Grande parte da obra de Maya Angelou, escritora e ativista americana, narra parte de sua própria trajetória. Ela narra experiências de racismo, violência e silêncio, usando a metáfora do “pássaro preso”, que simboliza justamente o feminino que tenta erguer a voz mesmo quando o mundo tenta aprisioná-la. Maya Angelou tornou-se uma das vozes mais influentes do século XX na reflexão sobre identidade feminina, acentuando a dignidade e resistência. Ela escreveu sobre a experiência de ser mulher em um mundo que frequentemente tenta silenciar ou limitar a experiência poderosa e libertadora da fala. A dignidade feminina tão explorada por Angelou, aparece no manifesto poético poderoso chamado,” Ainda assim, eu me levanto”, publicado em 1978.
Meu encantamento, minhas aflições, conquistas e medo de ser mulher são bem representadas nos escritos de Maya Angelou, porque eu sempre escrevo e falo sobre os sistemas de opressão e violência, da desigualdade e dos preconceitos, do peso que a mulher carrega das injustiças e julgamentos e me serve de bússola a ideia vigorosa de me levantar, sempre, diante de qualquer dificuldade.
A frase “Ainda assim eu me levanto” adverte que apesar das humilhações, da exclusão, a dignidade humana deve ser preservada. Ela escreveu:” você pode me matar com seu ódio. Pode me ferir com suas palavras. Pode me cortar com seus olhares. Mas ainda assim, como o ar, eu me levantarei.” A mensagem é simples e profunda. Não importa o quanto tentam te diminuir, você pode, com sua força, se levantar.
Este poema tem sustentado o discurso de movimentos de mulheres, mas Maya Angelou também escreveu sobre a beleza e singularidades da mulher, desmontando os padrões tradicionais de beleza, destacando, inclusive que a beleza não está em padrões físicos impostos pela sociedade, mas em algo mais profundo, como na confiança, na presença, na autenticidade e consciência de si. Esse olhar antecipou discussões contemporâneas sobre autoestima feminina e libertação dos padrões estéticos opressivos, como magreza.
Nos últimos anos, o universo feminino brasileiro se transformou culturalmente, movimentos femininos e redes de apoios foram fortalecidos, há maior presença de mulheres na produção cultural, na política e nas pesquisas científicas, com destaque enorme e cheio de orgulho para o protagonismo da bióloga brasileira, Dra Tatiana Sampaio, que lidera pesquisas com potencial para estimular a regeneração de neurônios, após lesões na medula espinhal.
Deve haver uma centena de heroínas invisíveis nos laboratórios, nos hospitais e haveria outras doutoras Tatianas, não fosse tão alto de índice que mulheres assassinadas no Brasil. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública no ano passado 1.518 mulheres foram mortas, em crimes configurados como feminicídio. Cerca de 4 mulheres mortas por dia no país, cujas vítimas estavam em relacionamento afetivo com o agressor ou haviam terminado o relacionamento. Crimes motivados pelo ciúme, possessão e não aceitação do fim do relacionamento.
Do ponto de vista sociológico uma sociedade justa não é aquela que apenas celebra suas mulheres. É aquela que respeita e protege. Esbarramos num cenário, onde as mulheres vivem o paradoxo de ter mais liberdade, mais autonomia, mais oportunidade, mas também mais instabilidade nas relações e isso tem lhes causado à morte. A educação é a peça-chave para transformar nossa sociedade ainda muito marcada pelo machismo e misoginia.
Até aqui, a sociedade falhou com as mulheres. Continua falhando. O que dizer sobre o estupro coletivo envolvendo uma adolescente de 17 anos ocorrido essa semana em Copacabana e sobre a Freira de 82 anos morta dentro do Convento no estado do Paraná, que também foi vítima de estupro?
Dia Internacional da Mulher dedicamos à memória da adolescente e da Irmã Nádia Gavanski.