Quando a sociedade silencia, a violência se aprofunda

Ciclos de preconceito, assédio, negligência e outras formas de violência precisam ser quebrados. A violência não surge isoladamente, esses ciclos prosperam porque a violência é aprendida, tolerada e, muitas vezes, naturalizada nas relações sociais. O sociólogo Max Weber lembra que a ação humana é orientada por sentidos aprendidos no convívio social. A família é o primeiro espaço onde a criança aprende a se expressar, como resolver conflitos, como lidar com frustração, conhece o significado da autoridade e do afeto.  

Porém, quando a violência é o método de educar cotidiano, ela passa a ser interpretada como uma forma legítima de relação entre pais e filhos. Pierre Bourdieu explica que padrões familiares formam disposições que orientam comportamentos futuros. Assim, as famílias tendem a produzir sujeitos que reproduzem suas relações. E isso, nem é um destino biológico, é aprendizado social incorporado.

Não bastasse a violência absurda ocorrida a menos de um mês no estado de Goiás, onde um “pai” premeditadamente tirou a vida dos dois filhos, chama à atenção esta semana o caso da mãe criminosa que entregou a filha de apenas doze anos para viver como “marido e mulher” com um homem de mais de trinta anos, que lhe provia cestas básicas em recompensa. Apesar da denúncia feita pelo Ministério Público, tanto a mãe da criança, que foi acusada de conivência, quanto o abusador foram absolvidos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, alegando que não houve crime porque existia um vínculo afetivo entre o casal anormal.

Com a repercussão negativa do caso nas mídias nacionais, o Tribunal de Justiça voltou atrás e o Senado Federal se apressou para votar um projeto de lei, adormecido na casa desde 2024 que estabelece que vítimas de estupro com menos de 14 anos de idade serão sempre consideradas vulneráveis. A mãe da garota e o homem foram presos e tiveram suas condenações mantidas no processo que apura o estupro da menor. Crianças expostas à um ambiente de violência doméstica e de promiscuidade podem crescer associando amor, poder e medo, a menos que encontrem intervenções protetivas como do Ministério Público de Minas Gerais, que pode reconstruir nessa menor uma referência afetiva saudável.

Quando a sociedade silencia, o ciclo continua e vai fazendo novas vítimas. Na cidade de Porto Velho, estado de Rondônia, uma adolescente de 16 anos foi encontrada morta, com sinais de tortura, violência extrema no pequeno corpo desnutrido, com ferimentos infectados. Á polícia, o pai, que havia falsamente denunciado o desaparecimento da filha, confessou que a torturava e a mantinha amarrada a uma cama. O pai e a madrasta e a avó foram presos. Os familiares, negligentes, por certo, confirmaram estranhar o sumiço da adolescente e alegaram desconhecer os maus tratos. A escola informou que o pai havia solicitado transferência da adolescente para outra cidade há três anos, para a qual ela nunca se mudou.

O perigo é justamente esse, aquilo que parecia pequeno, sustentava uma grande estrutura de violência contra a jovem, que sozinha, sucumbiu a sua tragédia. Esses casos chocam porque a família se torna o local da violência, rompendo o princípio básico da infância; de que a família deve ser o espaço de proteção. Esses episódios foram revelados pelos órgãos públicos e imprensa. A grande maioria, no entanto, é sustentado pelo silêncio, pelo medo ou pela naturalização da violência. A proteção da infância e da adolescência depende da família, dos serviços de saúde e educação e até dos vizinhos.

Retorno ao sociólogo Max Weber. Se a violência é aprendida pode de ser igualmente desaprendida.

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