A violência sexual é uma forma atroz de dominação e subjugação

Uma notícia dominou a mídia internacional: a violência física, espancamento, degradação, humilhação e morte; uma cena de barbárie medieval considerada uma vergonha nacional nos tempos modernos; o caso do estupro coletivo de uma jovem de 23 anos dentro de um ônibus em Nova Déli. A Índia, um país que se desponta no cenário mundial, é o segundo país mais populoso do mundo.

Conversando com um amigo indiano que é jornalista, fiquei sabendo por fonte desinteressada em fazer alarde que esse país que vislumbra um futuro marcado pela paz mundial e pelo progresso encontra-se agora recolhido e envergonhado. Em muitos países, dentre eles o Brasil, o silêncio segue o estupro na Índia, especialmente nas aldeias, onde uma vítima de violência sexual costuma ser considerada uma mulher imprópria para o casamento. Mas as denúncias contra uma série de estupros recentes, incluindo este, estão quebrando esse silêncio perverso, chamando a atenção das autoridades para o número crescente de agressões sexuais e ao mesmo tempo expondo a estrutura conservadora do poder dominado por homens naquele país.

Os casos mais severos e constantes acontecem com mulheres de casta mais baixa, ou seja, mais pobres e os agressores quase sempre são de casta superior, normalmente os que detêm o poder nos vilarejos ou bairros. A taxa de registro dos casos de estupro aumentou alarmantemente e isso reflete no aumento das denúncias por parte das vítimas e na nova dinâmica do comportamento das mulheres indianas, que estão frequentando a escola, entrando no campo de trabalho e escolhendo seus próprios maridos e isso muitos homens consideram uma ameaça. Essa visibilidade que as mulheres estão ganhando é um desafio para um batalhão de homens desempregados, fazendo uso abusivo de álcool e drogas.

O outro ponto que merece destaque é a imprensa Indiana, que passou a publicar regularmente os casos de estupros com contundente cobrança aos governantes. Algumas soluções locais são descabidas. O líder de uma aldeia onde reina o patriarcado feudal, após culpar as garotas pelos ataques, apontou como solução manter a tradição dos casamentos entre crianças, assim, quando na puberdade despertar o desejo sexual, a garota já teria com quem praticar sexo. Ao ler os textos recentes do Centro de Pesquisa Social de Nova Déli, uma tragédia após outra é narrada; uma jovem após ser estuprada ateou fogo no corpo, o pai de outra suicidou-se, uma menina deficiente também foi atacada por um grupo vizinhos bêbados.

Desde a Convenção de Viena os direitos humanos das mulheres foram reconhecidos internacionalmente e ficou estabelecido que a violência de todas as formas, o assédio e exploração sexual são incompatíveis com a dignidade e o valor da pessoa humana e devem ser eliminados. Mas e daí? No Congo, a cada hora 48 mulheres são violentadas e as milícias usam a violência sexual como uma eficiente arma de guerra, porque ela humilha, envergonha, traumatiza a vítima e rompe a harmonia da comunidade. Nos Estados Unidos a violência sexual contra mulheres está aparentemente disseminada nas prisões femininas, onde os carcereiros são apontados, na maioria dos casos, como autores dos crimes.

E no Brasil? No Estado do Amazonas, a virgindade de menina indígena vale R$ 20 reais. Empresários e políticos são suspeitos de pedofilia e há um delegado de Manaus que refere-se grosseiramente as crianças abusadas como “meninas rodadas”. A verdade é que, como ocorre aqui no Brasil e quase toda parte do mundo, se você é mulher e pobre, então as chances de justiça são ainda menores.

O Natal é um estado de espírito

“Fica sempre, um pouco de perfume
Nas mãos que oferecem rosas
Nas mãos que sabem ser generosas”

Então é Natal! Temporada de férias, compras, comida e troca de presentes. Por que não dar um passo para trás em busca do verdadeiro espírito de Natal, para examinar o que é tudo isso, o que representa ainda esse tempo repleto de histórias de nascimento, de fé e de músicas tristes? O Natal é bem mais que um feriado, é certo. È uma estação, mas de consumo exageradamente fútil que movimenta bilhões, que se direcionado a ações sociais minimizaria a miséria de 48% da população mundial que ainda vive com apenas R$ 4,00 por dia e produziria um impacto positivo sem precedentes na história do mundo.

Li um depoimento escrito pelo presidente da Covenant House, a maior rede de caridade nas américas, que ajuda crianças e jovens traficados, viciados, abandonados nas ruas à toda sorte de violência. O senhor Kevin Ryan, dirige essa instituição, que atende anualmente 56.000 crianças de rua nos Estados Unidos, Canadá, México, Nicarágua , Honduras e Guatemala, dando-lhes amor e apoio para que eles tenham um pouco de conforto, comida e roupas limpas enquanto não encontram seus verdadeiros destinos fora das ruas.

Na véspera do Natal de 2010, a Casa Aliança reuniu os familiares, os doadores e todo pessoal do abrigo para a confraternização. Voluntários da comunidade tocavam violão quando uma sombra apareceu do lado de fora da janela, e lá permaneceu imóvel. Era uma figura encapuzada e curvada, que os observava. O Sr. Kevin saiu do círculo dos amigos para ver quem estava lá e deparou-se com um menino, de 14 ou 15 anos de idade, ele tinha olheiras e parecia faminto e cansado. Era Jeremias. Convidado a entrar, hesitou e perguntou quanto teria que pagar para comer algo lá dentro. Com bondade foi tomado pelas mãos e aproximado da mesa farta, onde nada lhe seria cobrado. O jovem explicou que conseguiu juntar pouco dinheiro, só tinha 26 dolares dos quais não poderia dispor.

Entrou, sentou-se à mesa, comeu, ouviu música, foi abraçado, ganhou presentes. Contou sua história da mãe morta pelo câncer, o irmão entregue a uma família, que ele nunca mais viu. Lembrou de muitos natais passados com a mãe cantando-lhes canções. Só no mundo, vivendo de esperança nas ruas, ele estava vivendo uma noite de natal irreal.

Mais tarde, em plena festa, pelo telefone o Sr. Ryan é avisado que a unidade da instituição de caridade em Nova Jersey havia sido roubada naquele instante. Quebraram a janela de trás e levaram todos os presentes que estavam guardados para as crianças. Estarrecido contou a todos o que havia acontecido na outra casa de caridade. Jeremias levantou-se rápido, espantado. Ele abriu a carteira e tirou os 26 doláres e disse: “Eles precisam mais do que eu agora.” Desde então, os amigos chamam Ryan de “Ryan Crying” (Ryan chorão) e não é difícil entender a razão.
Bem disse o comediante Bob Hope, sem fazer graça: “Se você não tiver nenhuma caridade no seu coração, você tem o pior tipo de problema cardíaco”.

Por que culpar os outros?

Na cultura política os líderes modernos estão menos dispostos a admitir a falibilidade. Não assumem culpas e dizem sempre que “erros foram cometidos”, de forma aleatória, passiva e distanciada do reconhecimento do erro. Os políticos tem seus bodes expiatórios, sobre quem recai as culpas para dar aos governos a liberdade de agir de determinadas maneiras.

Nos governos há o que se descreve como a cultura de culpar os outros para evitar assumir a responsabilidade por atos falhos. Estamos nos acostumando a categorizar, estigmatizar e colocar a culpa nos outros. Há muitas teorias sobre porque temos essa tendência de transferir culpas e parece que isso é algo intrínseco do nosso ser por medo do castigo. Nós desenvolvemos essa habilidade de culpar os outros muito cedo. Assim desde criança usamos o refrão “foi ele quem começou”, já passando a responsabilidade para outra criança. Na vida adulta, os casais se culpam mutuamente pela infelicidade, pela infidelidade não para terminarem o casamento, mas para dar-lhe sobrevida artificial.

Os erros e sofrimento são partes inevitáveis da vida. Entre nascer e morrer os homens lutam para permanecer vivos. O corpo físico é exposto a perigos constantes; a fome, violência, acidentes, envelhecimento e morte são os mais eminentes. E sofremos de dentro para fora ao considerar as forças naturais que nos ameaçam.

Pessoas gemem, reclamam e inventam desculpas por não terem amigos, por não conseguirem acumular dinheiro, por não serem promovidas e amadas. Todos os infortúnios são causados por ação de terceiros. Algumas, não poucas pessoas gostam desse artifício de posar de vítima. Assim é mais fácil aceitar as próprias limitações, os desvios do curso natural da vida. Enquanto a verdade recai nas escolhas, na  responsabilidade. Tudo o que fazemos é porque decidimos fazer isso em vez daquilo.

Há uma diferença entre ser vítima e ter uma mentalidade de vítima. Muitas pessoas são vítimas de terríveis experiências, provas e traumas físico, sexual e emocional. Fazer-se de vítima é diferente e ocorre sobretudo quando em vez de assumir responsabilidades, o poder da tomada de decisão é transferido a outros. A mentalidade de vítima é aquela em que culpa-se os outros para sentir alívio e se nunca a culpa lhe recai, tampouco a responsabilidade lhe pode ser cobrada. Vai ser sempre a vítima e esse círculo vicioso levam as vítimas a imputarem culpas às suas famílias por falta de apoio ou alegam que a família negligencia atenção e cuidado ou mesmo que influencia negativamente suas vidas.

Muitas pessoas simplesmente se acomodam nessa condição, porque rende-lhes atenção, foco, comentários bajuladores; “como é triste você ter que passar por tudo isso, como é terrível que tenha sido tratado dessa maneira, você não merece isso”! As pessoas em volta desenvolvem um sentimento de validação dessa hipocrisia.

Os homens da capa preta

Assim como era no passado, o poder político no Brasil quase nunca é caracterizado pelo caráter institucional; na maioria das instituições prevalece o caráter eminentemente pessoal e por isso o respeito é devido às pessoas e não às instituições.

O Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância do Poder Judiciário no País, foi criado pelo Decreto número 848, de 11 de outubro de 1890. A a primeira sessão ocorreu em 28 de fevereiro de 1891, no Rio de Janeiro, em sessão extraordinária, onde se reuniram os 15 ministros. Desde que foi promulgada a 1ª Constituição Republicana, em 1891, os artigo 55 e 56 já previam que o Supremo Tribunal Federal seria composto por cidadãos de notável saber jurídico e reputação ilibada, nomeados pelo presidente da República, sujeitando-se a aprovação ao Senado.

Atualmente o Tribunal compõe-se de 11 ministros, cujos cargos são vitalícios e se aposentam compulsoriamente aos 70 anos. O Supremo, que foi criado sob inspiração norte-americana, nasceu para ser o intérprete máximo da Constituição republicana, dos direitos fundamentais e da estabilidade institucional; consolidou-se no cenário político nacional como um verdadeiro Poder de Estado e um Tribunal de Defesa das Liberdades Públicas, principalmente devido aos excessos cometidos pelo Poder Executivo. Muitas mentes brilhantes por lá passaram e pelo site do STF pude constatar que cerca de 180 ministros integraram a corte, participaram de julgamentos históricos, como o banimento da família real do Brasil, o estabelecimento do governo militar, a improbidade administrativa do Collor e agora o julgamento do processo do mensalão.

Os bate-bocas sempre foram protagonizados por membros da corte, onde a retórica, a contundência, por vezes resvala no desrespeito. Mas isso sempre existiu, até porque há muita controvérsia e os pontos de vista quase nunca coincidem. O decano da corte, ministro Celso de Mello, um apaziguador de ânimos, disse que: “Eventual contraposição dialética em torno da interpretação dos fatos, isso, na verdade, faz parte”. Porém, o sociólogo Marcos Coimbra, do Instituto de Pesquisa Vox Populi, em entrevista, afirmou que são poucos os que ainda acreditam que a cúpula do Judiciário brasileiro seja apolítica. O sociólogo critica também o apego dos ministros à notoriedade e o alinhamento com a mídia.

O julgamento do mensalão, que ao contrário do que muitos brasileiros imaginavam, não termina em pizza, com o Tribunal decidindo pela culpabilidade de políticos de vários partidos no esquema de compra de votos e apoio político, vem como prova de que se nossas instituições não são perfeitas, estão amadurecendo. O ex-ministro Paulo Brossard disse que temos sido muito lenientes com os casos de corrupção política e lembrou, em entrevista, o caso de um ex-governador brasileiro, sobre o qual o povo dizia: “ele rouba, mas faz”.

Apresentado em tom de exagero pela mídia como o “menino pobre que mudou o Brasil”, o relator da ação penal do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, foi indicado pelo também menino pobre e ex-presidente Lula em 2003. O colegiado é de alto nível e tudo, absolutamente tudo está previsto no estatuto de mais de 400 páginas, de leitura difícil para leigos como eu. Nas sessões ordinárias ou extraordinárias, todos devem usar a capa preta, as vestes talares (hoje fabricadas por costureiros famosos como Ermenegildo Zegna) e se um fala francês, outro fala alemão, outro escreve poesias, outro toca guitarra. Nada demais!

A espiritualidade, o Engajamento Político e a Vida Pública

“Eu não poderia levar uma vida religiosa se não me identificasse com a humanidade inteira, e isso eu não poderia fazer se não fizesse parte da politica”, disse Ghandi.

A Fundação Ford apóia um trabalho de pesquisa para traçar o contorno das novas práticas e expressões espirituais e suas implicações em participação de atividades civis e políticas nos Estados Unidos. O projeto propõe estudar as consequências do aumento gradativo de componentes da espiritualidade na vida política. Muitas pessoas conhecidas por seus engajamentos espirituais estão se envolvendo nas questões sociais e políticas.

O que o estudo quer apurar é se o envolvimento dessas pessoas difere de alguma forma do engajamento dos outros e quais são as alternativas que trazem esse grupo de pessoas espiritualmente mais elevadas. As conferências para discutir o tema da Espiritualidade, Engajamento Político e Vida Pública, conta com a participação de instituições tradicionais, que construíram boa reputação em atividades espirituais e outras do mundo acadêmico, como a Universidade de Boston.

Pessoas que percorrem um caminho espiritual, buscando o crescimento pessoal, a prática de atitudes desprendidas, pensamento elevado em bondade seriam recomendadas a estarem envolvidas nas questões sociais e políticas e há uma razão importante para isso: Pessoas em viagens espirituais são adeptas da mudança, da transformação. E se você pode promover uma mudança na sua vida, isso pode ser estendido a um grupo maior de pessoas.

Dezessete mil crianças morrem de fome a cada dia na terra, nós somos a única espécie no planeta, que sistematicamente destrói o próprio habitat. Esses fatos só vão mudar quando trazermos para a resolução dos problemas homens dotados de coração mais comprometido com o amor, com a inclusão e com a bondade. É de um envolvimento que transforma as questões morais e sociais que estamos falando. Sem essas coisas, o mundo não se conecta mais.

Nós evoluímos a um ponto de estarmos prontos para efetivar profundas mudanças. Mas por que elas não acontecem? Talvez porque muitas pessoas ainda insistem em não participar de atividades políticas justamente porque não acreditam na mudança. Porém precisamos contribuir com reflexões e inserções sérias, para que possamos começar uma nova conversa sobre política, com uma nova visão de mundo civil e espiritual; adotando valores humanitários como o princípio organizador da civilização humana e não a economia, como tem sido.

Não devemos desviar o olhar do cenário político, seja ele qual for. Podemos sempre levar a perspectiva do amor, compaixão e respeito para nossas ações, até que cada pessoa possa encontrar o seu próprio senso de identidade dentro do mundo. Se as coisas da política perseguem o bem comum, onde a política falhar, a espiritualidade pode intervir para trazer equilíbrio e harmonia e construir uma organização humana de natureza perfeita.

Erasmo escreveu “A educação do príncipe cristão” em 1515 e nos ensinamentos diz ao príncipe que para ser um ótimo governante, ele não poderia ser superado naqueles bens que verdadeiramente lhe pertenciam: a grandeza de alma, a temperança e a honestidade. Quando o príncipe lhe pergunta qual seria a sua cruz, a resposta foi a seguinte: “ A sua cruz é não praticar o mal contra ninguém”.

O bem-estar da liberdade compensa os machucados

Jean-Jacques Rousseau, nascido em Genebra, na Suíça, foi um dos mais consagrados filósofos no século XVIII. Suas obras inspiraram reformas políticas e educacionais. Em sua filosofia da educação, enalteceu a educação natural, baseada em um acordo livre entre o mestre e o aluno.

Acabo de ler Emílio, um livro publicado em 1762, que embora criticado por setores pedagógicos, que citam a obra como uma leitura equivocada para os educadores, apresenta uma reflexão romanceada de como educar permitindo que as crianças se desenvolvam de forma independente e criativa, em contato com a natureza. A criança aprende valores que a tornaria comprometida com a sociedade, sem nenhuma idéia de superioridade, valorizando a liberdade e igualdade. Emilio soa como um tratado sobre as qualidades naturais do homem, sua bondade e liberdade.
A educação das crianças colocada como prioridade pelos pais, que teriam o dever de educar os filhos, seres humanos sociáveis e cidadãos aos olhos do Estado. O contraditório aí é que o próprio Rousseau não o fez. Pai de cinco filhos, entregou-os todos a um orfanato.

Entretanto, o desafio de educar Emilio é ligar intrinsicamente os valores corrompidos da cultura aos preconceitos e destruí-los para então buscar a simplicidade da natureza e uni-la às necessidades da sociedade. O Emilio, de Rousseau é criado no campo, tem vida simples, o que facilita o desenvolvimento do bem maior da formação humana para o pensador suíço: a liberdade. “Em vez de deixá-lo estragar-se no ar corrompido de um quarto, que seja levado diariamente até um prado. Ali, que corra, se divirta, caia cem vezes por dia, tanto melhor, aprenderá mais cedo a se levantar”. ensina Rousseau.
Rompendo padrões conservadores, à criança não se deve impor o que quer que ela seja. Ignorando todos os modelos de educação, Rousseau proclama que a criança não tem que se tornar outra coisa senão naquilo que ela deve ser; “Viver é o ofício que eu quero lhe ensinar. Saindo de minhas mãos ela não será, reconheço, nem magistrado, nem soldado, nem sacerdote; antes de tudo ela será um homem”.
Rousseau chama a atenção para os primeiros sentimentos da criança, que quando mal dirigidos fazem com que elas deem os primeiros passos para o mal.
Por isso nas brincadeiras e jogos Emilio é ensinado a desenvolver o raciocínio, a criatividade e sobretudo agir com bondade.

Rousseau evoca a compaixão, o bom coração como sentimentos que devem ser cultivados por Emílio, assim como o respeito profundo por si mesmo e pelo outro. Forma-se o bom coração controlando a natureza humana, sondando as emoções, as paixões, as habilidades, as virtudes estampadas na alma.
A educação segue a tendência, hoje moderna, da interatividade, é espontânea, divertida e contextualizada para promover a felicidade, sem imposição institucional. Emilio aprende que deve ter um perfil que se oponha aos dos jovens de vida cotidiana deteriorada; deve ter vigor de um atleta, força no corpo e na alma e a razão de um sábio. Deve seguir as leis eternas da natureza, escritas no fundo do seu coração pela consciência e pela razão. A liberdade em Emílio está no seu coração de homem livre; ele a carrega consigo por toda parte.

No livro Emílio, ou da educação, Rousseau mostra que a educação pode promover no homem um processo de preservação de suas condições naturais como a liberdade e a autenticidade. Ocupando o aluno imaginário com todas as boas ações possíveis, Rousseau apresenta no final Emilio, um homem total, virtuoso, o homem natural que aprendeu a viver em harmonia com a natureza e com seus semelhantes.

Perfeitamente Imperfeitos

Surpreendentemente, os tapetes persas legítimos quase sempre apresentam imperfeições intencionais. Na verdade, há um velho ditado persa que diz: “Um tapete persa é perfeitamente imperfeito e precisamente impreciso”. Esta noção de intencionalmente incluir pequenas irregularidades, além de manter na linha de produção os tecelões humildes, é derivada da crença religiosa de que Deus é o único ser perfeito e que a tentativa de produzir algo de perfeição absoluta seria ameaçar a posição do Todo-Poderoso. Você poderá encontrar nos grossos tapetes persas uma cor principal que sofre variação de tom de uma extremidade a outra. Estas imperfeições, porém, conferem aos tapetes o caráter e a autenticidade.

   A mitologia grega criou seus deuses com aparência humana, para apresentá-los como seres sujeitos à imperfeições, suscetíveis às paixões e intempéries. Não há lugares ou pessoas perfeitas e não há exceção à essa regra. Podemos ser no máximo um “insight” do bom comportamento humano. O que é perfeito, talvez a natureza, não é criação do homem que aqui vive.

   O que existe é a pressão para que sejamos perfeitos. O perfeccionismo é como um relatório interminável, que mantém as pessoas completamente envolvidas numa auto-avaliação eterna, colhendo frustrações, ansiedade e depressão. Levado ao extremo, o perfeccionismo fica no meio do caminho da competência. Isso prejudica o desempenho, em vez de ajudar. A vida é temporária e condicionada a imperfeição. Aceitar a verdade da imperfeição é saudável e mesmo libertador. Não tem nada a ver com descuido e desleixo. Significa baixar a guarda e desapegar da idéia rígida e inflexível sobre como as coisas devem ser.

   Poderíamos pensar em nossas imperfeições como impedimentos, mas as imperfeições são uma grande parte do que somos e minhas imperfeições não são apenas um bom instrumento de triagem, elas são realmente as chaves para a convivência comigo. Na minha vulnerabilidade, autenticidade, coragem, e, por vezes desconfortável nível de imperfeição, está o ingrediente secreto. Ao expor de forma corajosa as minhas imperfeições, liberto os outros para fazerem o mesmo diante de mim.

   E você é corajoso o suficiente para compartilhar suas imperfeições? A perfeição é uma obsessão para muitas mulheres e um negócio lucrativo para os cirurgiões plásticos. Entretanto, seguimos o curso, com ruga, celulite e pele flácida aqui e acolá. Por que prender-se a um padrão de perfeição de beleza se o mesmo é inatingível? Depois repara; existe beleza na imperfeição!

   Angustio-me quando as coisas começam a parecer muito perfeitas, como se isso despertasse a minha desconfiança e me fizesse gritar: “eu não confio em você até você deixar-me ver a sua sombra, sua vergonha, sua dor, tristeza, decepção, a arrogância, o julgamento, a rigidez e constatar em ti a imperfeição que marca todos nós. Somos seres imperfeitos, por isso não há vantagem em julgarmos a nós mesmos ou um ao outro, e na compreensão desta verdade está a aceitação da imperfeição, que deixada à mostra, torna-nos mais livres

Quando viver pode ser simples e prazeroso

A vida é cheia de prazeres simples, cuja lista completa seria bastante extensa. O prazer é a gratificação dos sentidos ou da mente, é a sensação agradável, a felicidade produzida pela expectativa ou pelo gozo de algo bom. O prazer representa uma amostra dos acontecimentos bons que ocorrem todos os dias.

Podemos experimentar a sensação de prazer em pequenas coisas, como por exemplo, quando deixamos o olhar vagar inadvertidamente pela rua e fitamos alguém do sexo oposto que cruza o nosso caminho. A troca de olhar causa uma sensação de prazer momentânea, uma curiosidade que dura uma fração de segundo, mas que faz bem. Assistir pessoas passando e contemplar os passos seguros, incertos, silenciosos, ruidosos, de pessoas altas, pessoas pequenas, magras, gordas e iguais. Cada movimento pende para um lado, tem um compasso diferenciado e expressões difusas. Num cenário natural esse conjunto de pessoas, rebolados e expressões produzem efeito hipnotizador.

Lembrar e contar histórias reais e engraçadas. Um dos papéis mais atraentes de um grupo de amigos é o do contador de histórias. Todos gostam de compartilhar histórias das conquistas que geram sempre uma curiosidade quase maliciosa. É gratificante estar entre amigos ouvindo ou contando uma história verdadeira, recheada de renúncias, desencontros que causa risos anos mais tarde. Ficar na cama em dia de chuva, ouvindo o barulho leve do vento batendo na janela, você estica e fica em perfeita sintonia com seu travesseiro e o quarto se torna um santuário. O único lugar que você gostaria de estar naquele momento.

Ouvir música causa um bem estar indescritível, a melodia transporta as pessoas de um mundo ao outro. Não importa qual seja o cenário, ouvir a música certa no momento certo é um desses prazeres simples da vida que imediatamente levanta o espírito, como um convite para dançar. Algumas músicas são para certos momentos e quando o som chega aos ouvidos, a vida ganha um significado mais cristalino. Não há prazer mais simples e satisfatório do que relembrar os velhos tempos com os amigos, ouvindo a música da época. Os melhores momentos das nossas vidas foram passados com amigos, com fundo musical e muita cena.

Contemplar uma bela paisagem pela janela do carro… o carro segue e o olhar se perde como se fosse possível trazer a imagem distante num zoom. A cabeça pende para o lado de fora. O cheiro das flores, da vegetação, o verde. O cenário do sonho bem ali, mas faltou olhos, tempo e paciência para enxergar. Receber um elogio inesperado num dia sem grande brilho, sem grandes acertos faz o dia tornar-se especial. A espontaneidade dá credibilidade ao elogio, além de elevar o valor das palavras.

Fazer alguém sorrir para aliviar o estado de estresse diante das cobranças cotidianas. Emendar uma frase tola, provocar o riso só para ajudar a descontrair e desconstruir o clima pesado de ansiedade. A vida é extraordinária nos momentos em que você está rindo tanto que mal consegue respirar. Este momento de riso profundo seduz, encanta e define valores mais positivos para o coração. Terminar com as sessões de adiamento e de desculpas e começar a caminhar, a exercitar-se. No final bate uma sensação de realização, de bem-estar com o corpo e mente, que traz leveza à vida. É prazeroso desafiar a preguiça. É algo assim…você no topo das prioridades. E se a família vem junto melhor ainda!

Passear de mãos dadas com alguém que você ama é um sutil, porém sensual contato físico, um gesto simples, romântico, que se não automático, alimenta a sensação de felicidade e proteção. Milhares de outras atitudes simples trazem sentimento de felicidade, que embora momentâneo torna a vida mais prazerosa e agradável. Olhar a vida com olhos de quem sabe viver é um exercício diário que devemos aprender a praticar.

O que vem depois da eleição é tão importante quanto a eleição em si

O grande desafio é lançado após as eleições. Como viveremos os próximos quatro anos é um questionamento vital tanto quanto saber como esses desafios serão superados. Mesmo quem seguiu atentamente o programa de governo dos candidatos, precisa agora de nova posição, pois no nome do novo prefeito recai não apenas desafios e propostas, mas sobretudo responsabilidades.

E embora estejamos acostumados a cobrar resultados instantâneos, os problemas que enfrentamos hoje não serão resolvidos tão rapidamente ou facilmente. É preciso construir um novo momento para Cuiabá, uma cidade castigada pela omissão; sem tempo a perder é preciso centrar fogo na solução dos problemas, é preciso governar com coragem e sem coleira, sem acomodar desejos pessoais na quota das prioridades.

Os laços devem se estreitar entre o prefeito e o povo, a relação recíproca entre ambos é incondicional, sem a qual não seria sequer possível o processo democrático das eleições. Embora não haja nada de errado com o projeto de entusiasmar eleitores, essa etapa acabou. Como pano de fundo agora, vê-se o descaso e o abandono da nossa cidade, a pobreza que alargou na periferia, a falta de médicos no pronto socorro e nas policlínicas, ônibus sucateados, falta de creches…problemas municipais que emergem há tempos sem solução.

Amparado pela Lei 10.609, publicada em 2002, o grupo de transição de governo pode iniciar o trabalho a qualquer momento. O processo tem por objetivo assegurar que o prefeito eleito possa receber informações e dados necessários ao exercício da função, assim que tomar posse. Esse é o momento de troca de conhecimento entre a gestão que termina e o novo governo. Na opinião do professor doutor em Sociologia Política da Universidade de Brasília (Unb) Rodolfo Teixeira, essa operação é absolutamente necessária para que o eleito possa ter uma noção concreta de como fará para implementar suas propostas.

Cuiabá, sob os cuidados do governo do Estado, se prepara para estar à altura de ser uma das cidades sedes da Copa do Mundo em 2014. Aos programas da matriz de responsabilidade da FIFA, como a Arena Pantanal e os centros de treinamentos, somou-se outras grandes obras de infraestrutura e intervenções de mobilidade urbana que estão, a olhos nus, visíveis até para quem tem má vontade de enxergá-las. Estão aí as grandes trincheiras, os viadutos, as travessias urbanas, as obras de desbloqueios que criam novas alternativas de trânsito, a duplicação da ponte que liga Cuiabá a Várzea Grande e ainda programas de capacitação em áreas diversas para melhorar o atendimento ao turista e torcedor que visitar a cidade.

É premente que Cuiabá tenha um governante à altura da sua beleza e importância como centro geodésico da América do Sul.

Conversando sobre política com as crianças

  

Impressionante como as crianças, embora não lembradas devidamente nos programas políticos, se envolvem com as eleições. Vinicius, 9 anos encontrou uma candidata, na qual queria votar para vereadora. Os motivos que o levou ao encantamento com a jovem candidata realmente me surpreendeu. Disse-me que a moça colocou cestos de lixo nos canteiros centrais de Cuiabá com nome e número, em vez das tão criticadas placas de propaganda. Atitude louvável, não resta dúvida.

Em outra ponta o escritor Rubem Alves escreveu com extremo bom humor, uma série de quatro belos textos (bem eu só li estes) sobre como explicar a política para as crianças. Conta que no princípio de tudo, na era do homem contra o homem, quem tinha o “porrete” maior, mandava mais. Os homens não se entendiam e como numa partida de futebol, sem árbitro, sem regras não era mais possível continuar. Então, criaram a política para, através dela, restabelecer a ordem. Os homens elegeram os seus reis; jovens ricos e bonitos, que ao terem a coroa na cabeça e espada nas mãos transformaram-se em tiranos e esqueceram do povo. Foi assim durante muitos séculos, até que os homens reuniram-se novamente e decidiram estabelecer um contrato para garantir da igualdade entre eles.

Rubem Alves usa e abusa de metáforas para explicar a democracia, o exercício da liberdade, transparência e honestidade, onde os representantes escolhidos pelo povo tinham um único ideal: trabalhar pelo bem de todos. Contudo, o poder continuava a corromper os ideais dos homens. Ironicamente o autor usa um banquete para ilustrar os problemas da igualdade democrática. Na mesa havia um queijo grande para ser dividido entre todos os ratos, resguardando-se o costume; os ratos grandes e fortes à frente, os fracos e humildes, atrás. O queijo começa a ficar pequeno e ficam sem comida os que vem lá atrás. Os bichos se revoltam como na literatura de George Orwell, em “ A revolução dos bichos”.

É a estória dos animais de uma fazenda; cavalos, porcos, vacas, cabritos, patos, gansos, cachorros, que cansaram-se de ser explorados pelo fazendeiro e resolveram fazer uma revolução. Uniram-se e expulsaram o fazendeiro aos coices, das suas terras. Os bichos criaram novas leis, estabeleceram a igualdade como princípio entre eles e escolheram seus líderes. Mas logo esses líderes, que antes eram oprimidos se tornaram opressores. Nem todos os bichos tinham tratamento igual. No quarto texto, os bichos criam partidos políticos com plataformas distintas para concorrerem as eleições. Havia o partido das Bananas, da Lingüiça e dos Abacaxis. Os vencedores tomaram posse, elaboraram novas leis, que continuaram a ser desrespeitadas.

O Partido das bananas percebeu que as leis eram armadilhas e convocou os aliados, os pássaros para uma grande manifestação pública. Como no filme de Alfred Hitchcock, os pássaros vieram em bando. Os ataques foram piorando progressivamente, começando com algumas gaivotas, corvos, até chegar a um cenário quase apocalíptico, com o céu coberto de negro, pássaros por toda parte piando e gritando, num movimento orquestrado para depor o governo corrompido. Há sempre uma forma alegórica ou lírica para explicar as coisas do mundo adulto para as crianças. Mas aos adultos muitas vezes, falta resposta para certas indagações sobre as crianças.

Como explicar que embora seja dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a elas o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar, colocá-las a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, isso ainda não se concretizou plenamente?