Liberdade de imprensa não ataca reputações

No dia 7 de junho de 1977, em meio ao endurecimento das medidas arbitrárias impostas pelo regime militar, inclusive com fechamento temporário do Congresso Nacional, mais de três mil jornalistas brasileiros assinaram um manifesto contra a censura e todas as formas de cerceamento à imprensa durante a ditadura militar. Com apoio oficial da Associação Brasileira de Imprensa, o documento foi lido no Senado Federal e na Câmara dos Deputados por políticos do MDB. O manifesto denunciava a apreensão de publicações, a não divulgação de informações pelo governo e a proibição da entrada de publicações estrangeiras e propaganda eleitoral nos meios de comunicação.

Os avanços, os desafios e a imprensa livre possível hoje partiram de certa forma desse enfrentamento perigoso, à época. A imprensa livre é uma das bases mais importantes para o fortalecimento da democracia e esta conquista está inscrita na Constituição Federal de 1988. É através dela que a sociedade fiscaliza, denuncia abusos, atos de corrupção, revela injustiças e amplia o debate público em torno de temas diversos e sensíveis. A imprensa livre não ataca, não serve, não destrói reputações, nem se transforma em instrumento de perseguição.

A imprensa livre é crítica, um instrumento de vigilância que a sociedade tem para que o poder não mantenha longe dos olhos do público, os gastos, os contratos, os interesses do Estado. A liberdade de imprensa aqui percebida e elogiada não contempla sites e portais obscuros, que operam como instrumentos de intimidação, criados para difamar, agredir e espalhar notícias falsas. Isso não é senão distorção do que é imprensa, a vulgarização do jornalismo e não foi para esse fim, a luta travada em 1977.
Com o WhatsApp completando 17 anos, o Instagram 16, os canais de streaming chegando ao Brasil em 2011, grandes emissoras aderindo ao mercado digital em 2016 e muitas outras redes sociais, houve transformação e democratização da produção e circulação de informações. Mais vozes, nem todas qualificadas, passaram a ocupar o espaço público, ampliando debates antes restritos as grandes emissoras. Esse é um avanço importante, que trouxe novos desafios perigosos como a desinformação, ataques a jornalistas, discursos de ódio e tentativas de desacreditar a imprensa profissional. E a democracia precisa de imprensa livre, com autonomia para investigar, criticar, informar e questionar o poder sem medo de perseguição.

A relação da imprensa com a classe política de Mato Grosso é antiga, intensa e profundamente ligada à formação política do Estado. Vejo arquivos, que registram que a imprensa de Mato Grosso, remonta ao século XIX, acompanharam disputas de poder, ciclos econômicos, conflitos sociais e as transformações urbanas. Além da função de dar a notícia, a imprensa tem ajudado a construir a memória pública do estado, através do rádio, televisão, sites e portais que registram a vida parlamentar, os governos, as relações entre si, as sessões, audiências, com embates ou acordos.

No contexto mato-grossense, percebo proximidade respeitosa entre o poder público e imprensa, porém, é um estado onde sobretudo a política é fortemente personalizada e os embates públicos costumam ser intensos, por isso, a imprensa ocupa uma posição, às vezes delicada: precisa fiscalizar sem se tornar instrumento de um lado ou outro; precisa criticar sem difamar; precisa informar sem manipular; precisa ser livre sem abandonar a responsabilidade.

A relação ideal com a imprensa costuma ser baseada na liberdade, transparência e responsabilidade. O poder público deve respeitar a crítica. A imprensa deve respeitar os fatos. E a sociedade deve aprender a diferenciar jornalismo sério de desinformação tendenciosa, travestida de notícia.

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