A neutralidade é um recurso da guerra

O Brasil possui um sistema de votação rápido, moderno, desde que a urna eletrônica foi introduzida no processo em 1996, o que permite a totalização dos votos apurados, em poucas horas após o término da votação. Somos o terceiro país com o maior número de eleitores do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e India.
Ao aproximar-se o dia das eleições as pessoas assistem televisão, leem os noticiários e podem estar perdidas num emaranhado de números que são divulgados a todo momento, como pesquisas eleitorais e previsões de analistas políticos. É assim mesmo. Os números são de vital importância para avaliar o desempenho dos candidatos.

Você pode estar perguntando-se se o seu voto realmente pode fazer a diferença. Eu digo que sim. O seu voto é o passaporte para seu futuro pelos próximos quatro anos. Não votar ou tratar com displicência o voto é rejeitar sua capacidade de ter influência sobre a forma como sua cidade será administrada, é como dizer que você não se importa com o destino do lugar que você escolheu para morar. Na realidade cada voto conta porque você tem que lembrar que como um indivíduo seu voto pode parecer apenas um sussurro, mas quando o seu voto soma-se com os votos de outros que compartilham de seus pontos de vista, o sussurro ecoa e todos ouvem.

É claro que as divagações intermináveis sobre o pleito, as promessas infundadas e as trocas de acusações desanimam, mas creia, votar é um tremendo presente. O dia da votação é o dia do eleitor. Permita-se caminhar altivo rumo a sua cabine de votação numa manifestação silenciosa de cidadania. Saiba que no dia da eleição igualamo-nos todos; pobres, ricos, brancos, negros, homens, mulheres, jovens e velhos.
Há contudo, espertos e desavisados por toda parte. Sejamos também fiscais do exercício pleno dos nosso direitos. No dia da eleição é proibido reuniões, grandes concentrações de pessoas, distribuição de comida, oferecimento de transporte, distribuição de material de propaganda, fazer carreatas, fazer boca de urna e coagir eleitores. Se você não encontrar seu título eleitoral, você pode votar apresentando documento de identidade com foto, até mesmo carteira de motorista, desde que seu nome conste no caderno de votação e no cadastro de eleitores da seção.

Enfim, o espírito da democracia não pode ser imposto por quem está de fora. Ele deve vir de dentro, como ensinou Mahatma Gandhi.

O analfabeto funcional e a persuasão eleitoral

Imagine você pegar um livro e não poder ler, tomar um medicamento, mas não conseguir ler as contra-indicações, visitar uma cidade e não saber ler os sinais da rua. Segundo as Nações Unidas, um em cada cinco adultos no mundo não sabem ler. E uma população alfabetizada é a base central para promover o bem-estar e uma democracia que funcione bem. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO –, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no seu idioma. Dentro desse conceito, a UNESCO define  analfabetos funcionais como sendo as pessoas com menos de quatro anos de estudo. Para a organização, mesmo que essas pessoas saibam ler e escrever frases simples, elas não possuem as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do seu dia-a-dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente.

No Brasil, um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional, não tem as habilidades básicas necessárias para funcionar na sociedade, exercendo a cidadania, participando plenamente na vida familiar, com emprego e cidadania.   

No passado a alfabetização era como uma ferramenta utilizada pela burocracia dos estados, comércio e pela igreja, que através da leitura, expandiam seus poderes e exerciam controle sobre o povo. Mas a partir do século 19 a instrução, sobretudo através da leitura tornou-se habilidade obrigatória para os indivíduos serem capazes de ter controle sobre as suas vidas. Aprender a ler e escrever é o passo inicial do saber. Mas ler, ouvir e escrever são processos mais profundos, não apenas sons, repetições e vocabulário. Serve enfim, como instrumento para proteger as pessoas da exposição e exploração.

Estudando técnicas de persuasão eleitoral pude constatar que a grande mídia adota um formato que concilia mensagens repetidas, ingênuas e de fácil memorização visando encantar exatamente os indivíduos que não assimilam além do que ouvem e que não lêem ou discutem política ao longo do ano. O interesse é momentâneo e as informações que lhes chegam são igualmente superficiais e carregadas de configuração distorcidas da realidade. Vemos hoje que as imagens se sobrepõem ao campo das idéias. Até porque as imagens são facilmente agrupadas, captadas num contexto e exibidas em outro absolutamente distinto. É assim que as coisas estão sendo postas a grosso modo, como se fossemos todos analfabetos funcionais.

Queremos ver idéias sendo lançadas e contestadas. Mas a estratégia política e os recursos do marketing seguem caminho oposto. Apostam no potencial da manipulação das mentes dos analfabetos funcionais, que mesmo quando conseguem ler, não desconfiam do artificialismo utilizado nas mensagens. Por isso o exagero, às vezes resvala na comicidade.

Fico eu aqui a imaginar o mundo constituído por pessoas alfabetizadas, autônomas, críticas, pessoas construtivas, capazes de transformar as idéias em ações a favor da coletividade. 

O idealismo de um político septuagenário

Estava lendo um artigo sobre o Idealismo e as desilusões trazidas pelo capitalismo, quando lembrei-me que aqui bem perto mora o senhor José Mujica, conhecido como “el Pepe”, presidente do Uruguai. O presidente recebe um salário de pouco mais de R$ 25 mil, mas doa 90% para instituições assistenciais que cuidam de pessoas pobres. Sobra-lhe R$ 2,5 mil, que segundo ele é suficiente para sustentar a família e abastecer o carro, um fusca.

Ex guerrilheiro de 77 anos, Mujica foi perseguido pelo regime militar Uruguaio, esteve preso por quase quinze anos, foi deputado, senador e ministro de várias pastas. Político de esquerda com aceitação fantástica em seu país, veio ao Brasil participar da Rio +20, quando deixou uma mensagem contundente que desconcertou a classe política presente.

Questionou as práticas adotadas pelos países ricos para eliminar a pobreza e de forma quase irônica condenou o consumo exacerbado que movimenta o mundo moderno, com uma pergunta: “O que aconteceria com este planeta se os habitantes da Índia tivessem a mesma proporção de carros por família que os alemães possuem? Quanto oxigênio teríamos para respirar?”

José Mujica entende que é necessário impor controle às sociedades mais ricas, que desfrutam a vida com elevado índice de consumo privado e desperdício, porque segundo ele, a discussão tem que seguir por outro caminho que não seja este guiado pelo mercado e pela competição. Ele fala de um olhar mais generoso para o planeta ou senão, seremos governados pela globalização, que invés de solidariedade impõe uma economia baseada na concorrência impiedosa. “Até onde chega a nossa fraternidade”?, pergunta Mujica.

Os desafios e destruição da natureza não são em si crises ecológicas. Segundo o presidente, é a crise política que impede que o homem governe com bondade, cuidando e preservando a vida. Os itens produzidos pelas grandes indústrias seduzem e temos todos que trabalhar cada vez mais para sustentar uma sociedade frívola, que usa, joga fora, compra de novo, alimentando o círculo vicioso do desperdício.

O que agride o planeta é o hiper consumo, o apetite que pode ser regulado pela vontade política dos líderes mundiais. Mujica entretanto, não faz apologia a um retorno melancólico do homem ao atraso monumental de anos atrás. O que ele, dentro da coerência de seu pensamento de esquerda prega, é que não podemos ser indefinidamente governados pelo mercado. Por isso a fala do presidente remete ao caráter cultural e político o problema do consumo, que torna os bens naturais escassos. Mujica define como pobre não aquele que tem pouco, mas sim, o que necessita de muito e deseja ter sempre mais e então, a crise da água e da devastação das florestas não pode ser discutida sem uma reflexão mais abrangente entrando no universo do homem transgressor. A causa, é o modelo de civilização que construímos ao longo dos anos, valorizando bens e produção em detrimento de gente.

“Mas seria esse o sentido da vida”?, pergunta Mujica. Emocionado, Jose Mujica completa: “Essas coisas que digo são elementares; o desenvolvimento não pode ir contra a felicidade. Tem que ser a favor da felicidade, do amor ao planeta, das relações humanas, do amor aos filhos, de ter somente o necessário para viver, porque a vida é o tesouro mais valioso que temos. Quando lutamos pelo meio ambiente, devemos lembrar que o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana”.

Pois bem, semana passada escrevi sobre os jovens e as motivações que os levam a disputar uma eleição. Agora pergunto: Qual é mesmo a tônica do discurso dos jovens?

Não traia a sua geração

Há vários candidatos jovens nas eleições atuais. Eles esbanjam beleza, energia, anunciam novos rumos, mas será que são realmente jovens de espírito assim como o são de aparência? Os rostos jovens se mostram inquietos, devem ouvir rock progressivo, se expor nas redes sociais. Mas por que querem ser políticos?

Aos jovens dá-se o crédito de serem arrojados, ousados, menos conformistas com a realidade. Gastam energia tentando mudar o rumo das coisas, tomam decisões que contrariam até pai e mãe. Imagina os correligionários!
O ex presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso escreveu um livro para orientar os jovens que queiram lançar-se na vida pública. Diz ele que “ a política é importante demais para ser deixada apenas para os políticos”.
A política é uma atividade complicada e quem participa dela sem o conhecimento adequado corre sério risco de ser enganado. É preciso entender seu funcionamento.

A política é uma jogada de risco. Só carinha bonita não ganha eleição. È preciso ir as ruas e convencer o povo que você pensa neles, que você pode ajudá-los a encontrar soluções para um monte de problemas.
Mas não seja político porque papai o é, porque vovô o foi. Apresente-se se tiver perfil, capacidade de andar em compasso com a realidade, se tiver vontade de ajudar a comunidade, de inspirar, de ser exemplo. Não seja político se você acredita que pode viver apenas do espólio dos votos obtidos no passado por gente de sua família.
Seja você no seu tempo.

Arrisque-se a acertar, errar e perder. Transmita suas opiniões claramente. Não, você não deve parodiar ninguém, não deve entrar em retóricas com palavras de efeito para atrair puxadores de palma.
Nosso país tem muitos problemas. Mas você que quer ser político deve conhece-los bem, deve ter certa facilidade para enxergar a solução e saída para as crises. Do político não espera-se uma visão genérica do caos. Trabalhe com fatos, com dados. Há progresso, desenvolvimento e avanços por toda parte. Critique o que tiver que criticar com honestidade.
Não enfrente a imprensa, respeite-a. As campanhas estão direcionadas à televisão. Olhe para a câmera e dia logo o que você vai fazer, prometa um caminho novo, inspire as pessoas a te seguirem.
Mas não minta. Vereadores são podem aumentar o número de empregos. Você entende um pouco de economia de mercado, sabe o que está acontecendo no mundo globalizado, não? Pois é, é a economia que regula o mercado. Não invente fórmulas mirabolantes!

O vice-presidente da República, Michel Temer ao escrever sobre o jovem e a política disse acreditar que o jovem é o esteio da transformação política brasileira, que precisa receber oxigênio novo e plantar novas sementes. E as sementes são os jovens.
Talvez seja a hora de olhar com mais atenção para o papel do jovem na sociedade.
O poder político inegavelmente dá visibilidade e abre portas. Mas o poder político exercido com seriedade tolhe, exige abnegação e expõe.

Eleito? Pronto! Agora você é pago com dinheiro público para trabalhar pelo bem da população. Seu papel muda e não adianta ficar reclamando das adversidades, da crise, do corte disso ou daquilo, você garantiu que seria uma alternativa boa, acreditaram em você. Bora?

A honestidade não pode ser programa de governo

Com o início do horário político obrigatório na televisão,  tenho lido reclamações desalentadoras quanto ao nível cultural, falta de discernimento, falsas promessas e falta de escolaridade dos candidatos. Ao assistir os programas percebi razões de sobra para ampliar o desinteresse pelo processo eleitoral que se aproxima. Boa parte de nossos políticos contribui para esse descrédito, mas não nos esqueçamos que fomos nós que elegemos os que se candidatam à reeleição, que foi nossa omissão que permitiu que pessoas sem qualificação alguma fossem escolhidas pelos partidos. Nós, adultos, escolarizados e sendo levados na lábia por discursos vazios e promessas estapafúrdias.
Para escolher um candidato, preferencialmente busque alguém que tenha uma atuação ética, que tenha um currículo de credibilidade e que tenha construído boa reputação ao longo da jornada e que tenha conhecimento dos meandros da política. Vote consciente da sua escolha. E fique de olho depois, para poder cobrar, participar do mandato.

A honestidade não pode ser programa de governo. É um atributo pessoal do qual deveria ser dotado todos os políticos, honestidade não é senão parte integrante da essência, da qual deveriam ser dotados todos os políticos e seus projetos.
Se todos nós votássemos com mais razões e menos emoção, procurando ver o que representa e quem são realmente os candidatos, o que eles fizeram e falaram no passado, certamente teríamos um país melhor, com políticas públicas elaboradas a partir da preocupação com o fosso da desigualdade social.

Importante ficar atentos porque candidatos podem ser transformados em produtos, apresentados, muitas vezes, numa linda embalagem por fora mas sem conteúdo algum por dentro.
Essas frases de certo efeito moral ilustram o livro coordenado pelo jornalista Gilberto Dimenstein, com a colaboração de outros nomes consagrados do jornalismo brasileiro, e cientistas políticos.
Há, é certo, preocupação grande com as mentiras e dissimulações contidas nas campanhas eleitorais brasileiras, razão pela qual, esse time saiu a campo para alertar o eleitor e dá-lhe certo balizamento de como evitar ser enganado pelo jogo de palavras e encenação.
Existem muitas questões a considerar quanto ás eleições. Escolha os seus candidatos com sabedoria. Os políticos decidem sobre questões como a política de segurança, educação, saúde, transporte, limpeza urbana e meio ambiente. Se você se preocupa com esses itens, você deve pensar bem antes de votar.

Se cada eleição nos ensina alguma coisa é que cada voto conta muito. Não podemos estar ocupados demais para participar do processo político ou simplesmente dizer que não nos sentimos atraídos por nenhum dos candidatos. O futuro da nossa cidade depende do nosso comparecimento nas urnas e a escolha não pode definitivamente ser pessoal. È uma escolha que vai refletir no destino a curto e longo prazo das pessoas. Então a questão é racional. A política é uma ciência e como tal, faz-se contas, das quatro operações antes da escolha.  

Votar é um direito que nem todas as pessoas do mundo tem. Ao compreender a definição de democracia, vemos muitos exemplos de como votar transmite liberdade e dá voz. Agora, posto os nomes, não fuja de nenhuma responsabilidade sua como cidadão. Cada voto tem significado, várias eleições foram decididas por um único voto.
Nós vivemos numa democracia, somos livres, mas disso depende as pessoas exercerem os seus direitos.
Certo que as decisões não são irrevogáveis. Escolhas voltam. Mas quatro anos demora muito a passar.

Os ciclos da vida do homem contemporâneo

A vida do homem pode ser de curta ou longa, dependendo das circunstâncias e do mundo perigoso onde ele vive. Se pressupomos que a idade média do indivíduo é de cerca de 75 anos, o tempo de vida pode ser dividido em vários momentos desde o nascimento até o fim da vida. A cada ciclo da vida, a idade é um fator determinante para a atividade intelectual. Dos 18 aos 25 anos a educação é reforçada e o cérebro é bombardeado com a aprendizagem de várias competências que respondem as curiosidades e que seguramente facilitarão a entrada na próxima fase da vida.

Dos 30 aos 50 anos somos envolvidos na estruturação da vida pessoal e profissional e muitas vezes a uma velocidade vertiginosa e sem muito cuidado com o corpo ou inspiração espiritual. É um momento crucial onde nos tornamos escravos de nossas próprias ambições, com a vida demasiadamente atribulada e os meios utilizados para alcançar os resultados nem sempre levam em consideração o estado da alma, que no processo tende a ser esquecida. Todavia, analisando a máquina humana, estes são os anos que precisaríamos de mais cuidado para apoiarmos os próprios sonhos, precisaríamos dar a nós mesmos permissão para nos estabelecermos como prioridade. Seria a hora de viver o que nos faria verdadeiramente felizes e realizados.

Entretanto estudos apontam que a virada hoje ocorre na maioria das vezes dos 50 aos 60 anos e então é uma viagem alucinada, por razões diversas que incluem tudo, desde a pressa de se viver o que não pode, o trabalho, vida difícil, consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o divórcio e problemas econômicos. Esse desafio de enfrentar julgamentos e retomar a vida não se aprende na escola. A falha do corpo e da alma humana gera um processo difícil de juntar os elementos básicos, dar-lhes novamente função, ouvindo os sinais vitais do corpo, num processo de preenchimento do buraco espiritual, deixado pela angústia diante das escolhas que são feitas a cada dia pelo homem.

Nunca é tarde e a qualquer tempo o homem deve iniciar ou reiniciar a construção ou o reequilíbrio de sua existência. Sorte que o homem não nasce com comportamento acabado e por isso pode ser transformado, tanto física quanto mentalmente, desde que o próprio corpo, alma e mente descartem os preconceitos e busquem a interação para uma vida mais proveitosa e gratificante, como um bilhete na mão para assistir a um grande espetáculo sobre novas crenças e hábitos que por anos foram bloqueados pelo ego.
O dinheiro, sem dúvida é a força que move quase tudo o que fazemos no mundo civilizado, mas o nosso crescimento não precisa ser igual em riqueza financeira e riqueza interior.

É preciso retomar o equilíbrio que esvaiu-se, que tornou impossível a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, estabelecer fronteiras, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira. Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de tudo que oprime.
Vê-se agora que a felicidade não é acidental, as ações tem efeitos cumulativos. Todavia “é preciso começar pelo mais escuro, buscar o vazio, e o negro, e o nu, e chegar progressivamente a luz”. Comte-Sponville (1997, p.13).

Os discursos dos homens austeros

O dicionário define austero como severo, duro e uma pessoa austera é alguém dotado de rígido comportamento e modo de vida sem conforto exagerado ou luxo. E se estendêssemos o significado a algo racional, um comportamento que beneficiaria nosso modo de vida, em vez de arruiná-lo, um comportamento que não trouxesse sacrifício, mas o entendimento de viver dentro de padrões de uma moral verdadeira?
A história mostra que os tempos austeros podem ter a capacidade de transformar as pessoas e as nações. Esparta, cidade-estado da Grécia antiga, tornou-se famosa pelo poderio militar de seus cidadãos através do seu modo austero de vida. Do nome desta cidade, a palavra “espartano” evoluiu e ainda hoje é usada para conotar abnegação.

A austeridade é provavelmente uma palavra que poucos pronunciam num contexto positivo; está inexoravelmente associada principalmente com o pessimismo econômico, com a perda do padrão de vida, sem qualquer objetivo de compensação à vista.
Mas há outro tipo de austeridade que hoje aqui exploro. A austeridade nos gestos, nos discursos políticos, a privação do sorriso, do abraço apertado, da esperança nos palanques. Os discursos inflamados, ainda remetem a mágoas passadas, os homens austeros sobem nos palanques inspirados pelo desejo de revanche e não olham nos olhinhos espremidos do que lá embaixo clamam por um afago, por uma palavra que lhes traga alento.

Engraçado como esses homens(e mulheres) conversam entre si nos discursos.
O povo, ah o povo! Esqueceram-se de falar com o povo. É por isso as urnas trazem surpresas, não para o povo, mas para os homens de palavras austeras, prometem cortar gastos, enxugar a máquina, que incontáveis vezes falam de seus projetos, mostram seus amigos, exibem força política. Mas e você que foi ao comício ou reunião política, como preferir, só para ouvir que sua vida vai melhorar, que seus filhos serão transformados em cidadãos dignos pela educação de qualidade que os alimenta e ensina enquanto você trabalha. Não viram você lá?

A alegria, a transmissão da esperança, o diálogo, a troca de carinho podem estar em cima de qualquer palanque e isso não comprometeria o rigor e a seriedade da campanha. Os homens de virtude serena não são fracos, embora isso lhes conceda pouca glória. Mas creia-me é possível adotar o agir político, cujo critério principal não seja apenas a conquista do poder em si. É a outra face da política, é deixar aflorar as virtudes elevadas da gentileza, da prudência, da honestidade, da temperança, da alegria, da tranquilidade e da boa educação. Abaixa-te e escuta o que te dizem.

As medidas de austeridade devem ser deixadas a esfera econômica, onde tem potencial positivo para reduzir o consumo excessivo e levar as pessoas a pensar com mais criatividade sobre o futuro, fazer escolhas de novos estilos de vida, abrindo mão de atividades não-essenciais que permeiam a vida moderna.
Politicamente as virtudes não precisam ser diagnosticadas fracas ou fortes. Nenhuma virtude renega a simplicidade e a tolerância. Há controvérsias, mas eu li e aprecio a teoria de que a base que sustenta uma boa república, mais até do que as boas leis, é a virtude dos seus cidadãos.

Vendedores de ilusão

Os políticos são sempre os mesmos em toda parte. Eles prometem fazer pontes até mesmo onde não há rios, teria dito o líder político russo Nikita Kruschev.

Aprender a falar “não” é um dos maiores desafios enfrentados pelos políticos, que acabam super-comprometidos com programas impossíveis de se realizar quando se elegem. Tentar ser a esperança e a redenção para todo mundo não é eficaz tampouco sincero. É preciso saber quando dizer não. É bom manter o foco mais estreito e as metas dentro de um estado de controle que o candidato possa segurar pessoalmente. Deveria ser regra  não fazer promessas ao vento. Li uma pesquisa que analisou o grau de sinceridade dos discursos de candidatos americanos e para surpresa, o resultado foi que os discursos dos candidatos lá são frequentemente  sinceros.

Aqui, faz-se outra leitura. Os candidatos devem dizer não quando houver solicitações que são inconstitucionais ou que sejam de responsabilidade de outro nível de poder. A outra opção é contratar pessoas qualificadas que entendam os processos eleitorais e suas nuances, que estejam afinadas com a realidade da cidade e que tenham uma visão humana da condição de vida dos cidadãos. Além disso, o candidato pode perguntar a si mesmo o que, como cidadão gostaria que fosse feito antes de galantear-se diante de pleitos impossíveis. 

Não ignorar as críticas, tampouco colocar-se acima delas, acreditar em si mesmo, no projeto político que empunha e manter-se firme no jogo são recomendações básicas para manter o equilíbrio nos dias que você sentir vontade de jogar a toalha. Mas, para ser bem sucedido, é preciso também de sorte, manter a fé e sobretudo ter bom discurso, que ataque os problemas de frente e que seja específico e claro. Embora os candidatos prefiram fazer afirmações positivas sobre seus próprios planos, interesses e atividades, alguns ainda perdem tempo criticando os programas do adversário. Estranho não? Com tanta coisa para fazer por que ater-se a ler o programa do outro? Isto sugere que quando os candidatos perdem o tempo de propaganda, já escasso para atacar seus oponentes, esse comportamento enfraquece o valor da campanha.

Ainda sobre a pesquisa, os jornalistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para legislar. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.

Será que nós sinceramente esperamos que eles façam tudo o que prometem durante a campanha? Afinal, as circunstâncias estão sempre mudando. Uma vez eleitos os políticos têm de se ajustar a situações diferentes em conformidade com o cargo. Contudo, alguns serão bons, outros ruins e nenhum será perfeito.
Estejamos atentos. Promessa de campanha não é sinal significativo das intenções dos candidatos. Há por aí grandes exemplos de pessoas cujos egos estão fora do equilíbrio. Eu vou procurar candidatos encorajados a pensar também com o coração.

A retórica dos convencionais

O poder das idéias deveria se sobrepor ao poder econômico, mas não é e nunca foi bem assim. Não foi por acaso que o filósofo Herbert Marcuse afirmou que “na sociedade, há políticos que também se vendem, como sabonetes”.
O senso comum nos diz que um partido político deve ser capaz de definir por escrito o seu programa, defender seus princípios e selecionar seus candidatos próprios para as eleições. Os partidos políticos mais democráticos começaram a selecionar candidatos nas convenções, uma disputa interna, onde qualquer membro filiado pode declarar-se como candidato. Antigamente ouvia-se por todos os cantos: “queremos escolher um candidato que reúna o consenso dos membros do diretório do partido.”
As coisas mudaram muito e apesar de autorizadas pelo calendário eleitoral do TSE, desde 10 de junho passado, as articulações para escolher os candidatos a prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, estão restritas a grupos de interesses e não são discutidas amiúde com os pretensos convencionais, que devem definir, inclusive se haverá coligações com outras legendas. O prazo estende-se até o próximo dia 30.

As convenções partidárias de anos atrás tinham múltiplas funções, mas a principal delas era decidir sobre a plataforma ideal do partido, a posição e afirmações pelas quais o partido se movimentava. Grandes temas eram debatidos nas convenções, que ganhavam atenção da mídia. A convenção revia as credenciais dos candidatos e selecionava aqueles com o melhor registro de trabalhar dentro dos objetivos políticos do partido. A convenção partidária poderia selecionar uma chapa de candidatos para refletir o equilíbrio geográfico da cidade, refletir a diversidade étnica e de gênero.
As pessoas criam os partidos políticos para formular questionamentos sobre temas sociais, se organizam para ganhar apoio para implementarem as ideias e elegem candidatos que irão colocar esses programas em prática. No entanto, o jogo vem mudando num efeito contrário as práticas democráticas de debater ideias. O que aconteceu foi o aumento do poder econômico nas eleições. O sistema político parece estar falhando e a classe política ao invés de corrigir as falhas, tem reforçado-as.
Foi numa convenção nacional que o MDB, presidido por Ulisses Guimarães, com discurso inflamado traçou o plano arrojado de surpreender o regime militar nas eleições de 1974. Do alto da convenção e do fundo do coração, Ulisses Guimarães anunciou que a caravela ia partir. Elegeu dezesseis senadores, o que mudou seriamente a correlação de forças políticas no Congresso Nacional.
É realmente possível ter eleições significativas votando em ideais políticos em vez de votar em candidatos individuais, eliminando totalmente a personalização das eleições.

Grandes temas da história americana foram debatidos em convenções partidárias. A convenção republicana levantou-se contra a escravidão em 1856, os democratas debateram os direitos civis em 1948 e a guerra do Vietnã em 1968.

Na maior cidade do país, a convenção do PSDB aconteceu domingo passado, dia 25, oficializando Jose Serra como candidato a prefeito na sucessão paulistana. O discurso foi pontuado por frases de efeito: “o tempo não desgasta os que lutam e a minha experiência é virtude” para logo em seguida dizer: “não venci todas as batalhas que travei, mas lutei como se fosse a última.”

As ligações complexas entre a democracia e a vida sustentável

A questão hoje é avaliar se os nossos esforços estão sendo suficientes ou pelo menos chegam perto de deter a maré da destruição anunciada nos fóruns ambientais que se realizam pelo mundo, se nossa visão tem sido compatível e ao alcance dos problemas que nos propusemos a resolver. Honestamente, acho que ainda não. Segundo a escritora e ambientalista americana Frances Moore Lappé, precisamos criar uma cultura de responsabilidade mútua, transparência e participação cidadã. Democracia não é apenas votar uma vez por ano, é uma cultura, um modo de vida. A crise ambiental, a disseminação da pobreza são de fato, crises da democracia.

Desde 1987 quando a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente redigiu um documento chamado Nosso Futuro Comum. Fez-nos cientes que a incapacidade de promover o interesse comum no desenvolvimento sustentável é na maioria das vezes fruto da negligência entre as nações, no que se refere a justiça social e econômica. Assim o paradigma do desenvolvimento sustentável vai criando ligações complexas entre seres humanos, economia, política e meio ambiente.
O desenvolvimento sustentável requer um sistema político que assegure a participação efetiva dos cidadãos na tomada de decisões e enfatiza a importância da democracia na resolução de problemas sociais e ambientais. Há dependência mútua entre as pessoas, o planeta e as atividades econômicas. A fonte de recursos da terra é finita e nossa cultura de consumo expõe nosso apetite de devorar tudo o que vemos pela frente.

Ao estabelecermos práticas pessoais para vivermos de modo sustentável, vamos percebendo como os problemas ambientais estão intimamente ligados às desigualdades econômicas e sociais e então, ao trazermos a questão do desenvolvimento sustentável para o debate ambiental, temos que destacar as características do eixo pobreza – meio ambiente. Os danos ambientais causados pelo consumo global recai mais fortemente nos países mais pobres ou em desenvolvimento, justamente os menos capazes beneficiarem suas sobras e dejetos. O crescente número de pessoas pobres e sem-terra lutam pela sobrevivência na base da exploração de recursos naturais e o esgotamento desses recursos por causa sobretudo da ganancia dos grandes agricultores reforça a espiral do descaso com as práticas ambientais

A outra vertente que escandaliza é a nossa cultura perdulária com relação a produção e consumo. Há estudos publicados, não sei se comprovados, que contabiliza dezesseis quilos de milho e soja para alimentar o gado para obter um quilo de carne. Esse mesmo quilo de carne também requer aproximadamente 12.000 litros de água. Na produção mundial de alimentos quase metade de todos os alimentos colhidos nunca é consumido. Este desperdício incrível, que não é exceção, não acontece apenas com a produção de alimentos, estende-se a produção de energia também.

Mas não nos enganemos, as coisas estariam muito piores se essas comissões não tivessem escrito relatórios trinta anos atrás, se a transmissão dos dados alarmantes não tivesse vazado pela internet. Talvez possamos agora nos concentrar em criar um sistema de vida que melhora a saúde, a felicidade, a vitalidade ecológica e o poder social em vez de seguimos com o estigma de sermos seres tão destrutivos.