Guerra política

Numa estrutura absolutamente burocrática, ineficiente e atrasada, os homens prosperam em corrupção. Não um partido, não um homem, mas muitos homens que integram o emaranhado sistema partidário brasileiro.

Não existe política partidária coerente no país neste momento. O vice presidente Michel Temer tenta manter o controle de pelo menos metade da bancada do PMDB, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado estão na lista dos que estavam se beneficiando dos subornos do escândalo de corrupção da Petrobrás. O Partido dos Trabalhadores e a presidente Dilma, enfraquecidos não se entendem.

Menos de um ano do início do segundo mandato, a presidente Dilma vê o pedido de seu impeachment ser aceito pelo presidente da Câmara e ganhar contornos indecifráveis nos próximos episódios, já que uma pesquisa feita recentemente pelo MDA Pesquisa indica que 59,7% dos entrevistados querem a saída da presidente. É certo que a corrupção causa indignação e que ver políticos utilizarem bens públicos como se fossem patrimônios particulares causa não apenas indignação, mas náusea.

Todo esse compadrio existente entre parlamentares é sinal de negociata, de toma lá, vota cá. E isso tem que acabar.

Cunha, dissimulado, disse em entrevista que ele não estava feliz com a aprovação do processo de impedimento contra a presidente, mas que não poderia perder a oportunidade de colocar em pauta esta questão tão discutida em todo país, nos últimos meses. Assim o fez o presidente da Câmara, um político que ganhou notoriedade após assinar a autoria do ultrajante projeto  que institui o “dia do orgulho hétero” e pela movimentação de robustos valores nos bancos suíços, provenientes de intragáveis subornos em conexão com a corrupção da Petrobrás.

Tem muitos pupilos espalhados na bancada denominada BBB: Bancada do Boi, Bíblia e Bala. 342 destes ilustres senhores são esperados a votar favoravelmente ao impeachment da presidente, após serem instruídos por membros da Comissão Especial do Impeachment, composta, entre outros por Eduardo Bolsonaro e pelo pastor Marco Feliciano.

( A comissão foi suspensa  pelo Supremo Tribunal Federal até dia 16 de dezembro, porque a escolha de seus membros deu-se em votação secreta, o que não está prevista nem no regimento interno da Câmara, nem na Constituição Federal).

Percebem que até para votar um pedido de impeachment contra a presidente, acusada de atos de corrupção, o fazem burlando a lei? Os líderes de 10 partidos pró-impeachment estão em campo, coletando assinaturas e cooptando adesão de outras siglas. Em entrevistas afirmam que contam com apoio de 280 parlamentares até o momento.

Bizarro mesmo é o PMDB, cujo vice-líder Deputado Darcísio Perondi, afirma que dos 66 membros da bancada, metade é a favor da aprovação do impedimento, que beneficia diretamente seu presidente, Michel Temer, vice-presidente da República do Brasil, outra metade, contra.

Se aprovado na Câmara, a votação segue para o Senado e a presidente ficará afastada do cargo até o fim do processo, ou até por 6 meses

Inclinação de ser correto

A moralidade não deveria ser uma questão de obediência às regras. O homem que não rouba porque tem as mãos atadas atrás das costas por medo de cair em tentação e ser pego, não é um homem moral. É claro que a escolha moral não ocorre em um vácuo, do nada, ela ocorre em um contexto específico, onde as ações saudáveis ​​vem acompanhadas de motivações igualmente saudáveis.

Muitos filósofos procuram explicar por que não podemos evitar ser moral. A moralidade, além de ser um conjunto de compromissos ou escolhas, é de fato, a expressão da nossa relação fundamental e inescapável com o mundo, onde nós existimos como seres que se criam juntos e o fato de nos comunicarmos um com o outro, compartilharmos o mesmo mundo, nos coloca face-a-face em pelo menos, aparente contexto.

É o olhar para o rosto do outro que nos recorda de nossas obrigações morais. O rosto do outro é que nos interpela e desperta para a vergonha, para a culpa. Esse conceito lindo do acesso ao rosto é do filósofo francês Lévinas.

Nos tempos pós-modernos, os impulsos morais precisam ser domesticados, embora a maioria dos homens saiba lidar responsavelmente com as consequências produzidas por suas ações. Agir moralmente não significa agir contra a inclinação natural; é o agir inclinado pelo cultivo das virtudes acumuladas.

Isso representa uma aceitação do que mundo moderno tem procurado escapar: da responsabilidade. A responsabilidade moral é o oposto da obrigação de ser moral, o que baseia-se no medo da punição ou em interesses particulares. A responsabilidade vai além do que um homem pode ou não fazer pelo outro. É uma relação de cuidado para com a necessidade do outro.

A moralidade deveria existir misteriosa, inexplicável e incapaz de ser reduzida a um mero seguimento de regras que indicam o que e quando fazer as coisas, onde começam e terminam os deveres, o que naturalmente produz uma limitação na responsabilidade espontânea. Essa concepção frágil de moralidade conduzida e vigiada presta-se para o estado assumir de vez o papel de educador moral, executor e agente fiscalizador para que as regras não sejam quebradas.

O Estado torna-se o defensor da moral e da razão, o que facilita justificar suas ambições infinitas. Porém, nos estudos sobre a moral contemporânea, grande parte das teses promovem o desmascaramento dessa utilização do poder do Estado como sendo necessário.

Mas, por fim, não há uma sociedade perfeita, os indivíduos não são perfeitos, a moralidade é muitas vezes, contraditória e a incerteza sempre nos acompanhará. Mas vale agir correto, mesmo que seja para acalmar a ansiedade moral e existencial e para obter respostas às indagações diante de quadros incompreensíveis do comportamento humano.

A moralidade da qual falamos é o que todo ser racional deveria escolher. Porém, como muitas outras virtudes, quanto mais dela se necessita mais dificilmente está disponível.

A vida é o que sempre foi

Entre roubos, arroubos, frouxidão, delação, prisão, estamos encerrando mais um ano, numa conjuntura inquietadora, cheia de angústia, num estado de expectativa e de demora para o desfecho do momento político impregnado por fatos e atos estéreis.

O que há? Há um torneio de palavras disputado por juristas eruditos, que num choque de palavras, como uma brincadeira que causa um misto de terror e contentamento, propõe o impedimento da presidente, para ser julgado por uma corte rasa que, com pouquíssima exceção, concentra sua energia em negociar vantagens e escapar de suas próprias armadilhas.

Mas a intervenção no poder político é salutar quando o povo assim o quer. É com esse olhar turvo de incerteza que terminamos o ano. É provável que essa perspectiva de sombras afete nossos relacionamentos, a paz interior. Mas nós, pessoas sem glória, temos a chance de gesticular e extravasar a indignação, a aflição e apesar da modéstia, com argumentos obstinados, podemos declarar que vida não é apenas aquilo que se extrai no choque do poder e que o poder pode ter efeitos múltiplos que não seja escândalos nem a aniquilação da esperança.

Mas veja o empobrecimento e a desordem do ensino! Não são mais capazes de conter a sã rebeldia dos nossos adolescentes, que tiveram que furar bloqueios policiais, alcançar a rua e pedir apoio para que não fechassem escolas. Em parte, ao menos o cotidiano não apresenta grandes mudanças. As relações revestidas de imagens prematuras vão se estabelecendo pelo poder, se desfazem e se reconstituem em outra dimensão não muito diferente desta.

O poder vai ser sempre alimentado pela ira e pelas vilanias. Porém é sabido que toda generalização é perigosa. Não se deve colocar todos no mesmo saco.. Há tanta injustiça quanto compaixão, tanto drama quanto frustração, tanto amor quanto dor. Mas é tão difícil perceber as exceções!

Sobre tudo isso se ouve discursos inflamados, disputas públicas e muitas conversas secretas. Resolver? O que? Se cessa esse murmúrio do impeachment, logo começa um outro. Mas, dia virá em o poder será exercido no nível da vida cotidiana, onde o que vale pode ser visto e dito em meio a pequenos gestos, humildade, gentileza e honestidade, virtudes que enriquecem a vida e melhoram os homens.

Entretanto, enquanto não atingimos esse nível de civilização, a ceia do homem comum é um diálogo com o que ele passa durante o ano todo: bebedeira, violência, desentendimento dos casais, arrependimento, promessa e espera.

Esta retórica queixosa é meio típica de final de ano, assim como a contraditória esperança de que viveremos dias melhores no próximo ano.

Entre a lama e o sangue

Robert Kennedy, poucas semanas antes de morrer, fez uma declaração acalorada, criticando os institutos que mediam os índices econômicos do país. Disse ele que “os especialista consideram para seus cálculos, os custos da produção, do sistema carcerário, investimentos em saúde, contenção da destruição das florestas, a urbanização descontrolada, produção de armas nucleares, armamentos, mas não observa a qualidade da educação que estamos dando aos nossos filhos, a glorificação da violência e desordem; não medem a beleza da poesia, o amor nos relacionamentos, não avaliam a integridade das declarações políticas, a honestidade dos nossos representantes. Não consideram a coragem, a sabedoria, tampouco a cultura e a compaixão. Em resumo os especialistas medem tudo, menos o que faz a vida valer a pena”.

Robert Kennedy morreu em junho do ano de 1968. Filósofos e cientistas sociais têm sido atormentados por dúvidas sobre qual direção estamos tomando e quais são os valores que tem nos mantido juntos até agora, numa sociedade governada por políticos profissionais; onde as pessoas são motivadas a produzir e consumir cada vez mais e as atividades, inclusive lúdicas, são subordinadas a fins econômicos; a cultura perde-se na vida difusa, sem concentração.

Fazemos um monte de coisas ao mesmo tempo, displicentes e apressados para ficarmos ricos e mais felizes.

As pessoas capazes de amar dentro do atual sistema, são inegavelmente as exceções. O amor brota como um fenômeno marginal e não é tolerado em muitas ocupações, porque o espírito amoroso refuta as contradições de uma sociedade gananciosa.

Se como creio, o amor é a única resposta sã para as aflições da existência humana, não devemos nos colocar frios e nacionalistas diante das tragédias.

Se, de um lado, duas barragens se rompem devido aos avisos negligenciados por corporações gananciosas, do outro, tiros e explosões de homens bombas, deixam corpos dilacerados, amontoados, como um lembrete de atritos étnicos.

Se estamos abertos para o amor, não podemos, ao mesmo tempo selecionar a dor pela qual choraremos. Os irmãos estão espalhados além das fronteiras, além da língua e dos costumes. Chora-se por tiros, explosões e pela lama que escorre. Chora-se a morte do homem e da natureza e não, a nacionalidade da tragédia.

Entre a lama e o sangue não é possível fazer escolha ou ficar indiferente. Não há ser humano desimportante e mesmo que o mundo seja injusto, podemos ser virtuosos e inventar uma forma de medir os índices da nossa solidariedade, da compaixão e do respeito pela vida do outro. A raça humana teve a sabedoria de criar a ciência e a arte; por que não deve ser capaz de criar um mundo de justiça, de fraternidade e de paz?

Eu não sou um homem, sou um irmão

E por que devo me interessar pela fraqueza dos outros? Sejamos verdadeiramente pelo outro; façamos do fraco, forte, façamos o silencio falar, deixemos a necessidade do outro nos comandar, tomemos responsabilidade pela vida do outro nos momentos mais sombrios, nas lutas mais difíceis.

Diante da profunda desconfiança causada pelo individualismo contemporâneo, você pode despertar ou pode não despertar e continuar aparteado dessa proposta de responsabilidade pelo outro, porém, além do alarme de que estamos vivendo a era do vazio, onde o indivíduo maneja sua existência como bem quer, posso demonstrar que minha emancipação não está comprometida com a submissão e emergir para a sensatez, readmitindo o outro como o próximo.

Nem sempre rende votos a construção de hospitais e escolas, o acolhimento aos imigrantes, a defesa de políticas de proteção à criança e ao adolescente e às mulheres vítimas de violência. A visão conservadora persiste neste mundo, que é um lugar imperfeito, que finge que não sabe que não é a pobreza a causa das catástrofes estruturais, são os governos que não erradicam a pobreza, por que esta, alinha-se às promessas no discurso político, é a massa que rende boa manobra e então, por ato deliberado, os governos não avançam realmente em direção ao problema.

É apenas um exemplo. Dias atrás os jornais estamparam a notícia de que as Santas Casas de Misericórdia de várias cidades poderiam fechar devido ao problema crônico da falta de apoio. Se os governos não se dispõem a cobrir-lhes os custos, devemos ser tocados e movidos para alterar esta realidade. Devemos doar tempo e energia e quem pode, doar algo mais, para que o atendimento não seja paralisado. Não é justo milhares de olhos nos encarando, crianças nos braços de suas mães implorando pela vida e virarmos às costas. As Santas Casas servem a quem? Basicamente aos mais pobres!,

Estamos cientes que problemas estruturais não se resolvem com doações esporádicas ou esmolas, tampouco com ideias simplistas; é preciso que estejamos conectados por um fio inegável de amor e não importa se estamos lutando apenas por uma possibilidade ou, por esperança.

Há luz! Há bons homens!  E vale a pena ser bom com os outros, sem  obrigação, sem a expectativa de reciprocidade, mas porque a minha ética me guia para ações que possuem sentido e significado, porque a minha liberdade consegue construir em cima da desconfiança do outro.

A ética pós-moderna pode ser a ética do amor. E o amor, sempre encontra um meio de reafirmar-se vivo.

Corredor de espelhos

Algumas pessoas pensam que todos os comentários que ouvem são ecos de suas próprias vozes, parecem andar sozinhos num corredor de espelhos. Nada reflete senão a própria imagem e vai além da compreensão a vaidade que nutrem por si mesmos e por seus feitos, quando em verdade executam suas obrigações, tarefas pelas quais são bem pagos.

Alguns entes públicos propagandeiam seus nomes como se fossem marcas e quanto mais os popularizam, mais aparecem.

A vaidade em si, transmuta num ato de corrupção, sendo um elemento falseador, pois que a vaidade não se contenta com o que as coisas são, mas com o que aparentam ser, contanto que pareçam grandes e renda lisonjeio que prometa a admiração do mundo.

Servidores públicos vaidosos gostam de aparecer, de ser o centro das atenções, sustentando ares de superioridade quando se dirigem aos outros. E na escalada sobem estes, nervosos e ambiciosos, ávidos de consideração, que querem a todo custo serem cortejados e quase sempre são.

Sabe quando o ego parece não caber no corredor? É este o espaço onde os vaidosos colocam-se à prova, onde cumprimentos e acenos lhes são dirigidos e onde experimentam a sensação de fascínio pela fama alcançada, à custa da exposição desmedida de alguns profissionais, cujas profissões, não por códigos, mas por bom senso, deveriam ser exercidas em discrição.  Porque a mesma vaidade que inspira a retidão, muitas vezes a embaraça.

Como toda época tem suas faces, vejo homens e mulheres lutando com mesquinhez pelos ganhos ou pelo gozo da vaidade e a refrega parece ser dura na arena dos privilegiados; ali dominam as más paixões; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de generoso, de grande e de justo.

O mundo anda tão controvertido que os valores são medidos pelos extremos e não pelos méritos em si; uma ação é considerada boa apenas porque não é repreensível; é competente porque exalta as próprias qualidades.

Nos cargos públicos, de todas as esferas, não deveria haver holofotes e sim pessoas comprometidas, que postergam seus projetos mais particulares para se dedicarem aos interesses públicos. Pessoas que substituem a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder para ver florescer mudanças estruturais. A estes, que neste parágrafo se encaixam, parabéns pelo Dia do Servidor!

Mas são poucos! Os homens querem ser admirados!  E Matias Aires, em 1752 já afirmava a universalidade da vaidade, como a única virtude constante, que se insinua inesperadamente em todo mundo, em todos os tempos, em todas as profissões e em todos os Estados.

Crise de que?

A minha capacidade de analisar crises está se exaurindo. São tantas e tão distintas quanto complexas que estou tentada a enxergá-las como um sinal inesperado de esperança do surgimento do diálogo sobre os problemas que estamos enfrentando.

A maioria dos diálogos trazem no seu bojo conteúdos de crises, algumas históricas, que não foram concretamente resolvidas. Simplificaria afirmar que as crises atuais são vertentes da hipermodernidade, da flacidez dos nossos atos e relacionamentos e igualmente dos atos dos governos. Porém sabemos que há componentes mais expressivos e agressivos do que a fluidez do nosso mundo superficial.

O mundo enfrenta a pior crise migratória desde a segunda guerra mundial. Mais de 300 mil pessoas entraram na Europa fugindo da guerra e da fome. Estampa os jornais do mundo inteiro a crise da mudança climática. Mudamos de lugar, mas habitamos o mesmo mundo e aqui, enfrentamos a crise da violência cotidiana, da corrupção e da falta de boas políticas públicas para a saúde e educação.

A crise na educação culminou com a paralisação das Universidades Federais por mais de 4 meses, em protesto contra o sucateamento do ensino público superior. Lendo os jornais locais, aprendi que até uma serra esculpida por pepitas de ouro gera crise. Taí a invasão de garimpeiros em Pontes e Lacerda!

Poderíamos argumentar que a crise maior, da qual várias outras se originam, é a crise moral. E sobre esta bem poderíamos travar longos diálogos com a classe política, empresarial, com a academia e com cidadãos comuns como eu e você, até descobrirmos se não seriam as crises uma possibilidade de levar a sociedade abalada a um novo começo, a melhoria na relação uns com os outros, com a política e com a economia e melhor concepção do conteúdo que nos afeta diariamente.

A razão não nos fortalece contra os males, por isso continuo meu devaneio propondo que as crises poderiam funcionar como uma força intimamente relacionada com a construção do indivíduo e não que sejam absorvidas apenas como adventos malditos, de efeitos nefastos.

Quem sabe, os indivíduos pudessem retomar a construção de suas identidades, livrando-se dos pesos dos cenários de crise e abrindo-se para uma nova proposta de vida. Nasceu o homem para viver em uma contínua aprovação de si mesmo e de tudo o que faz e eu sem saber o que fazer com as crises, estou tentando transformá-las em algo que possa ser positivo. Algumas crises são universais, outras particulares. Porém de todas, pode-se tirar boas lições.

Alegoria do profeta fujão

A Bíblia narra a história de um profeta fujão, chamado Jonas, que recebeu de Deus a difícil missão de ir à cidade corrupta de Nínive e pregar ao seu povo até converte-los e faze-los abandonar as práticas cruéis de governar através do terror e da atrocidade.

Nínive era uma das maiores cidades do mundo, situada à margem do Rio Tigre e próxima do Mar Mediterrâneo. Era a Capital do temido e poderoso Império Assírio. A cidade tinha um aspecto admirável: era circundada por fortalezas imensas, muralhas descomunais e protegida por fossos.

Possuía belos palácios e o portal de acesso à cidade era guardado por colossais leões e touros; era tão grande em iniquidade quanto em riqueza e poder.

Os assírios travavam muitas guerras e Nínive era uma cidade de constante derramamento de sangue.Os ninivitas eram conhecidos pela crueldade com que tratavam os guerreiros capturados, muitos dos quais eram cegados para que não fugissem.

Jonas era considerado um profeta insensível, que não tinha interesse que os homens de Nínive, cruéis e inimigos de Israel se convertessem e fossem salvos. Jonas queria que Deus cumprisse o Seu juízo sobre eles. Por isso não foi para Nínive. Jonas fugiu.

Mudou o roteiro e embarcou para Társis, uma distante cidade, na direção oposta de Nínive. Deus porém, mandou uma tempestade que atingiu violentamente o navio e trouxe um grande temor sobre a tripulação supersticiosa com quem o profeta fujão dividia a travessia.

A tripulação pagã acreditava  que se houvesse uma tempestade  em  uma viagem, isso era indício de que uma pessoa dentro do navio era culpada  pelo infortúnio e que um dos tripulantes estava em pecado com seu  deus. Ao investigar chegaram à conclusão que Jonas era o culpado. Jogaram-no ao mar.

Um peixe o engoliu e o vomitou na praia, três dias depois. Jonas refletiu sobre o compromisso quebrado, sobre a punição que sofrera e levantou-se. Rumou para a corrupta cidade de Nínive, onde pregou conclamando a todos a se converterem.

Deus deu quarenta dias  de prazo para consumar a conversão dos ninivitas,  e num ato simbólico de arrependimento deviam todos fazer jejum, vestir-se de panos de saco e assentar-se sobre a cinza. Os temíveis ninivitas ouviram sómente um profeta e foi o suficiente para cessarem as atrocidades que cometiam. O povo simples de Nínive se arrependeu primeiro. Depois vieram os nobres.

Os habitantes de Nínive foram salvos pelo arrependimento e mudança de atitude de seus governantes. O profeta Jonas ficou ressentido por que Deus não puniu os ninivitas, mas Deus explicou-lhe que haveria de ter compaixão da cidade de Nínive, porque lá viviam muitos animais e muitos homens que não eram capazes de discernir entre o certo e o errado.

E se, um profeta fosse designado a vir ao Brasil com a mesma missão. Fugiria?

P.S. Li que os ninivitas recaíram e novamente seguiram seus caminhos iníquos, até que muitos anos depois, as forças do rei da Babiblonia e de Ciaxares sitiaram e incendiaram Nínive.

Café, pão de queijo e política

Nas divisões das tarefas, as compras quase sempre são tarefas das mulheres, entretanto este artigo reflete sobre as implicações para marcar a distinção social buscada por muitos frequentadores de determinado supermercado de Cuiabá.

Supermercado este, onde uma variedade de relações se estabelecem de forma direta ou indireta e onde obrigações e lazer se misturam numa simbiose interessante.

Ir ao supermercado demanda alguns cuidados e uma certa produção no visual, o que concede ao ambiente a relevância de um lugar, onde as estratégias de consumo são aliadas as estratégias de diferenciação social. Assim, ir às compras é, em sua maior parte, um meio de alcançar determinados fins.

E se todo ato de consumo tem um significado, se as relações entre consumo e política são multifacetadas, ir ao supermercado, além da intenção de se adquirir produtos que satisfazem, pode ser também uma estratégia para consolidar o poder, para abordar, despachar e encaminhar alguma agenda.

Quer encontrar um médico, marcar consulta? Encontrar um político, pedir emprego, criticar algum projeto? Tenta no tal supermercado.

O supermercado em questão é colocado como um lugar onde se estabelece relações recíprocas de cordialidade, mas também de auto afirmação, visto que consumir determinados produtos à vista dos adversários ou amigos  eleva ou nivela o status e ainda que seja a mulher, a protagonista da cena doméstica, os homens, ajustam os horários, enfrentam filas para acompanhar as esposas e  invariavelmente nos cantos ou na adega, falam ao pé do ouvido ou batem papos descontraídos com amigos que executam a mesma tarefa, com a intencionalidade de encontrar uma figura pública difícil de acessar por vias normais.

Muito raramente alguém entra e sai do supermercado sem estabelecer algum tipo de conexão e não há aqui uma análise se isso é bom ou ruim, é a constatação de que o espaço desse supermercado transcende a rotina de suprir a despensa vazia e onde o estilo de vida encontra ressonância num ambiente privado preparado esteticamente para ser um espaço público.

O supermercado surgiu no século XX, nos Estados Unidos, como um novo modelo de comércio de grandes lojas localizadas fora dos centros urbanos, sem atendimento personalizado, com mercadorias expostas em embalagens atraentes, para escolha livre do consumidor.

Essa invenção moderna foi consolidada no Brasil na década de 1970, com a entrada das grandes redes estrangeiras no país, o que alterou significativamente as práticas de consumo dos brasileiros. Ir ao supermercado é parte da organização da vida cotidiana, mas ir ao Big Lar na Avenida Miguel Sutil é um marcador social, onde os encontros entre gôndolas comunicam algo que é impossível não perceber.