É difícil, porém, bastante fértil tentar estabelecer conexão entre os filósofos e sociólogos Jürgen Habermas e Edgar Morin, ambos nascidos nos anos 1920, na Alemanha e França, respectivamente. Habermas faleceu em março de 2026 e Morin faleceu sexta-feira passada, 29 de maio. Em dois meses, o pensamento contemporâneo perdeu dois grandes nomes, dois intelectuais que atravessaram o século XX e chegaram no século XXI, defendendo razão, democracia, educação e a vida pública.
Na sociologia ambos são muito difundidos, lidos e apreciados com respeito. Ousei aproximá-los pela preocupação comum de que a educação e o diálogo devem preparar as pessoas para compreender a complexidade e transversalidade do mundo moderno. No campo político, ambos recusam a política empobrecida pela burocracia, pelo autoritarismo ou pela simplificação de problemas complexos.
Habermas, ligado a tradicional Teoria Crítica Alemã, um braço da Escola de Frankfurt. A tese central de seus ensinamentos é o argumento que a democracia depende da qualidade do debate público e sai em defesa da razão comunicativa, que deve dar o tom nos diálogos, na argumentação e na busca de entendimentos entre as pessoas.
Essa é a base da democracia deliberativa e da esfera pública, que em Habermas, é o espaço onde os cidadãos discutem assuntos comuns e formam opinião fora do controle do Estado, do mercado ou da família. Habermas critica a modernidade quando ela reduz o indivíduo à técnica, ao mercado e à burocracia e suas ideias são muito usadas para analisar a política, a mídia e os debates públicos, sobretudo nos períodos que antecedem as eleições, quando a esfera pública se torna mais intensa e disputada.
Já Morin, vem da tradição francesa, marcada pela sociologia, antropologia, filosofia, política e educação. A área central de seus estudos é o pensamento complexo, isto é, recusa de explicações simplistas ou genéricas para os problemas humanos.
Para Morin, os fenômenos humanos são densos e precisam ser compreendidos em sua complexidade e interdependência, por isso critica o que considera ser o grande problema da educação moderna; transmitir conteúdos, separando excessivamente os saberes: ciência de um lado, humanidade de outro; razão de um lado, emoção de outro; indivíduo separado da sociedade, sociedade separada da natureza.
É preciso, ensinar a pensar, a ligar conhecimentos, a compreender o ser humano em suas dimensões biológica, social, cultural, política e afetiva.
A UNESCO publicou a obra de Morin sobre os “sete saberes” necessários à educação moderna, justamente com a preocupação de formar sujeitos capazes de pensar os problemas globais. Morin critica a modernidade quando ela fragmenta o conhecimento e separa aquilo que, na vida está ligado. A educação deve preparar o cidadão para lidar com a incerteza, com a diversidade, com os erros, com os conflitos e com os grandes desafios planetários.
Eles se complementam quando Habermas vê a modernidade como uma promessa interrompida, que libertou o indivíduo da tradição, mas o submeteu à lógica e às regras frias do mercado, da técnica e da burocracia e insiste que a solução não está no abandono da razão, mas na recuperação de uma razão voltada ao diálogo, ao consenso possível.
Edgar Morin, porém, cobra consciência no diálogo sobre as complexidades dos problemas contemporâneos. No tempo marcado pela velocidade tecnológica, pela crise ambiental, pela polarização, Morin defende uma educação que forme seres humanos mais conscientes, críticos e solidários.
Em tempo de um ciclo infindável de polarização, ‘fake news’ e ideias eleitorais simplistas, ler os dois, então, é fundamental para entender que:
Não basta falar. É preciso dialogar.
Não basta opinar. É preciso compreender.
Não basta educar para repetir.
É preciso educar para pensar.