Wabi-sabi – dignidade ao que é real: a marca do tempo

A sociedade contemporânea nos cobra a juventude eterna, a carreira perfeita, produtividade alta, a casa organizada, a opinião irretocável, a imagem pública impecável e a felicidade exibível 24 horas por dia. Sabendo que é impossível, ainda assim, tentamos.

No estudo das teorias filosóficas transversais ao budismo zen, conheci a estética filosófica japonesa “wabi-sabi”, com raízes nas cerimônias do chá zen, postula e provoca que a beleza reside naquilo que é imperfeito. Não é uma doutrina budista, porém, transmite valores fundamentais ao budismo. Ao promover o humilde, o irregular, o acidental, o desgastado pelo tempo, o ambíguo e o desajeitado, o wabi-sabi valoriza qualidades que muitos desconsideram e ensina outro caminho; como reconhecer que a vida real é feita de marcas, incompletude, pausas, perdas, recomeços, falhas e impermanências. Num sentido agregado a sociologia, diria que o wabi-sabi é uma crítica estética e espiritual da sociedade da performance e nos lembra que a beleza também habita o desgaste, o silêncio e a imperfeição.

Enquanto o modernismo emprega a visão da utilidade das pessoas e das coisas e que estas sigam intocadas, o wabi-sabi ensina uma perspectiva mais acolhedora, que valoriza o ser humano com o desgaste, o envelhecimento e a deterioração que acompanham o uso e o passar do tempo.

O wabi-sabi nos ensina que a beleza da vida não está na ausência de marcas, mas na dignidade com que carregamos e sustentamos nossas imperfeições. E contra a obrigação de desempenho permanente, a filosofia propõe presença; contra a estética do excesso, simplicidade; contra a compulsão de parecer inteiro, a dignidade de ser incompleto.

Aplicamos o wabi-sabi na política, quando compreendemos que a vida pública é feita de conflitos, negociações, imperfeições institucionais e decisões incompletas e demoradas.  A democracia, nesse sentido, também é wabi-sabi: nunca está acabada, nunca é perfeita, mas é continuamente necessária.

A filosofia japonesa do wabi-sabi dialoga hoje com Byung-Chul Han, um filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, conhecido por sua crítica intensa à sociedade contemporânea do cansaço, do alto desempenho, da performance e da comunicação espalhafatosa no sentido da hiperexposição e do “você pode, você consegue”, o que para ele é uma forma nítida de coerção. O resultado é o cansaço, a ansiedade, a depressão e o sentimento contínuo de fracasso, printados nas frases “o melhor ainda está por vir” ou “mostre sua melhor versão”, como quem diz: você é só isso?

Em tempo em que a vida moderna foi marcada pela racionalização, pelo cálculo frio, pela eficiência a qualquer preço, pela cultura que transforma a existência em vitrine que não reflete a verdade, o wabi-sabi reintroduz uma dimensão sensível, lembrando que nem tudo que importa pode ser medido ou transformado em resultado. No plano existencial, a filosofia wabi-sabi surge como uma forma de resistência e prega dignidade ao que é real: a marca do tempo. Ele recusa a tirania do perfeito e afirma a beleza das coisas que envelhecem, falham e permanecem humanas.

FHC, Alzheimer e a memória política do Brasil

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aos 94 anos, foi diagnosticado como portador de Alzheimer em estágio avançado, uma doença neurodegenerativa, que provoca perda progressiva de funções cerebrais, especialmente memória, orientação, autonomia e capacidade de decisão. A justiça de São Paulo, inclusive, nomeou seu filho Paulo Henrique como curador responsável por atos civis e patrimoniais de FHC. Do ponto de vista social e político, o caso expõe a dimensão humana do poder: uma figura pública que marcou a vida intelectual e institucional do país atravessando a fragilidade e vulnerabilidade do envelhecimento.

Em FHC, o sociólogo precedeu o presidente: antes de governar o Brasil, ele tentou compreendê-lo. Ainda que a memória biológica esteja sujeita à fragilidade do tempo e da doença, o pensamento de Fernando Henrique Cardoso permanece registrado em livros, artigos, palestras e intervenções públicas. O ex-presidente governou o Brasil de 1995 a 2002 e governou sob um lema:
“A política não é a arte do possível. É a arte de tornar o possível necessário.”

Há na minha lembrança imensa tristeza de saber da degeneração da memória de um sociólogo, que viveu alimentando o pensamento intelectual, que tentou compreender o Brasil através de estudos sobre a dependência econômica e a desigualdade social. FHC chegou à política carregando sua interpretação do país por dentro de suas contradições. Em Cartas a um jovem político, ele fala da preservação da memória como patrimônio da experiência pública, para que uma geração transmita à outra não apenas conselhos, mas também lembranças, erros e responsabilidades acumuladas na vida institucional.

Esteve em Mato Grosso em momentos significativos da política mato-grossense, especialmente ao lado de Dante de Oliveira. Conheci o ex-presidente no final do ano 2000. Eu era chefe de cerimonial da Prefeitura de Cuiabá quando FHC veio inaugurar a Usina Hidrelétrica de Manso, obra que esteve paralisada por anos, foi retomada por ele e concluída sob sua gestão, com o acionamento da primeira turbina. Em 2002, fui uma das organizadoras da grande inauguração da Ponte Sérgio Motta, sobre o Rio Cuiabá, com a presença confirmada de FHC, simbolizando a ligação política e afetiva da direção tucana nacional com o prefeito tucano Roberto França e com Dante de Oliveira, que havia se filiado ao PSDB em 1997, diante da saudação de FHC, para quem “O Dante sozinho é uma legenda.”

Em 27 de março de 2002, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso e o Governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira aguardavam no espaço que seria o centro da Ponte, enquanto o Prefeito Roberto França e o Prefeito de Várzea Grande, Jayme Campos, simultaneamente caminhavam em direção ao centro da Ponte, onde FHC e Dante estavam para a solenidade de inauguração. É indescritível como a presença e o discurso de FHC impressionaram. Exaltou e agradeceu a homenagem póstuma ao seu grande amigo, Sérgio Motta, falou do Rio que divide as duas cidades e muito mais falou sobre a presença de Dante.

A doença de Alzheimer revela que mesmo aqueles que ocuparam o centro do poder político não estão imunes à fragilidade humana, ao apagamento progressivo da memória e à necessidade de cuidado. Em 1994, depois de ter deixado a Casa Branca, o ex-presidente americano Ronald Reagan anunciou publicamente que estava com Alzheimer e que não conseguia recuperar suas lembranças dos fatos que vivera como presidente.

Mãe é um furacão em sua perfeita força


A extraordinária escritora americana Maya Angelou escreveu um livro autobiográfico chamado ‘Minha mãe e eu’, mostrando a complexidade da maternidade, demonstrando fé na reconstrução com o vínculo materno para sempre. Mostra a mãe como uma presença poderosa, imperfeita e transformadora. A mãe em Angelou é abrigo e presença capaz de atravessar tempestades.

“Descrever minha mãe seria escrever sobre uma furação em sua potência perfeita.” Ser mãe no Brasil em 2026 é carregar um medo que não deveria existir: o de morrer pelas mãos de quem um dia dividiu a casa, a cama, os filhos e a promessa de afeto. A maternidade, celebrada publicamente como amor, entrega e proteção, é muitas vezes vivida no privado sob ameaça, silêncio e vigilância. O feminicídio de uma mãe não encerra apenas uma vida; ele interrompe uma rede de cuidado, produz órfãos, traumatiza crianças e revela a falência de uma sociedade que reverencia simbolicamente as mães, mas nem sempre garante sua sobrevivência.A mãe ameaçada pelo feminicídio vive uma forma extrema de terror social: ela teme morrer, mas teme também o que sua morte fará com os filhos.

No Dia das Mães de 2026, o Brasil celebra a maternidade enquanto muitas mulheres seguem vivendo sob o medo de serem mortas por seus parceiros ou ex-parceiros. A data, marcada por flores, homenagens e discursos sobre amor, convive com uma realidade brutal: para milhares de mães, a casa não é lugar de proteção, mas de ameaça.Há, portanto, uma contradição moral profunda em uma sociedade que celebra o Dia das Mães com flores, homenagens, enquanto registra mulheres sendo violentadas diante dos próprios filhos.

A mãe, exaltada publicamente como símbolo de cuidado e afeto, muitas vezes é desprotegida no espaço privado, onde a violência doméstica se impõe como forma de domínio, medo e silenciamento. Quando os filhos presenciam a agressão contra a mãe, o feminicídio e a violência doméstica impõem também uma violência contra a infância, contra a família e contra a própria ideia de lar. Em 2025, levantamento do Lesfem/UEL identificou 2.149 assassinatos com indícios de feminicídio. Entre as vítimas com dados conhecidos, 69% tinham filhos ou dependentes, 1.653 crianças ficaram órfãs. A morte de uma mãe é também a ruptura brutal de uma estrutura de cuidado. O crime não termina no corpo da vítima: prolonga-se na infância órfã, na avó que assume a criação, na família desorganizada e no Estado que muitas vezes chega tarde. Em muitos casos, a mulher não teme apenas a morte; teme que os filhos presenciem a violência, sejam entregues a parentes do agressor e carreguem trauma permanente.

O feminicídio raramente nasce de repente; costuma ser o ponto final de um percurso de controle, humilhação, ameaça, perseguição e agressões anteriores. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública observa que os registros oficiais dependem da tipificação feita inicialmente pela polícia e podem mudar no curso da investigação, o que mostra também a complexidade de medir o número exato desse fenômeno social cruel.Os dados monitorados pelo Observatório Caliandra do Ministério Público de Mato Grosso registrou 16 feminicídios até o início de maio de 2026. Nesse domingo, em homenagem póstuma, também homenageio as mães que partiram prematuramente pelas mãos de seus companheiros ou ex.

Reposicionando a vida: quando mudar é uma forma para continuar

Há uma espécie de segurança simbólica naquilo que se repete: os mesmos vínculos, os mesmos papéis, as mesmas rotinas, as mesmas explicações sobre quem somos. O medo de reposicionar a vida nasce, quase sempre, da dificuldade humana de abandonar lugares conhecidos, pessoas do convívio, mesmo quando eles já não oferecem sentido ou paz. Mudar pode exigir atravessar uma longa zona de desconforto, de incompreensões, porque reposicionar a vida significa também rever escolhas, aceitar limitações e perdas, enfrentar julgamentos e admitir que algumas versões de nós mesmos já não sustentam o que nos tornamos.

Abril foi excepcionalmente generoso. Pude aprofundar meu conhecimento na política, participando do Imersão 2026 e em outra linha que ocupa meu coração, participei do estudo sobre como a linguagem e o pensamento acentuam nosso sofrimento: a alegoria das duas flechas apresentada pelo Templo Shin Budista Terra Pura de Brasília. Os dois cursos convergiram para a necessidade de reposicionar a vida, o conhecimento, os projetos, compreendendo que nem toda mudança nasce do cansaço, da ruptura, da perda de sentido, às vezes nasce em momentos de entusiasmo e crença que se pode abandonar o apego às expectativas e certezas, sem negar o que se aprendeu no passado, mas abraçando novos conceitos.

Numa leitura sociológica, diria que o medo da mudança é também produto de uma sociedade que cobra estabilidade, sucesso contínuo e coerência permanente, como se mudar ou se contradizer fosse sinal de fracasso. Não é.

Reposicionar a vida, se contradizer, soltar antigas narrativas, aprender novos conceitos é um gesto de coragem silenciosa, o reconhecimento que para existirmos precisamos de movimento e reconstrução. O pastor Batista americano Martin Luther King falou veladamente sobre isso em 1963, quando enfrentou as estruturas políticas rígidas de segregação social. Após a marcha sobre Washington, onde proferiu o inesquecível discurso “I Have a Dream” se reposicionou e sem abandonar o púlpito, deixou de ser apenas um líder espiritual para se tornar uma espécie de consciência política nacional. Luther King saiu da aparente segurança de quem dominava plenamente a palavra religiosa, para o risco de um reposicionamento, onde neutralidade significava cumplicidade e se transformou a partir daí. De 1963 a 1968, organizou e liderou boicotes, marchas, campanhas de desobediência civil. Reescreveu sua história.

O reposicionamento político não é simples contradição, na maioria das vezes é adaptação estratégica diante de uma nova configuração de forças. A política exige convicções, mas também exige avaliação das consequências, compreensão do tempo político e o abandono de antigas fronteiras simbólicas. Um exemplo importante de reposicionamento político foi a aliança entre Geraldo Alckmin e o presidente Lula em 2022. Durante décadas, Alckmin foi uma das figuras centrais do PSDB, oposição histórica ao PT. Ao deixar o PSDB, Alckmin não apenas mudou de lugar no cenário político, ele reposicionou sua imagem pública, passando de adversário a fiador pragmático da moderação, estabilidade e diálogo institucional entre o governo e vários setores de centro.

Reposicionar a vida, no contexto Budista não é apenas mudar de profissão, de lugar. É soltar o que já cumpriu o ciclo, caminhar com consciência, menos apego e abraçar com serenidade o que nasce de novo, em outra perspectiva.

São votos menos de entusiasmo e mais de rejeição

O escritor americano Robert Greene escreve livros sobre estratégia, poder e adota uma teoria interessante de produzir textos e ampliar o conhecimento utilizando o que ele chama de “processo de pensamento”, que é o trabalho lento, às vezes tedioso e difícil de descobrir as coisas por si, pesquisando com disciplina e paciência, por período prolongado, revisando, imergindo e focado para compreender os temas profundamente. Gosto de coisas que amadurecem dentro da gente.

Estava eu feliz por haver aprendido calmamente explorar, dar ordens e repreender o ChatGPT, quando me questionam se estou usando também o Grok, Gemini, Manus, Perplexity, o Notion AI, o Claude Code, que, em ano eleitoral são modelos de linguagem essenciais para estruturar textos, entender o impacto de uma medida legislativa, acessar informações rápidas, produzir áudios e vídeos curtos. Enfim, não há tempo para amadurecer as coisas. As eleições gerais de 4 de outubro de 2026 ocorrerão em ambiente de forte disputa, uso intensivo recursos digitais e novas regras sobre inteligência artificial na campanha.

Não basta perguntar ao eleitor apenas em quem ele vai votar. A pergunta sociológica mais profunda é: que medo, que desejo, que pertencimento e que cansaço vão organizar o seu voto? O eleitor medirá qual candidato aguenta o peso do cargo, quem tem estrutura, quem resiste à pressão, quem se mostra competitivo. O voto contemporâneo é cada vez menos apenas partidário e cada vez mais identitário. O eleitor vota em quem parece falar sua linguagem, defende seu grupo, expressa sua indignação ou representa seu modo de ver o mundo. O eleitor decide também por proteção simbólica.
O eleitor observa sinais de força. Para o presidente da Paraná Pesquisa as pautas ideológicas não definem mais o voto dos brasileiros. Compreender a mente do eleitor contemporâneo exige abandonar a ideia de que o voto nasce apenas da razão, do programa de governo ou da fidelidade partidária. Li que o eleitor de 2026 deve ser identificado pelo prisma do cansaço.

Depois de anos de polarização, crises sucessivas e excesso de conflito, uma parte da sociedade pode buscar a pacificação, mas a outra parte continuará exausta, mobilizada pelo confronto, driblando a violência, com medo do futuro, descrente das promessas e sensação de que a política fala muito, mas ainda entrega pouco.

O eleitor de hoje vive atravessado por medos, frustrações, expectativas e pertencimentos instáveis. Ele decide em meio ao excesso de informação, desconfiança das instituições, desgaste da política tradicional e forte influência das redes sociais. A eleição de 2026 tende a ser muito marcada por rejeição. Muita gente não vai votar exatamente por estar apaixonada por alguém; vai votar para impedir a vitória do outro lado. São votos menos de entusiasmo e mais de rejeição. Isso mantém a polarização viva, mas também abre certo espaço para candidatos que pareçam menos problemáticos e mais gestores.

Continua valendo que nem sempre vence quem tem a melhor peça publicitária ou o melhor núcleo duro. Pesam muito, as entregas, avaliação do governo atual, economia, segurança pública, identidade partidária, alianças locais, presença digital, capilaridade eleitoral, credibilidade da mensagem ou a rejeição do candidato. Em campanha eleitoral, até a roupa do candidato importa.

A indefinição deixa de ser exceção e passa a ser método de pré-campanha

Sim. Na política e na vida cotidiana, as pessoas inevitavelmente se machucam. Onde há interesses, vaidades, disputas, frustrações e expectativas, há também atritos. A convivência humana carrega sempre a possibilidade da ferida de uma palavra mal dita, uma omissão, uma disputa por espaço, um gesto de indiferença ou mesmo um cálculo frio de poder. Na política, isso se torna muito visível, porque o conflito é da sua própria natureza e quem entra no espaço do jogo, não transita em um terreno inocente, transita num campo de forças em que alianças mudam, lealdades se testam e adversidades se tornam rotina.

A política exige dureza interior, porque quem atua nesse mundo precisa lidar com as consequências de decisões, embates e escolhas. Entretanto, há o sujeito político que se apresenta como alguém que vai ser candidato, mas não diz ou demonstra isso com clareza. Está circulando aqui e ali, testando a viabilidade, medindo a rejeição, observando alianças e só depois vai decidir se entra de fato no jogo e em qual posição vai jogar.

A falta de definição política e a ausência de convicção de certas candidaturas às vésperas das eleições de 2026 revelam menos um simples atraso de calendário e mais um sintoma da política contemporânea. Perto das eleições, esse cenário traduz bem um tempo em que muitos buscam o espaço do poder, mas nem todos demonstram disposição real para encarnar o peso simbólico e moral de uma candidatura. Há nomes que circulam, mas não se firmam; ensaiam presença, mas evitam compromisso; aparecem no debate, mas sem a densidade de quem já decidiu internamente seu lugar na disputa.

Sob a lente da sociologia, isso expressa o enfraquecimento das referências sólidas da política de grupo. Os indivíduos e os grupos competem por espaço, influência e legitimidade. As candidaturas e todo o combinado precisa permanecer em aberto, reversível, ajustável. A indefinição deixa de ser exceção e passa a ser método de pré-campanha. Não se assume cedo demais a candidatura para não perder a margem de manobra; não se vincula demais para não carregar o peso da coerência. O resultado é uma política de baixa nitidez, em que a prudência estratégica muitas vezes encobre a escassez de convicção.

E quando a candidatura não nasce de uma convicção política minimamente estruturada, ela tende a parecer apenas uma peça arranjada pela circunstância e não a expressão de um projeto consistente, a vocação ou liderança. Nessa linha, a relação política mal construída nasce sem densidade moral e sem horizonte de permanência. O aliado de hoje é ‘cevado’ para ser descartado amanhã. Politicamente, isso ajuda a entender por que tantas coalizões parecem frágeis, por que tantos discursos são escritos apenas para o momento.

Relações mal construídas não aparecem apenas na intimidade entre pessoas, permeiam a vida pública, as alianças partidárias e os pactos institucionais, onde os vínculos mais duradouros estão sendo marcados pela instabilidade, pela individualização e pela corrosão da confiança. Esse vazamento de confiança na política e o enfraquecimento da fé nas mediações partidárias, multiplicam os movimentos marcados pela hesitação, pelo cálculo excessivo e pela espera do melhor vento.

A ambiguidade da candidatura a deputado federal

Antes da urna, as pré-candidaturas, que não são apenas nomes lançados ao vento, revelam um dos momentos mais sofisticados da disputa política: aquele em que o poder ainda não se apresenta de forma acabada, mas já organiza seus movimentos, calcula riscos e mede forças.

Este momento que antecede a nitidez da candidatura formal, que testa, inclusive, o humor do eleitor, chegou no jogo de 2026 e já corre dentro do calendário aprovado pelo TSE.

Um amigo jornalista fez menção aos termos que uso para falar de pré-campanha; ensaio de poder, encenação, produção de viabilidade, distância entre estratégia e aparência e deduz que gosto desse negócio de calcular força e medir possibilidades de quem atua numa espécie de lugar incômodo na política.

Sob a lente da política, a candidatura de deputado federal fica espremida simbolicamente entre o brilho do Senado e a força local da Assembleia Legislativa, dois polos fortes da imaginação do poder e do eleitor.

O candidato a deputado federal ocupa um lugar intermediário entre o prestígio do Senado e a política do contato direto do deputado estadual.

O ponto estratégico é que, embora não haja obrigação jurídica, muitos partidos se esforçam para lançar nomes a deputado federal porque a eleição para a Câmara tem peso político e partidário nacional importante, inclusive para avaliação do desempenho partidário e acesso a recursos financeiros e tempo de propaganda eleitoral.

Me vem à mente os nomes dos deputados federais Carlos Bezerra, que entre 1979 e 2023 teve 5 mandatos; Wellington Fagundes, de 1991 a 2015 teve 6 mandatos; e Pedro Henry, entre 1996 a 2015 teve 5 mandatos.

Eram nomes enraizados, tinham vínculos orgânicos com grupos sociais, densidade eleitoral e reconhecimento público capaz de sustentar a confiança na eleição.

Foram deputados que mantiveram familiaridade com suas bases no estado, participaram da política nacional em Brasília e concentraram poder em seus partidos.

Em 2022, Mato Grosso teve 163 candidatos a deputado federal. Grande parte, fora os 8 deputados eleitos e Rosa Neide, que teve mais de 120 mil votos, e alguns poucos que performaram quase 50 mil votos, foram lançados sem lastro — candidatos mais para compor chapa, cumprir meta partidária, do que para disputar de fato uma das 8 cadeiras da bancada federal do estado.

Tudo não passou de encenação calculada, zero de possibilidade de se eleger. Só existiam nomes e nenhum movimento de fortalecer a candidatura nos bastidores.

Em 2026, os nomes que despontam entre os mais votados para a Câmara Federal são de mulheres.

Os candidatos que surgiram das obrigações e demandas partidárias, das conveniências momentâneas e da necessidade de ocupar espaço no tabuleiro eleitoral não reúnem os meios para disputar uma eleição com sentido.

Existirão como uma peça de composição da engrenagem e ficarão para trás.

A coerência entre fala e voto, entre a defesa de pautas estratégicas e a presença institucional, o vínculo com a realidade do estado, entender o agronegócio, a logística, a vida nas cidades, ter sensibilidade com a vivência dos povos tradicionais, são alguns dos critérios para se avaliar deputados federais.

Para além da fama e dos barulhos nas redes sociais, não basta ter raiz no estado e presença em Brasília.

A política não mobiliza os jovens

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, divulgada pelo IBGE em março de 2026, ouviu estudantes brasileiros de 13 a 17 anos e traz indicadores sobre melancolia acentuada, tristeza, nervosismo, sensação de que ninguém se importa e perda da vontade de viver. Em Arthur Schopenhauer, a melancolia e a depressão não é apenas um estado de espírito passageiro; elas nascem da percepção profunda de que a vida é marcada por desejo, frustração e sofrimento. Em Schopenhauer, o sujeito percebe que a vida não se organiza em torno de plenitude, mas de carência. O querer humano nunca descansa: deseja, sofre; conquista, entedia-se; recomeça, angustia-se. A melancolia não é fraqueza moral, mas lucidez diante de uma existência atravessada pela insatisfação.

O ser humano é lançado ao mundo carregado de desejos que nunca se completam: quando falta, sofre; quando alcança, descobre o vazio; quando repousa, encontra o tédio. Há, nessa visão, uma espécie de desencantamento radical da vida. Por isso, a existência oscila entre dor e vazio. Os dados mais recentes do IBGE revelam que aquilo que, em linguagem mais sensível, poderia ser chamado de melancolia juvenil não é mero traço individual, mas sintoma de um mal-estar social mais amplo. A PeNSE 2024 mostra que 28,9% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram sentir tristeza na maior parte do tempo ou sempre, 26,1% relataram sentir que ninguém se importa com eles e 18,5% afirmaram que a vida não vale a pena ser vivida, com índices muito mais elevados entre as meninas.

O que Zygmunt Bauman disse foi que a vida na modernidade líquida é marcada pela incerteza e dificuldade de se construir projetos mais duradouros. O jovem, em Bauman desencanta com a vida e com a sociedade, que prometeu liberdade e escolha, ao tempo em que entrega ansiedade e precariedade. A juventude permeada por inseguranças afetivas, pressões cotidianas e fragilização dos vínculos, num cenário em que a experiência de crescer já não se associa apenas à promessa de futuro, mas também ao peso da solidão, da ansiedade e do desencanto. A melancolia, nesse sentido, deixa de ser apenas um estado da alma para se tornar um retrato social de uma geração que sente, de forma precoce, o desgaste emocional de seu tempo.

Os dados reais são estes: Entre os meninos, 19,0%; entre as meninas, 33,3%. 18,5% afirmaram sentir que “a vida não vale a pena ser vivida” na maioria das vezes ou sempre. Entre os meninos, 12,0%; entre as meninas, 25,0%. Na rede pública, o percentual foi 19,4%, acima da rede privada, com 13,9%. 49,7% disseram sentir-se muito preocupados com as coisas comuns do dia a dia. Entre os meninos, 38,3%; entre as meninas, 61,0%. O próprio IBGE conclui que, embora os indicadores de 2024 tenham surgido melhores que os de 2019 em parte dos quesitos, isso não significa que os adolescentes brasileiros estejam bem de saúde mental, e destaca que os resultados são piores entre as meninas.

Os jovens entraram na vida adulta sem bases sólidas, encontraram experiências fragmentadas, projetos curtos, descontínuos e a sensação de que política não vale o tempo nem o cansaço.

O vice: A lógica da cooperação estratégica

A relação entre governante e vice raramente se explica apenas pela afinidade pessoal. Em geral, ela nasce de composições partidárias e pacto de conveniência eleitoral, por isso, o vínculo pode permanecer apenas na superfície do protocolo. Na sociologia do poder, essa relação pode ser entendida como uma aliança formal permeada por interesses nem sempre convergentes. Governante e vice ocupam uma relação politicamente interdependente, mas simbolicamente tensa, porque embora compartilhem a legitimidade da chapa, não necessariamente partilham a mesma centralidade no exercício do poder.

Porém, a boa relação entre governante e vice resulta do equilíbrio entre poder, reconhecimento e respeito aos limites. Há harmonia quando o governante sabe partilhar prestígio sem perder autoridade, e o vice compreende que proximidade com o poder não significa disputa permanente por centralidade. Sociologicamente, a relação funciona melhor quando ambos aceitam que a estabilidade política vale mais do que o conflito de egos.

A aliança entre o presidente Lula e o vice-presidente, Geraldo Alckmin, firmada para a eleição de 2022 reuniu dois políticos historicamente opositores, representando a união entre a esquerda sindicalista e o centro liberal. Eles foram adversários históricos e na eleição de 2006,  Alckmin enfrentou Lula no segundo turno. Os perfis percorreram caminhos distintos, até se encontrarem e se completarem; um metalúrgico, oratória carismática, o outro, médico, perfil técnico, reservado. Geraldo Alckmin assumiu a presidência várias vezes, substituiu temporariamente o presidente Lula tantas outras, mantendo a discrição. Há indícios de que seguirão juntos em 2026.

Em Mato Grosso, Júlio Campos, foi o primeiro governador eleito pelo voto popular após o período do Regime Militar. Vivendo entre Cuiabá e Várzea Grande, Júlio Campos buscou o candidato a vice-governador no interior e numa região, à época, bem afastada politicamente da capital Cuiabá; escolheu Wilmar Peres de Farias, político influente em Barra do Garças e região. Em 1986, Júlio Campos renunciou ao cargo para disputar uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte. Wilmar Peres assumiu o governo do estado, em total fidelidade a Júlio Campos, até o final do mandato, em março de 1987. Júlio Campos foi eleito deputado federal constituinte por Mato Grosso em 1986.

Em maio de 2002 Blairo Maggi visitou o então prefeito de Cuiabá, Roberto França, para apresentar-lhe o seu projeto de disputar o governo do Estado pelo PPS. Blairo pediu oficialmente a Roberto França a colocação do nome de sua esposa, Iraci França, à disposição para ser sua candidata a vice-governadora. Em entrevista, em 2005, o governador Blairo Maggi elogiou a postura ética e colaborativa de Iraci no Palácio Paiaguás, em todas as vezes que esteve na interinidade do cargo de governadora. Blairo Maggi foi o último governador do estado a renunciar ao mandato para se candidatar a outro cargo. Em 31 de março de 2010, renunciou e o vice-governador Silval Barbosa, assumiu o governo. Silval reelegeu-se governador do estado e Blairo elegeu-se senador com mais de 1 milhão de votos.

Pedro Taques e Carlos Fávaro se uniram numa chapa governador e vice-governador em 2014, vindo basicamente do mesmo grupo político. Ao longo dos anos, a relação deteriorou-se, resultando em um rompimento político, quando em abril de 2018, Fávaro protocolou uma carta de renúncia ao cargo de vice-governador do estado. Ambos foram candidatos em 2018, Pedro Taques, à reeleição e Carlos Fávaro, a uma vaga no Senado. Não se elegeram. No entanto, há notícias veiculadas de uma possível reaproximação entre eles nas eleições deste ano, compondo chapa majoritária ao senado.

O governador Mauro Mendes renuncia ao mandato dia 31 de março, às 14:30 para candidatar-se ao Senado e o vice-governador Otaviano Pivetta será empossado governador do Estado.

Daniel Vorcaro, um playboy de imagem moralmente perturbadora

Um homem mineiro, de Belo Horizonte, de apenas 42 anos ameaça fazer o chão da República tremer se contar tudo sobre os mais de R$ 17 bilhões torrados com fraude, suborno de funcionários públicos, operações bancárias ilegais, uso e cedência de jatos particulares, iates de luxo, festas extravagantes com presença de políticos, religiosos, modelos, empresários e membros da justiça brasileira. Não é mais sobre o que ou quanto vão apurar de fraude com a delação. A expectativa é sobre os nomes que serão ditos pela boca de Daniel Vorcaro.

Brasília treme e se encolhe diante de colaborações premiadas. Foi assim com Roberto Jefferson, no caso do Mensalão; Alberto Youssef, no caso da Lava Jato, com Joesley Batista, no caso JBS e outros casos.

As viagens internacionais e os eventos milionários, deslocamentos de amigos em seus jatos executivos expuseram o gosto do banqueiro pelo excesso; coleção de relógios exclusivos e de mulheres também. A ostentação relatada na imprensa demonstra certo distanciamento da realidade nacional, produzindo uma imagem moralmente perturbadora. Uma confraternização, com degustação de um whisky famoso, com presença de ministros e alta cúpula política do Brasil consumiu despreocupadamente 3 milhões de reais.

 A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República avançam com a proposta de delação por absoluta ineficiência para obterem as provas que precisam para garantir a responsabilização dos envolvidos nas fraudes do Banco Master, dentro do prazo. Muitos já foram citados na imprensa devido ao vazamento dos prints de conversas por aplicativo de Vorcaro com a namorada, com o falecido assessor e com o cunhado. O circo está armado. Por enquanto Vorcaro está no estágio 1 do processo, assinou o termo de confidencialidade. Na etapa seguinte tem que apresentar provas documentadas do funcionamento de esquema.

Não, Vorcaro não tem o menor interesse em contribuir com o fim da corrupção no Brasil. Ele vai falar por mero interesse em diminuir a própria pena, valendo-se do Instituto da Delação Premiada, que não é uma invenção da legislação brasileira, mas no Brasil é disciplinada pela Lei 12.850/2013 e apresenta o contraditório de possibilitar ao membro de uma quadrilha criminosa negociar com o aparato da justiça do Estado, sua versão dos fatos, assumir a culpa e obter de redução de pena até perdão judicial.

Certa vez li que colaboração premiada é um instrumento que instiga os peixes pequenos a denunciar os tubarões que estão no topo. Muitos creem que existe um grande nome acima de Vorcaro. Mesmo assim, antes mesmo de falar ele já conseguiu um upgrade na sua condição de preso. Foi transferido de uma penitenciária para a Superintendência da Polícia Federal. As declarações do criminoso serão comprovadas pela justiça, mas segundo notícias lidas, esperam que Vorcaro enderece ameaças e recados velados aos que lhe abandonaram após a prisão.

Fico indignada com esse contexto de aceitação em torno da colaboração premiada porque eu preferia ter uma Polícia Federal competente para, no tempo determinado pela lei, apresentar nomes e as provas dos que tiveram relação próxima e promíscua com Vorcaro. Dos políticos, nomes e grau de interesse, inclusive de alguns governadores que numa urgência nunca vista, correram para socorrer o banqueiro fanfarrão e já falido.

Não é necessário esperar pela colaboração de Vorcaro para se perceber a promiscuidade da relação do banqueiro com os frequentadores das orgias que ele promovia no Brasil e no exterior. O quebra-cabeça não parece tão difícil para montar, com tantos recursos para se rastrear o movimento de pessoas e de apropriação ou transferência de recursos. A verdade é que se desfaz o mito do banqueiro jovem e bem relacionado. Daniel Vorcaro não passava de um playboy que vivia com dinheiro alheio e público.