, corpo e alma se conectam e afugentam os desequilíbrios e a doença encontra resistência para instalar-se.
Há muitas coisas que podemos fazer para aumentar a força do sistema imunológico e reduzir a susceptibilidade a doenças; assegurar uma dieta saudável e equilibrada, basear as refeições em vegetais; escolher não fumar, manter o peso, estabelecer um modo de vida saudável; ser ativo e, sobretudo inspirar-se nas atividades divertidas e ao ar livre.

Os pesquisadores constroem conhecimentos para o avanço da pesquisa do câncer, buscam recursos dos países ricos para enfrentar a despesa global que o câncer causa e tentam reduzir as mortes causadas pela doença. Mesmo assim advertem que as mortes relacionadas ao câncer continuarão crescendo e até 2030, 12 milhões de pessoas no mundo, terão morrido em decorrência dos vários tipos da doença.

Direitos iguais entre homens e mulheres interessa a ambos sexos

Ainda haja um longo caminho a percorrer antes que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, embora neste mês de fevereiro comemora-se os 50 anos do lançamento do livro de Betty Friedan, “A Mística Feminina”, lançado em 1963, que deu início a uma fase radical do movimento feminista.

O feminismo é a luta por direitos iguais entre homens e mulheres e o lançamento do livro reforçou o movimento de libertação das mulheres das amarras machistas que lhes tolhiam os direitos mínimos de liberdade e igualdade com relação aos direitos concedidos aos homens, na sociedade, em casa e no ambiente de trabalho. O livro, que em sua primeira tiragem vendeu 1,4 milhão de cópias, causou forte impacto na discussão apaixonada sobre o papel das mulheres na sociedade moderna. Friedan morreu em 2006, aos 85 anos de idade. O movimento radical apoiado por muitas de nossas mães surgiu nos anos 60 e questionava a concentração da vida das mulheres na criação dos filhos e no cuidado com os maridos e o surgimento de um vazio existencial.

O livro foi traduzido para mais de dez idiomas, mas as mensagens chegaram dentro da compreensão de cada cultura. E a principal mensagem era a valorização das mulheres dentro da coletividade, o direito de escolha. O que Betty Friedan criticava era o bloqueio total ao acesso das mulheres em qualquer atividade que não fosse doméstica.

Eu fiquei impressionada com as estratégias, psicologia e pelo tom de simpatia nas colocações. Não há vítimas culpando alguém e sim um sentimento de solidariedade entre as mulheres. Parece que Betty Friedan queria a aprovação dos homens, mesmo quando ela os execrava. O que é intrigante no livro é o papel de Friedan como alguém que queria melhorar as condições de vida das mulheres, sem perder o amor dos homens. O feminismo claramente não resolveu todos os problemas que as mulheres enfrentavam, mas ajudou que elas se reposicionassem em suas gerações. A liberdade gozada pelas mulheres é o que é hoje, porque o movimento feminista foi o que foi no passado, disse a socióloga e ativista brasileira Heleieth Saffioti.

Entretanto, o movimento pela liberdade das mulheres no Brasil e no mundo tem uma história de luta bem anterior a data do lançamento do livro de Betty Friedan. No primeiro Código Civil, de 1916 era latente a tradição da inferioridade feminina; com o casamento, as mulheres eram submetidas ao pátrio poder, consideradas incapazes juridicamente, como crianças, não podiam agir como cidadãs livres e adultas, nem mesmo para assinar um contrato.

A admissão de mulheres nas faculdades data de 1879, a primeira médica se formou em 1887, a primeira brasileira a obter o direito de advogar veio em 1899, o direito ao voto foi conquistado em 1932, tudo isso com muita luta e preconceito. Entre as principais militantes brasileiras estava a pesquisadora paulista Bertha Lutz. A partir dos anos 1970, percebe-se maior participação feminina no mercado de trabalho. As diferenças salariais, no entanto, são perceptíveis até hoje.

Assim era o mundo antes do movimento feminista. Foi contra esse mundo que as feministas lutaram e toleraram a indiferença e a ridicularização por parte de muitos homens. Ao libertar as mulheres, o feminismo também liberta o homem da obrigação histórica de estar no comando, de ser o provedor da família.
A melhor resposta que li sobre toda a intolerância ao feminismo veio da congressista democrata americana Pat Schroeder. Quando ela chegou ao Congresso pela primeira vez em 1973, um Deputado perguntou: “Como você pode ser uma congressista e uma mãe ao mesmo tempo?”
Pat respondeu: “Eu tenho um cérebro e um útero e eu uso os dois.”

Quando o controle vai longe demais

Eu começo a achar que há algo de pernicioso na criação de certas regras quando prefeito de Nova York, Michael Bloomberg propôs e o Conselho Municipal de Saúde aprovou uma medida para restringir o tamanho dos copos de refrigerantes que o comércio de fast-food vende. Falta do que fazer? Preocupação deliberada com a obesidade, sobretudo das crianças americanas ou apenas uma tentativa de controlar o comportamento, restringindo as escolhas das pessoas, tentativa desastrada de usar a lei para promover um certo patrulhamento?
As regras até podem ser para o bem, o que questiono é que não cabe ao governo determinar quantas calorias posso consumir, se devo ou não fumar, ingerir açúcar ou adoçante. Cabe ao indivíduo determinar o que é bom para si e para seus filhos. Essa interferência expõe uma linha de conduta de governo arbitrário.

Há tempos o sistema de ordenamento alimentar está estourado. 1 bilhão de pessoas na terra passam fome, outro bilhão são obesos. Por aqui, os acontecimentos que ocuparam a mídia na semana passada deixaram-me apreensiva quanto ao patrulhamento deliberado e excessivo do modo de pensar e expressar sobre determinados temas. Veio o financiamento e o desfile da Mangueira e todas as matérias publicadas cobravam um posicionamento de repúdio, intolerância e de contrariedade com a forma como as coisas aconteceram; só que eu não sei como as coisas aconteceram, então como posso emitir julgamento?

O Papa renunciou e novamente os artigos publicados induziram a um posicionamento de repreensão do fato, como no texto publicado num grande jornal, onde ao Papa, um chefe de Estado, fez-se referencias chulas; Como posso eu acompanhar tal juízo se nada sei e suponho que pouquíssimas pessoas no mundo saibam o que ocorre nos bastidores do Vaticano.
Na política o mesmo ocorre. Há um véu de puritanismo nas crônicas escritas. O adversário é o corrupto, o inaceitável, mas eu? eu sou o outro lado da moeda, sou adepto da moralidade inequívoca. Será?

As gerações passadas tiveram o direito de desfrutar e destruir os recursos naturais da terra; a conta veio para a nossa geração; temos que adotar um padrão de vida sustentável para não comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir as suas necessidades. Isso é imposição de limitações! E esse patrulhamento é muito sério. Uma vida sustentável é difícil de definir e de se levar, porque se refere a tudo o que fazemos e afeta nossas escolhas diárias. O requerimento por uma postura de consumo sustentável não vem com bula de indicações e modo de usar. Na tarja preta lê-se apenas: medicamento de uso obrigatório.

Há uma pressão exagerada para que adotemos pensamentos e posturas padronizadas, mas como conciliar pensamentos e posturas iguais numa sociedade de desiguais?

Não é carnaval em Macondo

A criação de um colombiano errante e nostálgico.

Você me diz que é carnaval, eu digo que não. Não, em Macondo. Ler a biografia de Gabriel Garcia Marquez é como saborear algo que desatina os sentidos. Nascido em Aracataca, no litoral caribenho da Colômbia, na maioria das vezes cético, irônico, andando em círculos para retratar quase sempre o mesmo povoado, os mesmos sobrenomes, Garcia Marquez encheu-me de compaixão quando li “Ninguém escreve ao Coronel”. A solidão alí retratada era na forma maior da dor, do isolamento e incompreensão e daquela esperança que insiste e teima em ficar ali escondidinha na alma. O amor reprimido, de certa forma vivido em meio às cartas e olhares entre Florentino Ariza e Fermina Daza, em “ O Amor nos Tempos do Cólera”, que transforma a impossibilidade extrema em realidade mais de cinquenta anos depois, ampliou a minha capacidade de observar e esperar.

Gabo fala de amores contrariados, do consolo encontrado no sexo sem amor com prostitutas, o cheiro enjoativo das amêndoas amargas e o memorável século de solidão narrado na cidade imaginária de Macondo, que conta a história de seus fundadores, a família Buendía-Iguaran, a história da liberdade e do progresso, das revoluções, corrupções,dos caudilhos autoritários, dos liberais; a obsessão pelo poder e pelo controle da família por homens que não sabiam amar.

Gabriel Garcia Marquez diz-se sempre um contador de histórias, sobretudo das histórias que ouvira de seus avós. Narrou histórias de mulheres fortes, com ânsia de liberdade, ora sensuais e muitas vezes castigadas pela moralidade imposta pelo século XIX; apresentou-nos homens como Aureliano Buendía, solitário e forte, consumido por dilemas morais; homens enamorados e idealistas como Florentino Ariza, que viveu quase no limiar do delírio amoroso.
Garcia Marquez sofreu com seus personagens, com seus amores assombrados. Disse certa vez ser a criatura mais triste e solitária da terra, deve ser verdade, pois deve ser quase impossível distinguir onde estão os limites entre a vida e a poesia. Ao pai principalmente, devia desculpas por não haver trazido para parede da sala da casa, o diploma acadêmico.

Abandonou os estudos, foi viver em Paris. Vendeu garrafas e revistas nas ruas, cantou em bares com amigos, começou a escrever para pequenos jornais, acreditou no jornalismo e na literatura como fonte de vida em todos os sentidos. Vendeu o carro, guardou o dinheiro, que daria para a família viver por seis meses, trancou-se em casa e de lá saiu, um ano e meio depois com a obra-prima “Cem Anos de Solidão”; publicado em 1967 e vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1982. No discurso, ao receber a honraria das mãos do Rei da Suécia, lamentou a distância cultural que se confirmara entre a América Latina e a Europa, as desigualdades sociais seculares; pode enfim falar da sua América Latina – uma pátria imensa de “homens alucinados e mulheres históricas”.

Este homem de ideias socialistas desde sempre, admite que tem medo do escuro quando fica só em casa. Não gosta da mídia, da literatura tratada como comércio, da exposição de sua pessoa em congressos. Diz textualmente ter feito tudo para evitar tornar-se um “espetáculo” popular. Doente, aos 85 anos vive com a esposa Mercedes, no México. O universo de Gabriel Garcia Marquez é algo que entontece. Como não apaixonar-se por homens que arrastam atrás de si um cortejo de borboletas amarelas?

Quando exemplos falam mais alto que as palavras

Ser gentil faz tão bem quanto ser alvo de uma gentileza.

É errôneo pensar que as crianças não observam o mundo dos adultos; as crianças podem mostrar sinais de empatia e preocupação desde uma idade muito tenra. Eles reagem com preocupação quando veem infelicidade, querendo ajudar ou corrigir o problema.

Li atenta estudos recentes que enfatizam a importância do pai deixar que seus filhos saibam o quanto significa que eles se comportam com bondade e responsabilidade. Quando você vê seu filho fazendo algo que você acha que é impensado ou cruel, diga de imediato que você não quer que ele faça isso, fale com firmeza e honestidade. Esta reação emocional precisa ser acompanhada pela explicação do por que você desaprova a atitude. Seja franco, honesto e aberto com seus filhos; a ideia é ensiná-los, não fazê-los sentirem-se culpados.
Vale lembrar a antiga crença de que os exemplos falam mais alto que as palavras.

“O Poder da Gentileza” é um livro do escritor italiano Piero Ferrucci, prefaciado por Dalai Lama, que traça um argumento poderoso para a bondade como uma forma de conduta. Ferrucci vê o declínio da gentileza e bondade todos os dias e chama isso de “resfriamento global” e relaciona-se com o ritmo que segue a vida moderna. Argumenta que as pessoas gentis e amáveis estão destinadas a viver uma vida muito mais interessante e gratificante do que aqueles que não têm essa qualidade. Estes estão muito melhores equipados para enfrentar a vida em toda a sua imprevisibilidade selvagem e precariedade assustadora. Completa dizendo que as pessoas gentis são mais resistentes e mais capazes de recuperar das vicissitudes da vida.

Ao longo dos capítulos do livro, o autor apresenta os vários aspectos da bondade: honestidade, carinho, perdão, contato, sensação de pertencimento, confiança, atenção, empatia, humildade, paciência, generosidade, respeito, flexibilidade, lealdade, gratidão e alegria. O escritor vai contando deliciosos contos da mitologia grega, do folclore, romances modernos, do cinema italiano, contos populares africanos. No capítulo dedicado a alegria, há distinção útil entre duas noções de felicidade. A primeira é a abordagem hedonista, que trata a felicidade como prazer máximo, com o mínimo de dor. O segundo é eudemonista; a felicidade como fundamento e objetivo da vida. A bondade é a fonte da qual flui tantas outras qualidades positivas, como perdão, honestidade, paciência e generosidade.

A experiência mostra que há apenas uma maneira confiável de transmitir bondade para a próxima geração; sendo exemplo, mostrando a gentileza e bondade, não como um evento especial ou como um momento de ensinamento, mas como atitude diária, parte do dia-a-dia, fazendo as coisas boas sem alarde. Os pequenos olhinhos vão ver, copiar e compreender. Se você demonstra constantemente carinho e compaixão, é mais provável que seus filhos vão ser também assim. As crianças assistem a seus pais e outros adultos em busca de pistas sobre como se comportar.

O que mais inspira uma criança a se importar com os outros é o cuidado que ela recebe. Especialistas afirmam que quando as crianças sentem que têm uma base segura em casa, elas são mais propensos a se aventurar e prestar atenção aos outros. Fico pensando que obra prima é o homem, na razão, na forma. Só falta-lhe mesmo abraçar seus filhos e ensinar-lhes que é imensamente importante que tentemos fazer de nossas vidas, algo positivo. Definitivamente não nascemos para ser motivo de aflição ou para prejudicar outros.

O conflito entre ser e ter

Estamos sempre esperando conseguir o trabalho perfeito, esperando perder peso, esperando a permissão dos pais para sair de casa e começar a própria vida, esperando encontrar o sr. ou a sra perfeita, esperando nos livrar das dívidas antes de começar a carreira dos sonhos, esperando encontrar um propósito na vida, a espera de alguém, em algum lugar para dizer o que é importante, esperando alguém para nos mostrar como fazer diferença no mundo. Enfim quando vamos começar a viver em vez de apenas existir?

Temos medo de assumir nossas escolhas e algo sair errado. Tememos assumir um caminho e este não nos levar a realização. Por esta razão nunca estamos completamente satisfeitos com o que está acontecendo conosco no momento. Na verdade, a ideia de que precisamos de algo que não temos é a raiz do nosso descontentamento. Mesmo pessoas que alcançaram tudo o que sempre sonharam, sentem que há algo faltando. Estão tão acostumados esperar por algo mais, que tudo é insuficiente.

Cultivamos o hábito de sentir insatisfação, isto vale para ricos e pobres, por mais solitário ou extrovertido que sejamos. A percepção da falta inerente do que está sempre fora de alcance, serve apenas para garantir doses diárias de sofrimento.
Não há nada de errado com o desejo, no entanto, se você mudar sua atenção para o que você é, ao invés o que você acumulou, e se concentrar em viver este momento em sua plenitude, em vez do sofrimento causado pela ausência de seu desejo, você estará aberto para receber, para realmente ver tudo que a vida está lhe trazendo em cada momento. O estado de ser é o que importa, é o que pode trazer alegria. Não é o que conseguimos ter na vida que deve nos trazer contentamento, este não depende de circunstâncias externas.

Observando as articulações da mente, podemos descobrir que quando sentimos que algo está faltando, não descansamos até que tenhamos conseguido isso, esse artifício é apenas uma desculpa para não estarmos plenamente vivendo o presente. É sábio viver no presente porque isso é tudo que temos. O futuro é algo para se olhar lá na frente e não é algo a ser temido. É simplesmente um lugar que ainda não chegamos; então tudo o que temos é o agora.
Não deveríamos viver em espera. Esperar pode ser um convite para a decepção.

Talvez devêssemos aprender a estimar tudo o que temos, afugentar o hábito de sentir insatisfeito, que tem se tornado comum em nossas vidas. Isto é verdade para os ricos e os pobres, para os solitários ou seres sociais que circulam entre nós.
Se você se concentrar no que você é e experimentar este momento em sua plenitude, o objeto de seu desejo vem a ti, vem por si só. Ser é a coisa mais importante, porque é o que vai lhe trazer alegria. Isso não significa que eu não tenho mais metas ou projetos: isso significa apenas que a minha realização não depende mais só de resultado. Agora, eu coloco toda a minha paixão em criar e explorar minhas buscas, mas se algo não sair como planejado, com paciência, recomeço.
Quando você se vê procurando distrações, enfrentando o desconhecido. Esteja contigo mesmo, sem qualquer muleta. Não se apegue a ilusões. Mergulhe fundo, e, em seguida, mais profundo. Conheça a si mesmo. Esta é a única coisa que você realmente necessita.