Há uma espécie de segurança simbólica naquilo que se repete: os mesmos vínculos, os mesmos papéis, as mesmas rotinas, as mesmas explicações sobre quem somos. O medo de reposicionar a vida nasce, quase sempre, da dificuldade humana de abandonar lugares conhecidos, pessoas do convívio, mesmo quando eles já não oferecem sentido ou paz. Mudar pode exigir atravessar uma longa zona de desconforto, de incompreensões, porque reposicionar a vida significa também rever escolhas, aceitar limitações e perdas, enfrentar julgamentos e admitir que algumas versões de nós mesmos já não sustentam o que nos tornamos.
Abril foi excepcionalmente generoso. Pude aprofundar meu conhecimento na política, participando do Imersão 2026 e em outra linha que ocupa meu coração, participei do estudo sobre como a linguagem e o pensamento acentuam nosso sofrimento: a alegoria das duas flechas apresentada pelo Templo Shin Budista Terra Pura de Brasília. Os dois cursos convergiram para a necessidade de reposicionar a vida, o conhecimento, os projetos, compreendendo que nem toda mudança nasce do cansaço, da ruptura, da perda de sentido, às vezes nasce em momentos de entusiasmo e crença que se pode abandonar o apego às expectativas e certezas, sem negar o que se aprendeu no passado, mas abraçando novos conceitos.
Numa leitura sociológica, diria que o medo da mudança é também produto de uma sociedade que cobra estabilidade, sucesso contínuo e coerência permanente, como se mudar ou se contradizer fosse sinal de fracasso. Não é.
Reposicionar a vida, se contradizer, soltar antigas narrativas, aprender novos conceitos é um gesto de coragem silenciosa, o reconhecimento que para existirmos precisamos de movimento e reconstrução. O pastor Batista americano Martin Luther King falou veladamente sobre isso em 1963, quando enfrentou as estruturas políticas rígidas de segregação social. Após a marcha sobre Washington, onde proferiu o inesquecível discurso “I Have a Dream” se reposicionou e sem abandonar o púlpito, deixou de ser apenas um líder espiritual para se tornar uma espécie de consciência política nacional. Luther King saiu da aparente segurança de quem dominava plenamente a palavra religiosa, para o risco de um reposicionamento, onde neutralidade significava cumplicidade e se transformou a partir daí. De 1963 a 1968, organizou e liderou boicotes, marchas, campanhas de desobediência civil. Reescreveu sua história.
O reposicionamento político não é simples contradição, na maioria das vezes é adaptação estratégica diante de uma nova configuração de forças. A política exige convicções, mas também exige avaliação das consequências, compreensão do tempo político e o abandono de antigas fronteiras simbólicas. Um exemplo importante de reposicionamento político foi a aliança entre Geraldo Alckmin e o presidente Lula em 2022. Durante décadas, Alckmin foi uma das figuras centrais do PSDB, oposição histórica ao PT. Ao deixar o PSDB, Alckmin não apenas mudou de lugar no cenário político, ele reposicionou sua imagem pública, passando de adversário a fiador pragmático da moderação, estabilidade e diálogo institucional entre o governo e vários setores de centro.
Reposicionar a vida, no contexto Budista não é apenas mudar de profissão, de lugar. É soltar o que já cumpriu o ciclo, caminhar com consciência, menos apego e abraçar com serenidade o que nasce de novo, em outra perspectiva.