Enquanto o eleitor espera propostas para os grandes desafios locais e nacionais, parte do debate político é consumido por controvérsias efêmeras e deliberada estratégia de distração. A boa política não é a que produz mais manchetes, mas a que dedica mais tempo aos problemas que realmente importam e podem melhorar a vida das pessoas.
A política perde sua finalidade quando se reduz ao espetáculo ou a controvérsias de curto prazo.
Em pleno período pré-eleitoral e abertura das convenções partidárias, quando a população espera respostas para os problemas estruturais, sobretudo em Cuiabá, uma cidade castigada pelos buracos das obras, ora do nunca implantado BRT, ora porque não há recapeamento do asfalto velho nas ruas; onde 11.678 pessoas vivem sem abastecimento de água em suas casas, 107.234 habitantes não contam com rede de esgoto, (dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento), mas pasmem, o prefeito e vários políticos do estado, concentraram o debate numa superficialidade inacreditável: sobre a liberação ou não de espaço público para apresentação de um tal movimento de ‘farmar aura”, que tornou-se um tema viral por dias, pautando entrevistas e o noticiário.
As distrações políticas são estudadas por diferentes correntes da ciência política, sociologia e comunicação. Em Os Usos Simbólicos da Política, escrito pelo cientista político americano, Murray Edelman, o autor sustenta que a política frequentemente mobiliza símbolos, conflitos e narrativas e espetáculos que capturam emoções, enquanto questões estruturais permanecem em segundo plano e os mecanismos de manipulação da opinião pública, as estratégias de distração e a busca por temas rápidos e simplificados ganham corpo em prejuízo de discussões complexas.
Alguns políticos contemporâneos criticam a superficialidade do debate público atual. Barack Obama percebeu que a política estava sendo dominada por distrações digitais e culturais, em detrimento do debate sobre emprego, saúde, educação e segurança. Em um discurso de 2022, disse que o país não podia se distrair com as controvérsias da internet enquanto enfrentava desafios estruturais.
Emmanuel Macron costuma criticar a polêmica permanente, argumentando que a política perde tempo com escândalos e modas passageiras e deixa de discutir competitividade, inovação e reformas de longo prazo. Angela Merkel ficou conhecida por impor uma ordem política orientada por problemas concretos, defendia que a política pública deveria priorizar soluções em vez de controvérsias midiáticas evitando debates que considerava performáticos.
Em períodos eleitorais, a mudança do foco dos problemas reais pode ser uma estratégia para reduzir à atenção sobre temas politicamente importantes, para os quais não se tem resposta. Essa visão é consistente em estudos de comunicação política e tem paralelo em análises clássicas da ciência política. Em períodos eleitorais, quando temas como saúde, educação, segurança, infraestrutura, economia e gestão pública deveriam ocupar o centro do debate dos políticos, parte da discussão acaba sendo desviada para polêmicas de baixo impacto prático, frases de efeito para arrancar riso amarelo, envergonhado de quem assiste a presepada e guarda a impressão de que os problemas estruturais da cidade estão recebendo menos atenção do que merecem.