A sociedade contemporânea nos cobra a juventude eterna, a carreira perfeita, produtividade alta, a casa organizada, a opinião irretocável, a imagem pública impecável e a felicidade exibível 24 horas por dia. Sabendo que é impossível, ainda assim, tentamos.
No estudo das teorias filosóficas transversais ao budismo zen, conheci a estética filosófica japonesa “wabi-sabi”, com raízes nas cerimônias do chá zen, postula e provoca que a beleza reside naquilo que é imperfeito. Não é uma doutrina budista, porém, transmite valores fundamentais ao budismo. Ao promover o humilde, o irregular, o acidental, o desgastado pelo tempo, o ambíguo e o desajeitado, o wabi-sabi valoriza qualidades que muitos desconsideram e ensina outro caminho; como reconhecer que a vida real é feita de marcas, incompletude, pausas, perdas, recomeços, falhas e impermanências. Num sentido agregado a sociologia, diria que o wabi-sabi é uma crítica estética e espiritual da sociedade da performance e nos lembra que a beleza também habita o desgaste, o silêncio e a imperfeição.
Enquanto o modernismo emprega a visão da utilidade das pessoas e das coisas e que estas sigam intocadas, o wabi-sabi ensina uma perspectiva mais acolhedora, que valoriza o ser humano com o desgaste, o envelhecimento e a deterioração que acompanham o uso e o passar do tempo.
O wabi-sabi nos ensina que a beleza da vida não está na ausência de marcas, mas na dignidade com que carregamos e sustentamos nossas imperfeições. E contra a obrigação de desempenho permanente, a filosofia propõe presença; contra a estética do excesso, simplicidade; contra a compulsão de parecer inteiro, a dignidade de ser incompleto.
Aplicamos o wabi-sabi na política, quando compreendemos que a vida pública é feita de conflitos, negociações, imperfeições institucionais e decisões incompletas e demoradas. A democracia, nesse sentido, também é wabi-sabi: nunca está acabada, nunca é perfeita, mas é continuamente necessária.
A filosofia japonesa do wabi-sabi dialoga hoje com Byung-Chul Han, um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, conhecido por sua crítica intensa à sociedade contemporânea do cansaço, do alto desempenho, da performance e da comunicação espalhafatosa no sentido da hiperexposição e do “você pode, você consegue”, o que para ele é uma forma nítida de coerção. O resultado é o cansaço, a ansiedade, a depressão e o sentimento contínuo de fracasso, printados nas frases “o melhor ainda está por vir” ou “mostre sua melhor versão”, como quem diz: você é só isso?
Em tempo em que a vida moderna foi marcada pela racionalização, pelo cálculo frio, pela eficiência a qualquer preço, pela cultura que transforma a existência em vitrine que não reflete a verdade, o wabi-sabi reintroduz uma dimensão sensível, lembrando que nem tudo que importa pode ser medido ou transformado em resultado. No plano existencial, a filosofia wabi-sabi surge como uma forma de resistência e prega dignidade ao que é real: a marca do tempo. Ele recusa a tirania do perfeito e afirma a beleza das coisas que envelhecem, falham e permanecem humanas.