Mato Grosso foi governado a partir do Parque Indígena do Xingu e outras histórias

Era dia 21 de outubro de 2003, o avião partiu bem cedo. 3 horas de voo rumo a base de apoio do Parque Indígena do Xingu, o Posto Leonardo Villas Bôas. Ciente da enorme responsabilidade que me coubera, viajei muito feliz com a possibilidade de reafirmar um vínculo de amizade honesta com a população xinguana.
Sendo eu nascida em Barra do Garças, Mato Grosso, o contato com pessoas de origem indígena, sobretudo Xavantes sempre existiu. Os Xavantes estavam sempre em Barra do Garças, no entorno da Estação Rodoviária. A liderança do Cacique Juruna, do Aniceto começou ali. A cidade absorvia com tranquilidade a presença dos índios.
Mas eu fora enviada para o Parque Indígena do Xingu, acompanhada por um bombeiro militar e por um indigenista, para prepararmos a chegada do Governador do Estado, Blairo Maggi e todos os secretários, pois ali, se estabeleceria a sede do Governo de Mato Grosso por um dia, que seria dia 24 de outubro de 2003. E esta seria a primeira vez que um governador de Estado instalaria um gabinete em área indígena.

Obviamente houve toda uma preparação para o encontro. O Governador fora efetivamente convidado por uma comitiva de líderes do Xingu a visitar o Parque e pessoalmente ver e ouvir o seu povo. Os caciques, entre eles, o líder Aritana Yawalapiti apresentaram ao Governador uma série de problemas que afligia a comunidade xinguana, como a invasão de áreas do Parque por madeireiros, o desmatamento na margem dos rios, a pobreza, a falta de escolas e toda sorte de problemas que afligem as comunidades brancas isoladas também.
A ideia seria manter um diálogo aberto com os índios, no pátio das aldeias, sem rodeios.
Minha tarefa? Cuidar de tudo. Escolher o local para montar o gabinete do governador e seus secretários, mobilizar, principalmente os líderes das 30 aldeias, 17 etnias e uma população aproximada de cinco mil índios que vivem numa área de 2,6 milhões de hectares. Localizado ao norte do Mato Grosso, ali no alto Xingu, onde estávamos vivem os Waurá, Kayabi, Ikpeng, Yudja, Trumai, Suiá, Matipu, Nahukwa, Kamaiurá, Yawalapitis, Mehinakos, Kalapalos, Aweti, Kuikuro.

Nenhuma dificuldade tirava o brilho dos meus olhos. Quisera muito estar ali, sozinha com eles, convencendo-os da minha amizade, da minha grande admiração pela cultura xinguana que levou-me a ter aulas com Sardinha , para aprender a trata-los com o respeito que sei que merecem.
Não levamos nada, senão roupas e a rede. Fomos orientados a penetrar no mundo deles e não atiçar as crianças com balas e outras guloseimas. Nossa alimentação era a água no rio, beiju de farinha, mandioca, pequi, peixe seco ou assado e animais que caçavam à noite. Nenhuma estranheza entre nós.

O Posto Leonardo tem um governador que cuida da administração, estabelece regras, vigia o cumprimento das mesmas, relaciona-se com agentes de ONG´s e governo, em visita ao Parque. Portanto, a primeira reunião foi com o Governador local, Ianacolá, que animadamente nos deu uma aula da cultura xinguana. O parque foi criado em abril de 1961, pelo então presidente Jânio Quadros, é considerada a maior e mais famosa reserva indígena no mundo. Sua criação foi resultado da luta política, envolvendo os irmãos Villas Bôas, Marechal Rondon, Darcy Ribeiro e muitos outros.
Informa-nos que o Parque Indígena do Xingu pode ser dividido em três partes: uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu), uma na região central (o chamado Médio Xingu) e outra ao sul (o Alto Xingu). No sul, onde estamos ficam os povos semelhantes culturalmente, compreendendo a área cultural do Alto Xingu, cujas etnias são atendidas aqui no Posto Indígena Leonardo Villas Bôas. Marcamos a tarde para já começarmos as visitas às tribos vizinhas, para perdirmos aos caciques que mobilizem seu povo para a reunião com o Governador.

Saímos de trator. Nos meus olhos, poeira e encantamento. A paisagem da natureza intacta, das aldeias limpas, dos milhares de olhinhos que nos eguiam quando descíamos do trator. As mulheres ficavam reclusas, nos olhavam através da palhas da oca. Assim passávamos o dia. Visitando aldeias. Na Kamaiurá, onde vivem os índios de língua Tupi, a 10 km do Posto Leonardo, uma surpresa. O cacique estava doente de tristeza. Uma de suas mulheres, uma professora branca, de Minas Gerais, havia abandonado a aldeia e retornado à vida na cidade. Eu havia ouvido essa história antes, porém não acreditei. Ele não nos recebeu. Mas nos prometeram que os Kamaiurá estariam em peso na reunião. Pobre cacique. Dor de amor não deve ser diferente no índio!

Paramos numa encruzilhada do Rio Xingu, numa curva por onde os espíritos passam à noite para visitar os parentes mortos, para dar-lhes energia boa, saúde. Impressionante como Ianacolá inspirava confiança. Tudo o que ele fazia, o que ele dizia era coisa para se acreditar. Engraçado como havia entusiasmo com a chegada da comitiva, mas estranhamente nenhuma providência era tomada. Nada mudava de lugar, nenhuma preocupação com comida diferente, com limpeza. Nada além do que existia todos os dias para eles mesmos. Pelo rádio, passávamos as informações, detalhávamos os procedimentos, adiantávamos as cobranças que seriam feitas. Relatei a existência de muitas pessoas ligadas a ONG´s internacionais dentro do Parque. Pessoas que filmavam, colhiam depoimentos, presenteavam os índios, com câmeras fotográficas, filmadoras, pilhas. Enfim, coisas alheias à cultura dos índios xinguanos.

Assim, sexta-feira, 24 de outubro de 2003, desembarca a grande comitiva, liderada pelo Governador Blairo Maggi.

A comitiva do governador era composta por aproximadamente 30 pessoas, secretários de Estado, prefeitos e deputados, poucos seguranças e assessores desembarcou no posto Leonardo Vilas Boas, no coração do Xingu. O governador foi recebido pelos caciques Aritama Yawalapiti e Kuiussi Suiá. Baseado nos relatos que enviamos para Cuiabá, ao cumprimentar os caciques o governador disse: “Nós queremos que vocês se virem para o nosso lado, por que os problemas de Mato Grosso devem ser resolvidos em Mato Grosso”.

Em seguida a comitiva seguiu para a aldeia Yawalapiti (Tribo de Coco), onde fomos saudados com a “dança dos espíritos”, uma espécie de boas-vindas e demonstração de alegria, foram realizadas dezenas de audiências entre as lideranças indígenas e a equipe do Governo. Todos sentados em círculo, em troncos de grandes árvores e eu ali, no canto, no chão, protocolando os documentos, servindo água e organizando, junto com Aritana, a ordem das falas. Foi necessário uma longa negociação para conseguir realizar a reunião na casa dos homens. È um espaço absolutamente proibido para mulheres. Mas na aldeia Yawalapiti, eu havia estabelecido um vínculo forte de amizade com o cacique

Aritana e o filho dele, Tapí, para onde me mudei na segunda noite. Já estava eu hospedada na casa do grande líder, com minha rede armada no local indicado para familiares. Isso porque, ainda em Cuiabá eu havia facilitado enormemente a audiência deles com o Governador, um mês atrás. Os Yawalapiti, liderados pelo cacique Aritana, são considerados exemplos de consciência ambiental e cultural. A aldeia, assim como em todas as outras, tem diversas interferências do mundo externo, como televisão, barco a motor e rádio. No entanto, os Yawalapiti ainda obedecem a um cotidiano tipicamente indígena: não há horário para comer, o trabalho é coletivo e os rituais religiosos são muito respeitados.

Intervalo para almoço ali mesmo na aldeia Yawalapiti, onde no fundo da oca do Aritana, havia o jirau de peixes assados, os tachos de biju e pequi cozido na água. Nesse momento, as mulheres – belas e cercadas de dezenas de crianças – se juntam ao grupo.

Mais danças. Retornamos ao gabinete, onde com segurança jurídica, qualquer ato de governo poderia ser assinado. As cobranças vieram, o tom amistoso foi se dissipando. Os mais velhos irritados com nossa presença, duvidando das nossas intenções estavam arredios. O governo estava ali, exposto na frente deles, que eram os grandes líderes, que comandavam a reunião, que nos olhavam nos olhos e nós não sabíamos direito o que fazer. O indigenista nos olhava, nós nos entreolhávamos e a tensão continuou. Certa hora, uns seis caciques, liderados por Kuiussi Suia , começaram a bater a borduna no chão. O som é forte, intimida. Aritana assume seu posto de não apenas cacique Yawalapiti, mas de grande líder do Xingu e expressa-se com os caciques no idioma de cada um deles, pede calma, confiança e é ouvido.
Quanta cultura ali em exposição. Quem dentre nós, assessores de governo, deputados, antropólogos, falava seis idiomas?

Ninguém foi poupado. Os prefeitos dos 11 municípios que fazem fronteira com o Parque, o governador, deputados e secretários receberam críticas em relação ao tratamento destinado aos indígenas. O cacique da aldeia Kuyussi Suya desafiou o governador, dizendo-lhe que ele queria as terras do Xingú para plantar soja. As críticas foram respondidas uma a uma e o governador ali também, diante dos grandes líderes assumiu que era contra a expansão das aldeias, e assegurava, que as reservas atuais não sofreriam invasão no seu governo. Aritana reclamou das grandes plantações na beira dos rios, onde os agricultores jogam veneno e contaminam a água, porque não há fiscalização e punição para os grandes.

Nos dias de festas, as noites no Xingu são passadas ao redor das fogueiras, onde os índios se revezam
dançando e cantando.

Anoitecia quando retornamos para o Posto Leonardo. Eu segui junto, pois a mim cabia servir ao Governador. Armamos as redes na grande casa de alvenaria com um pequeno banheiro para atender a todos. Muitos de nós dormimos sem tomar banho porque ficou muito tarde. As mulheres, as crianças, os velhos já haviam ido ao rio para o banho. A noite era clara, o céu muito azul. Muito cedo, pequenos vultos passavam correndo e ouvíamos o barulho do corpo caindo na água. Incrível! Como os pequeninos pulam na água!

Uma breve reunião de balanço do que ocorrera, assinatura de termos de convênio para a construção de salas de aula, doação de uma balsa, assinatura de Termos de Ajustamento de Conduta para reparar os danos causados pelo desmatamento nas margens dos rios, mutirão para fazer documentos, entre outras. Embora a assistência ao índio caiba a um órgão federal, ficou estabelecido que, em parceria, o Estado assumiria responsabilidade conjunta por muitas ações para melhorar a vida dos índios xinguanos.
Já quase partindo Percebemos que desde a chegada da comitiva no Parque Nacional do Xingu nenhum membro das Ongs´s antes vistos circulando alegremente entre os índios fora visto. Onde estariam se haviam sidos por mim convidados a participar da reunião?
Talvez tenha sido esse o único estranhamento sentido, mas não envolveu nenhum índio, então, a missão foi cumprida!

Parque Indígena do Xingu – Outras viagens
Após um sério incidente envolvendo os índios xinguanos e do entorno do Xingu na invasão e destruição do prédio da usina hidrelétrica no Rio Culuene, um dos principais afluentes do Xingu, o Governo do Estado reuniu-se em 13 de novembro de 2004, com 42 líderes e mais de 200 indios, para discutir a possibilidade da paralização da obra ou ajuste no trajeto da mesma. Os índios não estavam dispostos a ceder, pois a obra da barragem estava sendo construída a 2 quilometros da Reserva Ecológica Culuene, local considerado sagrado pelos povos do Alto Xingu, onde o deus Mawutsinin teria realizado pela primeira vez a festa do Kuarup.
A reunião tensa, acompanhada por membro do Ministerio Público Federal, não seguia a ordem das reuniões governamentais. Os caciques exaltados, pintados falavam entre si, batiam severamente a borduna no chão, intimidando os brancos. Por várias vezes houve a intervenção sobretudo do cacique Aritana, para evitar agressões. Policiais à paisana, ao redor, fiscais ambientais sendo ameaçados. O Governador e sua equipe, entre eles, eu, no centro do círculo.
As lideranças índigenas presentes ao encontro, entre elas representantes das etnias Yawalapiti, Aweti, Kuikuro, Suyá, Yudjá, Kaiabi, Waurá, Mehinaku, Nafukuá e Kalapalo – informaram ao governador Blairo Maggi que o trecho de rio no qual a obra está sendo erguida é sagrado para os povos do Parque Indígena do Xingu. O local foi palco do primeiro Kuarup , a festa anual em homenagem aos mortos ilustres dos povos do Alto Xingu e é, hoje, importante referência da história cultural de todos os índios da região. O governador Maggi disse que desconhecia o aspecto sagrado daquela parte do rio Culuene e determinou à empresa Paranatinga Energia Elétrica a paralisação imediata da obra e devolveu ao Ibama, a responsabilidade de conduzir o processo de licenciamento, por tratar-se de obra que impacta diretamente em terra indígena.

O ritual do Kuarup (nome de uma madeira) revive a narrativa religiosa dos índios do Xingu, centrada na figura de Mawutzinin, Por seu papel na criação do mundo, dos homens e das coisas, Mawutzinin tem sido comparado a Deus ou, de outra forma, pois Mawutzinin é um ser eterno, antropomorfo, responsável pela criação dos primeiros seres humanos, a partir de troncos de árvore.
A história revelada na reunião foi tocante. Um velho pajé, cujo nome lamento não lembrar-me, em meio a sisudas autoridades, perguntava:
-Como poderão os espíritos nos visitarem a noite com essa barra de concreto a travar-lhes o caminho? Seremos dizimados se não tivermos nossas almas alimentadas por nossos ancestrais todas as noites. Os espíritos sobem o rio Culuene para nos alimentar, curar nossas doenças, dar sabedorias aos pajés, proteger nossas crianças. Isso dito, em palavras que sangravam, gestos de desalento, calou a todos.
Esse foi o argumento que tocou o coração do Governador.

Visitas mais recentes – sempre Xingu
Um momento de celebração, de festa, mas ao mesmo tempo de tristeza. Uma homenagem aos mortos, uma das mais antigas manifestações da cultura brasileira. Assim foi o ritual do Quarup, realizado na aldeia Yawalapiti, no Alto Xingu, com a presença de nove etnias. O ritual começa com a chegada dos três troncos (Kuarup), à formação da cabana de palha em frente a Casa dos Homens e o choro das famílias em frente aos troncos, adornados com algodão e penas.
Acompanhamos toda a movimentação, desde a armação das nossas redes. Para o governador, participar de uma celebração como o Quarup é muito importante. “Aqui a gente vê a cultura preservada. O modo de vida, as tradições, realmente é tudo muito bonito. Aqui estão pessoas do mundo inteiro e o que é importante é que podemos ver também as organizações participando, ajudando na preservação e na manutenção da cultura”, disse o governador. A ministra Ana de Hollanda falou que o Ministério da Cultura tem tido uma relação de interação cada vez maior com os povos indígenas, daí a importância de ir ao Xingu e viver o ritual com intensidade, uma oportunidade única de um encontro com tantas etnias. Uma demonstração tradicional da cultura xinguana.

Um dos mortos homenageados neste ano foi o indigenista, antropólogo, educador e escritor Darcy Ribeiro, que em 2012 completaria 90 anos de idade e que teve seu trabalho reconhecido pelos povos do Xingu. A Fundação Darcy Ribeiro realiza trabalho voltado para as etnias indígenas do Brasil e o presidente da instituição, Paulo Ribeiro, sobrinho de Darcy, esteve presente no Quarup e falou do sentimento quase que de glorificação, de reconhecimento do professor Darcy, mesmo após 15 anos de seu falecimento. Ele foi um dos criadores do Parque Nacional do Xingu, juntamente com Marechal Rondon e Leonardo Villas Boas.
4 A ministra Ana de Hollanda foi substituída no Ministério da Cultura pela senadora Marta Suplicy, logo após o Quarup. (que pode ser escrito com K ou Q).

O KUARUP OU QUARUP

Kuarup – uma celebração tipicamente xinguana

A região denominada Alto Xingu, formada por 14 etnias, esteve em festa no final da semana. A aldeia Yawalapiti, onde vive o não velho, 61 anos, porém lendário líder Aritana, realizou o Kuarup ou Quarup, uma bela festa ritualística onde os indíos choram e homenageiam os mortos, numa cerimônia em que tocam, cantam e lutam o huka-huka, no encerramento da celebração. Esta cerimônia, que é tipicamente dos povos indígenas do Alto Xingu, move-se de uma aldeia para outra porque ela ocorre onde tiver acontecido a morte de algum membro importante para a comunidade. A família então, assume os preparativos.

O cacique Aritana é a mais respeitada liderança do Alto Xingu. Desde que assumiu a chefia dos Yawalapiti, há cerca de 30 anos, ele luta incansavelmente pela preservação da cultura e dos hábitos dos índios xinguanos. Esforça-se para mostrar aos jovens a importância de ser o que são: índios.
A Adeia Yawalapiti comandada por Aritana e seu filho Tapí, homenageou também Darcy Ribeiro e a família foi representada por Paulo Ribeiro, que dirige a Fundação que leva o nome do antropólogo. Darcy Ribeiro foi ministro da Educação, durante o Governo João Goulart, aos 29 anos, ministro-chefe da Casa Civil, vice-governador do Rio de Janeiro e senador da República de 1991 até sua morte, em fevereiro de 1997. Criou o Museu do Índio e a Universidade de Brasília, da qual foi o primeiro reitor e formulou o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu.
A Aldeia Yawalapiti é toda circular, com uma praça limpa no centro, onde acontece toda festividade da Aldeia e também onde os mortos são enterrados. É também na praça que se localiza a Casa dos Homens que causa tamanha curiosidade. Uma construção igual as demais, porém com portas mais baixas. As flautas são guardadas lá dentro, presas as viga centrais. Ali mulheres não entram. Nos dias do Kuarup, a vida na aldeia não para um minuto. A atenção se volta aos guardiões da flauta que percorrem as ocas apresentando as virgens recém saídas da clausura. Como a aldeia é circular, impossível imaginar quantas voltas tenham dado nestes três dias que lá estive. As virgens dançam atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para descansar dentro de alguma oca. Esse ritual marca a passagem da infância para vida adulta e no final, as jovens estão prontas para casarem-se.
De manhã, três troncos fixados debaixo de uma tenda começam a ser enfeitados. Ao redor deles sentam-se os familiares dos mortos. Choram por algum tempo. Depois acalmam-se. A Aldeia retorna a rotina. Quando o sol começa a se pôr o ritual reinicia no centro da aldeia. Os familiares dos mortos se reúnem, choram copiosamente, acendem tres fogueiras, ao redor das quais, entoam cantos e dançam toda a madrugada. Aos poucos vão chegando indígenas de outras etnias, a chegada é saudada com gritos. Eles acampam na mata, um pouco distante do centro da Aldeia Yawalapiti.
Ao amanhecer de domingo é dia da esperada luta huka-huka. Os guerreiros untam os corpos com óleo, pasta de urucum e pequi. Vi alguns que se submeteram a arranhões feitos nos braços e pernas com dentes de peixes para aumentar a força. Os Yawalapiti estão confiantes no guerreiro Leo, um jovem que se destacou, porque se preparou intensamente para o embate. Não perde uma luta! São mais de duas horas de lutas. Por volta do meio-dia, os troncos ornamentados são depositados no rio. É o fim da cerimônia.

2013 – Xingu para sempre
12 de abril de 2013 visitamos a Aldeia Piarassu, no Xingu, para reunião com caciques e líderes de várias etnias, numa grande reunião articulada pelo cacique Raoni e pelo líder Megaron. A pauta foi o não asfaltamento da estrada que corta a área indígena do Parque Nacional do Xingu. A decisão foi tomada entre o governador Silval e os caciques representantes de etnias do Xingu, durante assembleia realizada na Aldeia Piarassu – terra Capoto Jarinã.

“ O Xingu não é só água da invernia brava, seis meses, e outros seis meses de sol também bravo, que, no estio, deixa tudo com cor de rapé. O Xingu não é só índio pintado de urucum e jenipapo – é, isto sim, um mundo lendário, cheio de histórias fantásticas, nas quais seu povo crê, mas das quais, nós, civilizados, duvidamos, embora não tenhamos como negar.” Orlando Villas Boas.

Colaboração e competitividade no ambiente de trabalho

Não importa quantas ferramentas temos à mão, não podemos fazer quase nada sozinhos. Independente das tecnologias que usamos, todas as nossas interações ainda dependem de um elemento básico: o outro.
O comportamento humano espalha muitas barreiras à colaboração eficaz, e isso afeta a produtividade, a eficiência no local de trabalho, a harmonia e os resultados de negócios. A colaboração ainda se baseia na interação e no relacionamento humano, que nos permite agir coletivamente, partilhar recursos e talentos para resolver problemas que nenhum de nós pode resolver sozinho. E se a interação humana é o veículo para a inovação, a tecnologia apenas acelera o processo.

As pessoas poderiam ver e ouvir mais uns aos outros, face a face. Quando as reuniões pessoais não são possíveis , fazemos uso da tecnologia e realizamos videoconferência de alta definição, o que de forma alguma substitui a eficiência das discussões presenciais, onde o calor humano é determinante nas nossas relações.
No trabalho a colaboração é focada no desenvolvimento de soluções criativas, que possam melhorar o atendimento, o processo ou um produto. Socializando o resultado das nossas pesquisas, disponibilizando as informações que dispomos, podemos desenvolver soluções viáveis e novas oportunidades.

Nos últimos anos, os empreendedores sociais e dirigentes de organizações sem fins lucrativos têm abraçado o conceito de colaborar para dimensionar e replicar seus programas. Eles reconhecem que podem discutir qualquer assunto, em qualquer lugar do planeta e ter a repercussão desejada.
A cultura da colaboração move uma organização poderosa, a Teach for America, que semanas atrás foi mostrada nas páginas de uma revista. È uma organização de educação sem fins lucrativos, construída sobre uma rede de colaboradores recém-formados que se comprometem a ensinar por dois anos em escolas carentes em 46 regiões dos Estados Unidos, cujo compromisso é melhorar a eficácia através da colaboração, da partilha de estratégias bem-sucedidas em sala de aula e da renovação das estratégias de ensino.

Porém, há regras para que a colaboração se estabeleça de forma harmoniosa. Porque a colaboração entre colegas de trabalho não exclui de forma alguma a competitividade, que exercida com honestidade chega a ser salutar, pois eleva o nível de motivação. Para trabalhar dentro de um processo de colaboração precisamos desenvolver nossa habilidade de discutir e concordar com o que esperamos uns dos outros, precisamos estabelecer regras explícitas de convivência e negociar sempre para que a amizade possa florescer nesse campo competitivo também. È preciso que haja interesse, curiosidade, que se faça perguntas, que se assuma certos riscos, que se respeite as diferenças, pois as pessoas são dotadas de habilidades distintas e um pode valer-se da habilidade do outro para desenvolver o trabalho. Podemos aprender tanto a competir quanto apoiar uns aos outros.

Institucionalização da incerteza e as eleições

A democracia é um método de seleção de governantes através do voto popular, por isso o “futuro nunca está escrito, porque só o povo pode escrevê-lo”, disse Adolfo Suarez, primeiro –ministro espanhol (1976 -1981). O alicerce da democracia é mesmo um mercado livre, onde várias forças políticas competem entre si e produzem resultado temporário para preenchimento dos cargos e os perdedores não desistem do direito de participar das próximas e próximas eleições. A incerteza é inerente à democracia. Os analistas sabem o que é provável e possível, mas não são capazes de prever o que vai acontecer.

O incerto é algo que existe, mas não tem suas dimensões bem definidas, o incerto pode ser uma hipótese e como algo que não é conhecido, deve ser avaliado com prudência. Essa imprevisibilidade é o que atiça e atira as pessoas a disputarem o jogo eleitoral. Porque? Uns porque acreditam no debate racional, na possibilidade de implantar programas para melhorar a vida das pessoas, outros acreditam na estrutura institucional, que permitirá que eles realizem seus interesses através de negociações e acordos com os líderes políticos e alguns outros, por questão de debate ideológico; aquela historia de perder, mas não subverter-se ao sistema vigente.

A perspectiva de um futuro de vitória também ajuda a aceitar a derrota, pois as instituições democráticas são mecanismos de estabilidade política, que mantém regras confiáveis, que possibilitam a exposição das ideias, dá visibilidade a qualquer um e com isso as forças políticas derrotadas asseguram tempo na TV, participação no fundo partidário, etc… O resultado do jogo democrático das eleições é incerto porque é determinado pelas estratégias das forças políticas que disputam as eleições.

O arrombo de vitórias esmagadoras, as chapas puras tem sido raras ultimamente, o que se vê são as composições, coalizões e o cuidado para não lançar-se prematuramente na disputa.
Na ditadura, o governante tem a certeza dos resultados e toda pessoa que o cerca também sabe que os inimigos não serão incluídos no governo, na democracia, isso raramente acontece. A fonte da incerteza se apresenta para todos os participantes, onde nem mesmo a riqueza é fator determinante para a vitória, mesmo assim a sedução do jogo atrai muitos atores. Quem não se lembra de nomes anunciados de antemão governadores, senadores, que ficaram para trás após abertura das urnas? Pois bem, se os resultados fossem facilmente predeterminados os grupos não precisariam se organizar para lançar candidatos.

É incrível como a institucionalização da incerteza move o tabuleiro político e faz com que todos apostem mais fichas no jogo. O que pode virar o jogo político é a capacidade de organização da campanha e é aí que muitos partidos e candidatos se perdem. O autor Adam Przeworski, que escreveu “Democracia e mercado: reformas políticas e econômicas na Europa Oriental e na América Latina, explorou bem o grau elevado de incerteza no processo de eleições, pontuando que a democracia é um sistema em que os partidos perdem eleições e ponto.

Redescobrindo a intimidade

A maioria das pessoas relacionam intimidade apenas com o sexo, enquanto intimidade é o nível de proximidade que se pode ter com as pessoas. É o que acontece entre você, seu parceiro, amigos e familiares, é o momento regado a vinho, bom enredo, onde as conexões são construídas e você vê reflexos de si mesmo no contexto do outro. A intimidade nunca é monogâmica, porque ocorre em várias esferas de relacionamentos e é invariavelmente a prática da reciprocidade. Outra coisa é confundir intimidade com intensidade, e se envolver em relacionamentos onde a paixão está na superficialidade do ar. A verdade é que temos dificuldades com a intimidade, tanto para entende-la quanto para vivencia-la.

Assim, a construção cotidiana da intimidade enxerga a verdade, por isso é um processo arriscado, delicado, que nos faz experimentar a sensação de dependência do outro. Neste universo que a toda hora nos cobra para sermos competitivos, deixar à vista os sentimentos pode ser entendido como um sinal de fraqueza e para evitar a vulnerabilidade exibimos nossa força e independência. Creio que seja mais difícil ainda para os homens, que desde idade muito tenra são ensinados a não deixar os sentimentos excessivamente à mostras.

Quando alguém entra definitivamente em nossas vidas, a intimidade deve ser consentida, os sentimentos devem ser discutidos, os momentos de amor e dor devem ser compartilhados. Numa via de mão dupla devemos verificar os sentimentos dos outros e manter os nossos igualmente aflorados. Para vivermos em intimidade precisamos primeiro ter claro quem somos, o que queremos e o que é verdadeiramente importante para nós, para então permitirmos que nossa essência seja plenamente desnudada.

A bem da verdade, estamos em fase de evitar o confronto íntimo, porque há uma imensidão de relacionamentos frouxos, que nada cobram, nada acrescentam contudo. Seria como se estivéssemos escrevendo o diário intimo de um entre fabricado virtualmente . Abrimos nossa intimidade para estranhos nas mídias sociais, acreditando que conhecendo o cotidiano íntimo dos outros, possamos ter referências para avaliar nossa própria intimidade, não sei. Mas é fato que as novas tecnologias estão nos levando a uma exposição desmedida da nossa intimidade e muita curiosidade pela intimidade do outro.

Ainda assim, talvez movidos pelo medo, abrimos espaço para certa intimidade, mas mantemos, ao mesmo tempo, um relativo afastamento, erguemos uma barreira emocional por medo de sermos descobertos imortais, inseguros, imperfeitos. Medo de sermos descobertos egoístas, empenhados na nossa própria salvação.
Há estudos que afirmam que quando a intimidade do relacionamento não é satisfatória, sobretudo na vertente amorosa, para as mulheres, a separação é inevitável, o que não ocorre com os homens. A nossa cultura ainda promove a excelência do homem arredio, invulnerável, embora a intimidade reforça os traços e não deforma as formas.

História de Pajé Tamoin

“Eu e mais três parentes saímos para pescar. Eu tinha de dar peixes para os tocadores de minha flauta jacuí. Saímos cedo da aldeia. Quando chegamos ao rio, o sol já estava alto. Subiram até o foz do Kurisevo. De repente começaram a ouvir barulho de remo na borda da canoa. Olharam para o lado de onde vinha o barulho e avistaram uma canoa comprida, cheia de homens, umas oito pessoas, enfeitadas de penas na cabeça e nos braços, igual a que eles usavam.

Os remadores não olhavam para os lados, só para a frente. As canoas quase emparelhadas, mas eles só olhavam para frente, corpos fixos, só os braços se movimentavam com os remos. Um sinal claro, que não os via. Tentando explicar o inexplicável, o velho Tamoin conjecturou: – Não sei se eles existem. Mas nós os vimos, mas eles não nos viram. Gente ou visão? E não fomos só nós, muitos outros dos nossos viram também”.

A Arte dos Pajés, Orlando Villas Bôas

Comportamento de manada?

Existem indivíduos neutros, politicamente indiferentes, um contingente de apático, com comportamento de manada, que serve apenas de sustentação para as práticas que colocam a democracia em xeque, porque essa massa assume a forma que as elites políticas dão a ela.
A massa é seduzida pelos desejos, pelas facilidades, pelo desprezo pelos padrões morais naturais. Atos que invadem a privacidade em vez de chocar, seduz.

A ética e a preservação dos valores vão para o limbo. A massa que prega a execração de alguns, defende pontos de vistas tortos de outros, conta muito. Ela está em muitos postos de mando, no cerne de muitas questões de ordenamento da sociedade. Valorize seu conhecimento, sua individualidade. A liberdade moderna exige isso de você, esse desprendimento da vida embrutecida.

Participando de uma palestra numa manhã de sábado percebi a preocupação de se formar novos cidadãos, descolados desse sistema que tem convertido as pessoas em massas de manobras e não em classes sociais. Há de se cuidar para que a liberdade não acolha a tirania da maioria, que pensa em voz alta para intimidar, é preciso resguardar o pensamento político vigilante para assegurar a igualdade de condições nos debates desprovidos de utopias. A repercussão de uma entrevista, de uma escolha causa alvoroço.

Todos pensam que precisam se posicionar, se pronunciar. Porém, no cerne da questão, os temas serão resolvidos diante da vontade política de alguns poucos. Expressar posicionamento de manada nas mídias sociais não ordena a sociedade. A liberdade moderna é bem mais individualizada. Nenhum grupo tem o direito de oprimir o outro, nem o pastor nem os ativistas precisam ir as vias de fato. Os direitos e as liberdades fundamentais existem para resguardar ambos os lados.

Os cientistas sociais devem conhecer e analisar fatos existentes, livres da tutela do estado, da militância, da ideologia, das utopias. Para que exista o entendimento dos fatos é preciso ordenar as coisas, não seguir a massa, tampouco lidera-la, mas acompanhar o processo, para que a liberdade democrática conquistada não sofra arranhões ou revezes. Se não formos afoitos, se do tempo, colhermos a espera, a observância, não seremos reféns das massas, não mudaremos a inclinação de termos resguardados nossos direitos individuais. O olhar atento, compreensivo do cientista social, talvez não mude a realidade, não salve vidas, mas ajuda a classe política a entender o indivíduo dentro da sua desordem social e estabelecer políticas públicas para gestar o reordenamento do homem, livre dos movimentos que o usa como massa de manobra em determinadas situações.

A palavra chave é moderação

A  Conferencia Wisdom 2.0 ocorreu no Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde executivos das maiores empresas de tecnologia e de informação mostraram-se preocupados com os excessos das pessoas quanto ao uso das ferramentas disponibilizadas pela internet. Há uma parte do trabalho do filósofo grego Aristóteles, onde ele desenvolveu a célebre doutrina do justo meio, pela qual a virtude é um ponto intermediário entre dois extremos e as pessoas virtuosas devem apontar para a moderação em todas as coisas.

Moderação significa o estado nem demasiado pequeno nem demasiado grande, mas entre os dois, dentro dos limites das possibilidades. Em sua essência, a ética aristotélica é a ética do comedimento, da moderação, do afastamento do excesso que cria vícios. Aristóteles defendia que o meio desejável habita entre os dois extremos. Muito ou pouco exercício não faz bem para a saúde, muito medo ou pouca confiança leva a covardia, e pouco medo ou excesso de confiança pode levar a escolhas erradas.

A pessoa virtuosa visa a média, que é determinada pela razão.
Partindo desse princípio filosófico, cabe aos consumidores acionarem suas bússolas internas, capazes de apontar quando houver um desequilíbrio na utilização dos recursos que a tecnologia lhes oferece para o trabalho, para a pesquisa e para a vida social. O contrapeso para fazer frente ao estilo de vida acelerado é promover, de vez em quando, uma desintoxicação digital. E só. Porque ao discutir as vantagens e desvantagens das inovações tecnológicas, fica explícito que as mesmas foram desenvolvidas para melhorar a vida das pessoas e não para que as pessoas tivessem uma relação quase patológica com os seus dispositivos eletrônicos.

O comportamento da sociedade contemporânea modificou-se substancialmente com o surgimento da internet porque aproximou as pessoas, possibilitou um grande salto na área de pesquisa científica, elevou-se como uma excelente ferramenta de comunicação de massa e também como fonte eficaz para o comércio, devido a comodidade e rapidez. Entre milhares de benefícios está ainda a disseminação do conhecimento de modo geral e através dos cursos oferecidos à distância, o acesso ao produto final das pesquisas e as redes sociais. Uma das coisas mais impressionantes sobre a mídia social é a variedade de maneiras que você pode utiliza-la.

Desde enviar uma mensagem privada para alguém num minuto e falar com um milhão de pessoas nos próximos até conectar-se a um grupo de pessoas que compartilham interesses em comum. As redes sociais não são teias de aranhas que apenas tecem perfis falsos. Isso existe, claro, mas é você que deve superar o medo, adquirir conhecimento e definir quão profundo será seu relacionamento com os amigos virtuais. A palavra chave continua sendo “moderação”.
Conectar-se e ocasionalmente desconectar-se é uma questão de escolher o meio e evitar os excessos, que podem abalar os relacionamentos mais íntimos e autênticos. A meta prioritária dos executivos do Vale do Silício é fazer fortuna, abrir espaço para promover novas tecnologias e não empurrar as pessoas para um comportamento destrutivo.

É hora de fazer um reboot no cérebro e na alma

O Vale do Silício é uma região da Califórnia, Estados Unidos, onde concentra inúmeras empresas de tecnologia da informação e computação. Desde os anos 50, o polo tem o objetivo de gerar e fomentar inovações no campo científico e tecnológico. O nome Silício é homenagem ao próprio elemento químico (Si), que é a matéria-prima básica na produção dos circuitos e chips eletrônicos.

Não só parece, mas é de fato um grande paradoxo, que os empresários, executivos e trabalhadores do Vale estão agora promovendo uma conferência anual denominada “wisdom 2.0”, onde o tema recai sobre a necessidade de encontrar um equilíbrio no uso das tecnologias da era digital. Pregam inclusive, a necessidade de um momento de desligamento total de toda a parafernália que nos conecta. Reunidos estavam executivos do Facebook,Google, Twitter, payPal, e-Bay, Zynga, Juniper, os que mais do que outros, exaltam os benefícios extraordinários dos computadores e smartphones, porém eles foram categóricos: é necessário desligar tudo de vez em quando.

Esse fato causa estranheza vindo de um lugar onde a tecnologia é vista como uma resposta toda-poderosa a tudo. As empresas, preocupadas com o equilíbrio de seus funcionários, estão adotando formas de treinamento da mente para ajudar a encontrar o equilíbrio trabalho-vida, reduzir o estresse e promover certa felicidade no local de trabalho.
A preocupação expressa na conferência e nas entrevistas com os altos executivos das empresas de tecnologia, é que a atração de estímulo constante e a demanda generalizada de atualizações está criando um profundo desejo físico que pode prejudicar a interação entre as pessoas. As pessoas precisam estar atentas ao efeito que o tempo on-line tem sobre o desempenho de seus relacionamentos reais.

Certamente ouvir isso de líderes de empresas influentes do Vale do Silício, que lucram com o tempo que as pessoas ficam on-line, pode soar contraditório, mas passada a fase de lua de mel, eles estão se perguntando: “o que virá agora? ‘”, diz Soren Gordhamer, que organiza a “Wisdom2.0 – Sabedoria 2.0”. Eles não assumem culpas, mas advertem que é preciso dosar, equilibrar e mesmo virar a página.
Em uma das sessões, os executivos debateram se as empresas de tecnologia têm a responsabilidade de considerar o seu poder coletivo de atrair os consumidores para jogos viciantes e foram alertados que o Manual do Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais, planeja para o próximo ano incluir o transtorno de uso de Internet em seu apêndice, embora isso requeira um estudo mais aprofundado para ser considerado um condição oficial de transtorno mental. É evidente a poderosa atração que os dispositivos refletem nos humanos para se conectar e interagir, mas que esses desejos precisam ser geridos de modo que eles não sobrecarreguem o modo de vida dos usuários.

Óbviamente tudo está sendo feito com os olhos bem abertos e supor que seja possível esse desenvolvimento todo sem causar nenhum dano, seria no mínimo, ingênuo. Essa preocupação em buscar o equilíbrio no uso das tecnologias vai seguramente contra o modelo de negócios lucrativos que os executivos idealizaram para seduzir e induzir as pessoas a passarem mais tempo on-line. O desafio é dosar isso agora.

O silêncio é uma mentira

Há uma frase que não sei a quem atribuir que diz que integridade é dizer a mim mesmo a verdade e honestidade é dizer a verdade para outras pessoas. O necessário é posicionar-se, mostrar anuência, discordância, expressar os sentimentos, enfim. Embora sábios e profetas das tradições cristãs tenham enumerado os benefícios salutares do silêncio, que acalma o corpo, oferece equilíbrio, são através das palavras que desenvolvemos a empatia. O silêncio está mais associado ao pesadelo desconfortável do confinamento solitário, enquanto o ruído da fala nos iguala com liberdade e prazer.

Após confiar em si mesmo, é hora de encontrar alguém em quem confiar. Se uma pessoa te respeita, ela vai respeitar o que você tem a dizer. Para obter algo que você nunca teve, você tem que fazer algo que você nunca fez antes e manter a boca fechada serve apenas para reforçar o medo num sinal de conivência.

Não hesite, não dê desculpas pela forma como você se sente. Mesmo que tenha dificuldade para se expressar, fechar-se em silêncio, porque está com medo de falar não faz bem a ninguém. Levanta a mão, peça desculpas por sua impertinência, isso pode ser arriscado, mas faz a diferença. Fale sua opinião sempre que uma ação afetar você diretamente. Atenha-se aos fatos e ignore as emoções para aumentar suas chances de ser ouvido, declare os seus sentimentos e necessidades, sem fazer acusações.

Posicionar-se não significa permitir que as pessoas te usem como uma caixa de ressonância para expressar a opinião delas. Crescemos acostumados a guardar o que ouvimos, o que vemos, o que passamos, o que sofremos. De certa forma fomos desencorajados a expressar nossos sentimentos, a compartilhar nossos problemas, como se tivéssemos tido uma constipação emocional. Observe que há muito mais espaço fora do que dentro de nós mesmos, então quando você sentir que foi tratado injustamente por alguém, faça-se ouvir, tome medidas para combatê-lo, expresse seu descontentamento, para que tudo isso não desencadeie nenhum aperto no peito, porque se você optar por falar quando sentir-se emocional, pode comprometer o desenvolvimento do seu ponto de vista.

Não é necessário arrastar-se em incidentes do passado para falar de situações que causam dor no presente, pois a maioria das pessoas acreditam que é moralmente justificado tudo o que fazem. Ao abrir-se para externar seus pensamentos, escolha as palavras com cuidado, pensa no que vai dizer, mas diga. O silêncio pode machucar, pois a opressão só existe onde há silêncio. E a ausência de palavras pode causar tantos danos quanto falar demais.

Reflexão sobre os processos de transformação da família

Em algumas afirmações não cabem contestações. Por si, elas expressam uma realidade pesquisada, comprovada e pronto. Na defensiva, muitos querem colocar seus conceitos em fatos e dados absolutamente consolidados, como é o caso do estudo das diferentes formas de famílias estabelecidas na sociedade contemporânea brasileira, conduzido por Parry Scott, Professor titular de Antropologia na Universidade Federal de Pernambuco.

   Ao analisar dados seriamente pesquisados, aprendi que devemos nos ater a eles, frios como estão no papel. Pois bem, há uma mudança substancial na forma como se tem realizado a conjugalidade nas famílias brasileiras: Há menos casais com filhos do que havia certo tempo atrás e esses casais que optaram por ter filhos, tem em média 2,5 filhos por casal; há mais pessoas morando sozinhas; há mais mulheres chefiando famílias e há mais casais formados por pessoas do mesmo sexo.

   Há aumento significativo de famílias sem casais, casas chefiadas por mulheres chefes de família, tanto na classe pobre quanto nas camadas mais abastadas; há mais mulheres morando sozinhas do que homens. O número de homens chefes de família, sem esposas é muito insignificante no Brasil. Os homens moram sós quando mais jovens, para experimentarem um período de liberdade e individualidade.

   A separação e posterior constituição de uma nova família não encontra nenhuma estigmatização na atual sociedade brasileira. Essas alianças fragmentadas geram arranjos conjugais múltiplos; crianças com dois pais ou duas mães. Embora muitas mulheres, por temerem que uma nova conjugalidade possa causar prejuízo na relação com as filhas, principalmente, tenham decidido manterem-se sozinhas na chefia da família.

   Os arranjos conjugais homossexuais são parte de uma inegável realidade, onde os casais, que valorizam a qualidade do relacionamento, buscam ter condições, sem necessidade de acionar aparato judicial, de resolver questões de cidadania, herança e adoção de filhos. As pessoas estão se tornando avós muito jovens e a expectativa de vida tem aumentado, sobretudo para as mulheres, que vivem de 6 a 8 anos mais que os homens. Esses avós redescobrem novas atividades, lançam-se numa nova rotina de vida a sós, ou reconstroem suas vidas, formando novas alianças conjugais.

   Segundo Fox, o único agrupamento familiar elementar é o da mãe e seus filhos, porque esse laço é inevitável, é dado. Os demais, fluem, modificam, modernizam-se, são variáveis. Não podemos ignorar as novas configurações na construção da identidade social ao nosso redor. A família, é certo, é o ponto de estabelecimento de alianças entre grupos. A vida social, que é estabelecida na base da troca é um jogo complexo, onde as famílias sem casais estão sendo colocadas a prova, pois mesmo num mundo de alianças quebráveis, a valorização das alianças continua firme.