O debate sobre racismo não perde a relevância enquanto houver casos de discriminação, insultos racistas e desigualdades raciais. Na sociologia, um fenômeno só deixa de ser objeto de debate, quando deixa de produzir efeitos sociais nas populações afetadas. Estudo do Ipea mostra que a desigualdade racial no Brasil não é apenas consequência da pobreza geral: raça e classe se combinam, produzem desvantagens persistentes para a população negra. O brasileiro tende a apresentar menos manifestações públicas de hostilidade racial, mas os insultos raciais ocorrem e são objetos de denúncias, processos judiciais e estudos.
O IBGE identifica desigualdades raciais recorrentes no emprego, na renda, na educação, na segurança e na representação política. Indica que houve avanços educacionais e expansão da presença negra nas universidades, porque houve a implementação de políticas afirmativas, como por exemplo, o estabelecimento das cotas que ampliam o acesso da população negra às universidades. O ponto comum dos estudos é que a raça influencia significativamente as oportunidades sociais no Brasil. Ou seja, o Brasil avançou na legislação antirracista, nas ações afirmativas, mas ainda não transformou essa igualdade jurídica em igualdade no cotidiano das pessoas negras.
Episódios recentes explodem no estado de Santa Catarina e enfraquecem a afirmação de que “quase não há insultos racistas” no Brasil. Dados divulgados pelo próprio Tribunal de Justiça indicam que Santa Catarina apresentam o maior número de registros de injúria racial do país. Dados confirmados nos levantamentos recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgados no 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, citam São Paulo e Minas Gerais logo atrás. Juntos, esses 3 estados registraram 60,6% dos casos de injúria racial no Brasil.
A Espanha tem enfrentado problemas de racismo contra jogadores negros; diversos episódios ganharam repercussão internacional e os casos mais conhecidos foram direcionados o jogador brasileiro Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, que desde 2021, sofre insultos racistas em diversos estádios na Espanha. Vini tem sido um instrumento de combate ao racismo no futebol e algumas condenações inéditas já ocorreram na corte espanhola. Porém, em 2026, um passo atrás foi dado pelo ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, que em plena fase semifinal da Copa do Mundo questionou com deboche a ascendência africana da seleção francesa. 17 dos 26 jogadores tem ascendência africana, embora a maioria deles, tenham nascido na França, inclusive Mbappé, que também foi vítima de ataques racistas e xenófobos por parte de uma senadora paraguaia, após a eliminação do Paraguai.
Superficialmente, a ideia repetida nas narrativas nacionais de que “na Argentina quase não existem negros”, revela uma sociedade que invisibilizou a população negra e indígena, tornando o racismo difícil de ser discutido no país, que construiu historicamente uma identidade nacional branca e europeia. Assim, falando sem profundidade, surgiu o mito da Argentina branca, como uma extensão cultural da Europa na América do Sul. No censo de 2010 apenas 0,4 da população argentina se declarou descendente de africanos, número contestado pela Escola de História e Pensamento Afrodiaspórico, que fala que há 2 milhões de descendentes africanos no país.
A América do Sul, em estudos sobre os descendentes de africanos na região produzido pela Cepal é tido como o continente da negação; profundamente marcado pelo racismo e onde o racismo não se resume ao insulto explícito. A afirmação é que o racismo latente aqui é disfarçado de humor, preferência estética pela branquitude, tradição, rivalidade esportiva. Quando a sociedade chama isso brincadeira ou paixão, transforma a agressão em costume. Tudo que se torna costume deixa de produzir indignação. O futebol não inventa as ofensas, apenas oferece um ambiente coletivo, onde muitos se encorajam a verbalizar o preconceito existente, como os europeus fizeram com Mário Balotelli.
Italiano, um dos principais atacantes do futebol europeu de 2008 a 2019 foi um dos primeiros a se levantar para colocar o racismo no futebol europeu em discussão. Filho de imigrantes de Gana, nascido na Itália, enfrentou durante toda a carreira episódios grosseiros de discriminação racial. Torcedores imitavam sons de macaco em partidas da liga italiana, lhe dirigiam insultos racistas em jogos da seleção. Balotelli reagiu, chorou, abandonou o campo, chutou a bola em direção a um grupo após ser alvo de cânticos racistas. Os árbitros interrompiam as partidas, os racistas continuaram insultando Balotelli, independentemente do clube, até o encerramento de sua carreira. O racismo que quase destruiu Balotelli não é exclusivo da América do Sul ou da Europa. O racista está em toda parte e não apenas nos estádios.