Antes de aparecer nos palanques, os candidatos aparecem nas entrevistas, nas redes sociais e aproveitaram a última semana antes do “defeso eleitoral”, expressão que indica o período em que a legislação eleitoral impõe restrições mais severas para evitar o uso da máquina pública em benefício dos que já detém mandato.
Nos bastidores a movimentação foi intensa nas últimas sessões realizadas pela Assembleia Legislativa para homenagear um dos mais ilustres mato-grossenses, Dante de Oliveira, por ocasião dos 42 anos da votação da Emenda Dante de Oliveira, ‘Diretas Já’ e mais recentemente na sessão para celebrar 50 anos da Lei Federal que deu nome a ferrovia de Senador Vicente Vuolo.
Na política, quando todos começam a se movimentar ao mesmo tempo, não é apenas entusiasmo. É sinal de que os bastidores já entenderam que a eleição começou ainda que oficialmente ninguém admita e desconversam dizendo aguardar a confirmação das candidaturas nas convenções partidárias. São diálogos em que avaliam alianças, composições de chapa, apoios regionais, força partidária e a possibilidade de unir grupos que, publicamente, ainda parecem distantes.
A eleição começa muito antes do voto. Ela começa nas conversas discretas, nos telefonemas cautelosos, nos encontros reservados nas salas anexas, nas aproximações cuidadosamente calculadas e na definição de quem estará ao lado de quem quando a disputa finalmente for oficializada.
Os bastidores da política são espaços da escuta e da estratégia. Lideranças conversam com partidos, prefeitos, vereadores, empresários, movimentos sociais e antigos aliados para compreender onde há terreno favorável, quais resistências precisam ser enfrentadas e que tipo de projeto pode reunir mais apoio.
Nem toda articulação nos bastidores de um grande evento representa falta de transparência. Em uma democracia, construir candidaturas exige diálogo, composição e capacidade de aproximar interesses distintos. Só há risco quando a política deixa de discutir projetos para a sociedade e passa a reunir candidatos na disputa por espaços, cargos e vantagens.
Na política, articular não significa necessariamente fazer acordos obscuros. Em seu sentido democrático, é reconhecer que ninguém governa sozinho.
Um governo, um parlamento ou uma liderança dependem da capacidade de ouvir, compor, construir maiorias e transformar diferenças em flexibilidade. A política é feita de correlações de força, alianças e leitura precisa do tempo; quem não compreende os movimentos ao redor dificilmente sustenta poder ou influência.
No período pré-eleitoral, as articulações se intensificam porque é tempo em que as lideranças observam cenários, testam alianças, avaliam partidos, calculam riscos e procuram espaços de sobrevivência política.
Algumas alianças nascem de afinidades programáticas; outras, do pragmatismo de unir forças diante de adversários mais fortes. O desafio é distinguir a articulação legítima de conversas soltas e propósitos que não se sustentam numa observação mais acurada.
Todavia essas conversas fazem parte da política. Nenhum candidato chega competitivo a uma disputa majoritária apenas com vontade individual ou presença nas redes sociais. Governar exige coalizões, capilaridade municipal, apoio parlamentar e capacidade de dialogar com setores diferentes da sociedade. Por isso, os bastidores se tornam um espaço de leitura do cenário e de construção de viabilidade. Foi muito do que vi essa semana.
Entre candidatos ao governo, as conversas costumam ter múltiplos objetivos. Algumas buscam evitar a fragmentação de um mesmo campo político; outras discutem possíveis alianças futuras, indicações para vice-governadoria ou apoio em determinadas regiões. Há também diálogos que servem apenas para medir disposição, testar lealdades e compreender até onde cada grupo está disposto a ir.
Em democracia, articular é construir pontes. O problema surge quando essas pontes não levam ao interesse público, mas apenas à preservação de grupos, cargos e privilégios.
Max Weber lembrava que a política exige responsabilidade diante das consequências. Por isso, uma boa articulação não pode ser apenas eleitoral ou imediatista: precisa produzir governabilidade.
A vedação nos três meses anteriores ao pleito pouco alcança os parlamentares. A atividade legislativa continua legítima. O parlamentar candidato à reeleição pode exercer plenamente o mandato, fazer fala na tribuna, votar e representar a população. O limite da lei eleitoral está no uso da estrutura pública, dos servidores, da publicidade institucional e dos recursos do Estado para produzir vantagem na disputa.