Palavra, caráter e credibilidade

Gosto de discursos e os analiso primeiro pela ótica de Michel Foucault, para quem o discurso não é apenas aquilo que se diz, mas uma forma de produzir verdade, autoridade e poder, por isso é importante observar o que não foi falado também, porque Foucault nos ensina que todo discurso organiza visibilidades e silêncios.

Impossível falar sobre discursos e não incluir, de início, Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido em dois períodos, cujas falas tinham eixos fortes. No cenário da Segunda Guerra Mundial, ele apresentava a esperança como decisão política, não escondia as ameaças e preparava o povo para o sacrifício; Churchill usava a palavra, o tom e o gesto para convocar o povo a ter coragem, em sua frase famosa: “Não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor.” Na Câmara dos Comuns diante da ameaça nazista, ele ensinou que nos momentos de maior ameaça, a palavra do líder precisa transmitir firmeza: “Nós lutaremos nas praias, nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas: nunca nos renderemos.”

Churchill produziu textos por mais de 50 anos, escreveu suas memórias da Segunda Guerra Mundial e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953. O livro “Churchill e a ciência por trás dos discursos”, de Ricardo Sondermann destaca uma dezena deles, onde se percebe que a eloquência, a postura de Churchill eram uma combinação de técnica, contexto e reputação, alguém que sustentava aquilo que dizia, em qualquer cenário. Churchill a palavra e a aparência se completavam: chapéu, charuto, gestos firmes, discurso de resistência. É isso que penso: que o discurso funciona quando reforça a figura do político.

“Os 50 discursos que marcaram o mundo moderno”, organizado por Andrew Burnet também fala de Churchill e outras 49 personalidades e apresenta a palavra pública como uma das mais poderosas ferramentas da política. A obra reúne pronunciamentos que ajudaram a sustentar governos, a derrubá-los, convocar povos para a guerra, desafiar regimes autoritários, defender direitos civis, anunciar transformações sociais e construir símbolos duradouros da democracia e da liberdade, exatamente nesse contexto, publicam o discurso inigualável de Ulysses Guimarães, proferido no Congresso Nacional, no Ato de Promulgação da Constituição Cidadã de 1988, que eternizou as frases energéticas e inabaláveis em defesa da democracia:

“A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.”

“A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca.”

Mais do que uma seleção de falas de efeitos famosas, o livro organizado privilegia os discursos que nasceram de circunstâncias históricas, explorando as crises institucionais, conflitos ideológicos, guerras, revoluções, lutas por independência, combate ao racismo, defesa das mulheres, resistência a ditaduras.

Ao ler muitos discursos é possível revisitar a história e perceber que aquele discurso era um ato dentro de um campo de batalha, exemplo do discurso do líder negro Nelson Mandela, no dia da sua libertação, após 27 anos de prisão, numa condenação à prisão perpétua. “Amigos, camaradas, concidadãos sul-africanos, eu os saúdo em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos. Nossa marcha pela liberdade é irreversível. Não devemos permitir que o medo se interponha em nosso caminho.” Três anos após a soltura venceu o Prêmio Nobel da Paz” e no ano seguinte elegeu-se como o primeiro presidente negro da África do Sul.

“Eu tenho um sonho” discurso proferido pelo pastor protestante americano Martin Luther King, durante a Marcha sobre Washington por trabalho e liberdade, em 1963 é considerado um dos discursos mais comoventes e inspiradores do século XX. “Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos, pequenos, um dia viverão em um país onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter.” É a retórica poderosa transformando sentimentos coletivos em ato público. Luther King foi assassinado durante um ato pelos direitos civis em 1968.

A escritora feminista americana Betty Friedan, discursou em Chicago sobre a hostilidade entre os sexos e disse que talvez seja este, o fato menos compreendido da história política; que os homens só serão verdadeiramente libertados para amar as mulheres quando as mulheres forem libertadas para ter participação plena nas decisões sobre suas vidas e da sociedade.

Ler discursos sobre os mais diversos temas, tanto de esperança e reconciliação ou pronunciamentos que revelam o perigo do autoritarismo, da manipulação, a desigualdade, compreendemos que na política as palavras nunca são neutras, não são esquecidas e nem ficam desatualizadas.

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