O jovem deve questionar tudo – de religião a governo

Muitos adultos mentem para as crianças por uma infinidade de razões. Porque querem protegê-las, porque nem sempre sabem a resposta certa e também porque, às vezes, tem preguiça de explicar as coisas. A verdade é que as pessoas que são capazes de ensinar pensando no amanhã, não apenas no agora, produzem melhores resultados.

As crianças de hoje são extremamente bem informadas e conscientes de alguns valores morais, conhecem várias marcas de produtos, pessoas do mundo artístico e da política. Gostam de escolher as roupas, mochilas e manter um estilo. São capazes de exercerem certa independência na tomada de decisões e influenciar o comportamento de compra da família. Aproveitando essa espetacular habilidade de assimilar as coisas, é importante reforçar nas crianças ‘o pensar’ de forma crítica. Ensinar-lhes a pensar em uma sociedade governada por alguns dogmas absurdos, preconceitos raciais e moralidade oscilante. As crianças devem ser preparadas para questionar tudo e todos.

É fácil dizer-lhes o que fazer, mas não é tão fácil ensiná-los a fazer, dando-lhes exemplos diários. Fico perplexa diante de pais que tem uma resposta fácil e pronta para todas as perguntas dos filhos; porque precisam comer determinadas coisas que os pais não comem, porque não podem chorar se todos choramos, enfim… Em outras palavras, omitimos informações que possivelmente a maioria das crianças já tem quando nos perguntam.  As crianças são atentas, ouvem e nem tudo comentam, mas aprendem. As crianças tem suas teorias para todos os temas do cotidiano e também estratégias para lidar com as reclamações dos amigos, da família e dos professores.

Dias atrás fiquei chocada ao ler sobre uma estudante escocesa, de 19 anos, que fugira de casa depois da aula, tomou um avião rumo a Síria, atravessou a fronteira para o Iraque e juntou-se a um jihadista, que a havia seduzido num relacionamento pela internet. Num contato único com os pais avisou que não volta mais. Devastados, eles disseram que nada perceberam de anormal antes da fuga.

Infelizmente o mundo de hoje tem muitas faces; bondade, humildade, amor, mas também egoísmo, servidão ao dinheiro, arrogância e humilhação. As crianças precisam saber das coisas para questionar, para não serem alvos de movimentos radicais tampouco seduzidas a seguir fanáticos.

Pacifistas ou vingadores?

Desde o estabelecimento dos primeiros “estados”, a conquista ou retomada de um lugar, dá-se no curso das guerras, o que aconteceu até mesmo com tribos indígenas, como os Yawalapiti que foram atacados, sofreram baixas e mudaram-se muitas vezes, até se estabelecerem no Parque Indígena do Xingu.

A história tem se repetido insistentemente em eventos similares por toda parte do mundo e as cenas bárbaras exibidas na mídia recentemente ( pessoas decapitadas, corpos exibidos crucificados) faz-me crer que não há nenhuma maneira possível para corrigir esses problemas a curto prazo. A intolerância, o racismo, o nacionalismo exacerbado, sempre estiveram incorporados em muitas das nossas instituições e poucas são as pessoas que estão seriamente comprometidas em discutir a justiça social e trabalhar na construção da paz duradoura. É visível que o engajamento humanitário é superficial e serve apenas para agitar a opinião pública e tirar à atenção das intenções reais que movimentam a grande industria da guerra. Mostram aviões jogando caixas com comida e água para os que se refugiaram nas montanhas, mas esses mesmos aviões jogam também armas, com as câmeras desligadas.

Os Estados Unidos gastam com armamentos mais do que os 10 países que mais gastam juntos. O governo Frances e o Alemão anunciaram que vão também enviar armas para o Iraque. E para que servem as armas senão para matar pessoas?

Os homens aprenderam com a história que eles podem ocupar um país, que não o seu, por muitos anos, mas nunca para sempre. Um dia precisam desocupar e apelar para providencias pacíficas aos organismos internacionais. Os países estão fazendo novos arranjos geográficos e políticos, mudando de um grupo de apoio para outro, trocando uma oligarquia por outra, igual a passada. A democracia, os direitos civis continuam um sonho distante para muitos, porque os países poderosos, por interesse econômico e estratégico, apoiam governos que não são democráticos. Sabemos que não há anjos governando países e alguns países, segundo comentaristas irônicos, não são propriamente países, mas corporações internacionais.

As guerras custam muito dinheiro, que poderia ser investido em ações sociais, desenvolvimento sustentável. A novidade agora são as mulheres que aderiram ao trabalho nas zonas de guerras, como forma de se manterem vivas. Fico a pensar como crescerão os órfãos da guerra; que sentimentos florescerão em seus corações; se apelarão para a paz ou ressurgirão vingadores, para enfrentar o mesmo inimigo, como soldados, militantes e extremistas.

Não basta dizer: “Não é problema meu”

O espírito de não apoiar, de não posicionar-se de lado algum de determinado jogo ou disputa é uma atitude temerária, sobretudo porque a imparcialidade é o mesmo que dizer: “isto não é problema meu” e esta frase remete a indiferença ou a falta de ordem num determinado momento em que cada um faz o que quer.

Numa sociedade em que se convive com a supervalorização da exposição, da intervenção, não é possível pensar num cidadão absolutamente divorciado das questões eleitorais. Por essa razão a pseudo neutralidade é destrutiva e não possui a força necessária que o argumento deve ter para convencer um eleitor a votar ou não em uma pessoa. A postura neutra no campo político tanto pode ser usada para o bem quanto para o mal, porque quando a vontade não é manifesta, recrudescem as críticas, cria-se a divisão, a interpretação maliciosa de um silêncio traiçoeiro.

O que fazer então quando não basta admitir que todos nós somos tendenciosos mesmo quando assumimos uma posição de não participação em determinados processos? A pretensa neutralidade não seria apenas um subterfúgio para manter a cordialidade com todos os lados envolvidos na disputa? Como alguém pode isolar-se com relação a um assunto que pode influenciar substancialmente a vida das pessoas? Neutras devem ser as instituições humanitárias, que precisam operar dentro de contextos sem restrições ideológicas. Neutralidade é a posição mais rentável que político pode ter em relação a uma disputa eleitoral, porque a tomada de posição é impopular para um lado e pode custar caro. Os candidatos não apenas querem a declaração de apoio dos grandes líderes políticos, mas também serem agraciados com algum recurso financeiro.

Na contra mão da neutralidade, quando ficar invisível é a tônica do negócio, é moda, uma aberração ideológica; o palanque ampliado, com candidatos realizando atos públicos da campanha, sem ter um palanque específico em alguns estados. Isso vem ocorrendo desde as eleições gerais passadas. Com a institucionalização dessa modalidade de “swing eleitoral”, onde planos de governos não foram construídos juntos, a presumida neutralidade cai em desuso. Há partidos que elegantemente chamam de independência esta prática de liberar seus filiados e candidatos a qualquer palanque que ofereça um diferencial momentâneo ou “após a vitória nas urnas”.

O senador Cristovam Buarque, voto vencido, quando seu partido optou ora pela neutralidade, outra pela pluralidade de palanques, não poderá manifestar seu apoio a qualquer candidato a presidente da república. O senador justificou aos jornalistas: “Eu vou respeitar a decisão do diretório do meu partido, que por ampla maioria tomou essa decisão. Não estou em cima do muro. Estou proibido de dizer de que lado do muro eu estou. Esse não é assunto para jornal, é para livro de História”.

Vamos ver como vai ser conciliar o aspecto de neutralidade de um lado e a pluralidade dos palanques, do outro. A pluralidade de palanques já está em prática, quanto a neutralidade…os mais respeitados filósofos dizem que ela não existe ou pelo menos, nesse caso, não deveria existir.

Cenário desolador

Hoje em dia os homens sentem-se encurralados por uma série de preocupações que não conseguem superar no mundo cotidiano. Temem perder o bem-estar que desfrutam, ao mesmo tempo em que contemplam inertes uma conjuntura de transformações que podem abalar seus cenários mais imediatos; como a relação com seu eu, com a família e a posição econômica que ostentam. Essa condição de inquietação e um misto de indiferença é a característica do nosso tempo, onde os indivíduos tentam recuperar os valores por eles estimados e que estão sob ameaça constante.

Nessas condições as perturbações interiores insinuam que a crise do nosso tempo vai além do medo do declínio financeiro. O homem teme o definhamento da qualidade de sua vida individual, do seu interior. Isso é parcialmente devido ao desconforto causado pela ignorância de não haver reformulado o trabalho, a vida social, de não haver enxergado a ameaça quando seus valores estavam em jogo.

Para sermos melhores versões de nós mesmos devemos procurar compreender o que compromete drasticamente nossa rotina e como somos afetados pelos conflitos e pelas catástrofes sociais disseminados mundo afora. A começar pelas guerras sangrentas no Iraque, Siria, Afeganistão, Ucrânia, Gaza, Israel e tantos outros conflitos armados. As guerras causam declínio moral, afetam a economia mundial, o radicalismo recrudesce a tensão e impede que a ajuda humanitária chegue aos lugares insalubres onde há sobretudo mulheres e crianças tentando esconder-se.

Esse cenário desolador de lançamento de foguetes tem ligação com o curso de nossas vidas, vai compor a parte negra das nossas biografias. Deixada à sua própria sorte, a África vive em pânico temendo contaminação massiva pelo vírus do Ebola. As Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde não dão mais respostas satisfatórias. Sou uma parcela dos que não sentem-se confortáveis com tanta cena de horror e busco incessantemente compreender o que vai no coração do homem do meu tempo.

Sob o impacto das guerras declaradas ou camufladas as relações se articulam, criam vínculos, a vida se amplia e a natureza do homem, que desde sempre é complexa, colide com as forças do mundo exterior que o rodeia. No mundo físico, já sabemos que uma guerra só termina com a completa aniquilação do mais fraco. Não há sossego. Mas viver é agir e nossa próxima tarefa é mover o fluxo dos acontecimentos até que consigamos sair dessa condição de meros lançadores de foguetes.

Nossos valores estarão ameaçados e enquanto se faz da guerra um negócio lucrativo, que promove matança, mas eleva moral e politicamente alguns homens e nações. A vida não deve ser sempre carregada de ansiedade, de suspeitas que estejamos vivendo um equivoco e negligenciando a paz interior e a paz entre os homens.

Pequenos prazeres trazidos pelo consumo

Aproxima-se o dia dos pais, marcado, como em todos os anos, por anúncios e convites ao consumo nos shoppings e em todas as mídias e, neste momento, e, tendo me dedicado ao estudo da sociologia do consumo, o que serviu para arrefecer a demonização que tem recaído sobre a palavra consumo. A maioria das vezes que lemos sobre o tema, nos deparamos com críticas negativas e com visão puramente economicista sobre o ato de comprar.

Desde a leitura de “Ensaio Sobre a Dádiva”, do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss, entendi que, embora a sociedade ocidental moderna se caracteriza pelo desenvolvimento das relações comerciais, não temos apenas uma moral de comerciantes. Não é apenas o hábito de presentear, ou dar festas em homenagem a alguém que permanece entre nós. Essas relações são permeadas por muitos significados morais e sobretudo simbólicos. A dádiva não inclui apenas o ato de presentear, dar festas e homenagear alguém. O dar e receber é muito mais rico e nele carrega-se o entendimento de como se constitui a vida social a partir da redistribuição do carinho e dos tributos.

A cultura de um povo não está desvinculada das práticas de consumo. Quando compramos deixamos rastros de nossas preferências, da nossa condição financeira e de quem somos como seres sociais. Nosso sistema de vida vai incorporando as ações que praticamos diariamente e esse conteúdo acumulado interfere e determina o gosto, a preferência e o estilo de vida, que são variáveis conforme a condição financeira. A maioria dos autores reafirma a tese que o mundo das coisas tem sentido social, tem trajetória e muitos presentes, dados como mercadoria, adquirem valores simbólicos extraordinários.

Não cometa exageros ao presentear. Não se relacione com marcas com emoção, com passividade. Comprar não precisa ser algo ostentatório. Basta que compre o que de certa forma proporcione melhor qualidade de vida, o que possa reforçar sua identidade como pessoa amorosa e consciente. Comprar um presente não basta. A felicidade exige principalmente que seu relacionamento com as pessoas se dê em base de trocas que vão além das mercadorias, e incluem relações de afeto e respeito.

Para tanto, não permita que a publicidade corrompa seu gosto e lhe retire a sensibilidade. Comprar presente, como demonstração de amor é um gesto válido, no qual não precisa haver culpa. Diferente de consumir, que remete a ideia de usar algo até esgotar, extinguir. Vá as lojas para comprar o que entende que vai agradar ao seu pai no próximo domingo. Enfim, comprar é uma atividade mundana, mas é também um momento em que o indivíduo é visto em suas práticas conscientes e racionais. Afinal, ninguém é obrigado a comprar este ou aquele produto.

Pessoas brilhantes são confiáveis?

A inteligência é considerada um elemento que faz a diferença em qualquer situação. No entanto, a inteligência não é a única qualidade importante a ser levada em consideração.

Porém as pessoas em vez de identificar os pontos fracos, corrigi-los para tornarem-se ainda melhores, apontam as falhas dos outros para se consolidarem como um caso de sucesso. Aí mora o perigo. Simplificando, é preciso muita inteligência para ser maximamente destrutivo. A inteligência é uma dessas características, que tenta sempre se sobressair, que ilude o ego, conduz o homem a inconveniência de pensar que sabe mais do que os outros.

Ao ler os jornais facilmente identificamos os tipos que julgam a todos, que apontam solução para tudo, que se auto proclamam os “resolvedores” dos problemas. Será que estudaram os fatos, que ouviram especialistas, que submeteram suas teses para análises de sociólogos, cientistas políticos ou tudo não passa de presunção mesmo? Tenho observado que quem pesquisa tem muitas dúvidas, elaboram uma e outra teoria, conferem determinados autores, não fazem previsões ingênuas, não resolvem os problemas seculares  numa frase. Será que o povo percebe que as coisas não são tão simples assim?

Um dos grandes desafios de alguém que se propõe a dar visibilidade as suas ideias é reconhecer que as pessoas não necessariamente veem o mundo da mesma maneira, que as demandas de uns não são as prioridades de outros, que a ideologia ainda repercute nos debates e que é salutar o debate, o pensar diferente, querer diferente, votar diferente. Não existe resposta pronta para os problemas que ainda não se conhece a fundo.  Até diria infelizmente, mas as pessoas mais talentosas podem ser gestores ineficazes. Nem sempre bons jogadores se tornam bons técnicos quando envelhecem… Passar conhecimento, aplicar o conhecimento é outro nível de habilidade.

Estamos sempre assistindo lição sobre o uso da razão e da inteligência para formar uma equipe competitiva e absolutamente voltada para a vitória do coletivo. Foi uma lição que primou pela disciplina e treinamento implacável, principalmente para manter a forma, ocupar e controlar o espaço. Este é o trabalho que nos dias de hoje define o que é moderno e necessário para vencer, sem desperdício de horas, sem abuso de imagens, sem estrelismo. Será que conseguimos trazer esse pragmatismo para a vida pública?

A vida está acontecendo em um ambiente de constante mudança e a alternativa que temos é nos adaptarmos constantemente as novas formações dos grupos políticos. Não há muito espaço para jogadores individuais, porque somos parte de um sistema que tem um número de peças interligadas e que é definido pela capacidade de um relaxar e confiar nos companheiros de equipe. A vida, como uma partida de futebol, é um jogo coletivo e todo mundo tem que desempenhar o papel que lhe é atribuído. Não há mais nem menos onde impera a equidade.

Rituais e Performances Permeados Pelo Jogo Político

Não se faz cerimônia pública inventando posições, ordem de precedência para entrada em recinto e ordem de falas das autoridades. O Cerimonial  Público tem as normas e a Ordem de Precedência das autoridades publicadas no Diário da União, através do Decreto Presidencial número 70.274, de 9 de março de 1972. Desde então, embora questionado em alguns pontos, visto que o decreto foi elaborado durante o regime militar, é o que temos para seguir e nortear os trabalhos dos cerimonialistas públicos em atividade no país, profissão que exerço desde 1997, quando filiei-me ao Comitê Nacional do Cerimonial Público e submeti-me a estudos e estágio no Palácio do Itamaraty.

Tudo o que se vê num grande e bem organizado evento com presença de autoridades é minimamente colocado segundo o decreto; a posição das bandeiras, horário de hasteamento e arriação das mesmas, quem é chamado primeiro numa cerimônia, onde senta e quem senta-se à direita de quem. Portanto após certo tempo, estes procedimentos tornam-se automáticos, visto que o decreto é lei, devemos segui-lo. Porém, com bom senso, ousadia e anuência da maior autoridade na cerimônia, é possível proceder sutis alterações.

O que pretendo mostrar é que alguns ritos são protocolares, inerentes ao cargo, independente de quem o ocupa e a intensidade com que os ritos são performados. Muitas vezes dentro de uma postura sóbria, meramente protocolar, mas na maioria das vezes, o ato de performar transforma a cerimônia num grande palco de teatro. Ler Victor Turner é essencial para conseguir compreender a amplitude da palavra ritual, que o autor emprega na maioria das vezes, para revelar traços ou restaurar laços sociais corrompidos pelo tempo ou pela própria dinâmica da cultura. Para Turner as propriedades rituais são imprescindíveis para compreender a vida cotidiana. Victor Turner, antropólogo, cuja mãe era atriz, viveu as voltas com o universo das artes cênicas. Richard Schechner, cuja origem vem do teatro, interessou-se por antropologia e pelos estudos de Victor Turner, ao qual também critica. Ao ler ambos, que dialogam incessantemente ficou um pouco mais confuso diferenciar o rito da performance. Mas é preciso diferenciá-los?

Schechner , entre as várias definições de performance diz que: “performances consistem de comportamentos duplamente exercidos, codificados e transmissíveis. Esse comportamento duplamente exercido é gerado através da interação entre o jogo e o ritual. De fato, uma definição de performance pode ser: comportamento ritualizado condicionado/permeado pelo jogo”. (SCHECHNER, 2012, p. 49)

Dentro dessa definição, mudo meu olhar e enxergo nitidamente que o que procuro mostrar são performances permeadas pelo jogo político e nesse contexto cabe exatamente o que diz Schechner mais adiante: “ o ritual transforma as pessoas permanente ou temporariamente”. A performance não é necessariamente uma representação no teatro do faz-de-conta e encena-se fatos marcantes da vida cotidiana. Coloco nesse contexto, as cerimônias de assinatura de convênios com relevante investimento a ser anunciado. O cenário é montado para favorecer o anúncio do valor, que é enfatizado pelo narrador, anunciado pela autoridade, com gestos largos que podem ser lidos à distância.  É, como disse Turner e depois lido em Schechner,  um ato restaurado, visto que nenhum anúncio é tornado público sem antes haver sido discutido e acertado nos bastidores.

As performances políticas estão em toda parte, todos os dias. Nas ocasiões de visitas oficiais de altas autoridades, a performance antecipa-se à construção do próprio cenário, que é revestido de um conteúdo próprio para construir a confiança e convencer o público. Os rituais que entendia eu, estarem mais ligados a coisas da tradição e portanto eram tratados com mais rigor, são  performados sem nenhum pudor. Schechner deve estar com razão quando ao concluir o texto diz que em toda atividade humana deve existir muitos atores.

Alegria X Tensão

Estamos em 2014. Mas a  maior aposta para o Brasil realizar um grande mundial já havia sido feita em 2007: a alegria. A expansividade do povo brasileiro já havia sido exaltada por quase todos os presentes na irreverente comitiva brasileira como uma grande vantagem do país na realização da maior competição de futebol do mundo. O presidente Lula afirmava que este ingrediente seria o diferencial do Brasil em relação a outras Copas. “O comportamento extraordinário do povo brasileiro, o tratamento que este povo dará aos turistas, estejam certos que marcará a história das Copas”. Todos os vinte membros do Comitê Executivo da FIFA votaram a favor da candidatura do Brasil.

O futebol é um esporte que causa certo torpor e amnésia. Como torcedores, esquecemos os maus resultados e olhamos sempre para frente, numa esperança cega. O futebol tem em si uma ligação direta com a sensação de felicidade, de alegria, de energia. É um esporte indicado para diminuir a ansiedade, já que os estímulos que provoca, curiosamente imitam os efeitos dos antidepressivos no cérebro. Felicidade e futebol são semelhantes de maneira significativa ​​na liberação de endorfina, um hormônio que causa sensação de bem-estar. Ao que tudo indica a endorfina tem o poder de contagiar os torcedores, transmitindo-lhes alegria em dose dupla.

Na política, as coisas ocorrem de forma quase inversa. O povo não demonstra a mesma capacidade de externar alegria. Os políticos enfrentam altos níveis de stress, são enviados para zonas de guerras ideológicas, onde a energia é sugada e a confiança abalada pela instabilidade típica da movimentação política. Faz-se campanha com cansaço, com sono, com ansiedade e com raiva. E estes fatores, todos negativos, podem afetar de forma crítica a tomada de decisão dos candidatos. No futebol, a tática parece absolutamente simples; é só controlar a bola e passar, controlar e passar, combinando movimento com velocidade o tempo todo. Na política tudo é bem mais complexo.

Embora eu dê muito crédito ao sistema político e entendo que nos últimos anos as instituições públicas tenham sofrido um grande teste de estresse, questiono as condições sentimentais em que ocorrem as eleições. O povo, de um lado raivoso e os governos, de certa forma impotentes para corrigir tudo o que fora assinalado como errado. Vê-se que, diferentemente do futebol, onde a vibração é trocada, na política não há uma conexão harmônica entre as manifestações dos eleitores e os discursos dos candidatos.

Na política respira-se tensão desde a confirmação dos nomes dos candidato à composição das forças políticas que se juntarão numa chapa.  Agrada-se aqui, descompõe-se ali. Depois de muitos anos, aliviada constato que a agitação e as mudanças que a política causa não conduzem necessariamente a uma instabilidade dramática, que possa preocupar. Na política há muito jogo de cena igual no futebol, para valorizar o passe em futuras negociações. Em tempo de Copa do Mundo e eleições, confirma-se apenas o futebol como a verdadeira paixão dos brasileiros.

Violência Verbal

Deveríamos ter mais disposição para ouvir a opinião dos outros. A pessoa que não ouve e só defende seu ponto de vista não consegue criar harmonia ao seu redor, pois que os nossos pontos de vistas adquirem nossos conceitos principalmente quando falamos de política, futebol e religião. Tratar destes temas é complicado e exige muita diplomacia e gentileza, porém, quando sentimos que nossas verdades são maltratadas ou contestadas com veemência, a tendência natural é adotarmos comportamento defensivo e assim começam a brotar justificativas de todas as maneiras na tentativa de demonstrar que nossa verdade e argumentos são invencíveis, o que invariavelmente nos leva a um estado de violência verbal, como vê-se agora quando se discute política e futebol.

Enquanto deveríamos aprender a valorizar a opinião divergente, interpretá-la com sabedoria e extrair as valiosas qualidades que há no conhecimento alheio, o que percebemos é que a intolerância está no ar, sobretudo nas redes sociais. O candidato e o time defendidos com postura tolerante e cortes não perdem a força na defesa de seus ideais e estratégias para vencer.

Não cabe mais travar lutas ideológicas infindáveis, em que a única opinião acertada é a sua. A política hoje é costurada em base bem mais flexível, o futebol tem apresentado táticas bem mais elaboradas e técnicas, razão pela qual não houve disparidade gritante entre as seleções, o que favoreceu a chegada de países inesperados como Costa Rica e Colômbia nas oitavas de final.

E se no meio destes temas tão diversos quanto as pessoas que os discutem houvesse a aceitação do comentário do outro, com respeito e com zelo? As discussões acirradas, independentes de suas inclinações ideológicas, servem apenas para suprir as necessidades de seus seguidores, não explora a riqueza do contraditório.

O esforço que você faz para entender de política e futebol, o outro também faz, mas ao se definir quem apoiar no futebol ou na política vários fatores determinantes são levados em conta, segundo o critério e vivência  de cada um. Comentaristas esportivos sofreram verdadeiro linchamento verbal ao ponderarem que não houve por parte do jogador colombiano uma tentativa deliberada de se tirar o Neymar da Copa do Mundo. Nenhum comentarista negou a violência desmedida da falta, a gravidade da lesão, mas o povo queria mais, estava sedento por vingança.

Em muitas conversas sobre a campanha política que se inicia, repete-se os mesmos atos de intolerância com o pensamento oposto. Um erro comum que ocorre com o pensamento cotidiano é essa tendência das pessoas gerarem evidências e testarem hipóteses de forma inclinada apenas para suas próprias opiniões. Este é naturalmente um viés equivocado e contaminado que nos faz olhar o mundo sob uma perspectiva egocêntrica.

Críticos Contumazes

Para muitos, ser inteligente, significa ser crítico. As pessoas devem ser críticas, os jovens especialmente precisam ser críticos. Isso é bom indício que a pessoa não é enganada facilmente, além de ser um sinal de erudição. A crítica é uma atitude de desaprovação de alguém ou de alguma coisa com base em falhas, criticar é apontar coisas que de certa forma não faz sentido para quem elabora a crítica. Cuidado, porque as críticas podem conter conteúdo ideológico, religioso, entre outros e pode mais parecer um soco no estômago do que uma dica útil.

A reflexão crítica é essencial para o crescimento intelectual, A crítica mais parece um soco no estômago do que uma dica útil e quase sempre tem a conotação de um ataque pessoal. A crítica provoca atitude defensiva, que funciona como uma resposta impensada. A crítica pode também ter o tom da vingança.

As críticas expõem as diferenças entre as pessoas, as diferenças são quase sempre fontes de conflitos, embora naturais e inevitáveis. Criticamos abertamente o estilo de vida, a cultura, as experiências passadas, a moral e os valores do outro e raramente nos expomos à nossa própria auto crítica. Ou seja, somos impiedosos para julgar, para discordar e extremamente lenientes com o que nos diz respeito. Criticamos sobretudo ações, das quais somos alijados, projetos dos quais não somos beneficiados. Criticamos quando estamos com raiva, quando somos preteridos. Isso constrói?

A crítica como ataque é um estilo letal de ciclo negativo que cria apenas impasses. É preciso deixar claro que não existe um mundo sem mediação, imparcial, prisioneiro dos pontos de vistas. Hoje, tudo o que sabemos é reforçado, validado pela internet, o que de certa forma, enfraquece nossos julgamentos qualitativos, porque não precisamos nos aprofundar para entender os fatos. O grampo capta as conversas, a mídia brinca com as palavras e o que era para ser sério, vira crítica generalizada. E generalização conduz a inevitável vulgarização.

Engraçado observar como criticamos o estilo de vida do outro, a questão do gosto, da música, da arte e da moda. Recaem críticas sobre o pensamento político, o agrupamento ideológico. Tudo. Criticamos absolutamente tudo.   Parece estranho a difusão das vozes que se elevam em coro contra o que foi feito, contra o que há por fazer. Temo estar certa ao julgar que as críticas mais contundentes denotam extrema desconexão com a vontade de acertar, de mudar o rumo. Soam como ecos distantes de jovens mais temerosos do que corajosos para mudar o mundo.