Os homens, em geral, julgam mais pelos olhos. A maioria das pessoas forma opinião sobre o político, pelos gestos, pelas palavras e imagens e não pelo trabalho de conhecer profundamente sua conduta. Em período eleitoral isso significa que a imagem é julgada antes mesmo que as intenções sejam compreendidas, embora uma imagem recortada quase nunca explica um fato inteiro. Mas, fato é que, a vida privada deixa de existir e a exploração política se encarrega de ‘dar sentido’ aos gestos, imagens e palavras.
Um encontro cordial com eleitoral transformou-se em grande dor de cabeça para ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista do Reino Unido, Gordon Brown, em 2010. Em campanha, se reuniu com eleitores, discutiu imigração, impostos e qualidade dos serviços públicos. Ao entrar no carro, sem perceber que o microfone ainda estava ligado, irritado ele reclamou da equipe que havia organizado a reunião, que ele classificou como um desastre e chamou de “mulher preconceituosa e difícil” a eleitora, de seu partido que ele havia acabado de abraçar. A reunião política virou uma crise da campanha. Os adversários expuseram a foto e nome da mulher e a frase dito por Gordon Brown. O caso ficou conhecido como “Bigotgate – o caso da ‘preconceituosa’”. O Partido Conservador de David Cameron venceu a eleição e ele tornou-se o primeiro-ministro.
O episódio mostra que, em período eleitoral, não basta controlar o palanque: é preciso cuidar também dos bastidores. Uma frase dita em ambiente aparentemente privado, como dentro de um carro, pode, em segundos, chegar aos jornais e à praça pública. O fato em si não deve ter sido a causa da derrota de Gordon Brown, mas se tornou um retrato marcante de uma campanha em dificuldade.
O período eleitoral é marcado pela exploração de tudo. A política, nesse momento, deixa de ser apenas disputa de propostas e passa a ser também disputa de sentidos, imagens, palavras, gestos e intenções. Nada parece inocente. Uma fotografia vira recado, uma frase vira munição, o silêncio é sempre suspeito. O encontro de políticos em eventos públicos vira insinuação de aliança, ruptura, recado ou provocação. No ambiente eleitoral, a palavra raramente circula de forma neutra; ela é disputada, editada, interpretada e, muitas vezes, distorcida. Mas talvez o ponto mais delicado seja a exploração das intenções. O que alguém “quis dizer”, “quis sinalizar” ou “quis esconder” passa valer tanto quanto o fato. A política eleitoral vive muito dessa leitura de insinuações.
O problema não está na imagem em si, mas no uso malicioso que se faz dela. O encontro, a fotografia ou o vídeo não mais registram fatos; passam a fabricar intenções presumidas. É assim que a disputa eleitoral, às vezes degrada o debate público: substituindo a verdade pelo enquadramento, o contexto pela legenda e o argumento pela suspeita. Todo cuidado é pouco e não basta intenção de escuta e gesto humanitário ao visitar ou se encontrar com uma pessoa fragilizada; a cena precisa ser cercada de seriedade contra leituras de oportunismo, para que adversários não a reproduza com a legenda de que o candidato está usando a dor das pessoas para fazer campanha.
Quanto mais clara é a contextualização de uma foto e vídeo, menor é o espaço para manipulação maliciosa de uma fala ou de uma expressão facial, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que trata como problema eleitoral a divulgação de conteúdo fabricado, manipulado ou descontextualizado que tenha potencial de prejudicar um candidato ou prejudicar o equilíbrio da disputa eleitoral.