“Eu tenho uma pressa quase agônica de elogiar. Se vejo um talento, um lampejo de gênio, uma beleza, eu preciso berrar isso para o mundo imediatamente. O talento alheio me cura, me salva da mediocridade cotidiana. Negar o aplauso é uma avareza infame.” Nélson Rodrigues, em Memórias: a menina sem estrela.
O mérito merece reconhecimento, venha de onde vier. O que uma sociedade admira, ela educa para isso sempre aconteça. Aquilo que uma sociedade aplaude, ela fortalece. Aquilo que reconhece, ela transmite. Aquilo que valoriza, ela transforma em referência.
Reconhecer e aplaudir o belo, o correto, é um gesto político, sociológico e civilizatório. A sociedade se organiza também por símbolos, exemplos, e valores compartilhados. Aquilo que uma coletividade decide admirar revela muito sobre o tipo de mundo que deseja construir. O belo, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como estética ou aparência. O belo é aquilo que humaniza, que educa a sensibilidade, que rompe a brutalidade cotidiana e recorda que a vida pública e privada também precisa de grandeza, delicadeza e sentido.
Estou a rodear falando do belo, para falar de futebol, da disposição de reconhecer o mérito, de cultivar um olhar capaz de encontrar grandeza onde ela realmente existe. No futebol, o belo aparece na técnica, na disciplina, no espírito de equipe, nos momentos em que o talento e o esforço produzem desempenhos memoráveis dentro do campo e em alguns casos, simbolicamente.
A Noruega, que reestreia na Copa Mundo, após três décadas sem se classificar, chegou às quartas de final como uma seleção que combina intensidade física, ocupação de espaço e disciplina coletiva. Não é um futebol ornamental; é um futebol onde a beleza está na precisão: saber defender, acelerar e transformar organização em ameaça. O belo também está no correto bem executado, jogado com coragem, mesmo que venha a cair.
O Marrocos, segundo comentário da Reuters, passou por um belo processo de amadurecimento. O Marrocos soube sofrer, resistir e agora é uma seleção clínica. A beleza de Marrocos carrega uma dimensão simbólica forte: é uma seleção africana que vem impressionando, ficando entre as grandes seleções desde a Copa anterior isso dá ao seu futebol uma beleza política: a beleza de quem desafiou hierarquias tradicionais do futebol mundial. Filosoficamente, é possível dizer que Marrocos e Noruega mostraram que o belo no futebol não está apenas no drible, no improviso ou no espetáculo individual, nos dois casos, as seleções de menor tradição conseguiram competir em alto nível, pela demonstração de belezas singulares.
Entre as seleções tradicionais, cito a França, que confirma sua formação multicultural, a complexa teia de nacionalidades e pertencimentos de seus jogadores que tem origens familiares africanas, caribenhas e chegamos até o Mbappé, que trabalha muito bem espírito de liderança, comportamento e tamanho zelo pela imagem pública, que passou a questionar o uso de sua imagem pelos patrocinadores da seleção francesa. Estabeleceu limites morais para a exploração de sua imagem e definitivamente não aceita associar-se à empresas de apostas, o que o levou a ter atrito com a Federação Francesa de Futebol, ateando combustível em uma discussão temida, segundo o jornal L´Équipe.
A beleza nasceu também da simplicidade de Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde, que combina a ternura de sua história com a avó, com um desempenho espetacular dentro do campo. Saiu gigante da Copa do Mundo.
O belo se fez sentir profundo na despedida de Cristiano Ronaldo da seleção portuguesa; um fechamento de ciclo que lembra a ideia de que a grandeza de uma vida só pode ser plenamente compreendida quando a sua trajetória está completa.