Derrubando estereótipo de País do samba e futebol

Se a Inglaterra inventou o futebol para o mundo, o Brasil encarregou-se de tornar o esporte popular e tem o time mais bem sucedido da história, com cinco títulos de campeão mundial. Há registros que colocam o futebol como o esporte mais popular do mundo e desde 1930, a Copa do Mundo revela-se como um evento multinacional, multi racial, que tem sempre aspectos culturais ou políticos envolvidos na sua realização. O que entendo ser absolutamente compreensível, visto que é um momento em que o mundo inteiro está de olho no que acontece no país sede e é garantida a divulgação das reivindicações, a exposição das mazelas em todas as mídias nacionais e internacionais. O futebol pode funcionar como uma ferramenta interessante para mostrar que mudamos. Nos dias atuais nem os grandes times nacionais tem conseguido colocar grande público nos estádios.

Li com surpresa que até o sisudo banco de investimento Goldman Sachs produziu um relatório interessante sobre a copa do mundo, sob o título “A Copa do Mundo e a Economia em 2014”. O relatório é amplo e analisa a evolução econômica do país sede da copa, dos países participantes e estatisticamente indica o possível vencedor. Não tenho a intenção de deixa-los curiosos.

As seleções foram estudadas desde 1960 e também levaram em conta que os times sul-americanos venceram os Mundiais disputados no continente. Acertadamente a previsão para o Brasil vencer na Copa na Africa do Sul, era de apenas 26% de chance. Deu no que deu. O Brasil foi eliminado nas quartas de final. Economicamente, o estudo aponta que apenas nos três primeiros meses após a copa, há certo ganho no mercado de ações para o país vencedor e país sede, depois esse ganho tende a diluir-se e tudo volta ao normal.

Uma deliciosa leitura sobre as Copas do Mundo é o livro de James Montague, jornalista e escritor britânico, que documentou vários jogos de classificação para as Copas e reforça a relação estreita entre futebol e política quando relata o caso ocorrido com a Seleção da Eritréia, um pequeno país africano, cujo time nacional foi jogar  em Kampala, capital da Uganda pela Associação de Futebol da África Central e do Leste. Após a derrota de 2 X 0 para Ruanda, todos os dezesseis jogadores desapareceram, ou melhor desertaram e pediram asilo na Uganda.

Lembra James Mantague que não é raro jogadores da Eritréia aproveitarem-se das viagens internacionais para fugir do País. Isso ocorreu com seis jogadores em 2007, doze jogadores fugiram em 2009 para o Quênia e 13 jogares já haviam fugido para a Tanzânia. O técnico atual do time menospreza os jovens fujões e garante que eles foram substituídos por uma nova geração de jovens raçudos, nos quais ele “quase acredita”. Já a ONU alega que centenas de eritreus fogem do país todos os meses por causa do governo repressivo e da extrema pobreza. Viu como funciona? O futebol garante a mídia para dar visibilidade às denuncias também.

O homem que vende a sua versão dos fatos

A utilização cada vez mais frequente da delação premiada levou-me a ler e leigamente tentar entender a lógica que movimenta esse instituto dentro do ordenamento jurídico do Estado. Poderia ter recorrido ao filho e amigos advogados brilhantes, mas decidi enfrentar minha limitação intelectual e até reproduzir frases que li sobre essa prática que tem provocado reações diversas e aguçou-me a curiosidade.

A delação premiada é um mecanismo criado por lei para tentar resolver alguns crimes com maior facilidade e baseia-se na ajuda de um réu, que confessa suas práticas ilícitas e delata outras pessoas por envolvimento com as mesmas. Simples assim: o Estado através da delação premiada deixa de castigar a caráter o autor de um crime e lhe oferece um prêmio em troca de informações. Um negócio qualquer. Aqui o cidadão vende a versão dos fatos, com as provas que possui ou segundo os interesses dele.

Muitos advogados fazem duras críticas ao uso do instituto da delação premiada, chegando a afirmar que não fariam a defesa de quem dela se utilizasse, por entenderem que quem faz uso da delação são pessoas sem senso ético, que para obterem benefícios negociam com a polícia e com o Ministério Público prestando informações que só interessam aos órgãos envolvidos nas acusações. Muitos dizem que os delatores podem dizer o que é útil para a acusação e são, muitas vezes, induzidos a fazerem declarações tendenciosas.

Ainda que o instituto possa merecer críticas e deva ser utilizado com cautela, é importante saber que a delação premiada não é invenção da legislação brasileira. É amplamente aplicado nos Estados Unidos e na Itália. O fato de a legislação prever a delação premiada significa, a priori, o reconhecimento da ineficiência do Estado ao apurar pelos métodos tradicionais os atos ilícitos praticados por organizações ou pessoas. Achei difícil entender como o legislador, que dá tratamento rigoroso a determinados crimes, possibilita ao membro de uma quadrilha a negociação com o aparelho jurídico do Estado. Incongruente não?

Certo é que é temerário tomar as declarações do delator como verdade absoluta. Vale refletir sobre a valoração que as palavras do acusado assumem no processo. Assim sendo, delação não pode servir como prova absoluta contra aquele que está sendo delatado, porque muitas vezes, movido por vingança, acordos espúrios e até para salvar a própria pele, o delator acrescenta à história fatos irreais, contornos inexistentes. Existe a possibilidade de o delator colaborar falsamente com a justiça, com a finalidade de usufruir dos benefícios oferecidos pela lei, entretanto, se descoberto, pode perder as regalias e voltar a ser réu comum.

Nem tudo o que li foram críticas. Há os que reconhecem a delação premiada como um instrumento legal e até democrático, colocado à disposição do Estado. Em último caso, é um mal necessário, valendo-se da máxima de que os fins justificam os meios.

Buracos Negros

Apesar de ser da natureza humana ampliar os seus horizontes e desvendar os territórios inexplorados, ainda existem lugares misteriosos na terra, onde escondem-se seres humanos numa ação deliberada de violência ou acidente. Acreditávamos que a tecnologia moderna tornaria o mundo um espaço menor e mais controlado, já que podemos olhar praticamente para qualquer destino pela internet, conferir fotos, vídeos, e até mesmo conversar com as pessoas nesses lugares distantes em segundos. No entanto, mesmo com toda tecnologia disponível nos dias de hoje, ainda existem algumas fronteiras inexploradas na terra, onde ocorrem fatos impressionantes e desafiam a inteligência das autoridades políticas e científicas.

Voltando à Idade das Trevas, quando as pessoas desapareciam o tempo todo com as Cruzadas e doenças, no mundo moderno tais desaparecimentos são quase impossíveis. Quando as pessoas desaparecem geralmente foram mortas ou sequestradas, mas o ponto é que normalmente tem-se algum tipo de pista. Há empresas especializadas em rastreamento e monitoramento dos cidadãos e embora achem extremamente difícil uma pessoa apagar literalmente seus rastros sobre a terra, há pessoas que evaporaram sem deixar pistas e isso deve ser devastador para as famílias. Como entender que uma pessoa que você ama desapareceu sem deixar vestígios?

As pessoas somem hoje vitimadas pelo tráfico humano, que é uma prática moderna de escravidão e alimenta uma crescente indústria criminosa com bases no mundo inteiro. Atua no recrutamento, acolhimento e transporte de pessoas para fins de exploração. As vítimas de tráfico humano são pessoas forçadas a práticas sexuais ilegais ou trabalho escravo em fábricas, fazendas e grandes corporações. O tráfico sexual – pornografia, prostituição e abuso sexual de crianças -, é um dos setores mais lucrativos do comércio ilegal de pessoas. Na Nigéria mais de 300 meninas foram sequestradas por um grupo extremista, algumas conseguiram escapar, mas 276 continuam ainda desaparecidas e devem ter sido vendidas como escravas sexuais em países vizinhos, onde os controles do fluxo migratório nas faixas de fronteiras são frouxos exatamente para contribuir com as práticas criminosas.

Como explicar a invisibilidade de vários caminhões carregados de garotas? Pois bem, ainda nessa época da internet, da NSA, da comunicação instantânea, é possível, embora raro, que um avião com 239 passageiros desapareça, exatamente porque nenhum equipamento projetado para transmitir a posição da aeronave funcionou e sobre seu destino até agora, nada de concreto se sabe. Percebemos agora que um Boeing 777 é algo muito grande para sumir deliberadamente, mas aprendemos que o oceano é imensamente muito mais vasto do que imaginávamos.

Vê-se portanto, que na terra, céu e mar há mistérios que nossa eficiência não consegue rastrear.

Não!

“Não vou impedir a candidatura de ninguém em lugar nenhum, não vou travar o direito de nenhum postulante ser candidato sob pretexto de manter a união em torno do meu nome. Não sou candidato a Governador”, anunciou o senador Blairo Maggi em entrevista à imprensa, semana passada.

Há uma cultura em torno da qual nos sentimos pressionados a dizer sim aos apelos de amigos e dos grupos aos quais pertencemos. Mas real, é dizer sim quando há inspiração, vontade, desafios a serem vencidos; quando todo o roteiro causa certo encantamento e provocação. É isso que move os homens. É preciso estar confiante e seguro para colocar-se numa posição de negação a disputa de um pleito, visto que para muitos, isso seria a realização de um sonho alimentado há anos.

Mas devemos entender que somos todos seres humanos com funções iguais, mas com aspirações absolutamente distintas e que a exposição que o exercício do poder causa ao cidadão e família, a invasão à vida privada deve ser algo que contribui enormemente para desaquecer a tesão. Esse mapa de contrariedades, a falta de estímulo para brigar por uma posição já conhecida é compreensível. Ademais, Blairo Maggi é um senador que está na metade de um mandato eletivo. Não estará, portanto, distanciado do núcleo do poder político do Estado.

Deveríamos todos aprender a dizer “não” aos postos que não estejam alinhados com nossos ideais no momento, aos projetos que são muito mais de outros do que nossos, a uma consumação de tempo e imagem para debater algo que repetidamente temos negado. Por isso somos livres! Para exercer o direito de negar aos outros o que nos pedem. Muitos políticos parecem entrar na política para serem aplaudidos, para serem unanimidades. Mas é importante contradizer-se e ao grupo também, é importante reconhecer quando o momento não é propício, quando a vontade não é suficiente para abraçar o pleito. Jamais vai existir uma decisão política que agrade a todos. È importante fazer o que não é convencional em política: dizer não. Creio que os eleitores gostam de políticos que vão direto ao ponto.

Repetidamente dizemos sim quando nosso intimo diz “não”.  Vaidosos, temos o desejo de sermos aclamados, de sermos acolhidos e temendo rejeição e incompreensão, acabamos cedendo e nos sobrecarregando com compromissos que não validam nossa competência. Se ao contrário disso,  chamamos a decisão para nós mesmos, estamos imediatamente criando um ambiente mais harmonioso, que pode beneficiar a todos que nos rodeiam. Talvez valha aqui a máxima de que nunca devemos comprometer nossa paz, seja para nossos filhos, cônjuges ou amigos. É imprescindível estarmos motivados por impulsos vibrantes, para que nossa energia seja utilizada de forma contributiva. Outro, porém, é que quando dizemos “não”, a negação é feita num determinado momento e não há mal nenhum em mudar de opinião, contanto que seja para melhor.

A Lei do Talião

  1. Versículo 23. mas se resultar dano, então darás vida por vida;
  2. Versículo 24. olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé;
  3. Versículo 25. queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.

No México, na Argentina, no Brasil e provavelmente em muitos outros países está havendo uma onda de reações violentas para responder aos atos de violência praticados por marginais. Nesses casos, as pessoas estão tomadas por sentimentos de vingança e não por sede de justiça.

E ora, se não somos marginais, se repudiamos o disseminação da violência, não devemos agir como tais. Não mais vivemos em estado de natureza, sem regras, sem leis e por mais que se esteja desiludido com o sistema, com a frouxidão das punições, do cumprimento das sentenças, quando “fazemos justiça” com nossas próprias mãos, estas se igualam à mãos dos criminosos, nos colocamos acima da lei e tornamos carrascos. Sem leis, já não seremos uma sociedade civil e vamos degenerar nossa condição humana para uma situação degradante e sem controle.

Ademais, não podemos retroceder ao Código de Hamurábi, uma compilação de leis punitivas antigas e rígidas com 282 cláusulas, decretado pelo rei da Babilônia, Hamurábi, por volta do ano 1772 a.C., para regular as obrigações e deveres nos relacionamentos familiares, religiosos e comerciais e nos desvios de conduta de qualquer natureza. Composto pelo Manual dos Inquisidores, a Lei das XII Tábuas e pela Lei do Talião, o código impõe uma pena para cada tipo de delito, sobretudo observando a Lei do Talião, palavra que vem do latim e significa “tal”, “igual”, o que reforça a tese de se restituir na mesma medida o ato de violência sofrido, ou seja, estabelece o princípio da igualdade entre o crime e a punição.

Contextualizado, é óbvio que o Código de Hamurábi e seus compêndios foram decretados pela conveniência dos homens em converter em leis, suas necessidades sociais para regular a vida humana na sociedade da época.

Eu porém, continuo a defender, a desbarbarização dos seres humanos, embora reconheça que temos vivido tempos de violência levada às extremas consequências e não saiba com que arma poderosa venceremos a violência que planta horrores em nossos cotidianos. Mas não existe violência justa, não existe violência necessária.  Nesse sentido, repito, além da Bíblia, escrito de Norberto Bobbio, para quem o princípio ético de não matar é absoluto, imperativo e categórico.

O original do Código de Hamurabi, possivelmente o primeiro escrito jurídico do Ocidente, com estabelecimentos de normas penais consideradas muito bem elaboradas para o seu tempo, pode ser visto no bloco original de pedra em que foi escrito no museu do Louvre, em Paris.

É da natureza do homem buscar poder e privilégio

Debruçada em estudos, debates, seminários sobre as implicações que o distanciamento entre os homens pode causar na construção de uma sociedade mais justa, li em Hobbes que jamais nos encontraremos numa situação de igualdade, porque é assim o homem, um caçador natural de poder.

A igualdade pode ser fundamental, mas a desigualdade é promovida pelo próprio homem, que avidamente busca por bens e formas de recompensa, nem somente financeira, mas também em termos de poder, para distanciar-se dos outros e assim, do alto do poder conquistado, dominar os que estão nas camadas abaixo. Enfim, as desigualdades sociais entre um indivíduo e outro dentro das sociedades estão em toda parte e é promovida por causas variadas, como fator econômico, poder, status, e está também associada a questão da cor e do gênero.

Em vários autores, entre eles, Platão e Santo Agostinho, a desigualdade social é confirmada como um elemento da natureza e não produz necessariamente resultados maléficos. Dentro desse contexto, nos lembramos que a sociedade idealizada por Platão, já seria desde o princípio, estruturada em classes distintas; os guardiões, os auxiliares e os trabalhadores. Maquiavel, ao ensinar a governar as massas, evidencia a desigualdade entre uma força e outra. A força que governa teme a massa, exatamente pelo distanciamento em que se encontram e pelos interesses antagônicos que defendem.

O Estado bem poderia ser o agente que viabilizaria a existência da sociedade em suas diferenças, ser o equilíbrio entre as classes. Mas o Estado legisla para proteger a propriedade e a elite que a possui. Os indivíduos que ocupam posições diferentes, tem naturalmente interesses distintos. Por conseguinte, haverá sempre uma classe dominada e outra dominante, que por ter poder, controla ou influencia as ações do Estado.

Em meio a criticas e alguns conceitos vagos, o juízo de valor que as pessoas fazem umas das outras dependem do poder que exercem, da riqueza que possuem e do prestígio que desfrutam e são elementos fundamentais para constituir a desigualdade social. Aquela velha história de ser reconhecido pela roupa que veste, pelo bairro que mora, pelos lugares que frequenta. Outros fatores são acusados de promover desigualdade social, como por exemplo, a desigualdade de gênero, que tem raízes históricas. Os homens são evidentemente mais ricos, gozam de melhor status e são inegavelmente, nem por isso justo, mais influentes do que as mulheres.

No Brasil, mesmo considerando todo investimento nos programas de elevação da renda, há um vasto mundo de desigualdades separando os indivíduos, ora por região, pela cor, pelo gênero, pelo distanciamento cultural, pelo status e pelo poder político. A desigualdade social, que pode ter sido escancarada pelo processo de globalização, sempre foi um incômodo para o país, que tristemente vivencia todas as formas de desigualdade citadas pelos autores estudados. Alguns autores minimizam seus efeitos negativos, outros as reconhecem como resultados naturais das lutas empreendidas por indivíduos naturalmente desiguais.

Retrocesso na delicadeza

Há prazeres da vida que não dependem da condição financeira.
O homem apressado não sente a beleza da poesia, a fluidez dos relacionamentos, não se preocupa em avaliar a qualidade dos debates públicos e a integridade dos homens de bem.  Nada diz sobre a compaixão e dedicação. O homem está atento a tudo, menos ao que faz a vida valer a pena.

Alguns pequenos prazeres da vida não dependem da condição financeira. Não se encontram à venda o amor e a amizade, as dores e os prazeres da vida em família, a satisfação poder cuidar de alguém, a auto estima proveniente do reconhecimento pelo trabalho bem feito, a simpatia, a proteção carinhosa e o respeito dos amigos.
A vida nas cidades, dados os problemas mais profundos da vida moderna, ainda possibilita a retomada do indivíduo e sua interioridade à sociedade, que de acordo com o sociólogo Georg Simmel, não é algo feito, acabado ou estático.

Mas ao contrário, a sociedade hoje é um fluxo incessante de fazer-se, desfazer-se e refazer-se. Os laços que mantêm os indivíduos unidos são desfeitos e refeitos com uma contínua fluidez. É na cidade grande que os estranhos se confrontam, que as luzes que acendem, que o show começa e ninguém mais presta atenção em nada. Simmel foi um sociólogo atento aos movimentos do cotidiano, principalmente das grandes cidades.
Diz que precisamos harmonizar com o que quer que esteja nos consumindo e nos remetendo a esse estado quase blasé, essa forma de existência indiferente e superficial, vivendo encontros raros e breves.

Aos que buscam o prazer e não são afeitos a cuidar, uma empresa inglesa, preocupada com o aumento do número de cachorros abandonados pelos donos, que logo cansavam-se de executar as tarefas diárias no tratamento dos animais, abriu um serviço de alugar os animaizinhos por algumas horas ou dias. Assim, os bichinhos treinados e educados animam as crianças ricas, que podem dispor da companhia dos cães sem o incômodo de cuidar ou amar. A que ponto chegamos!

Quanto mais puder, ofereça a outras pessoas bens que o dinheiro não pode comprar. Lembra-te que costumávamos nos reunir-se em torno da mesa, com comida preparada por muitas mãos para ser compartilhada, entre conversas, risos e barulho das crianças? Lembra-te que havia sempre uma pessoa que ouvia com atenção uma longa explicação de ideias e pensamentos, esperanças e apreensões?
Precisamos tentar o impossível, porque Simmel ao falar das grandes cidades e da vida do espírito, diz que é possível notar um retrocesso acentuado da cultura dos homens com relação à espiritualidade, delicadeza e idealismo e que a cidades grandes sempre foram o lugar da multiplicidade, da velocidade e os homens modernos que habitam as grandes cidades são envoltos num espírito cada vez mais contábil, na medida em que o dinheiro compensa toda a pluralidade das coisas belas.

Fico a pensar, no que deve ser o reverso da liberdade; que em nenhum lugar pessoas se sentem mais solitárias e abandonadas do que no meio da multidão nas cidades grandes.

Falsa Consciência

No mundo desenvolvido ou em desenvolvimento, muitos países em muitas partes do mundo não avançaram muito em termos de dignidade no tratamento dado às mulheres. A violência, sobretudo doméstica é muito preocupante. As mulheres estão sim, tendo mais facilidades para encontrar empregos, mas isso não significa que estejam sendo valorizadas como deveriam, tampouco integradas como parte legal do sistema político. Mulheres ainda são tidas como boas auxiliares, quase nunca atuam como artistas centrais das tramas.

O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade ótima para refletir e aumentar a consciência sobre como podemos contribuir para melhorar nossa performance na aceitação do desempenho de nossas funções. É dito que temos forte tendência para transferir conhecimento, somos mais reflexivas e amorosas. Na construção do relacionamento com nossos pais, companheiros e filho vamos nos colocando corajosas, vamos ensinando e cobrando respeito e atenção.

As mulheres são conhecidas por serem mais práticas, mais próximas à natureza, preocupadas com questões de segurança, capazes de executar tarefas múltiplas e, além de tudo, são a fonte da vida, trazem crianças ao mundo. Se efetivamente somos melhores transmissoras do conhecimento, temos que nos aprofundar até esgotar o esforço para estancar toda forma de violência contra as mulheres.

Violência que não está contida numa cultura, numa região ou num país, nem a grupos particulares de mulheres. As raízes da violência contra as mulheres decorrem mesmo da discriminação persistente que sofrem até os dias de hoje. A forma mais comum de violência experimentada pelas mulheres em todo o mundo é a violência física, até homicídio, praticado pelo parceiro atual ou anterior. Enfim, as mulheres enfrentam múltiplas formas de discriminação e risco premente de serem vítimas de violência.

Faz sentido reconhecer que quando maiores oportunidades são oferecidas às mulheres, crescem também as perspectivas de tornar o mundo um lugar mais pacífico e estável. A presença das mulheres é vital para e para contornar os conflitos domésticos, assegurar que os filhos frequentem a escola, que recebam tratamento médico, que sejam livres. É verdade que a maioria das mulheres carregam fardo maior que a maioria dos homens no decorrer de suas existências. Não me ative a examinar, mas possivelmente os países que valorizam e dão crédito às mulheres nas tomadas de decisões sejam mais estáveis e seguros?

Avanços pontuais, pessoais, claro que existem em todas as áreas. Mas a desigualdade existe mesmo e muita. No cenário político do Estado, votados pelos eleitores, não temos nenhuma senadora, nenhuma deputada federal, apenas duas deputadas estaduais, uma vereadora na capital e de 141 prefeitos, apenas 19 são mulheres. Então, espero um pouco mais para celebrar as conquistas.

Desídia

Sim, eu sei que é carnaval. E o que você acha que os políticos estão fazendo no feriado? Falando de política e articulando seus espaços.
Façamos o mesmo aqui, já que um dos principais problemas que vejo no país, quando falamos de eleições é que as pessoas simplesmente não são informadas, não articulam o preenchimento de suas representações políticas, como eleitores. É por isso que são influenciadas, na última hora, pela campanha política feita na televisão. Não tem sido assim? Precisamos evitar a supressão do eleitor.
Somos doutrinados para acreditar que nossas únicas escolhas são invariavelmente entre um e outro candidato e isso nos impede a olhar em volta. Se consideramos que a classe média está afundando e já não tem poder aquisitivo suficiente para manter a economia crescendo e criando empregos; se vemos que os ricos estão só acumulando riqueza e que muitos políticos estão usando o poder para obterem maiores ganhos corporativos e subsídios para seus próprios negócios, tudo isso significa menos igualdade de oportunidades. Eu li na revista Forbes que o Brasil produziu 19 novos bilionários ano passado. Mas o que isso tem a ver comigo? Eles bilionários não nos representam e de certa forma, causam desconforto ao raciocínio.
Se você vê a política com desconfiança, veja bem, não precisamos alimentar a máxima de Carl Schmitt que atribuiu à política um critério seco de distinção: a oposição entre amigos e inimigos. Em tese, os aliados seriam os amigos e o inimigo, aquele com quem debatemos. Penso eu que a política segue um código de regras que avançou. Fazer oposição é saudável. Não há como pensar na esfera política sem conflitos.
Se é para sermos ativistas, devemos sê-lo de modo coletivo. Não podemos nos contentar em sermos eleitores de olhos abertos, mas mudos. Devemos ser mais ativos politicamente e observar de onde podem vir as melhores soluções para os problemas da pobreza, da segurança, da saúde, da educação, do meio ambiente. Devemos nos comportar como observadores políticos permanentes e ser otimistas quanto a condução do processo eleitoral que, incontestavelmente passará pelas nossas mãos.
Cidadãos orgulhosos, que trabalham querem um país com economia estabilizada ou crescente, querem produzir, sentirem-se parte da engrenagem que move o país. Então esse é seu dever consigo: pensar na política como um dever moral, que pode harmonizar o que você considera digno e humano. É o dever de exercitar a liberdade interior, onde pulsa os princípios da cidadania.
Alguém indiferente sobre como a situação do país está para os outros é absurdamente egoísta. O cidadão não deve renunciar a sua personalidade e envergonhar-se de posicionar-se contrário ou apoiar o que está posto. A consciência e a valoração em pé de igualdade com os outros é a leitura que se faz de pessoas com grande valor moral. Estas, devem sim, disporem de si mesmas, de modo íntegro, para coibir os abusos que consideram inaceitáveis.

O racismo é anti igualitário

“O racismo é antiliberal, antiigualitário, intolerante, violento e criminoso”. Norberto Bobbio

Cenas de racismo deixa a certeza de que há falhas de conduta de certas categorias humanas que nunca serão removidas ou reformadas e assim, retrógradas, permanecerão para sempre. O racismo não precisa de inspiração para ser instigado, para fazer brotar o ódio elementar que leva a estranheza, a antipatia e a agressividade. Desde 1999 a ONU declarou o dia 21 de março, como o dia de combate a discriminação racial, mas estamos realmente envidando esforços para eliminarmos todas as formas de intolerância racial?

O caso que ocorreu no Perú, envolvendo o jogador do Cruzeiro Tinga, não pode ser considerado uma modalidade de ressentimento entre grupos, foi uma demonstração isolada de conteúdo. Cena de barbárie mesmo, que também aconteceu com o jogador italiano Mário Balotelli, do Milan. Ao tocarem na bola, torcedores emitiam sons imitando macacos. Houve manifestação de apoio aos jogadores lá e aqui. Os jogadores do Milan entraram em campo com palavras anti racismo nas camisas e aqui, jogadores famosos usaram todas as mídias para prestarem solidariedade a Tinga, que disse que se pudesse, trocaria todos os títulos, por uma vitória na luta contra o preconceito.

Não bastassem os episódios apresentados, eis que vem a público o vídeo em que um parlamentar brasileiríssimo, formado engenheiro agrônomo, no alto de seu terceiro mandato de Deputado Federal, discursa classificando o racismo quase como uma ideologia, com argumentos conscientes e perversos, como deve ser sua sombria visão de mundo. Exercitar o pensamento crítico é realmente relevante para as questões tanto de preconceito quanto de ideologia política. Havia lido Norberto Bobbio, filósofo italiano, que sem sombra de dúvida, é meu preferido e lembro-me de uma frase que marcou-me: “Quem não tem preconceito que atire a primeira pedra”.

Ensinou-me também, que devo ter cautela ao falar do preconceito dos outros, sem antes avaliar o meu. O racismo entretanto, não cai do céu. Vários estudos apresentam uma correlação entre as crenças conservadoras e racismo. Um estudo anterior feito pela Universidade de Ontário já revelava uma ligação entre as pessoas de QI. baixo e maior incidência de preconceito. Ou devemos adotar o discurso de Rousseau, que sustenta que a natureza fez os homens bons e iguais, mas as condições de vida os tornaram desiguais, ou ainda acreditar no príncipe dos filósofos não igualitários, Nietzsche, para quem o homem é por natureza mau e desigual e apenas a sociedade com seus freios morais é que poderia torná-los iguais?

Basta dar uma olhada nesse imenso planeta para perceber como é longo o caminho que se deve percorrer para enfrentar as lutas que estão por vir. O mundo não está pronto para ser o paraíso e a possibilidade de um atalho mais ajustado à vida humana decente, vai se perdendo com fatos como esses. As eleições se aproximam, é bom acompanhar o desempenho eleitoral do Deputado Gaúcho e se nada mudar, resta-nos a descrença de não mais nos sentirmos em casa nesse espaço que nos cabe no planeta. Vou sentir-me ameaçada na situação desconfortável de exilada.