A extraordinária escritora americana Maya Angelou escreveu um livro autobiográfico chamado ‘Minha mãe e eu’, mostrando a complexidade da maternidade, demonstrando fé na reconstrução com o vínculo materno para sempre. Mostra a mãe como uma presença poderosa, imperfeita e transformadora. A mãe em Angelou é abrigo e presença capaz de atravessar tempestades.
“Descrever minha mãe seria escrever sobre uma furação em sua potência perfeita.” Ser mãe no Brasil em 2026 é carregar um medo que não deveria existir: o de morrer pelas mãos de quem um dia dividiu a casa, a cama, os filhos e a promessa de afeto. A maternidade, celebrada publicamente como amor, entrega e proteção, é muitas vezes vivida no privado sob ameaça, silêncio e vigilância. O feminicídio de uma mãe não encerra apenas uma vida; ele interrompe uma rede de cuidado, produz órfãos, traumatiza crianças e revela a falência de uma sociedade que reverencia simbolicamente as mães, mas nem sempre garante sua sobrevivência.A mãe ameaçada pelo feminicídio vive uma forma extrema de terror social: ela teme morrer, mas teme também o que sua morte fará com os filhos.
No Dia das Mães de 2026, o Brasil celebra a maternidade enquanto muitas mulheres seguem vivendo sob o medo de serem mortas por seus parceiros ou ex-parceiros. A data, marcada por flores, homenagens e discursos sobre amor, convive com uma realidade brutal: para milhares de mães, a casa não é lugar de proteção, mas de ameaça.Há, portanto, uma contradição moral profunda em uma sociedade que celebra o Dia das Mães com flores, homenagens, enquanto registra mulheres sendo violentadas diante dos próprios filhos.
A mãe, exaltada publicamente como símbolo de cuidado e afeto, muitas vezes é desprotegida no espaço privado, onde a violência doméstica se impõe como forma de domínio, medo e silenciamento. Quando os filhos presenciam a agressão contra a mãe, o feminicídio e a violência doméstica impõem também uma violência contra a infância, contra a família e contra a própria ideia de lar. Em 2025, levantamento do Lesfem/UEL identificou 2.149 assassinatos com indícios de feminicídio. Entre as vítimas com dados conhecidos, 69% tinham filhos ou dependentes, 1.653 crianças ficaram órfãs. A morte de uma mãe é também a ruptura brutal de uma estrutura de cuidado. O crime não termina no corpo da vítima: prolonga-se na infância órfã, na avó que assume a criação, na família desorganizada e no Estado que muitas vezes chega tarde. Em muitos casos, a mulher não teme apenas a morte; teme que os filhos presenciem a violência, sejam entregues a parentes do agressor e carreguem trauma permanente.
O feminicídio raramente nasce de repente; costuma ser o ponto final de um percurso de controle, humilhação, ameaça, perseguição e agressões anteriores. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública observa que os registros oficiais dependem da tipificação feita inicialmente pela polícia e podem mudar no curso da investigação, o que mostra também a complexidade de medir o número exato desse fenômeno social cruel.Os dados monitorados pelo Observatório Caliandra do Ministério Público de Mato Grosso registrou 16 feminicídios até o início de maio de 2026. Nesse domingo, em homenagem póstuma, também homenageio as mães que partiram prematuramente pelas mãos de seus companheiros ou ex.